Amigos

sábado, setembro 22, 2012

BRB - NECRÓTICO

O quê dizer? Como explicar o terrível fato ocorrido durante o período de não mais que quinze minutos de sua ausência? E de quem era a culpa afinal, se todos os dias Bob/Rock/Blues tomava o seu banho de sol das nove na cadeira de descanso da garagem que também é alpendre? E o fiel cão Kuduro sempre ficou ali ao pé do decrépito dono. Latia para todo e qualquer que por ventura se aproximasse do portão usando a calçada ou até mesmo a rua à frente da casa. Se o individuo parasse então, aí sim o cão desatava a ladrar numa histeria demasiada até mesmo para um bicho primitivo como aquele.

Macarrão, azeitonas pretas, manjericão, tomates maduros e o iogurte natural, e mais as laranjas que haviam acabado. Quanto tempo se leva para apanhar essa meia dúzia de itens em um supermercado aonde se vai ao menos duas vezes toda semana, mês após mês, por mais de três anos? E o supermercado ficava a apenas duas quadras e meia da casa do patrão. Cinco minutinhos para ir e, à passo apertado, instintivamente preocupada com o velho que ficara sozinho, olho no relógio, duas sacolinhas leves, uma em cada mão, em menos de outros cinco minutos já estaria de volta. No estabelecimento, não teria gastado mais do que cinco minutos. Terça pela manhã então, naquele horário, um pouco antes das nove, nunca havia ninguém, além dos funcionários, no supermercado. Jogo rápido.

‘Meu Deus do Céu!, não fiquei nem cinco minutos no mercado. [...] Como é que foi acontecer uma coisa dessas? [...] Que horror! Um horror!’ [...] ‘E como é que eu vou explicar pro doutor Olavo um negócio desses? É capaz do homem enfartar. Enfarta o filho e enfarta o pai. Os dois. Um em seguida do outro.’ [...] ‘Meu Deus! Logo agora que eu fiz aquela prestação da máquina de lavar ainda devendo cinco parcelas da televisão de plasma.’ [...] ‘Eu não vou só perder o emprego não, eu vou é pra cadeia, isso sim. Meu Deus do Céu, o que foi que eu fiz pra merecer um destino desses, Senhor? Misericórdia! Misericórdia, Pai!’ Conjeturava Dorotéia com as sacolinhas das compras nas mãos arrebatada e abatida pela perplexidade diante do iracundo patrão que vociferava contra o cão Kuduro que o teria acordado fuçando no curativo do seu pé.

Kuduro, ao ver Dorotéia diante de seu dono e receber pra si em sua direção o terror nos olhos da cuidadora, catou o que roia e correu para o quintal através da porta da garagem. ‘Tanto trabalho pra curar o dedo do homem... Cachorro miserável. ’ Pensou Dorotéia ao ver o animal fugir lépido e com ares de traquinagem quintal adentro. Havia seis meses que Bob/Rock sofria com uma necrose avascular no grande artelho do pé direito, o hálux. Estava preto e com forte odor o dedão do pobre. Necrótico, diziam os médicos. Tudo começou com uma unha encravada, uma que achou jeito de complicar mesmo sem o homem botar outro calçado que não as confortáveis sandálias de tiras de couro marrom. Seis meses de tratamento, e o dedão do velho só piorava. Talvez pelo diabetes, que nunca havia meio de controlar e permanecer controlado. O fato é que o homem não tinha suprimento sanguíneo para o dedo e nem sensibilidade no mesmo. Um caso bastante complicado.

