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domingo, fevereiro 26, 2012

RODOVIA CÂNDIDO PORTINARI

Um soldado na pista sinaliza para que os carros usem somente a faixa da direita e reduzam a velocidade. “Vai de vagarinho. De vagarinho. Por aqui!”: diz o soldado. Os condutores obedecem, os carros se alinham. O sol do meio dia é forte. São muitos os veículos que trafegam naquele momento no trecho de pista urbanizada de lado a lado. A periferia encontra os cantos e se instala. Casas populares abrigam famílias, rendem votos, ocupam o perímetro urbano até à beira da pista. Sigo pela rodovia. A ambulância pisca suas luzes rotatórias logo à diante. Viaturas da polícia ocupam o acostamento. O povo lota a passarela à frente e os arredores da cena. Povo de todas as cores, tamanhos e formas. Povo de vestido longo e cabelo amarrado, é crente. Povo jovem e forte, sem camisa e com o peito à mostra, é mano. Povo que para a bicicleta e encosta a magrela no quadril enquanto olha, é curioso. Povo que cruza os braços enquanto observa, é maioria.

Os carros seguem cada vez mais lentos e enfileirados. Ocupam meia pista, conforme fora ordenado. Logo passarei pelo foco principal da cena. É inevitável. Mas posso desviar o rosto e olhar para o lado, não olhar o centro da movimentação, não carregar para casa a culpa por uma curiosidade mórbida. E no mais, venho de um lugar onde tive um momento muito agradável. Comprei uma bomboniere. A recheei com balas e bombons. Embrulhei tudo em papel de ceda rosa e celofane transparente. A moça fechou o embrulho com um laço de fita vermelha. Estou fechando uma manhã de levezas.

Não preciso olhar a tragédia que sinto a cada metro avançado. Contudo a tragédia se impõe. Mulheres choram. Uma é delgada, chora amparada por outra que é obesa e mais baixa. Ambas não são brancas. Ambas não são amarelas nem pardas. Ambas não são negras. São pessoas pretas. Sobre elas paira uma sombra preta fosca que lhes tragara toda e qualquer luz que pudessem refletir na manhã resplandecente. A sombra lhes apagou as feições, lhes roubou a nitidez dos traços. Para elas não há sol, pois é dia de tragédia.

E o que você tem a ver com isso? Com isso tudo? Com essa tragédia anunciada aos verbetes, aos goles, de pouco em pouco? Você nem mesmo comprou os bombons que eu comprei para dar de presente. Você não comeu o churro que eu comi, e nem tomou o sorvete misto com forte sabor de leite que eu tomei. Isso não é justo. Compartilho a amargura, a desgraça alheia, mas não lhe ofereço das doçuras. Pare de ler essa coisa agora. Vá se divertir. Aqui tudo só vai piorando enquanto o meu carro progride e para, progride e para.

