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terça-feira, novembro 27, 2012

CHÁ DE INVISIBILIDADE

Imediatamente, Igor Socolov depositou a caixa de bacalhau norueguês na pilha, lavou as mãos e os braços na pia do barracão e foi até a sala do patrão que o aguardava com o telefone colado junto ao ouvido, falando e gesticulando. Tsarov fez um gesto breve com a mão esquerda direcionado ao rapaz para que este entrasse e outro ainda mais breve para que fechasse a porta atrás de si. Antes de fechá-la, foi possível ver Fedosov, o gerente bedel, sobressaltado, com o pescoço esticado e os olhos arregalados, a meio caminho para sua mesa postada diante à porta da sala do patrão. Tsarov, vendo que o empregado entrou porém não se sentou, fez outro gesto curto para que ele se sentasse e continuou ao telefone.

Falava de uma carne seca. Dizia que a carne seca estava toda bichada e que não haveria como aproveitá-la de modo algum. Fazia uma pausa como que para ouvir seu interlocutor e repetia toda a história da carne seca que ficara exposta e teria contraído larvas. ‘Dimitri, a carne seca está podre. Tá que é só bicho, meu amigo. Só jogando fora mesmo. Se quiser eu deixo num canto do depósito pra que você veja na próxima semana, mas tá nojento. Podre e que é só bicho!’ Dizia e ria um riso solto de ar maléfico como se encontrasse prazer no prejuízo de seu fornecedor.

Tsarov não evoluía no dialogo ao telefone e, ao mesmo tempo, tinha o funcionário diante de si ao seu dispor. Ora ouvia o homem do outro lado da ligação, ora repetia seu enredo pobre e previsível. Igor, em princípio, escolheu um canto da sala e fixou nele seus olhos imóveis enquanto inevitavelmente ouvia à conversa do patrão. Algum tempo seguinte, perscrutava toda a mesa do chefe com seus olhos mansos, as mãos entrelaçadas no colo, as pernas cruzadas na altura das tíbias. Os segundos de espera foram ficando longos. Transformaram-se em enormes minutos. Isso fez com que o rapaz balançasse os pés em intervalos regulares.

Não sabia o que o patrão teria a tratar com ele, mas o ar sombrio com que fora convocado por Fedosov não o deixou otimista, nem muito pessimista. Não era dotado de uma natureza pessimista. Além do quê, era costume de Fedosov agir de maneira sombria a fim de deixar a todos apreensivos por qualquer assunto relacionado ao patrão. Todos na empresa conheciam o caráter mesquinho e malicioso do bedel, que era sempre o primeiro a noticiar a má sorte alheia, e fazia com nítido gosto. Dizia que este ou aquele havia se danado e acrescentava ao final um ‘coitado!’ sarcástico acompanhado de um sorrisinho jocoso.

Num dado momento, a conversa sobre carne seca bichada destravou e enveredou por frangos de granja congelados e carne bovina embalada à cryovac. Yuriy Tsarov revelava seus planos para o futuro da empresa ao seu interlocutor e se empolgava com a conversa como se o funcionário, àquela altura, tivesse ingerido um poderoso chá de invisibilidade. ‘Dimitri, eu estou te falando, rapaz, é o futuro! Farei uma câmera fria! É o futuro, Dimitri!’

Igor já havia visto tudo que os seus olhos podiam alcançar ali dentro do recinto patronal por mais de cinco vezes. Já não tinha mais para onde olhar. Transcendeu. Foi até sua casa e encontrou as bochechas rosadas e o lindo sorriso de Ekaterína, grávida de trinta e quatro semanas. Cheirou seus perfumados cabelos longos, ondulados, dourados. Passou a mão sobre o ventre da esposa e fora puxado num repelão para de volta à sala do patrão que batia com o telefone na base e recolhia o sorriso úmido por entre os dentes amarelos.

Devo informar que as postagens anteriores são partes deste mesmo conto e que a parte final ainda está por vir. Obrigado por sua leitura! Um grande abraço!

sábado, novembro 24, 2012

TODO O PRAZER DE FEDOSOV

Nos dias que seguiram, tudo era frio, poeira, sombras e mistérios. Sergey Fedosov encontrou-se no direito e liberdade de intensificar o espetáculo de seus horrores da mesquinhez. Fofocava à porta e nos vestíbulos, olhava de soslaio, empunhava caras de deboche, deleitava-se em mofas e chacotas de toda espécie. Bastava que Igor entrasse em algum vestíbulo onde o bedel já se achasse para que o mesmo desatasse a rir com quem ali estivesse como se falasse algo de graça extrema.

Igor só via motivos para trabalhar. E teve mesmo que trabalhar dobrado após o incidente das contas erradas. Enquanto todos os carregamentos eram descarregados na empresa por duplas ou trios de chapas, fosse a carga mais pesada que fosse, ninguém lhe vinha em auxílio; certo era que aquilo fosse por uma ordem do próprio Yuriy Tsarov. E Fedosov ficava a vigiar os outros para que ninguém se compadecesse da situação do isolado Igor. Se alguém se atrevesse a oferecer-lhe ajuda, imediatamente Fedosov repreendia o sujeito e lhe descompunha à frente de qualquer um dizendo que das próprias obrigações o bom samaritano não tratava, mas das coisas dos preguiçosos tinha pressa em se ocupar e que ‘este era caso de ir ter na sala do patrão, isso sim, se era!’

Logo o companheiro desistia de ir ao socorro do outro e voltava para funções mais leves e compartilhadas por muitos braços. Igor suava ao ponto de ter suas carnes trêmulas, tamanho era o esforço que despendia. Ao final do dia, fatigado e com dores por todo o corpo, eram críticas debochadas que recebia. Suportou tudo com a resignação de dos santos ou a dos condenados. Não tinha boca para defender-se de nada. Parecia fazer apenas trabalhar por expiação de seus pecados, que não deveriam ser poucos nem banais. Aquilo deixava Fedosov e o próprio Tsarov visivelmente incomodados.

A esperança de Igor era que, com o passar dos dias, aquela nuvem escura se dissipasse e suas cargas voltassem ao normal de sua rotina na firma. O que, por alguma razão oculta e obscura, nunca foi de fato tão leve ou pesada quanto a dos outros empregados, sendo sempre algo mais dura e ingrata.

Fedosov, diante do silêncio e resignação de Igor, imaginando que seus mexericos poderiam incomodar o subalterno, fazia questão de redobrar suas maledicências em presença do mesmo. O viúvo que morava na rua em frente à firma, por exemplo, e que todos os finais de tarde levava um husky siberiano branco na coleira para passear e aliviar-se de suas necessidades fisiológicas. Seria aquele um devasso de marca maior que não teria por objetivo outra coisa senão assediar àquela vizinha que ficava ao portão de sua casa na mesma calçada do libertino, no exato horário do passeio do husky, todas as tardes.

Fedosov saia um minuto à porta da firma e já retornava com novidades dos casos e novos casos para contar. Todos riam menos Igor que ia concentrado em suas tarefas que lhe exigiam até os ossos da alma. E o bedel, interpretando aquilo como uma reprovação de seus modos, fazia o possível para provar que todos a sua volta eram podres e ridículos, exceto o patrão. Então desfiava com outras histórias fantásticas sobre os personagens que encontrava e cultivava no dia. ‘Aquela viúva do portão não presta mesmo. É uma safada. Outro dia fora pega roubando pequenas bebidas no supermercado. O repositor de mercadorias, que por sinal é meu caçula, apenas se aproximou e disse a ela para que devolvesse à prateleira o que ela havia surrupiado. A ordinária corou, devolveu a garrafinha e nunca mais botou os pés lá naquela loja achando que seu segredo também ficaria naquela prateleira de bebidas. Agora fica aí fazendo pose de enlutada e contando vantagem dos filhos que seriam jóias da coroa. Jóias furtadas, isso sim! Só se for!’

Na última sexta de novembro, com seu ar pérfido usual, Fedosov aproximou-se de Igor e lhe comunicou que Yuriy Tsarov queria vê-lo em sua sala, sorriu seu sorriso cínico costumeiro e foi tomar lugar à mesa defronte ao gabinete do idolatrado patrão.

Bem, e só agora é que lhe aviso que este conto é parte do que postei anteriormente e leva a mesma foto, e que ainda terá a terceira e última parte na próxima postagem dentro dos próximos dias. Obrigado por sua leitura! Abraços russos! 

sábado, novembro 17, 2012

TRÊS RUBLOS A MAIS TRÊS RUBLOS A MENOS

Igor tomou o envelope contendo seu salário e, mais tarde, partiu para sua casa a levar o fruto de um mês inteiro de esforços para depositar nas mãos de sua esposa gestante já em tempos de dar à luz. Confiava em Yuriy Tsarov, seu patrão, de um modo pleno, amplo e irrestrito. Imaginava que Tsarov, sendo dono de patrimônio considerável para os padrões da pequena Uglich, sendo homem de grande prestígio local, figura bem quista, bem vista e influente na sociedade, jamais seria capaz de fraudar os vencimentos de seus pobres e dedicados funcionários.

Antes de seguir com a narrativa, gostaria de aqui registra um pequeno à parte: como isento narrador que me pretendo, Deus permita-me não julgar este ou aquele personagem por suas boas ou más ações assim tomando partido na narrativa em favor de um ou de outro, pois que eu narre apenas e tão somente os fatos em essência e originalidade o quanto possível, e da história tire você mesmo, leitor, suas próprias conclusões com as ferramentas morais das quais dispõe para o momento.

Aquele rigoroso inverno parecia que não teria mais fim. Enquanto Igor trabalhava com o máximo empenho e todas as suas forças pensando em bem servir para levar o sustento com dignidade à sua humilde casa, Tsarov andava pelo armazém com as mãos para trás a fazer incessantes cálculos dos lucros que germinavam feito sementes de sonhos dentro de sua cabeçorra descomunal. Engendrava argumentos plausíveis para poder reduzir ao mínimo possível o salário de seus funcionários e assim aumentar sua vantagem de forma justificada e incontestável. Excetuando a cabeça enorme e em forma de um ovo orizontalizado, Yuriy Tsarov era um homem miúdo, de mãos miúdas e de caráter dúbio. Certamente Gall, o pai da frenologia, em posse do avantajado crânio de Tsarov traçaria obscuras conjecturas da personalidade daquele estranho e misterioso senhoril.

Mantinha em elevada estima e especial atenção dentro do estabelecimento certo Sergey Fedosov, funcionário antigo, dono de língua felina e olhar malicioso. Este acumulava na empresa as funções de um falho subgerente e competente bedel. Tsarov se agradava de Fedosov não apenas por seus bons préstimos, mas especialmente por seu talento nato aos mexericos, fofocas e maledicências em geral.

Nas horas vagas, com grande ardor, Fedosov tratava da vida alheia dos cidadãos da pequena Uglich para deleite de Tsarov. Igor jamais participava de tais palestras que ocorriam, em verdade, à portas fechadas ou em cantos sombrios onde a luz jamais incide e cochichos nunca ecoam.

Os modos sérios e resignados de Igor perturbavam sobremodo a Fedosov. De certa forma o bedel parecia se incomodar com a conduta do colega que lhe confrontava com a baixeza de seu próprio espírito. Mas todo este incômodo evaporava-se imediatamente diante à aprovação do patrão que o buscava com gozo e incessante interesse para atualizar-se das questões da delação interna e dos noticiários populares informais da pequena comunidade de Uglich.

Todos os meses, Fedosov trazia e distribuía os envelopes com os nomes dos funcionários e seus respectivos vencimentos.  Naquele frio novembro, Igor tomou o envelope da mão de Fedosov e o meteu no bolso sem nem mesmo conferir os créditos e a soma, dado que estava extremamente ocupado empilhando caixas no depósito e sem tempo nem mesmo de parar para esticar as costas e ou aliviar-se no banheiro. E só foi tomar novamente o envelope em casa, ao tirá-lo do bolso e entregá-lo a Ekaterína, que o esperava com uma sopa de couve sem carne. 

Antes do jantar, enquanto Igor praticava sua toalete, Ekaterína orava em agradecimento e conferia os vencimentos do marido. Espantou-se e achou ter errado a conferência ao dar falta de exatos três rublos. Recontou. Obtendo o mesmo resultado, recontou novamente. Ficou quieta. Não tocou mais no assunto durante todo o jantar e só rompeu o silêncio ao perguntar das coisas do trabalho ao marido, mas este só queria falar dos planos para a chegada do pequeno Nikolay ou da pequena Evgeniya, conforme fosse a vontade do bom Deus. E quando terminaram o jantar, Ekaterína fez o marido saber da diferença no cotejo do pagamento. Aquilo lhes impediria de dar a entrada do berço do rebento. Era sexta feira, na segunda Igor falaria com o patrão e tudo estaria resolvido.

Yuriy Tsarov não demonstrou surpresa diante do fato levado por seu funcionário, mas antes tratou de tomar o envelope do vencimento e comprometer-se a conferir ele mesmo. Fez uma cara indescritível e recolheu-se no interior de sua sala. No final do dia, Fedosov devolvia o envelope a Igor sem dizer nada além do que se referia ser uma ordem do patrão. Decorrido mais um mês, eis que vieram os novos vencimentos. A exemplo do mês anterior e por um mau vício, Igor, no árduo labor da faina, meteu novamente o envelope no bolso sem prestar-se a conferir as contas de seu novo vencimento, confiou. Coube a Ekaterína mais uma vez, e com um sorriso jocoso, comunicar ao marido o novo erro de cálculo; mas agora o famélico salário do homem viera acrescido de três rublos a mais.

