Amigos

domingo, dezembro 15, 2013

A SUSPEITA

Há algum tempo, tomei conhecimento de um caso de morte, no qual a morte é deveras suspeita, porém, como ninguém poderia interrogar a própria morte em si, a linha de investigação criminal seguiu os passos dos outros não tão suspeitos, contudo potencialmente candidatos à culpa.

O caso teria que ter uma causa ou um culpado, para que não ficasse em aberto, insolúvel, que não se pudesse dissolver ou desatar para contentamento dos lesados em primeiro grau.

Todos os envolvidos na tragédia disseram que voltavam de uma festa e que, no caminho, decidiram entrar no prédio inconcluso e abandonado apenas para matar o tempo. Que qual tempo se mata quando finda a madrugada e todos já estão encharcados de álcool e altos de tantas outras substâncias que se consome na noite é a questão que, se não a mais incômoda, incomoda bastante, quando submetida à análise perita criminal, ou não.

Não havia luz em quantidade no local. As lanternas dos celulares auxiliaram a escalada dos três andares pelas escadas poeirentas e incógnitas. Risos e encontrões, abraços pelo caminho e esbarrões, beijos furtivos e advertências onomatopéicas por silêncio, frases ébrias proferidas por débeis línguas hipotônicas e gargalhadas rompantes e inexplicavelmente censuradas por quem talvez temesse acordar os insetos e roedores, únicos ocupantes residentes do local há pelo menos três décadas. 

O que o grupo não teria visto, sendo assim não poderia depor, era a suspeita principal entrar no prédio logo após o alegre tropel de farristas, bem vestidos e perfumados. Ela se infiltrou pelo portal sem porta e rumou pela escada no encalço da turba alucinada e inconsequente.

Havia pouco que chegaram ao piso do terceiro andar. Karina retinha urina desde sua saída da festa; pediu para que os amigos a aguardassem por um minutinho. Alguns segundos depois, todos ouviram um grito afastar-se rapidamente e silenciar em um estrondo abafado e seco.

Talvez um susto por um bicho qualquer a roçar alguma parte desprotegida e em seguida um esbarro em alguma peça de construção abandonada produzira tal efeito sonoro. Os corações disparam ao perceber o quão rápido o grito se afastou e cessou. Todos perguntaram silenciosamente por Karina, dada a lógica da sequência dos eventos. Mais tarde, houve quem dissesse ter tido algum presságio, algo como um sentido inexplicável da presença da principal suspeita, uma coisa ruim.

Histérica, a amiga mais próxima levantou a hipótese de ser uma brincadeira; começou a gritar para que a brincalhona cessasse com o brinquedo; e que fosse um brinquedo; e que seria melhor que fosse mesmo uma simples brincadeira...

Mas a cada segundo se fazia mais evidente o termo sério. À proximidade do local parecido com um fosso de elevador fez com que os amigos se entreolhassem com os olhos esbugalhados, visíveis apenas pelas frágeis reflexões lunares. Os corações alinharam-se céleres e contritos cujas batidas praticamente se faziam audíveis no opressor silêncio da madrugada.

Não havia como ver o que se sucedera de fato. Contudo as evidências eram cada vez mais esmagadoras.

Karina não mais emitia um riso e nem respondia aos insistentes chamados, não mais se fazia presente entre os que se encontravam no pavimento do terceiro andar. Em algum momento, a principal suspeita a conduziu pelo único lugar que jamais ela poderia seguir. Quando os jovens acionaram a polícia e o serviço médico de urgência, era duplamente tarde: passava das quatro e meia e a jovem já estava morta. Vieram as equipes, mas já não havia tempo para mais nada em favor da vida. Daquela altura, ninguém se salva. E a principal suspeita evadira-se do local incólume. Ela nunca é responsabilizada pelos seus atos.

Mas teria sido por vingança, motivo fútil ou banal, a mando de outrem? O fato é que houve um latrocínio: um roubo de vida seguida pela morte. E todo crime cometido pela morte, de certa forma, é um latrocínio.

Aos infelizes fanfarrões restou o gosto amargo da colaboração para com a odiosa criatura informe, que vive de armar emboscadas aos desavisados de todos os lugares e épocas, e restou a pecha da suspeita e o inevitável arrependimento por todos os eventos casuais que contribuíram para aquele final fatal e irreversível.

sábado, setembro 28, 2013

BRB - FILHO TEU

Ali estava ele, onde e como sempre esteve nos últimos tempos. Seu quarto seu mundo. Nada além. A cama o colocava em posição de ter o ápice da cabeça apontado para a ampla janela, logo, ele ficava de costas para a janela, que dava vista para um bom trecho em declive da cidade: telhados, quintais, ruas, algumas lojas, construções, outros prédios menos altos, árvores, pedestres transeuntes, automóveis, bicicletas, tudo se afundava para além da vista de sua janela e submergia nas entranhas do asfalto.

Dentro de casa, as pessoas que chegavam até sua cama eram sempre as mesmas. Salvo um ou outro visitante errante que ali por ventura viesse ter de passagem, aproveitando a ocasião de alguma outra visita mais interessante. E ficava patente que as outras visitas a serem feitas eram sempre mais interessantes do que uma visita que por ventura se propusessem a fazer ao nosso herói, Bob/Rock/Blues.

Assim ele passava os dias. A cuidadora que o cuidava, a família que ia e vinha no atarefamento dos dias, um ou outro prestador de serviço que ali surgia por conta de uma necessidade da casa. O homem deixava sua casa apenas para internações, consultas e exames; sempre uma aventura essas ocasiões. O mundo agora não fora feito para ele. O mesmo mundo que o viu em tantas e variadas façanhas fora reduzido ao relato supracitado. 

Para distrair-se do tédio do dia e administrar a insidiosa e insinuante loucura senil, restava apenas algum delírio, alguma confusão, alguma ordem e desordem, algum assunto do passado trazido à tona de modo equivocado, desastrado, alguma droga farmacológica, alguma dor, algum programa estúpido na televisão, algum barulho nos arredores... Sua cabeça já estava porosa e aerada como um queijo suíço.

E ocorreu que, em um dado momento, o zelador descobriu em Bob/Rock um meio para aliviar o próprio tédio. Dois entediados numa tarde vadia podem divertir-se mutuamente. O homem passou a visitar o apartamento de Bob/Rock com certa frequência. Embora fosse o zelador um homem maduro, um senhor de cabelos grisalhos e jeitão de avô, era ele, ao menos do ponto de vista dos puritanos e conservadores, péssima influência para Bob/Rock.

E sob influência do novo conviva nosso herói passou a dizer coisas que não dizia. Fazia uso frequente de palavras de baixo calão, insinuações indecorosas, e agressões sexuais verbais explícitas das mais variadas.

A cuidadora viu-se em maus lençóis. Perdeu a paz. Não sabia se compreendia ou repreendia o ancião octogenário. A coisa ia evoluindo e ninguém jamais suspeitou que a influência do zelador fosse a causa da mudança repentina de atitude do ancião, atribuíam tudo ao Alzheimer.

O zelador subia ao menos três vezes por semana ao andar de Bob/Rock/Blues para ter em seu apartamento sob os mais variados pretextos. Às vezes, na falta de um motivo plausível, ia mesmo apenas com a desculpa de perguntar se estava tudo bem e se não precisavam de algo. Pedia licença para ir ao quarto do ancião ver como ele estava, e lá estando, soprava idéias dignas de um discípulo do Marquês de Sade nos ouvidos do idoso.

Bob/Rock o recebia com um sorriso malicioso e o observava com atenção incomum para seus padrões. O homem perguntava como iam a esposa e a cuidadora. Bob/Rock limitava-se a dizer que bem. Então o homem perguntava se Bob/Rock estava pegando as duas ou apenas uma. Bob/Rock ria maliciosamente e um resquício de seus dias de glória machista fazia com que ele contasse alguma falsa vantagem ao devasso zelador. Dizia que sim, que estava pegando as duas, direto e reto, de todo jeito, quando, como e onde queria. Quando a bem da verdade havia mais de dez anos que Bob/Rock pegava no máximo um substantivo feminino pneumonia.

Mas com o tempo Bob/Rock começou a acreditar-se e sentir-se o garanhão do leito. As mulheres não podiam trocar-lhe uma fralda ou dar-lhe o banho em paz que logo vinha ele perguntar se elas estavam querendo aquilo, e por isso procuravam suas partes mais recônditas com tanto empenho. Era constrangedor e algo novo aquele estado de coisas. O homem sempre fora respeitador. A cuidadora, em suas entradas e saídas do prédio, acabava sem saber por alimentar o apetite galhofeiro do zelador pervertido. Ela contava ao amigo de Bob/Rock do quanto o ancião estava mudado, impossível e indecente. O zelador fingia lamentar para depois rir-se de dobrar-se em sua guarita.

A coisa estava mesmo insustentável. O ancião cada vez mais selvagem e agressivo. Numa tarde em que a esposa de Bob/Rock saiu para pagar algumas contas e deixou o ancião e a cuidadora a sós para realizarem a cada vez mais difícil tarefa do banho, a cuidadora pressentiu o desaforo vindouro. Tomou fôlego, posicionou e despiu o homem, que a todo instante ameaçava levantar-se, o que poderia causar um grave acidente. Ele teimava com o corpo inteiro, com os pés, as mãos, a cabeça. Não parava quieto. Já no banheiro, irou-se contra a cuidadora que sofria para mantê-lo sentado em baixo do chuveiro.

Após muita luta, a cuidadora o retirou de dentro do boxe na cadeira de banho ainda com algumas ilhas de espuma em partes variadas do corpo. No quarto, para passá-lo de volta à cama, foi outro acalorado embate. O homem achava que ela queria outras coisas, ela só queria terminar logo aquele trabalho, estava quase chorando. Após toda sorte de desaforos, Bob/Rock segurou a mulher pelos dois punhos e, com os olhos vidrados, apertando casa vez mais suas mãos na mulher, saiu-se com a seguinte frase: “Você quer que eu te faça um filho, é isso, sua bandida?”

A cuidadora não mais se aguentou. Do alto de seus setenta e dois anos disse: “Sim, quero muito um filho teu. Sempre quis. Não aguento mais esperar. Faça! Faça agora. Faça um filho em mim, seu Bob/Rock!” E desabotoou o vestido de cima a baixo. Despiu-se. Despiu-se também das peças íntimas e com visível dificuldade pela idade. Pôs-se completamente nua. Posicionou-se diante o ancião sentado na cadeira de banho ao lado da cama e colocou-se de modo a representar sua disposição a tudo. O homem ficou perplexo, atônito, cataléptico. A cuidadora lhe cobrava uma atitude de modo veemente.

Ficou ali naquela situação por alguns minutos. Seus seios fartos e adormecidos pendiam diante o homem boquiaberto. Suas muitas dobras concedidas pelo tempo ali estavam sem nenhum disfarce de ângulo ou postura. Nua em pelo.

A cuidadora aguardou o tempo que achou condizente com o montante dos desaforos que sofrera nos últimos meses. Satisfeita, posicionou o ancião no leito apoiando-o em suas próprias carnes flácidas expostas.  Terminou de enxugá-lo e vestiu-lhe a fralda geriátrica, o pijama, e deixou-o só até a chegada de sua esposa. E tudo voltou ao normal. O ancião voltou a tratar as pessoas que lhe cuidavam com o devido respeito. O zelador cada vez o visitava menos, pois o ancião já não mais reagia com empolgação à sua presença. A cuidadora continuou com seus programas de tevê da tarde, seu crochê, seu celular. A esposa alegrou-se com o fim dos constrangimentos.

sexta-feira, agosto 30, 2013

CONFISSÕES À VALENTINA # 02

Estando todos conformemente instalados em nossa sala, fora introduzido um quarto elemento para compor o grupo. Januário, o aspirante a chefe de setor foi apresentado aos colegas, incluindo o narrador que vos fala, no mesmo dia em que me dei ao desfrute de ostentar a flor sobre minha mesa. Foi antipatia à primeira vista. Januário estava para a flor com o mesmo desagrado que a flor estava para Januário.

Não sou de formular conceitos prévios ao tempo necessário para se conhecer devidamente uma nova pessoa que vem conviver comigo, seja em ambiente de trabalho ou outro qualquer. Ao menos conscientemente não o faço. Contudo, independentemente da opinião de Valentina, notei que Januário tinha algo que não me agradava logo da ocasião na qual fomos apresentados.

As semanas foram passando e à medida que a flor confirmava sua natureza otimista e alegre Januário provava sua disposição contrária. Numa ocasião em que consultei os colegas quanto à permanência ou não da flor em nossa sala, Januário foi taxativo quanto à Valentina: “Essa flor morrerá aqui. Isso não é ambiente para uma flor.” Todos se entreolharam. Houve quem concordasse. Houve quem se omitisse. E eu, claro, discordei. Afinal, Valentina tinha uma missão a cumprir. Não é por acaso que uma flor vem lhe fazer companhia em um dos momentos mais tumultuados de sua vida. Eu estava feliz com a flor, ela estava sendo boa para mim, fazendo-me bem. Não havia porque não querê-la ali.

Mas a florzinha era mesmo perspicaz e, quando já falante, na primeira oportunidade que teve, disse baixinho e sussurrado pra que só eu ouvisse: “Esse seu novo colega é negativo feito bolor. Logo contaminará a todos com sua natureza negativista.” E foi curioso perceber que Valentina sabia perfeitamente o que dizia. Pra tudo que houvesse, Januário tinha sua versão trágica e pessimista dos fatos pronta para ser lançada sobre nossas cabeças. Na boca de Januário, tudo parecia preferencialmente tender a dar errado. Fosse o que fosse. O rapaz sequer era capaz do gesto corriqueiro de retribuir ao “Bom dia!” que alguém lhe dissesse com mais ênfase. Ele simplesmente ignorava o cumprimento.

Noutra ocasião, ao ouvir mais uma das previsões pessimistas do aspirante a chefe de setor, logo nas primeiras horas do dia, a planta disse: “Vê o novo rapaz? Ele é o bolor que descolore minhas folhas. A cada frase negativa dele eu sinto como se me faltasse luz e ar. Não sei até quando resistirei. É preciso conservar a alegria e tratar a vida com o mínimo de leveza, meu rapaz. Do contrário, até você ficará constrangido em parecer leve e feliz. Vi isso acontecer na casa onde morei sobre o piano antes de vir pra cá. Uma pessoa pessimista contaminou a casa inteira. Saí de lá quase morta. Tive que renascer para ser feliz nas mãos da florista que te presenteou comigo.”

E não era preciso ser um grande analista para perceber que, tanto Amélio quanto Rivaldo já estavam ficando um tanto quanto, digamos, pálidos e embolorados. Amélio por ser de personalidade flexível e mais sugestionável repetia com frequência muitas frases e posicionamentos do novo colega de sala. Já Rivaldo por ainda não ter bem claras e definidas suas opiniões quanto ao dia e nova formação do grupo hora permanecia impassível e hora dava indícios de negativismo, porém ainda achava normal sorrir e dizer coisas leves. E eu comecei a ficar curioso pelo fenômeno do bolor que crescia a um canto da sala.

Devo admitir que, de início, achei ser pura invenção da planta, criatividade herbácea. No entanto logo pude notar uma pequena mancha de bolor de cor roxa na parede onde ficava apoiado o encosto da cadeira de Januário. E a mancha crescia e espalhava outros pequenos focos sobre a mesa, cadeira e objetos do rapaz.

quinta-feira, agosto 22, 2013

CONFISSÕES À VALENTINA # 01

Percebendo que Valentina perdia flores a uma proporção maior do que as concebia, achei por bem deixá-la a semana inteira sem visitar minha sala; postada sobre a mesa da varanda que serve de entrada aos funcionários.

Ela até que ficou bem. Ainda conserva duas flores no ápice de seu frágil e recurvado caule. Acredito que sua florada esteja chegando ao final, porém, como nada sei sobre a planta, aguardarei o desfeche de seu ciclo.