A comunidade [e comunidade é coisa de periferia, não se chama comunidade o povo que se agrega no bairro de classe média] se aglomera para ver o cenário de choro marginal à pista. As mulheres pretas choram pelo homem que vem deitado dentro de uma caixa plástica cor de laranja transportada por dois sujeitos do resgate e dois prováveis voluntários. Ele tem cabelos crespos que pedem por corte. Ele tem barba cheia e é magro. Não é branco e nem negro. Não é amarelo e nem pardo. Ele é preto fosco como a noite sem estrelas, como as mulheres que lhe choram a desventura daquela manhã ensolarada. Nele incide a sombra que bloqueia o brilho do dia. E é estranha aquela cor de noite sem estrelas. Aquela cor sem cor e sem alegria. Seus pés estão descalços. E as solas de seus pés são brancas como velas. Ele não tem sandálias. Não tem sandálias e parece nem ter vida. Chico Buarque diria que ele morreu na contra mão atrapalhando o trânsito? Talvez. Mas seria precipitação juvenil. Chico, ao dizer isso, não atinou que quem morre na contra mão também morre na mão. Tudo é uma questão de deslocamento, de trânsito. Mas aquele homem pode ter morrido de tiro. Eu não vi sangue, mas àquela distância, aquela falta de cores, aquela sombra. Nada favorecia a observação de detalhes confiáveis. Pode ser que estivesse envolvido com narcotraficantes e, mesmo sem perceber, tenha pisado na bola de modo injustificável e irreversível. Essa gente do tráfico é muito rigorosa. Pisada na bola é fato, resolvem no tiro. Tiram a vida do malandro e fim. Mas quem é que sabe se o sujeito era malandro de fato? Vai que fosse um pai de família em final de expediente de sábado. Sábado o trampo termina próximo à hora do almoço e o sujeito vai tomar umas geladas para refrescar as idéias pagãs. Vai imaginar mulheres ensaboadas brincando em uma banheira em algum lugar do mundo. Vai falar que seu time, aquele time que mais dissimula do que joga, aquele time que é na verdade uma grande jogada de marketing, vai ser o campeão da galáxia. E vai que o sujeito nem tá morto de fato. Vai que as mulheres pretas choram e não se aproximam por puro terror da comunidade que lhes olha e devora a cena com os olhos. Vai que não se aproximam por estarem inibidas pela passagem lenta e curiosa de tantos carros. Um sujeito de bermuda e camiseta tira fotos. E o que aquele cara pretende fazer com as fotos do homem preto e aparentemente inerte na caixa laranja plástica? Será um jornalista que ia passando, ou seria um facebookeiro preparando material para compartilhar com seus amigos de rede? Enquanto isso a fila anda, o carro segue. Transferem o homem para uma maca. Talvez ainda tenha vida. Porém ninguém lhe acode. Parece uma causa perdida. Não são feitas manobras que o reanimem. Não lhe é oferecida nenhuma máscara de oxigênio em cilindro. Os homens do resgate não aparentam pressa. Executam suas tarefas. Apenas isso. O trânsito aos poucos vai desafogando. É melhor desligar o pisca alerta. Ainda tenho alguns quilômetros de pista para chegar em casa. O sol continua quente. Sigo viagem. As mulheres pretas ficam para trás. Elas derramam lágrimas no asfalto. O homem preto, inerte, fica para trás. Toda a aglomeração vai diminuindo no retrovisor até desaparecer por completo numa alteração geográfica. A comunidade começa a dispersar. Cada um tem uma história para contar. Todos tentam tecer histórias de valentia e conformidade diante dos fatos da vida. Todos estão prontos para ir almoçar e compartilhar os fatos. Eu preciso chegar em casa e tomar um banho frio. Minha família me abraçará. Serei festejado. Hoje é dia de alegria. Eu trago presentes.









quinta-feira, fevereiro 23, 2012

AGATHA CHRISTIE

O apartamento é o mesmo de outras vezes. É a quarta vez que empreendemos essa longa viagem. Um inverno e três verões. Uma família ocupa o local antes de chegarmos. São cinco pessoas. Uma mãe e dois casais de filhos com longa distância de idade entre cada casal. Encontro na sala, sobre o raque, o exemplar ASSASSINATO NO CAMPO DE GOLFE. Alguém está lendo Agatha Christie. Dizem que quem lê Agatha é viciado na romancista policial britânica que só perde para a Bíblia e Shakespeare em número de traduções pelo mundo. Eu não leio. Sei que ela é venerada por tantos, mas ainda não tive um momento a sós com a Duquesa da Morte. Fico curioso, mas já escolhi minha leitura para essa viagem. Três livros trago em minha bagagem, os quais eu penso ainda não ser tempo de revelar. Poirot investiga os casos de Agatha, a família dorme para partir no dia seguinte, e eu também preciso dormir pelo menos oito horas bem dormidas.

domingo, fevereiro 19, 2012

PORTAL DE NAVEGANTES [07.01.2012]

Minutos antes dos pastéis, passávamos diante do parque Beto Carreiro World [temos ótimas recordações dali]. É assim que entramos em Navegantes, entramos por Penha. É uma maneira deliciosa de se chegar a Navegantes. Chegando, fizemos uma oração agradecendo pela boa viagem que tivemos. [sim; oramos ao partir e ao chegar; e quando temos algum súbito imprevisto, algo como uma fechada de um caminhão, não sou de xingar; chamo por Deus; é um hábito adquirido ainda nos primórdios da infância católica avizinhada pela igreja matriz; conheço todos os palavrões correntes, porém não os uso; quase nunca].

E ao atravessar o portal de Navegantes, à nossa esquerda, vemos o mar colossal que arrebenta suas franjas nas pedras. Pareceu-me furioso naquele instante.

[01:51] Tiramos as malas do carro e subimos com elas em duas vezes até o apartamento. Entre uma carga e outra de bagagens, fomos até o mar que fica a cinquenta metros de nossa hospedagem. Foi então que ELA disse ter pensado que pela primeira vez eu não iria até o mar na chegada. E foi então que eu disse, e agora faço saber com a transcrição das exatas palavras que estão grafadas em meu diário de viagem: “Não esfriei a tal ponto. Isso seria como chegar em casa e não ir lhe procurar”. ELA sorriu. Creio que gostou. Mas cá entre nós, ficou bem singelo, não?





terça-feira, fevereiro 14, 2012

A CHEGADA [07.01.2012]

[15:00] [17:16] [19:33] [21:18]... Receio não ter muito a dizer neste momento da viagem. As horas de estrada vão se prolongando. A paisagem muda a cada tanto de quilômetros. Da Anhanguera à Rodovia Bandeirantes, da Bandeirantes ao Rodoanel Governador Mário Covas, do Rodoanel à Régis Bittencourt (BR-116), da Régis à BR-376, da BR-376 à BR-101. Exaustos, sob forte chuva e com mais uma parada quase chegando, só vimos a cidade de Navegantes SC, nosso destino, nos primeiros minutos do 07.01.2012 [00:26]. Aos vencedores, os pastéis. Tivemos a sorte de encontrar uma aconchegante pastelaria aberta. Não tivemos dúvida, foi ali nosso primeiro descanso em Navegantes. Comemos pastéis quatro queijos fritos na hora e partimos para descer as bagagens. Ela achou que eu não fosse ver o mar naquele momento da chegada, mas antes tomar um banho quente e dormir até o dia seguinte. Eu disse que ainda não esfriei a tal ponto. O mar continua me fascinando. Diante do mar, eu me encontro bem mesmo após quinze horas e dezesseis minutos de viagem.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

ON THE ROAD [06.01.2012]

[13:32] Estamos na Rodovia dos Bandeirantes, km 72. Faz sol pra caramba. O Princesão ficaria horrorizado se visse o calor que estamos passando. Quatro horas e vinte minutos de viagem, e é nossa primeira parada. Paramos em um lugar um tanto curioso. Uma placa diz que é o único shopping aéreo da América Latina [e eu acho interessante essas coisas de “O maior da América Latina”, “O maior da América do Sul”, “O maior do mundo”. Neste exato momento, por exemplo, eu sou o único cara da América Latina que está escrevendo este texto; e isso eu digo pra conferir grandiosidade à coisa]. O local em questão é um conjunto comercial cujo alicerce é um viaduto que passa por sobre a Rodovia dos Bandeirantes, ficando assim, de certa forma, suspenso sobre a rodovia. Curioso mesmo é urinar em um banheiro aéreo. Você, enquanto urina, avista os carros que passam por debaixo do viaduto e vê com bastante nitidez seus ocupantes. Se você já passou ali embaixo, certamente foi observado por um viajante que urinava por sobre o seu carro. Estranho isso!