Ironias à parte, no dia seguinte, Yuriy Tsarov recebia com visível e patética simulação de surpresa o excedente do pagamento ao funcionário das próprias mãos de Igor, que sorria discretamente. 

sábado, novembro 10, 2012

OBSESSÃO É OBSESSÃO

“Permita que me apresente: Arkádii Ivánovitch Svidrigáilov.” E assim termina o primeiro volume da edição que estou lendo de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, apenas Dostoiévski para os íntimos e também para os confiados. Embora sempre ouvisse sobre o gênio do autor, sou apenas um admirador tardio que o descobriu aos trinta e oito anos de idade, em uma primavera onde o calor de minha pequenina Ituverava jamais poderia eu imaginar ser atmosfera semelhante a qual se encontra na obra do autor russo ambientada na supostamente gélida São Petersburgo.

O livro entrou em minha casa por uma coleção, uma linda coleção de títulos clássicos com capa de linha, fita marcadora de página acetinada, páginas suavemente amareladas conferindo um aspecto envelhecido, páginas novas, cheirosas. E como acontece com tantos livros que possuo, um dia vou e lhes tiro do sono da estante para a baila da leitura. E que grata descoberta fiz. Como estavam certos aqueles que o mitificavam! Fiquei bestificado desde as primeiras linhas.

Tomei o livro no último final de semana e, como sou leitor lento, algo do que não me envergonho e acho até benéfico aos meus semelhantes confessá-lo, só pude terminar o primeiro volume hoje ao chegar do trabalho. Em meu favor, apenas o fato de que sou um homem muito ocupado da Fisioterapia e das coisas do lar. Mas na ânsia de avançar pelas laudas da trama, acabei por ficar obcecado. Não fui correr essa semana, não fiz meus exercícios regulares, travei longas batalhas contra o sono e adormeci somente após a página ficar pesada demais para vira-la.

E na quarta feira, quando restavam apenas setenta páginas para finalizar o primeiro volume, eis que ocorre um fato, no mínimo, curioso. Sabendo que não haveria a última sessão do horário, cancelada antecipadamente, levei Fiódor Dostoiévski para o meu trabalho. Acomodei-o no fundo de minha melhor gaveta, a mais livre, portanto a mais espaçosa, e fui com afinco às atividades do labor. Ao terminar minhas hercúleas tarefas, voltei para a sede da empresa onde Dostoiévski repousava. Preenchi o último relatório, organizei a mesa, certifiquei-me de ainda restar vinte e oito minutos até a hora reservada ao almoço, tomei o exemplar da capa vermelha e nele derramei toda minha atenção ao conturbado universo do pobre diabo Raskólnikov, o ex estudante.

Li até o último instante que me fora possível e então parti. No tumulto das crianças que busco ou não busco na escola, da pessoa que vai até minha casa para cuidar de nossas roupas e grita ao celular e canta em voz muito alta, de meus bichos de estimação barulhentos e esfomeados aguardando o alimento sagrado de minhas mãos, do almoço à hora certa fumegando na mesa, meu repasto, do olho no relógio para não perder o horário do retorno ao trabalho, do descanso após mais uma ou duas... páginas... Eis que o romance fora esquecido por um momento. Só fui me recordar de São Petersburgo ao chegar do trabalho. Mas antes tomei um bom banho para manusear relaxadamente a obra prima.

Mas cadê? Não o deixei no criado como de costume? Não deixei sobre o raque ao lado do computador? Não teria caído no chão debaixo da cama? Não. Entre os travesseiros e os lençóis, não está? Debaixo dos jornais, junto dos outros livros, ou no guarda roupas, quem sabe, não? É angústia que estou sentindo agora. Volto ao carro e lá também não está. Refaço todo o roteiro passo a passo, incluo lugares inusitados como o banheiro, onde o livro não estaria nada bem, e o quintal, onde estaria sem jamais ter sido conduzido até lá por minhas mãos, improvável. Cometo uma injustiça, suspeito das crianças. Tem sempre um distraído dono de carregar sacolas, objetos e largar em algum lugar. Teriam pegado meu livro por engano? Teriam misturado meu livro aos seus materiais de escola. Vasculho suas mochilas, seus quartos. ‘Desculpem-me, crianças!’

Teria eu o esquecido no painel do carro e um ladrão literato, um gatuno letrado o surrupiado num momento de absoluta calmaria na rua de minha casa? Abriu a porta com uma trincha, roubou o exemplar e partiu sem levar mais nada. A ousadia destes malandros não encontra limites, roubam agora Crime e Castigo para zombar da sociedade. Não foi o caso.   

