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domingo, maio 27, 2012

GENÉRICO

Certa manhã, a cidade vermelha amanheceu cinza. Genérico viu que a cidade estando cinza era diferente. Viu também que aquilo era bom. Além do quê, uma mudança de ambiente poderia produzir sutis alterações positivas em seu estado de humor, em seu ânimo. A rotina, por mais segura, por vezes o enfadava um tanto quanto. E mesmo pequenas mudanças, aparentemente irrelevantes na ordem do dia, poderiam ocasionar algo que os consultores chamam de fator motivacional extra. Contudo, não imaginava nem de longe que aquilo pudesse ser o prelúdio de uma manhã sombria.

Durante a semana, Genérico vendia movimentos naturais, buchas vegetais, especiarias em saches e filosofia empírica aplicada, além de uma gama imensa de outros produtos fornecidos de acordo com o gosto e necessidade específica revelada por cada cliente seu. Atendia e entregava em domicílio.

Não era um ramo lucrativo e nem prestigioso. Seu trabalho era, na verdade, quase filantrópico. Sem qualquer lucro, ganhava apenas para o sustento próprio e de sua família. Contudo os clientes juravam surtir grande efeito na qualidade de suas vidas o consumo do combo de incontáveis produtos e serviços que combinavam, por exemplo, aconselhamentos gerais e massagens de efeito peristáltico numa mesma sessão.

Nove horas e três minutos: Genérico, com a chave do carro, bate no portão de aço do número 71 à rua Guatemala duas ou três vezes. Quase sempre o suficiente para que fosse atendido, exceto nos dias em que dona Arlinda não queria ver ninguém e simplesmente não aparecia para abrir o portão.

Atenderia ao seu José Aristides, o seu Zé Ari. Frequentava o local havia um ano. Havia um vento frio e chuviscava continuamente. Seu Zé Ari o aguardava com os grandes olhos castanhos arregalados e giratórios do costume. Respondeu ao cumprimento de Genérico de pronto. Disse que estava tudo bem, graças a Deus!, e logo torceu o pescoço em direção a sua janela de aço da mesma cor crua do portão e ali fixou toda sua atenção. Parecia extremamente ocupado naquele momento. Alerta à conversa do novo vizinho supostamente paranaense. Hipótese alimentada pela fala cantada e muitos “ors” que ele pronunciava, além dos rumores correntes na vizinhança de que o sujeito seria um migrante de Curitiba, Cascavel ou Ponta Grossa, ou sei lá de qual canto do Paraná.

Seu Zé Ari apontou o longo e delgado dedo indicador da mão direita para a janela e sussurrou a ordem para que Genérico também escutasse os sons que vinham da casa ao lado. O suposto paranaense serrava algo. Parava. Ali do quintal, discutia com a mulher que, aparentemente, estaria em um plano mais afastado, recuado para o interior da casa. A mulher se explicava em um tom lamuriante, súplice, porém não era possível seu Zé Ari e Genérico compreenderem as palavras que ela dizia. Era de dar pena a voz chorosa da pobrezinha que pelo visto só queria desfrutar um pouco mais daquela manhã cinza e “chuviscosa” na cama. O suposto vizinho paranaense serrou mais um pouco, parou e começou a berrar com toda autoridade que alguém possa impingir no tom de voz. Algo absoluto e plenamente revestido da convicção de posse da razão. A mulher tentava chorosamente explicar-se, justificar-se do interior da casa, provavelmente ainda da alcova, mas a voz do homem era firme demais. Ele dizia que não via futuro naquilo. E repetia que não via mesmo futuro naquilo. Dizia em voz altiva, firme, sólida. Zé Ari olhava para Genérico, Genérico olhava para Zé Ari, ambos olhavam para a janela enquanto Genérico, levemente tenso, abria sua maleta de utensílios praticamente de alquimia e retirava lá de dentro um diapasão que utilizaria durante a sessão.

Obs. Este episódio terá continuidade nos próximos dias. Só não o postei inteiro para não cansar quem me lê agora. Temos muitas coisas a fazer, um blog não tem o direito de roubar mais do que cinco minutos de atenção, creio.

sexta-feira, maio 11, 2012

ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ – PARTE III

Ao descer no terceiro ponto de ônibus e pisar o chão da Avenida Atlântica, Teddy já sabia que a coisa seria mesmo de doer mais do que supusera quando partiu arrependido de sua mancada de São Paulo rumo ao Rio. Repentinamente, recordou-se de que ali pisara em inúmeras manhãs ensolaradas que lhe resplandeciam pelo trajeto do utópico caminho da felicidade eterna.

Trêmulo, tentando conter suas mãos nervosas, úmidas e geladas, postou-se diante do edifício São Miguel Martinho e expeliu bem mais que um suspiro contristado, bufou longa e melancolicamente. Hiroshi, o porteiro, que o que tinha de irônico proporcionalmente tinha de gago, assim que avistou Teddy, mudou seu semblante de neutro para fechado e entediado. Teddy teve a forte impressão de que o porteiro chegou a fazer um sinal de reprovação com um meneio de cabeça e elevação de sobrancelhas, porém, se o fez de fato, fora muito discreto, impossibilitando a certeza do gesto reprovador e desdenhoso. Fechou o bico da mangueira com a qual aguava os lírios e outras plantas do jardim da fachada do prédio e jogou o objeto de hidratação no chão sem qualquer cuidado. Enfiou a mão no bolso dianteiro da calça e retirou um molho pejado de chaves. Caminhava e perscrutava lentamente o monte em busca da pequena lamina que supostamente abriria o portão para que o visitante freqüente adentrasse mais uma vez o local. Foi neste momento que ressonou o timbre da voz imperiosa da mulher dourada por trás da nuca de Teddy. Com um leve movimento rotacional de pescoço, acompanhou Isa tomar seu campo de visão vestindo um short azul marinho de corrida, camiseta e meias brancas, tênis preto e um boné azul safira pelo qual lhe escapava o louro longo rabo de cavalo. Isa estava levemente ofegante, porém, senhora de seus movimentos, olhou Teddy nos olhos sem dizer qualquer palavra. Olhou também Hiroshi que imediatamente deixou-se tomar por repentina pressa. Agora ele agitava o molho de chaves entre suas mãos e num instante apontava a qual corresponderia à fechadura do portão. O portão se abriu, Isa adentrou, fez um gesto para que Teddy lhe acompanhasse e agradeceu Hiroshi com um pequeno sorriso e a palavra obrigado anexada ao nome do porteiro.