Dorotéia conteve o choro. Ainda segurava as sacolinhas com a garganta nodosa, com os olhos marejados, peito sufocado, coração comprimido e angustiado. E disse com voz terna ao patrão: ‘Mas o senhor não viu quando o cachorro começou a fuçar o seu pé, seu Bob/Rock?’ ‘Eu já não disse, criatura, que o bicho me acordou? Quando vi, ele já tinha bagunçado tudo a faixa e arrancado o chumaço de gaze que você botou no meu pé. Você não deve ter colocado isso direito. Vai ter que fazer outro curativo. Não consigo ver daqui se ele desfez tudo, mas o que ficou ele babou. Vai ter que fazer outro sim. E vê se não fica aí parada feito besta, sua múmia. Ande logo com essas sacolas e curativo que eu quero tomar meu sol lá na calçada. E vai ver o cachorro que ele tá com um troço esquisito na boca. Deve tá aprontando alguma.’

sexta-feira, setembro 14, 2012

O BURACO DO COLCHÃO

Felício, sem um motivo para ti ela partiu, é verdade, é fato, porém, sem um motivo para ela, não partiria... E se não fosse o motivo, Felício, ah! como ela lhe fazia bem nesta vida, amigo. E você agora nem alcança o motivo dela ter ido, não é mesmo? Triste isso. Infeliz. Paga o preço do omisso aquele que é apenas distraído. Nada é justo, em se tratando disso. Talvez ela tenha acumulado motivos como quem guarda o dinheiro para a passagem de ida de moeda em moeda com o troco do primeiro pão do dia, de troco em troco de pão. Se fosse o trigo do pão, diria ter sido de grão em grão, sem gastar vintém, sem despender tostão.

A alegria dos últimos dias, Felício, o que lhe fez pensar ser um gozo de felicidade plena essa sua vidinha, era o que você via enquanto Helena estrangulava um a um os bichos que lhe devoravam o riso para cumprir o papel de feliz ao seu honroso lado, meu caro.

Felício, você foi lento no ponderar. O que foi isso? Não se deixa dormir tanto a quem se quer acordada. E se Helena gosta da palavra gerânio, não seria o caso de, ao invés de decorar a sala com as flores que levam por nome o verbete, decorar sim o quarto todo e as orelhas da bela com a palavra em natura, sussurrada? Plantando flor por flor ali nos ouvidos e regando com saliva na concha auricular da moça, antes mesmo que o último murchasse. Gerânios por todos os lugares. Gerânios em paz.

E foi Berenice, a diarista, quem primeiro viu o imenso abismo que havia ao centro da cama do casal. Uma imagem surreal, aterradora. A patroa fugitiva cavou um buraco que teve início na superfície do colchão, sob os lençóis, e varou a cama, alcançou o chão, adentrou pelo solo e foi dar em um túnel que se comunicava com outro buraco do outro lado do logradouro, distante da casa do casal. Por ali, ela ganhou a liberdade numa fuga silenciosa e, paradoxalmente, espetacular.

Felício, melhor continuar encenando mesmo o teatro do feliz. Ficará bem quando inventar outro ato. Dê folga à Berenice por dois ou três dias, ou uma semana, ou um mês. Helena desistiu definitivamente do seu espetáculo e está bem mesmo estando mal em outro trabalho onde ela terá maior destaque, visibilidade e identificação, entende?

quinta-feira, setembro 06, 2012

AO CARPINEJAR PELA ESTRADA

Penso que não há certeza no desamor por unanimidade, mas há sim uma grande dúvida... A certeza seria libertadora, uma dádiva, uma benção. A dúvida é o que nos ata... E atados vamos. Pior seria não irmos. Ficarmos.

Ficaríamos logo no início da infância, antes mesmo do terreno das memórias, ou nos primórdios da memória, memórias de fraldas. Ou na lembrança de Fanta Uva de algum colégio primário, quem sabe, como ocorreu ao poeta Carpinejar. Na memória furtiva do escritor, encontrei um paralelo a mais. Também, assim como o escritor, sou adepto à regressão por Fanta Uva. Contudo é sempre ao mesmo ponto que retorno, à minha São Caetano do Sul natal...

A gente finge que cresceu, que aquela criança morreu, que somos irremediavelmente adultos... Um dia, quando velhos e faltos de auto controle, a criança salta e nos tomam por loucos... Loucura sim é passar pela vida fingindo e mentindo que não somos mais meninas e meninos, como se a vida fosse um passeio por fases...
 
“Criança diz tudo o que pensa e por isso é divertida, adulto pensa tudo o que diz e por isso é chato.”