Visto uma roupa mais adequada e apanho meu crachá. ‘Mas aonde você vai?’ ‘Vou até a empresa, pedirei ao guarda que me deixe entrar para ver se deixei por acaso o livro em uma de minhas gavetas.’ ‘Mas você não disse que o havia trazido na hora do almoço?’ ‘Sim, mas sei lá, é tudo tão corrido, vai que levei sem notar e acabei por largar lá.’ ‘Tem certeza que é caso de ir à empresa e criar essa situação inadequada?’ ‘Andrestchka, obsessão é obsessão!’ ‘Está bem. Boa sorte então!’

O guarda foi simpático, deu-me as chaves, permitiu minha entrada, contudo demorei um pouco mais que o esperado, penso. Vasculhei mais de uma vez todas as gavetas de minha escrivaninha, verifiquei o armário, repeti tudo. Ao sair, o guarda já estava visivelmente ansioso por minha demora. Não era pra que eu demorasse e ainda saísse do mesmo jeito que havia entrado, sem livro algum. Desolado, agradeci ao bom homem e caminhei para o carro.

Chegando em casa, sentei-me na cadeira de leituras do quarto e coloquei-me a lembrar da infância e de meus objetos mais queridos. Às vezes os perdia por horas, dias, ficava triste, desolado, perdia a vontade de brincar. Vi tudo acontecer novamente, só que agora tenho trinta e oito anos de idade. E foi pior o caso, devo confessar que tive um leve desejo de chorar. Seria em silêncio, algo íntimo e discreto, porém recobrei o juízo em tempo e percebi o quão patético eu estava sendo. ‘Perdeu o livro?, aceite o fato. Não é assim que aconselha a todos que lhe relatam casos de perda? Que adulto idiota és tu, rapaz?’ Disse-me Fiódor Dostoiévski sentado ao pé de minha cama.

Empalideci. Trêmulo, tentei justificar-me explicando da importância daquele objeto de coleção, da dificuldade de conseguir outro igual, da imensa despesa extra que aquilo poderia acarretar-me e, principalmente, da leitura interrompida por uma noite. Justamente faltando apenas setenta páginas para a conclusão do volume. Que lástima!  ‘Pois deixe de tanta tolice, rapaz. Já olhou atrás das caixas de som do subwoofer?’ Tempos modernos... Foi neste momento que fui investigar àquele local e senti o prazer de recuperar a dracma* perdida. Prazer que se incorporou à leitura e somou-se à afeição pelo objeto querido. ‘Quem ama os livros sabe que obsessão é obsessão, Andrestchka.’

*Dracma, a moeda grega de prata que tinha valor equivalente ao denário.


sábado, novembro 03, 2012

TODO DIA É DIA DE FINADOS

Há quem tema à morte e tudo faça para evitar o assunto. Há até quem se benza diante à menção da palavra como se o final fosse um castigo, uma praga dos céus ou dos infernos, de acordo com as obras e ações de cada qual. Qual quê? Qual?... Mas nem todos se encolhem diante o símbolo da derrocada final. Valentes? Não sei. Não sei não. Não mesmo.

Sei que existem os homens sentados em suas cadeiras de descanso diante às portas da última morada. Os vejo quando passo apressado entre um trabalho e outro. Penso que desafiam a morte e me parecem até zombar dos supersticiosos mais medrosos.

Donos de suas cabeças brancas, barrigas proeminentes e redondas, famílias problemáticas, netas precocemente grávidas, aposentadorias magras, netos desempregados e ociosos, casas do conjunto habitacional e assuntos corriqueiros, ali permanecem grande parte do dia perdidos entre comentários sobre a vida alheia e da passagem do tempo, do clima, da violência urbana.

Que lhes importa se quem passe fique curioso e encarando? Ali estão bem resolvidos com suas questões mais intrínsecas. E se possuem medo da indesejada de todas as gentes, disfarçam com maestria e perfeição. Talvez isso seja sensatez.

Quando o sol incide intensamente sobre suas cadeiras postadas na calçada diante de suas casas populares, as tomam nas mãos, atravessam a rua e colocam-nas diante da grande porta da cidade dos mortos, sob a laje, e dão continuidade ao monótono papo. Esparramam-se sobre as cordinhas de plástico, desdenham dos passantes curiosos com um leve ar de deboche natural e involuntário. 

Quando é noite e faz calor, sentam-se da mesma maneira por longas horas até que o sono lhes convide a entrar para dentro de suas casas. Alguns já compraram até terreno na eterna morada para não dar trabalho de última hora na última hora.


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