No elevador, o casal não trocou palavra. Isa olhava a luz do teto da caixa com uma mão na cintura e a outra tamborilando o espelho atrás de si, Teddy olhava o reflexo de Isa no espelho situado diante de ambos. Ao parar no oitavo andar, Isa saiu imediatamente ao abrir de portas do elevador. Teddy pareceu hesitante por um breve instante. Isa já ia adiante e tirou a chave por de trás de uma guirlanda pra lá de fora de época, e abriu a porta. Fez um gesto para que Teddy entrasse na frente, Teddy retribuiu o gesto, ela entrou. Ela deu um passo e parou ali mesmo, no hall de entrada, e mostrou uma grande mala preta de nylon diante do vaso de comigo ninguém pode. Era flagrante a surpresa estampada no rosto de Teddy. Ele olhou para a mala, olhou para Isa, repetiu o gesto e perguntou se estava tudo ali. Com uma afirmação lenta e muda de cabeça ela fez que sim. Ele perguntou se ali estava o seu CD do Noel Rosa e os do Pixinguinha. Ela repetiu o gesto. Ele perguntou se os livros autografados de Marcelo Rubens Paiva e Mário Prata também estavam ali. Ela fez mais uma vez que sim. Teddy ficou em silêncio por um instante. Eram muito óbvios seu espanto e perplexidade. Isa acrescentou que ali também estavam todas as roupas que o rapaz havia deixado ao longo de dois anos de namoro, e fotos também. Tudo ali. Teddy lembrou que a mala não lhe pertencia. Isa disse que era um presente. Teddy disse que fazia questão de devolvê-la, disse que enviaria. Isa disse que não era necessário. Teddy insistiu com veemência apostando no ato que resgataria algo de sua dignidade. Isa demonstrou certa impaciência e disse que se Teddy fazia tanta questão de lhe devolver a mala, que a enviasse então aos cuidados de Hiroshi. Teddy ergueu a mala do chão e ficou mudo. Isa já olhava para a parede e suspirava com vigor. Teddy apertou a alça da mala com toda sua força e volveu o corpo, num passo estava fora do apartamento. Isa colocou a mão na maçaneta e fez o gesto que demonstrava sua intenção de despedir o rapaz e fechar a porta. Teddy já estava fora do apartamento e da vida de Isa. Isa disse para que ele tivesse boa sorte e fechou o pouco que restava para fechar.

sábado, maio 05, 2012

ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ – PARTE II

Eu nunca tive nada a ver com Teddy Lombard. Ele, ou a figura dele, melhor dizendo, nunca me convenceu de nada. E não tenho nenhum parentesco com Teddy, como possa supor. Sequer somos ou fomos grandes amigos em qualquer época. Sou simplesmente o narrador e isso tem que bastar. Acho que estou bem à distância. Cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém.
Sei que era uma figura, um tipo. Era escritor sem editor ou livro, um quarentão sem mulher ou filhos, um cineasta sem filme ou recursos de patrocínio, um artista plástico sem exposição ou obra, um ator sem papel em lugar algum, nem em comercial de sandálias, um cantor, compositor, arranjador sem música, sem banda, sem instrumento, um ex jogador de futebol sem camisa, carreira. Tinha pose para tudo quanto havia neste mundão de Deus, porém feito mesmo que é bom, nenhum.
Desde que tomei conhecimento de sua existência, o que já faz uma pá de anos, ele sempre morou num pequeno apartamento de um decrépito edifício comercial situado na Augusta. Era freqüentador assíduo da padaria da esquina, a do português Marcel, uma que tinha ou tem no cruzamento da Augusta com a Paulista.
Seu apartamento fora escritório de seu pai durante as décadas de 70 e 80. Seu pai, um obscuro advogado sem causas, morreu em circunstancias misteriosas. Fora encontrado dentro da banheira de um hotel em Campinas durante uma convenção de fonoaudiologia. Após a morte do velho, logo morreu também sua mãe. Solitário, vendeu o apartamento em que morava na Zona Sul e se mudou para o antigo escritório do pai. O escritório estava hipotecado, contudo, pelo tempo em que o processo se arrastasse, Teddy não precisaria se preocupar com moradia e ou aluguel.
Aos dezoito anos ficaria marcado para sempre pela leitura de On the Road e obcecado pelas bandas que compunham o chamado Big Four of Thrash.  Tendo por único amigo e confidente Walter Hego, não se relacionava seriamente com ninguém mais. Foi nesta ocasião que ele a conheceu. Aos 40, vivia o ápice de sua adolescência tardia. Foi justamente aí que Teddy começou a encontrar a pista de seu trágico destino. E quer saber? Acho que o cara não merecia o que fizeram com ele não. Aliás, ninguém merece...

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