Todos os dias eu a vi ali, parada sobre a mesa, impassível, embora doce e meiga. Passei por ela, no entanto jamais falei com a flor nos momentos em que havia alguém presente. Acho estranho e acho que também causaria estranheza aos que nos vissem conversando. Ela não disse palavra durante a semana que passou. Eu até acariciei suas pétalas e folhas sempre que pude, banhei-a sob a torneira do tanque e ofereci algumas poucas horas sob o sol do final das manhãs no terraço. Ao todo foram dois banhos que lhe dei. Tento não ser ausente, mas o trabalho não permite que eu dedique mais tempo à flor.

Como sendo final de semana, só a verei amanhã pela manhã, segunda feira. Espero que fique bem. Já penso em trazê-la para casa em definitivo; para que venha morar em minha goiabeira; onde já tenho uma hóspede orquídea de outra espécie. Uma bem rústica que resistiu a todas intempéries do tempo e períodos de longa ausência por parte do vil jardineiro que vos fala. Raimunda é o nome da planta que só floriu uma vez em três ou quatro anos. Talvez naquela ocasião estivesse apaixonada por algum pássaro mandrião veranista.

Quanto à Valentina, devo admitir ter sentido sua falta na semana de sua ausência. Meus colegas de sala pouco falam, e quando falam não é o mesmo que ouvir Valentina, que fala de literatura e através de uma visão mais filosófica e existencialista. Gosto de meus colegas; damo-nos bem; mas preciso falar de literatura com alguém. É que somente compreendo a vida através da literatura.

Noutra noite, até sonhei com Valentina. Sonhei que ela metamorfoseava-se numa linda deusa nórdica. A deusa nórdica dos olhos doces e frios feito um par de opalas reluzentes e cortantes. Morar naquele olhar, quem sabe lá? Quem sabe se um dia, ah!... E como seria? Tantos músculos... Tantos encantos... Uma volta ao mundo enlaçar aquele enorme monumento feminino. Uma estátua doce de açúcar, uma boneca de marshmallow branco virginal, uma vertigem, uma miragem no deserto árido dos meus dias mais ordinários, uma escultura viva talhada no mais puro mármore branco. Um sonho. Um sonho que se desfez ao toque de meus lábios. Não era algo para ser tocado. Era algo pertencente ao vaporoso e soporífero universo onírico.

Acordei sem a planta e atormentado pela imagem da deusa nórdica em que ela se tornou por um breve momento de encanto dormente. Preparei o café sem nem mesmo notar a medida que depositei de pó sobre o coador. Ficou forte feito café de padre e de bebum.

Ao chegar no trabalho, era dia de relatórios e fechamento de produção mensal. Vi a flor ao chegar, contudo não a levei comigo para minha sala, ainda não. Valentina era a ausência em minha mesa. Eu era a ausência em minha mesa. Tudo era ausência e falas formais pouco vibrantes.

sábado, agosto 10, 2013

VALENTINA, A ORQUÍDEA # 03

Não sei como aconteceu e nem por onde ela emitiu o som de sua voz fina e esganiçada. Só sei que finalmente Valentina decidiu falar. Era uma ensolarada manhã de inverno onde, na rua, lufada após lufada, o vento espalhava a poeira por toda a cidade. No interior da empresa, estávamos na sala que divido com meus colegas Amélio e Rivaldo. Ouvi bem quando ela, assentada ao lado de meu monitor, agradeceu-me por seu nome e começou a falar como se estivesse guardando tudo há tempos. Excitada, disse que em casa de seu antigo dono ela não tinha um nome, e que não ter nome ia contra sua base e princípios cristãos, e que morava sobre um piano, e que coisas estranhas aconteciam naquela residência de niilistas.

Ela falou também que não gosta do sereno da madrugada, que sente frio e que amanhece ensopada. Foi o que aconteceu quando a deixei a céu aberto de terça para quarta para passar a noite ao relento. Ela afirmou que detestou, e que foi um grande erro que cometi, mais um de uma série. Fiquei meio sem graça. Ela interpretou meu embaraço como um pedido de desculpa não formal e nem verbal, e aceitou, disse.

Colocou também que não gosta de sol a qualquer horário. Que minha idéia de deixá-la exposta ao final da tarde de quinta foi um verdadeiro desastre à sua beleza e que não sabe como ainda preservou três de suas delicadas flores brancas atadas ao caule, embora murchas como se tivessem doentes e em idade avançada. Percebi que tudo que fiz para seu conforto, saúde e bem estar durante a semana foi realmente uma sucessão de erros bem intencionados. Agora sei que ela só aprecia o sol do início da manhã e o sereno que entre por uma garagem ou janela não muito aberta. “Vivendo e aprendendo” é um clichê do qual pretendo jamais separar-me nesta vida. 

Ela comentou que, antes de ser-me dada, estava lendo Tomás de Aquino, o santo doutor da igreja, mas que seu santo de preferência era o filósofo bispo de Hipona, Agostinho. Disse que o santo filósofo a comoveu principalmente pela maneira compreensiva com a qual tratava sua mãe, Mônica, a qual teria problemas com o álcool. Eu, que já li Confissões de Agostinho de Hipona, nunca atentei à tal particularidade. Talvez eu seja de fato um leitor não muito confiável, relapso e meio displicente conforme ela disse que deve ser o caso. Mas confesso aqui que realmente não me recordava de tal passagem de Confissões e nem de tal aspecto. Precisarei consultar novamente à obra do santo.

Valentina demonstrou certa impaciência para com minha parvoíce. Eu estava ainda perplexo e aturdido com a flor falante. Sua ação de falar e, principalmente, sua cultura literária voltada à teologia deixaram-me um tanto assombrado. Acho que fez isso com a deliberada intenção de me impressionar. Não contente quis saber qual era da bíblia meu livro favorito. Achei melhor não responder. Ela bufou. Olhei para meus colegas. Eles olhavam para suas telas. Pareciam não ouvir a planta e nem sequer suspeitar o que se passava em minha mesa. Ela bufou novamente e disse que, já que eu não tinha condições de manter um diálogo mais filosófico e consistente, diria ela então qual o livro bíblico de sua preferência. Perguntou se eu já havia lido Tobias. Vendo que eu nada dizia, complementou: “É um livro incrível! Um verdadeiro romance bíblico. Cheio de sedução e intrigas, mistérios. Vale a pena”. Em seguida, narrou a história em linhas gerais e causou-me certo espanto ao dizer com imensa naturalidade que Raquel sempre viuvava ao raiar de cada noite de núpcias. Achei aquilo meio mórbido. Ela riu de mim como quem ri de um simplório puritano. Levantei com os olhos fixos sobre a flor e a deixei em companhia de meus colegas; pensativo, segui para realizar os atendimentos daquela manhã.

domingo, agosto 04, 2013

VALENTINA, A ORQUÍDEA # 02

Confesso que de início não dediquei à Valentina a devida atenção. Em parte por uma grande turbulência pela qual passava minha vida naquele momento e em outra parte por não ter o hábito de dar atenção às flores em momento algum. Mas eu quis levá-la para casa no mesmo dia em que a recebi, porém só não levei Valentina e a colei em minha goiabeira naquela mesma tarde por uma questão logística. Estava de carro, o carro estacionado ao sol estaria quente como uma fornalha; e a flor não resistiria acompanhar-me enquanto percorresse algumas distâncias dentro da cidade e realizasse ainda três atendimentos. O jeito foi deixar a planta sobre minha mesa e cuidar de tudo que era muito mais urgente na ocasião. Deixei-a e parti.

Ela até que ficou bem. Cheguei no dia seguinte e ela estava lá. Parada. No mesmo lugar em que a deixei. As pessoas elogiavam a beleza de Valentina. A bem da verdade, não houve quem ficasse indiferente ao seu encanto. Alguns disseram que a queriam levar embora. Eu apenas sorri. O que dizer? Alguém vem e diz que levará um presente seu embora. Isso não faz muito sentido. Melhor rir e fingir que foi apenas por brincadeira desprovida de cobiça que disseram. Mas não pense que me enganam esses que desejam flores alheias. Bastaria um leve aceno desdenhoso meu quanto ao caso para que num sobressalto tomassem posse de minha linda Valentina e a levassem sabe Deus lá pra onde.

Diziam o que diziam e Valentina permanecia impassível. Fingia não ouvir ou fingia não notar. É bela e nobre demais para reagir a gracejos. Contudo, não demorou até que surgisse pessoa mais entusiasmada e afoita para com a bela e lhe dedicasse algo mais que um simples elogio. Senti a mordidela do ciúme na manhã do dia em que, ao chegar em minha sala Valentina lá não estava. Tomei um leve susto que me abriu os olhos. Onde estaria minha flor?

