Amigos

quarta-feira, outubro 24, 2012

MUY AMIGO SECRETO

Outubro. Vai começar! É tempo de brincar de amigo secreto. Começamos pelos rebentos e terminamos nos decrépitos. De mamando a caducando, os que querem e os que não querem irão participar, ‘não? Você não vai participar do amigo secreto deste ano?!’ ‘Ainda estou pensando. Até quanto será o presente?’ ‘Uma lembrancinha. Eu estou montando a lista de sugestões, quer sugerir algo?’ ‘Estou pensando.’ ‘Vai pensando, mas não demore, fecharei a lista no final da semana.’ ‘Tá.’

Há quem concorde em participar prontamente e ainda se saia com o clássico ‘Este ano já estou participando de três, será o quarto com este [sorriso].’ Na escola, no trabalho, na comunidade religiosa, no grupo de qualquer coisa e no balé das crianças de dez até doze anos. Não. No balé este ano não haverá brincadeira de amigo secreto. É que amiga secreta nem sempre guarda segredo de sua querida amiga desafeto.

Os papeizinhos. Sim, os velhos e dobradíssimos papeizinhos do segredo. O selo do enlace, a chave do mistério, o bem que alguns desdobram e vislumbram com surpresa e alegria. E..., espere um pouco, devo dizer que alguns desembrulham o papelzinho e o vislumbram com decepção e desprezo? Isso não. Não seria de bom tom. Mas a pequena bailarina o fez. Pequena em idade, porém grande em tamanho, peso e rancor.

Uma a uma as meninas foram tirando e lendo e reagindo aos nomes grafados à caneta esferográfica azul nos improvisados pedacinhos de uma folha de um caderno espiral pautado, um da secretária que é estudante e o trazia na bolsa. Havia quem pulasse de alegria e compartilhasse o segredo disfarçadamente, muito mal disfarçadamente, diga-se de passagem, com a colega supostamente mais confiável. Talvez por empolgação, mas certamente com o inconsciente desejo de ingressar no mercado negro de amigos secretos e, quem sabe, até negociar a prenda com alguém mais interessado e assim ser legal, ou até mesmo obter algum nome mais interessante.

Num canto não tão periférico da sala, a bailarina grande pesada e rancorosa olhou o papel e fez cara de poucos amigos. Disse ‘Que droga! Eu odeio essa menina! Ela me enche o saco todos os dias. Eu não gosto dela! Vou comprar um presente bem podre pra ela.’ Amassou o papel com a força do desejo de amassar a amiga secreta magra e o lançou ao cesto de lixo como se lançasse a própria menina mal querida amassada.

Se não estiver enganado, foi Lacan que certa vez disse, provavelmente quando tinha seus seis ou sete anos de idade ‘A criança é um perverso polimorfo’. Lacan deveria ter lá seus motivos pessoais naquela feita.

Como um enxame de fadinhas, nem bem a bailarina grande e pesada se afastasse do local do sorteio, correram ao cesto para apanhar, desamassar e desvendar o mistério da detestada. E a detestada não estava tão distante que as outras não a alcançassem primeiramente com os olhos e em seguida com a notícia ao pé do ouvido. Empalideceu a pobre que já não era lá das mais coradas. O sangue lhe abandonou a face e os finos lábios separaram-se e entreabertos ficaram. O pequeno papelzinho com o seu nome agora lhe pertencia e ela o segurava com as duas mãos, diante do rosto pasmo.

Não fez segredo de sua decepção para com a amiga secreta. Ao iniciar o choro, viu-se imediatamente interpelada pela mãe que a fora buscar por ser já hora do fim da aula. Entre suspiros, soluços e densas lágrimas, disse, aos solavancos, com o papelzinho ainda pinçado pelas pontas dos polegares e indicadores das duas mãos finas ‘Mã ãe, e eu não qué, quero ma, mais i, ir na, ca a sa, da, bai la, ri na gran de e pe sa da... Eu, eu, eu não sa bi a que, que, que ela achavaissodemiiimmm...’ 

O assunto girou a sala inteira. As mães que aguardavam na sala de espera, pacificamente tomavam o local do sorteio. A professora bailarina achou por bem encerrar o assunto, ao menos naquele momento, com a anulação da brincadeira. ‘Não haverá mais amigo secreto este ano e pronto!’ Outra bailarina se aproximou à grande e pesada e cochichou ‘Aí, tá vendo? Por sua causa. Por sua culpa.’ Ao que a outra deu de ombros como se fosse uma lacaniana precoce bem resolvida quanto aos dilemas da infância.


sexta-feira, outubro 12, 2012

GAROTA FROM IPANEMA

Na manhã da última terça, a caminho da casa onde faria minha primeira visita do dia, não me preocupava o resultado das eleições municipais realizadas no último final de semana, mesmo ocorrendo que em minha cidade tudo se resolva em um só turno. O que me preocupava, motivado pela canção que ouvia no rádio, era saber que a garota de Ipanema já ia com sessenta e sete anos pela vida a fora. Egoísmo meu andar perdido assim em pensamentos banais quando o futuro das cidades acaba de ser traçado nas urnas donas de emissões virtuais? Talvez sim. Contudo não é algo tão particular e pessoal o meu pensamento, se considerarmos o fator efemeridade do tempo do qual absolutamente ninguém está livre.

