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sexta-feira, agosto 31, 2012

O TREINAMENTO [O AR QUE RESPIRO É O AR QUE ME RESPIRA]

Não basta ter uma narrativa agradável, é preciso teor cultural para a crônica valer a pena de verdade. Não sei como é para os outros escritores amadores como eu, mas acho complicado depurar uma prosa boa, que valha a pena, a partir de fatos corriqueiros do cotidiano, sem nada mais literário. Sempre acho que o motivo para um texto razoavelmente interessante seria um fato de proporções extraordinárias, ao menos no imaginário de quem cria o texto. O comum é comum e me parece estar destinado ao lugar comum, à caixa de papéis velhos, ao quarto de despejo, ao velho baú de enxoval, ao esquecimento. E tudo vai sendo esquecido, e tudo vai sendo puído, e tudo é corroído pelo ar que ali também ficou aprisionado e não se renova. É o ar o provável responsável pela deterioração de tudo que está contido dentro desta bolha atmosférica. É tudo culpa do ar. E até chegar a esta conclusão, eu nunca havia entendido o verdadeiro motivo pelo qual pessoas de idade avançada possuem verdadeiro pavor por portas e janelas abertas. Por ventos e brisas. Por ar. E, principalmente, por ar condicionado, é claro. Até bactérias precisam de ar para nos destruir. E as que não precisam diretamente do ar, precisam de substâncias e seres que precisam de ar para a própria constituição dos tecidos e destruição vindoura.

sábado, agosto 25, 2012

INFAUSTA CORRIDA, O CHOQUE

Naquele dia, quase conheci o meu fim grudado à campainha de minha própria casa. Tudo começou quando dobrei à esquina, correndo, sob forte vento e violenta chuva em diagonal, sob clarões titânicos tétricos que acendiam a rua, que já tinha metade de sua claridade por conta da iluminação pública. Um céu sarcástico bradava tempestuoso contra qualquer ser insolente que teimasse em não esconder-se. No caso, o transeunte teimoso era este cronista que vos fala. Mas antes de chegar à esquina, eu corria para sair da avenida onde corro todos os dias. Por grande coincidência, meu pai, que passava de carro pelo local, me viu e ofereceu carona, ao que recusei com um vigoroso gesto ‘Siga em frente, que estou bem!’ que não deixou dúvida de que eu estava resoluto em seguir enfrentando a fúria da natureza por mais duas quadras e meia até chegar em casa por meus próprios passos encharcados. Ele sabe que sou mesmo assim, decidido. Deve me achar meio falto de um parafuso, mas isso não importa. Este parafuso nem faz lá muita falta. Se é que realmente falta. E voltando à avenida, eu subia os primeiros canteiros das quadras sendo castigado pelos densos pingos que me faziam procurar por pedriscos que justificassem a dor das picadas em minha pele. Tudo debaixo de espetaculares clarões dos raios que me intimidavam testando minha valentia. E não vá dizer que não tem medo de raios estando molhado e a céu aberto que eu lhe desminto de pronto. E antes de ganhar os canteiros da avenida, passei grande apuro ao cruzar a rua que fica ao fundo da represa. Nada impedia a saraivada de densas gotas que açoitava a metade esquerda de meu corpo impiedosamente. ‘Pobre de meu rosto! Ai de minha orelha! Coitado de meu ouvido! Certamente inflamará, a não ser que eu pratique alguma profilaxia’ eu pensava. ‘Não! Isso não! Auto medicar-se é um crime. Um crime de ignorância e desinformação. Sou um profissional da área da saúde, oras. Como diria o apóstolo Paulo, “Nem tudo que posso me é lícito”. No mais, na verdade na verdade, nem posso. Não sou médico. Não farei isso. Acho que não. Não sei. Mas deixe estar o meu ouvido. Que o tempo se encarregue de nossos destinos, meu e de meu pobre ouvido. Voltemos ao fundo da represa. Ou melhor, antes do fundo da represa: ’ Quando eu fazia a curva ao pé da enorme, gigantesca árvore que ali habita, creio seja uma farinha seca, o céu estava mesmo carregado por nuvens densas e com uma cor cinza escura muito funesta. Mas quem é que sabe o exato momento em que cairá uma tempestade? Eu bem que desconfiei. Antes de estar ali, sob aquele céu fero, eu descia velozmente a avenida que leva à represa. Seria perfeito, caso a chuva retardasse em, aproximadamente, quarenta minutos sua queda. Ao colocar os pés na rua, intuí que teria que ser rápido como um Pégasus. E até antes mesmo de colocar os pés na rua, ainda dentro de casa, eu já me vestia apressado. Tinha pressa assim que cheguei do trabalho. O céu estava muito rente ao solo. Temi. O céu assim tão perto do chão pode não ser um bom sinal. Alguém pode acabar subindo, sei lá. Há sempre o risco quando o céu está tão baixo. Era a agonia de um arrebol do pós dezoito horas em início de outono. Cheguei a comentar que iria dar uma corrida rápida, e com sorte voltaria antes da chuva. Minha irmã estava aqui em casa, fez cara de dúvida, fez cara de incerteza, fez cara de incerteza misturada com dúvida. Eu já estava decidido. Não haveria cara que me dissuadiria de meu propósito. E meu propósito era o de correr. Corri quase nada. Dos quarenta minutos planejados, corri menos de quinze. Correria mais, mesmo sob vento e forte chuva, caso não houvesse relâmpagos. O problema é que tenho medo de relâmpagos. Tenho medo de tudo que é modalidade de choque. Estava encharcado ao chegar diante do portão de casa. Quase fiquei grudado na campainha. Como disse no início deste, tomei um baita choque.

terça-feira, agosto 14, 2012

INFAUSTA CORRIDA, A QUEDA

Noite de sexta, eu fui correr. Tudo bem, tudo tranquilo - quase ninguém faz isso aqui em minha cidade numa sexta à noite. Os barzinhos ficam lotados e a avenida fica vazia de caminhantes e corredores. Apenas carros passam em número considerável. Em uma das margens do lago, a mais distante da entrada da cidade, pescadores urbanos lá estavam com seus banquinhos, equipamentos, ambições, reflexões e cigarros para compor a cena.

Pra não dizer que apenas eu praticava atividade esportiva, havia uma moça caminhante, um casal que também caminhava, um corredor careca pouco ou nada simpático. Passei pelo careca que não deu o menor indício de que retribuiria meu político ‘boa noite!’ - sou desses que cumprimenta a todos. Logo que passei pelo calvo, veio pela frente uma pequena mangueira frondosa cuja copa domina o espaço aéreo sobre a calçada. E havia um caprichoso buraco ali no chão, justamente embaixo da árvore. Confluindo o buraco e o mau olhado do careca, a ponta do meu pé alojou-se na loca apenas o suficiente para fazer a alavanca que me arremessaria para frente num golpe inapelável. Vi quando o chão se aproximou rapidamente de meu rosto. Pensei “A cara não!”.

Logo sobreveio o som sólido e surdo do osso batendo contra o cimento. Ecoou dentro de minha cabeça e teve por fundo a música em meu fone. Ironia das ironias. Naquela hora ingrata, eu ouvia uma do Linkin Park – Hit The Floor. E não é que o título da música significa ‘acertar o chão’. Acertei... Mas aconteceu que, num ato reflexo, elevei os braços diante do tórax - o direito foi quem alcançou o chão primeiro salvando o rosto do impacto. O braço ralou-se todo, mas o rosto eu ergui intacto. Quedado frontalmente, fiz rolar sobre o membro ferido. Ergui-me a procurar o MP3 que havia se desprendido da capinha suporte sendo lançado mais à frente. E com o pequeno aparelho em mão, continuei correndo de cabeça erguida. Sequer olhei para trás para ver se do barzinho mais próximo alguém admirava minha queda reativa. Pouco me importava. Eu estava correndo novamente.

Fui até o final do percurso sem perder de vista a dignidade. Um cara que também corria e passaria por mim na direção oposta, logo em seguida, ficou olhando muito, usou de toda indiscrição que dispunha. E não perguntou nada. Era apenas curiosidade. E como perguntar se estava tudo bem ao ver o cara cair, rolar para o lado e continuar a corrida? Minutos depois cheguei a minha casa com o braço dolorido, ralado e pronto para escrever a desventura de acertar o chão.

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