Saí pelo corredor para ver o que é que se passava afinal de contas. Percorri todas as salas vizinhas e as imediações indagando por ela. Perguntava por Valentina e ninguém sabia responder. Ninguém havia visto para onde ela havia ido. Como isso seria possível? Flores não andam, ao menos eu acho. De súbito, tive a idéia de sair no terraço dos fundos da empresa. Foi quando encontrei, postada a um canto esquecido, à beira da porta de vidro, minha pequena menina.

Naquele exato momento desconfiei de Sandra Rosa. E logo depois tive a confirmação de que foi mesmo Sandra Rosa, a moça da limpeza quem havia levado minha Valentina para tomar sol e ar. Logo mais, como quem queria nada, ela confessou tudo. Disse também que havia dado de beber à planta. Sei... Sei muito bem da verdade dessas ações samaritanas. Embora Sandra Rosa seja pessoa simpática e agradável, eu é que não confio em suas verdadeiras intenções para com minha Valentina...

quarta-feira, julho 31, 2013

VALENTINA, A ORQUÍDEA # 01

Uma orquídea é um ser capaz de gerar desavenças e, paradoxalmente, angariar simpatias e boas amizades? Não sei. Não estou aqui para dar respostas. Com sorte, serei capaz de gerar alguma interrogação, quem sabe? Às vezes penso que Valentina não é deste mundo. Somente uma criatura de outro mundo seria capaz de fender um inverno e fazer jorrar um fluxo intermitente hora primaveril hora de outono.
Por ocasião da data comemorativa do dia do amigo, recebi em um vaso muito singelo e bem arranjado um presente de amizade, é claro. O vaso de barro vinha trajando uma caixa de papelão xadrez quadriculada em branco e azul. Do vaso se erguia inclinando-se curvada e pejada por seis belas flores brancas a frágil e encantadora criatura. Risonha e formosa como um sonho colorido e maravilhoso, Valentina, a orquídea, não tinha como ser mais graciosa. Ela trazia um pouco acima da base de seu caule um laço de fita azul de cetim que combinava com imensurável perfeição com sua figura e personalidade. Da referida orquídea ignoro a espécie, a origem, os devidos cuidados, a expectativa de vida, os nomes científico e popular, ignoro tudo e mais algo que se possa ignorar para além do que se é possível ver com o simples olhar. Só não ignoro sua beleza e personalidade. Suas características mais fortes, misteriosas e marcantes, bem como são os maiores mistérios do universo.

Da ocasião em que fui nomeado tutor da flor posso assim narrar: a amiga estendeu-me a criatura um pouco antes de adentrarmos o salão no qual teríamos uma sessão de exercícios terapêuticos e disse que era um presente pelo dia do amigo. Tomei o vaso em minhas mãos, agradeci, recebi em partes as orientações de cuidados, informações que não absorvi por completo. Pois logo que tomei a flor e agradeci, fui furtado em minha atenção por uma leva de braços em abraços desferidos pelos demais participantes do grupo. Todos aproveitaram o ensejo da flor para ofertar um enlace e saudar à amizade. Foi aí que Valentina causou, pela primeira vez diante de meus olhos, comoção pública. Valentina foi parar em cima da grande mesa branca e vazia do auditório. E ficou ali quieta assistindo a nossa sessão enquanto me aguardava. Ao término do trabalho, a amiga que havia me presenteado com a flor aproximou-se e disse baixinho: “Apenas um detalhe: ela fala” e foi assim que eu conheci Valentina, a orquídea. 

sábado, junho 29, 2013

VIDINHA E O PEDINTE DO AMOR

O andarilho parou diante à empresa, observou o letreiro ao alto, certificou-se de não haver nenhum segurança e adentrou pela recepção do setor onde ela era recepcionista e foi ter direto diante sua mesa: “Oi! Você tem aí um trocado? Qualquer moedinha serve. Só um trocado pra um pobre coitado. Estou com fome, com sede, o de sempre. Mas vejo que você é bonita. Acho que estou apaixonado por você..., Vidinha. Não é que você é mesmo lindinha..., Vidinha! Eu troco um trocado por um beijinho seu, linda. Vamos embora daqui, Vidinha. Vem comigo pelo mundão sem fim e sem fronteiras”.

Por mais repentina e inusitada que fosse a proposta do mendigo apaixonado, Vidinha, que não se chamava Vidinha de fato, é claro, por um momento sentiu-se enternecida e lisonjeada pelo modo cativante com que o andarilho do amor revelou sua paixão repentina e fulminante. Nos dias seguintes, todos os dias, nas vezes em que entrava e saía da empresa, lá estava sentado à porta, todo sujo e roto, o andarilho do amor. Com seus cabelos emaranhados formando longos carrapichos, os quais ele ajeitava de minuto em minuto, com seus andrajos puídos e encardidos, os quais ele não parava de alinhar ao ver a aproximação da moça na garupa do moto táxi, e com o saco onde carregava toda sua tralha de andanças e acompanhado pelo inseparável cão vira latas Melão, ele sorria mostrando os dentes amarelos por trás da densa barba que se confundia com o vasto bigode.

“Bom dia, Vidinha!” ele dizia, assim que a moça descia da moto e acertava com o mototaxista. Vidinha, que não era vidinha, como já disse, dava-lhe um trocado e negava-lhe um beijinho. O tempo passou e o frio do inverno não demoveu o andarilho apaixonado de seu plano romântico.

Porém, com o final do inverno, assim da entrada da primavera, em sua manhã de estreia, Vidinha, que não se chama Vidinha, convém não esquecer, procurou com o olhar em todas as partes o homem que lhe tributava um sentimento puro e original. Ele não estava mais ali. Vidinha entrou e seguiu com a vida, com seu trabalho. Nutriu a esperança de ver o homem que lhe mendigou o amor na saída para o almoço e no final do expediente. No dia seguinte, Vidinha ainda achou que pudesse ver o encardido pedinte do amor ali no lugar do costume, mas ele não apareceu lá, assim como não esteve na semana seguinte e nem nas outras. E o outono daquele ano, por mais contraditório que pareça, foi para ela mais frio que o inverno que passou.

domingo, junho 02, 2013

GENYSIS – O PAI DO CHICO

“Ela disse que é pro senhor entrar” indo à frente, adentrando e seguindo pela casa, falou a cuidadora ao visitante, que respondeu com um gesto positivo de cabeça e seguindo após a mulher.

Havia no corredor, inundado por uma fina nevoa de luz solar salpicada de filamentos de poeira, um grande retrato em preto e branco de uma moça em traje de festa e com um largo sorriso de graúdos dentes de perolas. Ainda no corredor, seguindo à direita do visitante, à porta de entrada do vestíbulo onde a anciã o aguardava, havia uma cômoda repleta de relíquias, imagens de santos, bibelôs e porta retratos.

“Parece que ela está dormindo. Mas o senhor pode falar com ela. Se ela não acordar, o senhor terá que voltar outra hora” explicou a mulher.

“Dona Eulália, bom dia! A senhora está me ouvindo?” “Perfeitamente, meu caro. Mas quem é senhor?” “Sou o escrevente que a senhora pediu para que chamassem.” “Sim. Claro! Seja bem vindo! Qual o seu nome, meu filho?” “José.” “José?” “José.” “Ah, José!..., o senhor não sabe o quanto minha vida tem sido difícil...; mas isso não vem ao caso. O senhor trouxe papel e caneta para anotar o que vou lhe ditar? Ah, o senhor tem um desses aparelhinhos modernos de escrever!, hein, um computador! Tem certeza de que não perderá aí o que vou lhe contar?” “Fique tranqüila. Saindo daqui imprimirei tudo em bom papel. É que neste aparelho eu escrevo mais rápido. Estou muito acostumado e ele oferece algumas facilidades.”