Obs. Este texto eu escrevi em comentário à crônica “Meu Pior Vício” do escritor Fabrício Carpinejar e tive vontade de compartilhar com os amigos de meu blog. O blog do Fabrício é o http://carpinejar.blogspot.com.br/

domingo, setembro 02, 2012

O TREINAMENTO [O AR CONDICIONADO]

A sala era grande e o ar condicionado extremamente potente. Enorme daquele jeito, uma verdadeira aberração do antônimo de natureza. Talvez, todos nós que estávamos nas primeiras seis cadeiras do lado de frente para o ar condicionado, talvez todos nós saíssemos daquele encontro resfriados. E alguns poderiam até mesmo evoluir com pneumonia comunitária grave e, quem sabe, alguém poderia até morrer por conta desta pneumonia infeliz adquirida em um treinamento da empresa, indo a óbito, conforme gostam de dizer os profissionais do ramo que, apesar de usar o termo, não se atrevem a criar o verbo obituar, o que seria muito prático e adequado. Haja visto: ‘Seu Fulano de Tal da Silva, do leito 8, e oito é símbolo do infinito, obituou’.

Mas eu precisava fazer algo. Não havia como sair do círculo formado pelas cadeiras ocupadas, sem atravessar à frente da palestrante, o que seria uma imensa falta de educação, e assim interromper a palestra. E, ao menos que me tirem do sério, sou sempre educado, e a palestra já ia num ritmo constante como marcha de velhos ponteiros analógicos. Não seria correto.

A detentora do controle do ar condicionado estava na outra extremidade da sala, absorta na palestra. Não percebeu que eu a buscava diligentemente com os olhos giratórios quase extrapolando os limites das órbitas. Não havia como sinalizar. Os colegas que estavam à sua frente (pois, por azar, ela estava recuada com relação ao grupo que participava da atividade) até perceberam minha atitude, aparentemente, indiscreta. Mas que fazer se um colega está sendo indiscreto durante uma palestra? Ignorar? Sim. Ignora-se o sujeito como se ele tivesse se tornado, por mal das inconveniências, tal qual um Ahasverus, o judeu que, segundo informações colhidas, foi o herói, o mito romântico errante, um homem sem morada fixa e estranho em toda parte, rejeitado por todos. Parece até uma norma este comportamento de grupo, um padrão protocolar.

Contudo, por exemplo, se o sujeito estiver tentando ser discreto ao máximo possível pedindo socorro através do olhar inquieto enquanto o assento de sua cadeira arde em chamas, certamente ele terá o traseiro completamente carbonizado sem que ninguém faça sequer um gesto de indagação com as sobrancelhas sinalizando “Que pasa, hombre?”.

Porém nem tudo neste mundo conspira para que a tragédia seja o único final possível e certo em uma história. Eu trazia em meu bolso o meu bloquinho de notas que por diversas vezes salvou minha vida ou substituiu minha não prodigiosa memória. Tive a idéia do bom e velho bilhetinho que tanto se assemelha a uma prática de um estudante tímido, como o qual fui durante meus longos anos de empastelamento escolar. Aquela velha forma de comunicação provou mais uma vez sua eficácia. Escrevi o pedido de socorro à colega que detinha o poder de controlar o ar condicionado da imensa sala inteirinha. Tive o cuidado de comunicar o nome da destinatária somente à colega que se sentava ao meu lado, a que fora homenageada muitos anos antes de seu nascimento pela canção da banda americana Boston – Amanda. Ela passou o bilhete a diante e a coisa fez o arco todo das cadeiras em uma viajem mística de quase 260º, porém não sem que curiosos (e estas coisas revelam de um modo peculiar os que não se contém), mesmo o bilhete sendo nominal por fora, lessem o conteúdo.

O bilhete chegou até as delicadas mãos da colega que, imediatamente, levantou-se e salvou diversas vidas ao desligar o ar para depois regulá-lo de modo a não congelar-me a orelha direita e nem promover a pneumonia comunitária do grupo que estava ladeado comigo.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails