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sábado, abril 28, 2012

ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ – PARTE I

Pilosa vida! E quando ela abriu a porta do seu mundo ela abriu mesmo. Abriu a porta da frente, escancarou-a. E não foi que o remelento resolveu sair justamente pela porta dos fundos, a que se reserva ao despejo do sujeito sem honra, da sujeira. Já era! Já foi. E o coração galopava e parecia tudo estar completo quando estava ao lado dele. Foi verdadeiro enquanto durou e durante um bom tempo bom. E que pena, que pena que acabou! Poderia ter se casado com ele, ter tido filhos com a cara dele, meninos e meninas. Geraria com gosto filhos daquele homem em quem ela sempre reconheceu algo do crápula romântico que fora seu pai. Ele era duro de grana, feio de compleições, não tinha nem onde cair morto sem fazer prestações no cartão de crédito, mas ela o amou com todo o coração que dispunha no momento. Não se importava com a vida modesta que ele lhe prometia. Perdeu completamente o juízo. Entregou-se de uma maneira que atualmente não se vê nem na tevê e nem nos livros mais ou menos realistas. De uma maneira nada aconselhável nos dias atuais. Na ponte Rio/São Paulo colocou toda sua ansiedade. Foi colecionando um relicário de delicadas memórias em comum. O casamento da amiga, a formatura do amigo, o aniversário do pequeno filho da outra amiga, o velório do parente velho e acabado... E hoje, após tantos dias no amargor da decepção, mal dizendo tudo que é homem que anda sobre a face da terra e veste calças, e gosta de mulher. Perdeu a noção de quantas vezes passou o pano sobre o chão limpo de seu quarto. Arrumou até o que já estava arrumado. E o pior não foi acabar, foi a maneira triste e barata como tudo acabou. Tão sem esperança, tão sem ter do que se orgulhar, do que sentir saudades. A saudade seria uma fraqueza sua. Francamente, a saudade, ali no caso, seria um desvio de caráter, uma falha de amor próprio, baixa auto estima. E agora? E agora José? O que fazer? Juntar alguns trocados e cacos e sair pela cidade maravilhosa sob a sombra do azar de encontrar um outro crápula? Quantas vezes ela se apaixonasse, quantas vezes ela se entregaria de corpo e alma a outro daqueles? Seria aquilo um substantivo masculino carma? Seriam o seu fraco os homens fracos? E nem a saudade lhe era de direito, nem isso. Mas o que que é isso?! Este mundo não é justo! It's not right, this is not good.

sábado, abril 14, 2012

BRB - O FIM DO MUNDO ENFIM

Amanheceu surdo como uma pedra. Estava disposto a distorcer sobremodo o significado de cada frase que percebesse ser emitida em sua direção. Pela expressão do rosto de seu interlocutor, apenas pressupunha o teor das palavras. Respondia com o que lhe viesse à mente. Por exemplo, ao perguntarem se dormiu bem, respondia que fazia frio naquela manhã e que não havia a menor chance de o sol surgir. Mas se lhe oferecessem café e pão em sua direção, aceitava e agradecia.

Havia tempo que estava invocado com os pedreiros. Todos os dias, antes que a família (filho, nora e dois netos) saísse para seus afazeres, dizia que os pedreiros não respeitavam a casa na ausência dos donos. Por estar cada vez mais surdo, a cada dia repetia as acusações em volume mais audível aos acusados. Apenas a família ficava constrangida, pedia para que falasse baixo. Não adiantava. Dizia que o pedreiro mais velho, o sujeito ruivo e barrigudo, era o mais abusado. Dizia que o folgado até abrir a geladeira abria e beliscava as comidas. O mesmo sujeito lia o jornal com os pés sobre uma cadeira, largava o jornal e ligava a tevê da copa, ficava mudando os canais feito um louco desvairado até encontrar um canal que o filho jurava jamais tê-lo assinado e que só constava ali por conta de um erro da operadora. Reclamava também do rapazinho que outrora elogiara, o servente. Disse que o mais velho estragou o garoto que seria tímido e educado no princípio, mas que agora era o mais ansioso para sair antes das dezessete horas, horário de encerramento do turno. E que também saía durante o horário de serviço, e atendia o celular, montava em sua bicicleta e aparecia meia hora depois, às vezes até mais.

Bob/Rock/Blues reclamava também da mulher que cuidava da limpeza e ordem da casa. A mulher era já uma instituição familiar. Estava na casa desde que o mais velho dos filhos, o de onze anos, nascera. Bob/Rock reclamava que a mulher levava uma eternidade para atender ao badalar da sineta, e que toda vez que vinha era com pressa para retomar o serviço da casa. A funcionária era uma pessoa séria e não gostava de conversa. Trabalhava sempre compenetrada em realizar da melhor maneira possível o serviço todo da casa. Na verdade, detestava ser interrompida.

Havia também a mulher que cuidava da roupa da família. Esta ia apenas duas vezes por semana na casa. Ficava na lavanderia, na área de serviço. Quando ouvia Bob/Rock/Blues chamar, apenas avisava a outra, e jamais fora ver o que o velho desejava.

Ás oito horas, chegava a enfermeira de Bob/Rock que ficava durante o dia. Esta ele dizia que era paga para ver televisão e falar ao celular com o namorado, um rapaz todo tatuado cujo qual certa vez Bob/Rock indagou ao próprio, ao vivo, na lata, se era maconheiro. E por conta de brincos, já em outra oportunidade, perguntou se o rapaz era veado, neste exato termo. A moça auxiliava no banho e dava os remédios do horário e alimentava o ancião com grande rigor e eficiência. Colocava o homem para tomar um pouco de sol. Guiava-o pela casa para as atividades de vida diária. E quando tudo estava certo, posicionava Bob/Rock/Blues em uma poltrona e ia assistir os programas matinais antes do almoço e programas de auditório pela tarde, novelas também.Coisas que Bob/Rock odiava declaradamente.

Mas naquela manhã, Bob/Rock não quis esperar até que a jovem enfermeira chegasse. Assim que a família partiu para suas respectivas ocupações, com grande dificuldade, ergueu-se da mesa do café apoiado na cadeira e depois na própria mesa, tomou o andador, que estava próximo, e, sem ser percebido pelo pessoal da reforma, que estava em um cômodo do fundo da casa, saiu pela garagem. Por descuido de alguém ou providência do destino, o portão estava aberto. Cuidadosamente, desceu a rampa e ganhou à calçada. Queria fazer uma caminhada? Queria fugir de casa? Queria chamar a atenção? Queria ver o movimento da rua? Queria apenas exercer sua condição de individuo livre, em termos? Queria apanhar uma flor justamente do canteiro no qual rachou o crânio? O que Bob/Rock/Blues queria ou planejava ninguém soube explicar com segurança. Sabe-se que fora encontrado inconsciente, ferido, caído na calçada com a cabeça, o rosto e a camiseta do Ramones ensanguentados. A vizinha foi quem o viu primeiro. O fato é que,daquele dia em diante, Bob/Rock/Blues não mais foi o mesmo.

sexta-feira, abril 06, 2012

BRB - REALIDADES SUBVERTIDAS

Estaciono o carro, desço, caminho cerca de quinze metros, toco o interfone, digo quem sou, o portão destrava, entro, atravesso o corredor, subo a escada do alpendre, aguardo à porta, uma pessoa vem, me cumprimenta, pede para que eu entre, comenta sobre o forte calor daquela tarde, introduz-me na sala onde Bob/Rock/Blues está sentado diante da televisão. Ele está em sua cadeira de rodas, de frente para o aparelho, mas não assiste a tevê, está inquieto, parece estar procurando por algo. Cumprimento-o, ele responde com pouca atenção, parece apreensivo, está perscrutando o chão a seu redor, olha para mim, sorri discretamente vendo que o observo, digo 'boa tarde!', ele diz que a tarde é boa só pra mim, e que pra ele é uma segunda feira das bravas. Diz que logo cedo lhe vieram com um sofá todo estropiado pra arrumar, um todo danado, todo fuleiro: "queriam que eu desse jeito, logo cedo, o sofá não tinha onde estar pior; logo vi que era mesmo segunda feira", disse. E continuou falando: "pra piorar, a dona que tem um avião, aquela que tem um avião que sempre está estacionado aí na frente, sabe?; você deve saber sim, só não está lembrado; pois é, logo que abri as portas da oficina, eu conversava com o homem do sofá, o trambolho encima duma charrete, aí a dona chegou com a chave do avião e me pediu para que eu guardasse; pior, perdi o diabo da chave do avião da mulher; você não viu a chave?; me ajuda a procurar; imagina se dizem que eu roubei a chave; imagina se alguém encontra e foge com o avião; aí dirão que roubei o avião; não quero nem pensar uma coisa dessas; mas só podia ser mesmo segunda feira; o homem nem deixou o sofá pra arrumar; eu dei o preço e ele achou muito caro; vê se pode; muito caro...; e eu queria mesmo era ficar à toa; onde já se viu trazer um troço daqueles pra concertar; aí me vem essa mulher com o raio da chave do avião e eu perco; e essa mulher não é de brincadeira, ela vai querer a chave assim que chegar; mulher antipática dos infernos, mulher chata!, ela é chata pra caramba; um abacaxi. Abacaxi."