 “O senhor viu aquela moça do retrato no corredor? É minha filha... Bonita, não? E é muito erudita, formou-se em História; é doutora em História! Saiu de casa muito cedo, pra ir à universidade. O pai não queria que ela fosse embora pra estudar não. Dizia que ela tinha tudo aqui e poderia ser professora como eu, dar aula nos mesmos colégios. Mas ela não quis saber. Precisou que ele assinasse uns papeis pra ela ir morar fora, quando ainda era menor de idade; o pai foi obrigado a assinar, muito contragosto. Não queria contrariá-la. Quando ela encasquetava com alguma coisa, o senhor precisava ver!, ninguém a demovia da intenção... Foi estudar na universidade onde o pai do Chico Buarque era o reitor. Ele a adorava!”

A cuidadora, que o tempo inteiro permanecia ao lado de ambos, disse em voz baixa ao visitante, para que a patroa não ouvisse: “Nem tudo que ela fala é lá muito confiável; dá umas variadas, coitada! Muita coisa é fantasia da cabecinha dela, mas outras não; isso é o Alzheimer, doença mais triste!”

segunda-feira, maio 13, 2013

GENYSIS - O CHEQUE ENCANTADO

“Ela tinha uma letra linda! Precisa ver!” disse a cuidadora enquanto preenchia o cheque para pagar por umas fraudas ao pessoal da farmácia. “Quando eu ia ao banco levar algum cheque preenchido por ela, o banco inteiro se admirava da caligrafia na folha; o papel corria de mão em mão; ao final, vinha o próprio gerente para descontar e dizer com grande ênfase que aquele sim dava gosto em pagar.”

“Tem algo escrito com a letra dela para que eu possa ver?, uma pequena amostra?” perguntou o visitante, com sincera curiosidade.

“Acho que sim. Aguarde um momento, por favor...” disse a cuidadora e dirigiu-se à penteadeira da qual abriu uma gaveta e começou a revirar o interior da mesma: “Aqui está! Uma carta que ela não enviou à filha. Mas aqui a letra dela já não estava tão boa; mesmo assim dá pro senhor ter idéia do quanto era bonita. Pode ler. Ela não se importa. Eu mesma já li e não tem nada de mais.”

O visitante examinou por algum tempo o remetente do envelope e depois o destinatário – teve o escrúpulo de não puxar a carta que tinha uma ponta sobressalente escapando do envoltório mal vedado: “Realmente. É uma bela caligrafia clássica. A senhora sabe como foi que ela desenvolveu este estilo?” e dizendo tais palavras, estendeu o envelope à cuidadora para que fosse colocado em seu devido lugar.

“Ela era professora. Foi professora durante muitos anos. Adorava ler. Há um monte de livros aqui nesta casa. Depois eu mostro pro senhor, e se o senhor quiser algum, pode levar. Os filhos disseram para dar fim neles. Doar ou até mesmo jogar fora. Jogar fora eu não jogo não; tenho pena. Tanta gente analfabeta e ignorante no mundo, não é verdade? Jogar livro fora eu não jogo nunca, pois deve ser até pecado.” 

sábado, abril 27, 2013

GENYSIS - A CRIAÇÃO SURDA

A fachada da casa ostentava um estilo que há muito havia caído em desuso e sofrera por contínua substituição ao gosto de momento do mercado imobiliário. Os jovens das cidades parecem odiar as memórias do lugar tanto quanto os velhos das mesmas cidades estimam as mesmas memórias. O curioso é que, com sorte, os jovens sempre envelhecem e passam a suspirar pelas memórias não preservadas e destruídas pelos outros jovens da ocasião.

Naquela casa era trabalho inútil apertar a tecla do interfone mudo. Após duas ou três preensões o visitante perceberia que ali o código era o estalar das velhas e infalíveis palmas, de preferência com as mãos por sobre o velho, desbotado e ferruginoso portão marrom. E o som certamente demorava algum tempo para atravessar a decrépita fachada e alcançar alguém no interior da residência, pois até o latido do cão só era ouvido após a segunda tentativa e durante a terceira salva de palmas. E somente após todas essas barreiras é que a cuidadora vinha ver e receber quem batia à porta.

Tímida e simpática, a mulher gordinha surgia sorridente de um riso contínuo e discreto com suas grandes bochechas a comprimir seus olhos para receber a quem chamava e já se explicando e se desculpando pelo interfone quebrado, pela velhice do local, pelo cão surdo... E conduzia o recém chegado através do alpendre indo ter na sala de recepção onde ao abrir da porta emanava quente baforada de mofo misturado ao forte odor canino, ao que certamente seu olfato já não mais reagia com a devida sensibilidade sensorial, pois quanto a isso não fazia nenhuma menção e tampouco se desculpava. À porta contra lateral do vestíbulo introdutório da casa, feito um fantasma, um cão imóvel ladrava em direção ao visitante recém chegado ao local. 

O velho cão era tão velho quanto o livro que ao longo dos anos resistiu ao manejo de mãos descuidadas e a insidiosos ataques de traças. Parecia um pano branco encardido, roto e gasto por incontáveis lavagens e hibernações em fundos de gavetas ocasionalmente visitadas por baratas e roedores comedidos. Velho como o móvel atacado por cupins meticulosos dotados do capricho de devorar somente a carcaça sem abalar a estrutura como que a preservar algo para os dias de grande escassez.

E o cão era ainda surdo como uma tábua. Latia de um latido rouco e grave como se em seu puído arcabouço ósseo reverberasse o som antes de partir para fora de sua boca esgarçada rumo ao ambiente sombrio da velha casa.

A cuidadora o enxotava e dizia para que o visitante não tivesse medo, pois, “além de manso, ele é completamente surdo”. Gostava de repetir isso. E gesticulava para que o animal fosse para o quintal e não importunasse o visitante obstruindo a passagem como um velho rabugento que não admite sobre hipótese alguma a entrada de visitantes. E como parte de um ritual indispensável acrescentava que o bicho era muito, muito, muito velho, e que deveria já estar com mais de quinze anos. Mas era provável que aquele animal já houvesse passado de longe os quinze anos e que por alguma razão não investigada e por tanto não explicada sobrevivia a várias décadas contrariando a natureza da raça e as leis do universo.

Toda vez ocorria o caso de o cão não arredar ao tempo da passagem da cuidadora com o visitante da ocasião. Então ela o tomava debaixo do braço como se o animal fosse um travesseiro velho, esfarrapado e com a plumagem de ganso (pelos de cão no caso) a perder-se pelo ar com a apreensão do membro forte sobre suas frágeis costelas rarefeitas e osteoporóticas. Conduzia o velho animal ranzinza até o quintal e o dispensava no chão do lado de fora onde ele permaneceria a ladrar durante todo o tempo que durasse a visita e, segunda a cuidadora, algum tempo ainda após o visitante ter partido.

Mas uma questão inquietava o visitante. Como poderia um cão surdo em algum momento perceber que alguém batia palmas à porta? A explicação veio em outra visita que será narrada no capítulo seguinte de GENYSIS a ser postado a qualquer momento neste mesmo blog.

domingo, abril 21, 2013

PERUCA DE COBALTO

Descia pela rua adjacente. ‘Treze concursos públicos e nenhuma sorte’, pensava enquanto caminhava. Atravessou a rua a passo largo com sua peruca de cobalto, salto alto, mascando fumo, pisando forte, das atenções sendo alvo, desdenhando dos olhares com ares de deboche. Ganhou a avenida principal da pequena cidade esquecida no tempo, guardada no passado, de hábitos e costumes ultrapassados. Contou sete pessoas dentro de uma kombi amarela parada no cruzamento e que, de repente, começou a soltar fumaça pelas janelas e pelo escapamento. Estaria o motor fundindo ou estaria fundido o motor? A kombi não se movia, apenas tremulava.

Nas mesas dos bares, pessoas teciam conversas intermináveis entre um gole e outro de bebidas inesgotáveis. Senhores idosos acompanhados de moçoilas casadoiras riam da própria sorte que o dinheiro comprou entre talagadas de Martini e baforadas de fumaça feito dragões de komodo com suas línguas venenosas. Alguém toca um rock em alguma porta distante. É Pink Floyd.

O imperioso cheiro de bacon sendo frito se espalhava e domina aquele cruzamento daquela avenida. Ali, tudo é bacon frito, kombi fundida e velhos fumantes e moças demasiadamente perfumadas em fragrâncias acres e açucaradas. Outros casais em outras mesas e outras turmas em outras mesas. A pizzaria da esquina não é páreo para o carrinho de lanches e sua chapa aflita que tanto frita as proteínas como evapora a gota do suor do chapeiro que ali mofinha.

