domingo, abril 21, 2013

PERUCA DE COBALTO

Descia pela rua adjacente. ‘Treze concursos públicos e nenhuma sorte’, pensava enquanto caminhava. Atravessou a rua a passo largo com sua peruca de cobalto, salto alto, mascando fumo, pisando forte, das atenções sendo alvo, desdenhando dos olhares com ares de deboche. Ganhou a avenida principal da pequena cidade esquecida no tempo, guardada no passado, de hábitos e costumes ultrapassados. Contou sete pessoas dentro de uma kombi amarela parada no cruzamento e que, de repente, começou a soltar fumaça pelas janelas e pelo escapamento. Estaria o motor fundindo ou estaria fundido o motor? A kombi não se movia, apenas tremulava.

Nas mesas dos bares, pessoas teciam conversas intermináveis entre um gole e outro de bebidas inesgotáveis. Senhores idosos acompanhados de moçoilas casadoiras riam da própria sorte que o dinheiro comprou entre talagadas de Martini e baforadas de fumaça feito dragões de komodo com suas línguas venenosas. Alguém toca um rock em alguma porta distante. É Pink Floyd.

O imperioso cheiro de bacon sendo frito se espalhava e domina aquele cruzamento daquela avenida. Ali, tudo é bacon frito, kombi fundida e velhos fumantes e moças demasiadamente perfumadas em fragrâncias acres e açucaradas. Outros casais em outras mesas e outras turmas em outras mesas. A pizzaria da esquina não é páreo para o carrinho de lanches e sua chapa aflita que tanto frita as proteínas como evapora a gota do suor do chapeiro que ali mofinha.

Passou e foi embora com seu gingado quadrado e pensando no azar de treze concursos públicos e nenhum sucesso. Seguiu pela outra calçada a passo lento com sua peruca de cobalto, salto, mascando chicletes, pisando manso, das atenções saindo fora, desdenhando dos que ficaram para trás.

Não viu o que todos que saíram às portas dos bares e outros estabelecimentos noturnos viram estupefatos. A kombi em chamas e os rapazes adormecidos, talvez, a ela atados de maneira irremediável. Mais uma queima de arquivos, quem sabe, mais uma peruca de cobalto de destino ignorado que vai pelas ruas mal iluminadas. 

Obs. Arte visual de Davi Santarosa. 

17 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

sensacional seu blog!

21 de abril de 2013 19:08  
Blogger Jeferson Cardoso disse...

Obrigado, Danny!

22 de abril de 2013 02:46  
Blogger Rovênia disse...

Gostei do fim que o dono da peruca de cobalto viu. O que todo mundo viu estará nos jornais.

Bela crônica. Um abraço respeitoso!

22 de abril de 2013 12:39  
Blogger Andréa Fenerich disse...

Olá Jeferson, obrigada pela visita em meu blog, espero que volte mais vezes =D
Adorei seus textos, já tinha lido dias atrás do Meninos Sem Rosto, mas por falta de tempo, acabei não comentando...
Gostei muito do seu jeito de escrever, são textos detalhados, mas que fazem o leitor parar para refletir e tentar entender, pelo menos eu consegui imaginar direitinho as cenas, muito legal mesmo.
Partindo para outro assunto, vc é de Ituverava? Tenho alguns parentes meus aí, será que vc os conhece? meus tios Maria José e Dorival, já foram diretores de escola, e minha tia e meus primos Fenerich que são donos da fábrica Nutrilar, comércio de alho.

Bom enfim, parabéns pelo blog, sempre que possível retornarei aqui
abraços!!

22 de abril de 2013 17:02  
Blogger Jeferson Cardoso disse...

Obrigado, Rovênia!

22 de abril de 2013 18:11  
Blogger Jeferson Cardoso disse...

Obrigado pelo carinho da atenção e pelo generoso comentário, Andréa! E quanto aos seus tios, não apenas os conheço como também os admiro muito. Fui vizinho deles dos meus nove aos dezesseis anos de idade, ali ao lado da cadeia [sorrio]. Fui colega de infância do Luciano e aluno particular da Lú, acredita? Prazer te conhecer. Espero que andemos juntos aqui por muito tempo, Andréa. Um grande abraço!

22 de abril de 2013 18:17  
Blogger Walkyria Rennó Suleiman disse...

Seus textos sempre comovem pela poesia melancólica que embute em cada linha. A solidão das pessoas..... essa vida simultânea porém separada que levamos. Grande beijo

23 de abril de 2013 07:00  
Blogger Jeferson Cardoso disse...

Que lindo isso de "essa vida simultânea e separada"! Obrigado pelo carinho, Walkyria!

23 de abril de 2013 08:36  
Blogger Andréa Fenerich disse...

Ah que legal Jeferson =D, até hoje eles moram lá, já faz uns meses que não vou aí na sua cidade, mas quando encontrar com meu tio vou falar que te conheci nesse cibermundo, rss
Abraços e até mais!!!

23 de abril de 2013 09:06  
Blogger Jeferson Cardoso disse...

Legal! Ficarei honrado! Beijo!

23 de abril de 2013 18:03  
Blogger Verinskia disse...

Gosto das sequências em detalhes descritivos dos teus textos...

continue sempre...te ler é saborear situações,
abraço

24 de abril de 2013 13:34  
Blogger Marcia Lucena disse...

Jeferson, muito legal a viagem que fiz nos caminhos traçados por vc. Instigaste! Obrigada!

25 de abril de 2013 15:59  
Blogger Sol disse...

oiii Jefh, vc escreve muito bem! voltarei sempre...Adoro ler romance espero q vc publique algum, VOU SEMPRE DAR UMA PASSADINHA POR AQUI...Abraço,querido!

26 de abril de 2013 15:09  
Blogger nisia disse...

Blog 10!

1 de maio de 2013 07:28  
Blogger Janinha Mell disse...

Gostei muito Jefh, parabens pelo blog e pelos contos, com certeza voltarei logo tenha algo novo, sou uma leitora compulsiva, sucesso meu amigo, Deus o abençoe sempre. Me visite, esteja a vontade, mi kasa su kasa.

6 de maio de 2013 18:08  
Blogger Machado Neto disse...

Parabéns cunhado, assim como você em sua profissão de oficio, o blog esta excelente, estarei sempre por aqui, showw!

7 de maio de 2013 12:29  
Blogger Jeferson Cardoso disse...

Valeu, meu cunhado! Bondade sua. Fico muito feliz com sua presença em meu blog. Sigamos em nossas jornadas. Abraços!

7 de maio de 2013 18:55  

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