domingo, abril 01, 2012

BRB - O COMEÇO DO FIM DO MUNDO

“Olha aqui meu braço. Vê? Pernilongo... Foi um pernilongo quem fez isso. Vê se pode!” Ele disse mostrando um grande hematoma oval em seu antebraço direito, algo do tamanho de um ovo médio. Em seguida, ergueu a manga da camiseta branca de malha estampada pelo candidato a vereador na eleição passada e exibiu outro hematoma. Este em seu braço esquerdo, sendo ainda maior do que o anterior. Era redondo e tinha em sua circunferência o diâmetro de uma laranja. Mostrou e enfatizou: “Foi o maldito pernilongo quem fez isso.” Mostrou outros hematomas menores espalhados por seus braços brancos, frágeis e delgados. Atribuiu todos ao pernilongo. Aquele hematoma no braço esquerdo impressionava não só por sua forma exata, bem delineada, mas por seu relevo. Tratava-se de um hematoma em alto relevo, na cor vinho, e parecia poder romper e extravasar a qualquer momento. Segundo Bob/Rock/Blues, aquele seria o pai de todos os hematomas.

A cuidadora, com certa pressa, como se fosse responsável por manter a mínima coerência no recinto, entrou pelo quarto com um copo de água para o homem e disse que aquilo fora o resultado de um tombo que ele levara no final de semana quando passava o dia na casa da filha, em Ribeirão Preto. Bob/Rock/Blues não gostou nada da intervenção da mulher. Olhava-a com certo desprezo e total reprovação, como se a mulher não dissesse nada com nada, como se ela fosse uma tola estouvada. Então ele aguardou que ela se afastasse. Sentado na borda da cama, esticou o pescoço para certificar-se de que ela ia longe pela porta que dava do quarto para a sala e continuou examinando o pai de todos os hematomas, impressionado com a obra maior do pernilongo, seu algoz.

“Eu não sei onde Deus estava com a cabeça!” “Como?... Quem?!” “Deus, ora. Não sei onde ele estava com a cabeça quando inventou o pernilongo.” “Seu Bob/Rock/Blues, quer dizer que agora o senhor entrou para a oposição?” Ele não respondeu nem que sim nem que não, tampouco sorriu. Continuou passando a mão e examinando sua coleção de hematomas. “Maldito pernilongo! E a gente não consegue matar ele nunca. Quando a gente vai pra matar, o bicho foge. E pra matar um bicho desses, só se for na bala. Ele é muito esperto.” “O senhor já experimentou colocar um repelente aqui?” “Ih, já tentei de tudo que você pensar, o bicho parece até gostar dessas coisas químicas, aí é que ele fica doidão e pica a gente pra valer.” De repente Bob/Rock/Blues arregalou os olhos em direção à janela de seu quarto. “Shiiiiu. Não olhe agora. Ele pousou na janela, no parapeito. Finja que vai pegar alguma coisa e veja..., mas não olhe direto pra ele..., pode espantá-lo” Sussurrou como se coordenasse uma delicada manobra de guerra. Conforme Bob/Rock/Blues ordenou, fiz. Sob pretexto de apanhar a bisnaga de gel para hematomas sobre o criado mudo, voltei-me discretamente de perfil para a janela cuja qual eu estava de costas até então. Foi quando vi a silhueta do bicho que estava pousado sobre o parapeito. Da extremidade de seu probóscide, a ferramenta perfurante usada para sugar o sangue da vítima, no caso, algo semelhante a uma grande tromba, à extremidade de seu abdome, o bicho tinha o tamanho de uma águia, um carcará, cerca de cinqüenta centímetros de comprimento. Com suas pernas longas então, era bem maior que um carcará. Ele parecia olhar fixamente Bob/Rock/Blues com a finalidade de inibi-lo. Por algum tempo, fiquei imóvel com a bisnaga de gel em uma mão e com o olhar abestalhado em direção a caixa do medicamento que estava na outra, como se lesse as inscrições da embalagem. Bob/Rock/Blues olhava fixamente para o inseto, tinha ódio no olhar. Em contrapartida, o olhar do inseto certamente seria indiferente, desprovido de qualquer afetação ou emoção. Ele apenas aguardava o momento que lhe parecesse adequado para mais uma refeição.


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