Passou e foi embora com seu gingado quadrado e pensando no azar de treze concursos públicos e nenhum sucesso. Seguiu pela outra calçada a passo lento com sua peruca de cobalto, salto, mascando chicletes, pisando manso, das atenções saindo fora, desdenhando dos que ficaram para trás.

Não viu o que todos que saíram às portas dos bares e outros estabelecimentos noturnos viram estupefatos. A kombi em chamas e os rapazes adormecidos, talvez, a ela atados de maneira irremediável. Mais uma queima de arquivos, quem sabe, mais uma peruca de cobalto de destino ignorado que vai pelas ruas mal iluminadas. 

Obs. Arte visual de Davi Santarosa. 

domingo, abril 07, 2013

AGDA E OS MENINOS SEM ROSTO

Não era toda noite que ela saia na noite com um traje com ares melancólicos como o qual ela escolheu para aquele encontro de amigos após a aula. Geralmente escolhia uma roupa leve, colorida e alegre, e levava alguns acessórios e a maquiagem dentro da bolsa para só depois da última aula ir ao banheiro arrumar-se. Estava cansada do dia de trabalho enfadonho e das pequenas tramas e intrigas de certa colega da empresa, uma com quem dividia a mesma sala. Enjoada do sacolejo do ônibus. Impressionada com meninos que se atiravam do piso alto de um restaurante para a rua como forma de fuga ou diversão. É claro que aquilo poderia dar errado, resultar em um pé quebrado, traumas na coluna, dores difusas, lesões articulares. “Eram uns meninos negros e de cabeça raspada, todos mal nutridos e não tinham mais que doze anos cada. Vi quando um se jogou após ser empurrado pelo qual certamente seria o líder e idealizador da farra. Em seguida, o suposto líder empurrava outro que ia meio desesperado, relutante, certamente contra vontade. Aquele encontrou meu olhar através da janela do ônibus que me transportava. Pude ver a aflição angustiosa em seus olhos, apesar dele parecer não ter um rosto definido, mas apenas a estampa de sua aflição em seus grandes olhos. O ônibus seguiu e os meninos ficaram entregues às suas próprias sortes.” Relatou Agda.

Naquela noite, todos haviam comparecido à aula para tratar os assuntos finais da comissão de formatura. A maioria havia caprichado na indumentária, ou se preferir, no visual, sabendo que as câmeras estariam apostas para o registro à posteridade, mas muito mais às redes sociais. Agda era a única visivelmente inclinada ao soturno, sombrio e já maquiada desde a primeira aula em tonalidades escuras. Combinaram o encontro no Bar da Constância, onde haveria música ao vivo, uma boa banda. Lá muitos foram com a intenção de se embebedar o quanto fosse possível. Agda permaneceu calada e introspectiva. Hora observava o tumulto de sons, vozes e movimentos, hora apenas sorvia uma tragada no vermute contemplando a taça.

Despediu-se dos amigos que esticariam pela madrugada e aceitou a carona de Bruna e Marcelo. A caminho de casa, notou que estava diante o restaurante pelo qual havia passado durante o dia de ônibus e avistado o menino de rosto desfocado. Foi quando um gato preto atravessou à frente do Pálio de modo repentino, inesperado. Bruna, que dirigia o veículo, tentou com um movimento brusco desviar do animal, porém chocou-se contra o poste á margem direita da rua. Os três amigos, devido ao impacto do choque, permaneceram por algum tempo desacordados. Agda foi a primeira a recobrar os sentidos. Notou que havia um menino de pé do lado de fora do carro observando os ocupantes. Estremeceu ao perceber que a face do menino era idêntica ao rosto do amigo Marcelo que estava desacordado no banco do carona. Pessoas se aproximaram do carro, acionavam o resgate, um ou dois carros que trafegavam por ali pararam. Agda já se comunicava com os curiosos, Bruna perguntava o que havia ocorrido. As amigas ficaram assustadas quando notaram que os curiosos dedicavam grandes exclamações ao observar o rosto do ocupante do banco do carona. Marcelo fora o único a se ferir. Não usava cinto no momento do acidente. Com o rosto o rapaz rasgou o para brisa e chocou-se contra o painel. Daquela noite em diante, infelizmente, Marcelo nunca mais veria seu rosto diante o espelho conforme fora registrado nas fotos do encontro da turma de faculdade.

Obs. Arte visual de Davi Santarosa.

domingo, março 31, 2013

SPEEK LEE, O CÃO TRAFICANTE

Nunca imaginei um dia sentir falta daquele bicho infeliz com sua cara parva inabalável esperando platonicamente por um afago de minha parte. E pra dizer a verdade e fazer da sinceridade minha única diretriz, não sou o tipo que afaga bichos e depois permanece cinicamente sem lavar as mãos só para fazer tipo.

Até a última vez em que o vi, ele era branco, com poucas e grandes manchas negras espalhadas por sua rala pelagem. Dotado de porte rigorosamente médio, era ele todo medíocre. A impressão que eu tinha é de que o bicho ficava atado eternamente por uma curta corrente ao arame estendido à distância de cinco metros indo de um caibro a outro de sustentação da frágil cobertura de telhas de amianto que servia por abrigo do carro. No entanto, sua dona sempre afirmava que ele dava lá suas escapadelas pelas redondezas. Se isso realmente acontecia, algo que não posso afirmar, pois jamais o vi solto, deveria ser um momento de profundo êxtase e gozo de liberdade nas asas da mais pura vadiagem canina. Algo como cheirar rabos de forma promiscua e indistinta, revirar os sacos de lixo de todo o universo daquela periferia, tomar água batizada por desinfetante empoçada nas margens das calçadas, trocar fluidos e parasitas com os demais vagabundos da comunidade, trotar junto à turba dos semelhantes famintos por alimento e saturados de lascívia.

Toda vez que eu chegava era sempre o mesmo sufoco. Eu tinha que esperar até vir alguém da casa pisar sobre a corrente do bicho para que ele, em seu surto de alegria tola, não me pulasse sobre as pernas sujando as minhas calças com suas patas molhadas em sua própria urina. Verdade é que, o animal tinha lá sua graça. Talvez fosse por seus modos festivos, pois era dotado de uma alegria incontrolável, agitada, histérica, gratuita, saltitante e contorcida. Muito provavelmente aquilo se desse pela ocorrência de um dos raros momentos em que lhe era destinada alguma atenção e pronunciado seu nome absurdo: “Speek Lee, quieto!”

Não sei de quem foi a idéia de escolher um nome americano e de um famoso cineasta para um cão vira latas branco, brasileiro. Bem, mas isso é o que menos importa. A simplicidade tem lá seus caprichos particulares e até mesmo certa sofisticação quando exibe seu humor em detrimento do resto de tudo, sendo capaz de dar nomes incríveis apenas para ter o gosto de algo sofisticado que dizer na vida. E no mais, ao menos até aqui, ninguém deve ser censurado por escolher um nome extravagante para um cão.

E pra falar a verdade e retomar o foco, triste mesmo foi constatar que, onde antes havia a presença esfuziante do bicho, restou apenas o estúpido arame estendido de caibro a caibro e a corrente corrediça atada e abandonada em um ponto qualquer da extensão sob o inapelável vigor da lei de Newton. Aquele vazio da presilha que atava a coleira do animal ao elo da corrente assumiu um assombroso ar de melancolia. E aquilo seria algo crescente a cada dia de sumiço do pobre infeliz feliz. Se alguém quisesse escolher uma alegoria perfeita para uma campanha publicitária designar uma ausência, tirando a canção “Naquela mesa ta faltando ele; E a saudade dele ta doendo em mim”, a qual conheci na voz do saudoso Nelson Gonçalves, a corrente vazia do Speek Lee seria a imagem ideal ao caso.

No exato dia em que dei pela ausência do cão, perguntei sobre o bicho e a dona forneceu a seguinte resposta: “Ele escapuliu. Ele sempre dá as fugidas dele. Daqui um pouco ele volta com sede e fome”.