Dona Heloisa Eneida Menezes Paes Pinto, vovó Helô, na ocasião em que teria servido de musa à célebre canção hino da Bossa Nova, contava apenas verdes dezessete aninhos de idade e, segundo a própria, era ainda virgem. Uma menina, como diz a própria composição. E o tempo não perdoa mesmo nada nem ninguém. Se fosse hoje, em tempos de vigoroso politicamente correto, Vinícius de Moraes e Tom Jobim seriam considerados uma triste dupla de pedófilos digna de punição e pena.

Vinícius foi um homem do mundo, não no sentido religioso pejorativo da coisa, mas é que as coisas passavam por ele e ele as devolvia de um jeito próprio, melhorado. Dizem que ele levou três anos para revelar quem era a coisa mais linda e cheia de graça, ela, a menina que vinha e passava no doce balanço, a caminho do mar. E um dia revelou, quando ela já havia alcançado a maioridade, e isso mudou a vida de dona Heloisa para todo o sempre. Ela e a canção são o que restou do momento mágico em que pessoa e olhares se cruzaram. O poeta e o músico estão mortos e enterrados há tempos. E que falta nos fazem! Ficaram a canção, as obras, as saudades, a Bossa Nova e a musa.

A musa ainda colhe os frutos. É parceira em uma grife de moda para jovens senhoras e está lançando uma biografia “A Eterna Garota de Ipanema”. Mas quem é que garante que era mesmo dona Heloisa o objeto da canção no momento da concepção? Se o poeta revelou somente três anos após a gravação, como afirmar que não tenha mentido sobre a musa inspiradora e a atribuição tenha ocorrido somente posteriormente ao ato da criação? Vai que a verdadeira musa fosse apenas uma passante que uma única vez surgiu e desapareceu nas brumas daquele mar carioca em um dia de nevoeiro, incertezas, melancolias e ausência de sol. Sendo tudo então fruto da poderosa imaginação do poeta. Imaginação extremamente germinativa e fértil. E se olharmos as fotos de dona Heloisa em sua mocidade, se olharmos com espírito crítico e sem o carinho do costume, veremos que é uma moça bonitinha, mas bem comum, mesmo para a época. Sem medidas exuberantes, com uma vasta cabeleira castanha, um jeito tímido captado nas imagens, uma moça de fato sem nada de extraordinário.

Mas é claro que neste quarto período do texto eu só quis gerar polêmica (não sou nenhum santo, nunca fui). Não duvido que dona Heloísa seja de fato a senhora de Ipanema. Duvido completamente que os candidatos eleitos no último pleito resistam tanto tempo no imaginário popular quanto a musa resiste na canção em nossas memórias de eleitores desmemoriados. Foi em agosto de 1962 que Garota de Ipanema de Vinícius e Tom veio ao mundo para nos dar paz, inspiração, beleza e alegria. Há cinquenta anos.

E agora eu passo de malicioso e dissimulado a pretensioso e pergunto: Quem é mais sério, eu com minha canção na cabeça ou você com os resultados das últimas eleições? Perguntar não ofende, não é?

sábado, outubro 06, 2012

OS DOZE ZUMBIS & A CADELA BRAMA

A crônica vigente me permite dizer, sem revelar nomes e ou lugares, que todos os que viviam naquele apartamento conviviam mormente com as pulgas. Diziam que as pulgas eram da cadela Brama. A cadela tinha uma vasta pelagem preta e coçava-se quase que o tempo inteiro, e com o desespero dos atormentados, completamente entregue à aflição.

Na sala, quando recebiam alguém, um fato raro, a cachorra chegava malemolente com seu rabo flácido pendendo de um lado a outro como um grosso visco preto.  Olhava quem ali adentrava com seu olhar lânguido, súplice, castanho e tristonho de vira latas. Sentava-se ao pé do visitante e, no momento seguinte, começava seu espontâneo espetáculo a morder-se em desespero progressivo e fremente. Sôfrega e infausta, a cadela mordia-se, gemia, chorava e rosnava em extraordinária contorção vertebral. Propositalmente, procurava encostar-se à perna do visitante para ter um ponto de apoio e assim melhor coçar-se.

Ninguém comentava, mas era patente que a pessoa no sofá lutava para conter, a grande custo, o desejo de rebolar e o impulso de coçar evitando assim com imensa dificuldade os gritantes movimentos involuntários que pediam libertação. Cacoetes e tiques dos mais variados emergiam das profundas e remotas fases da vida da pessoa.

O visitante torcia quase que em desespero para que a anfitriã, por um único instante que fosse, desviasse o olhar a fim de cravar as unhas na própria carne para reprimir o parasita que já se refestelava à grande na novidade quente e caudalosa que ali fora ter por uma má sorte do dia.

Podia ser qualquer o motivo da visita ou a pessoa que visitava, a melancolia daquele recinto era contagiante e profunda. O assunto arrastava-se e misturava-se ás sombras das paredes. Nas frestas dos tacos do piso, aguardavam entrincheirados os insetos famintos à espera da vez de alimentar-se. A pesada atmosfera daquele apartamento de imigrantes açorianos ou trasmontanos impunha-se a todo e qualquer que ali fincasse os desafortunados pés por mais que cinco longos e angustiantes minutos.

Quanto mais informado e culto era o visitante, maior seria o terror. Perder poucas gotículas de sangue drenadas direto dos capilares não era o pior dos males, pior seria pensar que aquilo poderia ocasionar tifo ou até mesmo uma peste bubônica.

Aos íntimos, quando os moradores do local eram questionados sobre a espécie vampírica ali abundando em volume e proporção de praga egípcia, diziam que era por conta da cadela Brama, mesmo muitos anos após a morte da infeliz.

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