Na semana seguinte, o prognóstico não se confirmou. Já contava uma semana desde o desaparecimento do bicho. Diante à notória facilidade que tive para entrar na casa, perguntei novamente pela criatura desaparecida. A dona, com seu rosto rústico e de profundas fendas entalhadas por uma vida de agruras em série, disse com um pesar de alto teor dramático: “Alguém roubou o Speek Lee!”.

Vendo meu leve e providencial espanto, acrescentou que acreditava saber quem o havia surrupiado. Atestou que aquilo certamente seria obra dos traficantes da baixada que agora mantinham Speek Lee encarcerado em algum obscuro quintal.

Achei um tanto fantasioso o relato, porém, de boa fé, creditei crença sincera ao caso. Foi aí que a dona se sentiu à vontade para contar as minúcias do ocorrido: “Ele deve de tá bem perto. Eu escuto o latido dele. É de madrugada que ele fica mais desesperado e late até não poder mais. Late junto com a cachorrada toda da vizinhança. Nunca vi ter tanto cachorro igual aqui! No seu bairro tem muito cachorro? Aqui tem demais! Sabe, foram os traficantes que pegaram o Speek Lee. Os traficantes estão acabando com tudo aqui. Outro dia, ali na esquina, pediram a bolsa duma mulher e ela não quis dar. Aí o traficante bateu nela até ela entregar. A polícia veio, mas só conseguiu pegar de volta a bolsa vazia e o celular sem créditos. O dinheiro eles deram um fim. Compraram tudo em droga... Que Deus me perdoe, a gente não deve desejar o mal de ninguém não, mas eu acho que deveriam era cortar as mãos deles; assim não roubariam mais ninguém.”

“E a senhora acha que ainda pode recuperar o Speek?” “O Speek Lee? Sei lá! Vai saber. Essa gente tem o coração muito ruim. Mas eu ainda ouço o latido dele. Ele tá bem perto.” Neste momento, a mulher fez uma pausa olhando para o céu acima do telhado de amianto como se apurasse a audição a fim de encontrar o som da suposta agonia do bicho.

E como é que você vai dizer à pessoa que um dia o cão para de latir ou por desistência ou por comodismo? Vai que na casa do traficante ele recebeu um nome mais condizente com sua condição existencial, e vai que o senhor traficante lhe dá uma boa ração ao invés de apenas restos de comida. E vai que na casa do bandido o fio onde ele permaneça atado seja mais extenso ou até mesmo inexistente. Pior, e se lá houver também pequenos filhos do traficante para brincar e alegrar os dias do pobre cãozinho? Tudo isso sem considerar que o Speek Lee pode também ter tomado essa opção na vida após ter recebido muitos agrados e delícias à porta da casa do transgressor da lei e então, quedado na marginalidade, atraído por suas benesses, tenha então decidido ir pro crime de uma vez e por vontade própria. O cão pode sim estar agora na mais profunda marginalidade. Digo em questão de conivência e cumplicidade, uma vez que cães não comercializam drogas. Ao menos não em meu bairro. Em seu bairro cães trabalham para o tráfico? Não sou muito de noticiários, mas é bem provável que isso já tenha ocorrido em algum lugar. Eu já soube de cães usados como mulas.

“A senhora quer saber de uma verdade? Esqueça o Speek Lee. Ele agora pertence ao crime.”

domingo, março 24, 2013

ESPERANDO A VIDA

“No final do mês,...” “De qual mês?” “O mês que finda, este.” “Ah.” “Posso continuar?” “Sim, por favor.” “Pois bem, no final deste mês, a nossa editora começa a reedição dos melhores e mais importantes textos dele.” “E como se elege os melhores e mais importantes textos de alguém?” “Tem certeza de querer mesmo sustentar esta pergunta? Não lhe parece óbvio?” “Não. Não me parece.” “Pesquisa, oras. Através de pesquisa é que se chega aos textos de maior relevância de um autor durante sua vida produtiva.” “Mas e se ele, por ventura, se ainda estivesse vivo, descordasse dos textos eleitos?” “Como saber? Eu sei lá! Você tem cada pergunta. Ele que proteste então das profundezas ou das alturas.”

Enquanto os homens de negócios discutem o destino do autor finado, eu falo das coisas mais imediatas, das coisas mais corriqueiras. Eu conhecia o autor e gostaria de agora registrar um ultimo relato. Algo bem simples e pitoresco, bem ao meu estilo. Fato é que, em determinado momento de sua vida, tomou muita cachaça, é verdade. Mas a pinga ele só consumiu durante os anos em que dispunha de vigor físico e disposição à embriaguez. Para grande surpresa dos familiares, abandonou o hábito do consumo da maldita sem o menor estardalhaço. Nunca foi um bebum de fato. Bebeu durante algum tempo mais pelo costume do consumo do que pelo prazer que a bebida lhe proporcionava.  Mais tarde, porém, resignou-se ao consumo do tabaco por único vício. Dizia que o cigarro era seu companheiro das horas mortas. Por fim, eram enormes os prejuízos que seu amigo fumo havia lhe causado. Para locomover-se dentro de sua própria casa, era um custo; tudo que fazia o deixava arfante, exausto. Tinha então que deitar-se e inalar oxigênio do cilindro à cabeceira de sua cama por várias vezes ao longo do dia para realizar as pequenas tarefas das quais se ocupou até não ter mais como levantar-se da cama.

Foi uma espécie de herói sem grandes livros, textos e ou façanhas. Viveu uma vida comum e sucumbiu sem alterar o andamento das coisas cotidianas nas imediações de sua casa, as coisas da ordem do dia seguiram como se sua morte fosse um evento corriqueiro. Verdade é que, apenas a família o pranteou. Os amigos, como normalmente ocorre com todos que passam dos oitenta, em sua maioria já haviam expirado, e os poucos que ainda restavam já estavam maduros demais para chorar pelo mal inevitável e único destino tido como cem por cento certo na vida de qualquer ser humano.

Da última vez que o vi com vida, a morte já estava sentada ao seu lado. Era um fim de tarde ordinário e ele observava o movimento dos trabalhadores que iam e retornavam diante sua casa, no banco de praça frio de concreto que ali os filhos instalaram justamente com a finalidade daquele desfrute contemplativo. Recebeu-me com sua alegria triste, com seus modos discretamente festivos e evidentemente melancólicos. Eu sabia que ele tinha prazer em me ver, mesmo assim não conseguia ficar muito tempo junto dele. É que a morte não nos deixava à vontade para conversar sobre a vida. O saudei sorrindo e ele respondeu com um muxoxo, mas sorriu. Perguntei o que ele fazia, então ele olhou disfarçadamente para o lado, de rabo de olho, soslaio, e, como que provocando a morte que estava sentada ao seu lado, também olhando os passantes, disse-me: “Esperando a vida.” Entendi a deixa. Era a rara manifestação de seu dom de ser cínico. Perguntei por todos da casa, estavam bem. Falamos do livro que ele, na verdade, apesar de sempre dizer estar trabalhando na obra, não havia escrito uma linha sequer. Ele disse que ia bem, carecendo de algumas modificações, mas bem. Conversamos mais um pouco sobre amenidades; até de futebol falamos. Então nos despedimos sem marcar um próximo encontro.

Dias depois, eu soube do fato. Em meio a uma devastadora crise de falta de ar, a morte pôs termo em suas histórias. Morreu no meio da madrugada. Sozinho no quarto. Com o cateter de oxigênio posicionado nas narinas e um cigarro entre os dedos consumido até o filtro. Foi encontrado pela manhã, pela esposa, que dormia no quarto ao lado, não sei por qual motivo.

Agora um editor acostumado a retirar seus provimentos dos mortos discute acerca da publicação de seus melhores textos com o seu chefe de oficina. Afinal, os homens vão e a indústria fica.

sexta-feira, março 15, 2013

O GRANDE CIRCO NONSENSE – A INCRÍVEL MULHER DA BOCA TORTA

É claro que naquele lugar sempre haveria separação entre pessoa e pessoa. Tudo ali era o mais puro e sólido embuste. Vendiam a imagem das superioridades e impunham gratuitamente a das inferioridades, como quem defende a qualquer custo uma mentira travestida em absoluta verdade. E ai de quem questionasse aquela pompa! Pompa pobre, é verdade; porém deveras pomposa.

Não foi fácil ver mais uma vez a doce Adele humilhar-se por tão pouco. O que ela ganharia ali além do ingresso àquele circo de convenções bizarras por mais uma noite enfadonha? Um prato com salgados frios e um bolo de glacê insípido e amanteigado? Era preciso entender por que afinal de contas Adele se sujeitava a partilhar tão triste espetáculo fornecendo àqueles seres a substância que alimentava toda falsa caridade que exerciam em socorro do desafogo da própria consciência permissiva.

Abriram uma porta e, com todo desdém de que foram capazes, deixaram que Adele adentrasse o recinto. Ela veio com aquele sorriso sofrido e de difícil manutenção. Trazia à mão um pequeno embrulho por oferenda. Era pequeno o embrulho como eram pequenas as finanças da moça e o alcance de seu poder de consumo. A anfitriã tomou o minúsculo pacote e fez uma boca torta dizendo algo que vinha carregado de uma proposital e nítida decepção premeditada e irônica.

É. Em certas horas seria melhor não estar no local, seria melhor até mesmo nem existir ali, mas que se há de fazer quando ali está e ali existe? O jeito é tocar em frente para ver até onde vai a truculência alheia. E Adele saiu de sua casa perfumada e no melhor traje que lhe fora possível, o que, a bem da verdade, não era lá grande coisa diante à boca torta da anfitriã cheia de adereços extravagantes, inadequados à ocasião singela.

Adele se uniu ao grupo e fruiu das horas que mesclavam uma viva alegria por estar entre pessoas que tanto queria bem e uma fria tristeza por estar entre pessoas que não sabiam simplesmente querer bem sem aproveitar o ensejo para exercitar seus frívolos jogos de distinção e tosca encenação.

Era estranho como a anfitriã entortava sua boca fálica cada vez maior no ângulo inferior dos lábios à direita de quem a encarasse. Com o tempo, seus lábios tornaram-se bolsas intumescidas que sacolejavam enquanto ela falava coisas tortas e presumíveis, porém ininteligíveis. E ninguém dizia à ela que sua boca estava torta e sua fala era cada vez menos compreensível. Afinal, não era uma característica natural em sua família aquela boca torta. De onde teria saído aquilo? Aliás, ninguém na família de origem da mulher possuía boca torta. Todos eram dotados de finos e comportados lábios alinhados horizontalmente e dispostos a sorrir por qualquer besteira lançada pela vida. 

A única explicação para tamanha resignação de Adele não era outra senão seu imenso apego aos laços afetivos. Se em algum momento teve algo que a uniu àquela mulher da boca torta, acontecesse o que acontecesse, passasse o tempo que passasse, Adele continuaria fiel em atenção, carinho e frequência.

Era mórbido o gosto que a mulher da boca torta tinha em sempre ficar exibindo seus lábios pendentes diante a cálida figura de Adele. E soturna também era a ausência de espírito que arrastava Adele toda vez que era chamada para aquelas estranhas convenções. Um filósofo justificaria tudo dizendo que a soberbia precisa da humildade assim como um equino não prescinde de seu capim.  Mas quem é que precisa da opinião dos filósofos quando ambas as partes concordam em participar com seus papeis em um estranho e nebuloso espetáculo?

quarta-feira, março 06, 2013

O ÚLTIMO CHORO

Ao ver a multidão que se aglomerava diante à porta do apartamento do cantor, na Rua Moerás, Pinheiros, zona oeste de São Paulo, em um condomínio de classe média, em horário que muitos saíam para o trabalho, estudantes para a escola, a mãe do menino de doze anos do bloco verde disse a ele: “Corra, vá ver o que acontece e volte aqui pra me falar.” O menino voltou arrasado: “Tanta gente chata, e foi morrer justo o roqueiro do prédio!” disse o garoto que tanto se gabava aos amigos por ter o ídolo por vizinho. “Morrer não combinava com ele.”, completou o jovem de si pra si. E fato é que naquela manhã ninguém esperava que alguém tão vivo como ele ficasse assim, tão morto de repente. E sabe aquela história de que pra morrer basta estar vivo?, receio ser verdade.

Descobri o fato ao ler a matéria do site do Estadão que tratava o caso. Descobri tomando uma xícara de café e comendo torrada com geléia de amoras silvestres que colhi nos prados do entorno de minha cidade no último final de semana: "Ele tinha marcado com o motorista de pegá-lo ao meio-dia de ontem. O motorista foi ao prédio e não conseguiu falar com ele. Depois, voltou à noite e novamente não conseguiu contato. Por conta disso, hoje (quarta-feira) pela madrugada decidiram entrar no apartamento para ver o que tinha acontecido", dizia o trecho da matéria.

Entraram no apartamento e encontraram-no morto a um canto próximo à bancada da pia atulhada de restos de alimentos, embalagens e pratos  e copos sujos. Estava de bruços com o rosto inerte colado ao chão frio e embaçado por gordura velha e impregnado por um muito suspeito pó branco. O cheiro de mofo competia com o cheiro de cadáver. Um apartamento imundo, bagunçado, em desordem, deteriorado. Ele próprio, o homem, o cantor, estava um tanto quanto deteriorado. A decomposição não tinha pressa, contudo ia lenta fazendo o seu trabalho de modo ininterrupto.

A polícia insinuou com proposital evidente dissimulação e certa naturalidade artificial de policial haver indícios de luta corporal, porém nada que apontasse a presença de outra pessoa física no local. Na suposta hora prévia ao embate entre o cantor e a morte, o zelador disse que sentiu um frio repentino percorrer-lhe toda a espinha, algo como um presságio. Disse que se benzeu três vezes, conforme aprendeu com sua avó materna quando menino no interior do estado de Pernambuco; e teria ficado nisso mesmo, não fosse o caso dele dizer que também sentiu pelo resto da noite uma opressão no peito, uma coisa ruim, uma agonia, uma angústia, algo inexplicável. O policial quis saber a que horas exatamente foi isso; não a angustia que acabara de relatar, mas o frio que percorreu a espinha do zelador no relato anterior. E o serviçal disse que teve o capricho de olhar no relógio da parede que fica atrás de si em sua mesa na cabine, e que foi à meia noite. O policial fez cara de que achou estranho ou suspeito, não se sabe muito bem o que o policial quis demonstrar com aquela cara indescritível. O zelador foi dispensado por um momento.

Ali mesmo, os técnicos começaram a examinar as imagens da câmera do circuito interno de segurança para ver se alguém ou mesmo a morte teria sido captada no momento em que passou para ir ao apartamento do músico. O solitário, em sua agonia, teria lutado para não ser arrastado pela velha senhora fria. Lesões nos pés e na face esquerda do cantor são indícios de que é provável que tenha trocado chutes e socos com ela, e talvez tenha tentado mordê-la na mão para que deixasse cair a foice, mas de qualquer forma, tudo que tenha feito fora em vão.

Os solitários têm a mania de morrer e deixar no ar um algo misterioso, uma aura sombria. São solitários até mesmo em sua última hora, a da partida. Não há testemunha dos últimos momentos de um legítimo solitário pleno de sua vontade, independência e força física. Ele sucumbirá qualquer dia desses dentro do próprio apartamento imundo e deteriorado quando o traço de seu destino der o desfeche de sua solidão.

Não importa quanto sucesso ele tenha alcançado, quantos amigos possua; sim, eu disse amigos; e isso pode parecer contraditório dentro do texto que desenrolo, porém afirmo que não é; pois, o solitário, ele pode ter muitos amigos, uma legião, e, contudo nenhum que alcance sua alma, sua clausura espiritual. Muitos dirão que eram como irmãos, e aí lembraremos que nem todos os irmãos são próximos.

Ele afasta-se de todos, briga com muitos, passa meses sem falar com diversos convivas de outros dias. Rompe laços e pontes que pareciam indestrutíveis, vai ao fundo do poço, de onde Terron disse que se vê a lua, mas não vê a lua coisa alguma como disse o escritor, vê sim as trevas e o dissabor.

"A morte entra sorrateira por qualquer fresta, agarra o solitário em meio à sua solidão e faz o serviço, e os policiais é que ficam com a parte difícil, a de explicar que a solidão foi a mandante do crime executado pela morte." Disse o policial.

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