Saímos do nosso banheiro, e elas ainda estavam no feminino [é impressionante, mas mulheres gastam três vezes mais tempo em banheiros do que nós homens; quando questionadas, justificam-se pela anatomia; eu, sinceramente, não sei se é pra tanto; mas esqueça isso que eu disse; elas odeiam ser questionadas sobre este tipo de assunto]. E do tempo de nossas vidas que aguardamos por elas, o que fazer? Eu procuro uma banca e entro pra me perder nas capas das revistas e nos títulos dos best sellers do ano presente e do ano que passou que jamais li, e é como se os conhecesse de tanto ouvir divulgações sobre eles.

E seguimos nosso caminho...

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

ITUVERAVA - GUARÁ [06.01.2012]

[07:28] É hora de escolher um ou dois livros para levar na viagem (na verdade já tenho alguns fortes candidatos). Experimentei um prazer que somente quem está montando uma pequena biblioteca há mais de cinco anos pode entender. Ainda não contei quantos títulos possuo, mas são muitos. Ganhei muitos livros e, além disso, deixei de comprar bastante roupa e calçado para ter vários dos títulos que possuo.

Viajamos em quatro pessoas. Somos dois adultos e duas crianças. Dispomos de um carro popular. Temos que estudar bem o preparo da bagagem e a acomodação da mesma para não perdermos nosso delicado conforto. Penso, calculo, penso mais um pouco, calculo mais um tanto. Não é muito o espaço de que dispomos. Tudo tem que caber no porta malas. Na frente, irá apenas o que comeremos e beberemos durante o longo percurso. Acabo de lembrar de um amigo meu. Tremenda figura o Princesão! O cara não entende como conseguimos viajar por mais de mil quilômetros à luz do dia sem termos um ar condicionado no carro. Fica perplexo o cara. Uma figura o Princesão! Pensa que ar condicionado é item de fábrica de todo e qualquer carro, ou que dinheiro surge no bolso de uma calça mágica.


[07:33] Veridiana está novamente gritando pela mãe. Agora é do quarto que ela grita (não há um intervalo de três minutos entre cada sessão de gritos dela). Deve estar em dificuldades com a bagagem. Agora ela grita e eu grito para que ela não grite. A casa está convulsiva em um divertido tumulto de saída. Parece que estamos evacuando uma cidade por conta de uma erupção vulcânica iminente.


[08:35] E ainda estamos nos últimos preparativos para partir. Todos prontos, bagagens no porta malas, porta malas quanticamente abarrotado. Pronto! E acabo de me lembrar que preciso calibrar o estepe. Não tirarei essa bagagem toda daí nem por decreto. Não sei como está o estepe, mas me fio na sorte de que ele estará legal se precisarmos, que a calibragem de não me lembro quando bastará. E para não desconfiar da sorte, acredito piamente que não precisaremos do estepe durante toda a viagem.


[09:00] Estou pegando os livros que escolhi. E adianto, quase não li. Contudo fui muito feliz na escolha dos livros. Agora procuro por minhas canetas pretas com as quais escreverei meu diário de viagem. Nunca havia escrito um em tempo real. Eu recomendo. Recomendo muito mesmo. Não encontro minhas canetas pretas. A arte de perder canetas pretas dentro de casa eu domino. Ninguém sabe ninguém viu. Parece um milagre. Um ninja deve tê-las pego. Só pode.


[09:10] E com duas horas de atraso, partimos para um fantástico mundo de mil quilômetros de pista e um sol incandescente durante grande parte do trajeto. Duas horas mais sedo seriam duas horas mais frescas. Não sei se faria diferença no final de tudo, mas bem que eu queria já ter rodado uns duzentos quilômetros quando o sol de causar vertigem estivesse incidindo como incidi agora.


[09:15] Passamos por Guará e noto que há muitos urubus pousados em mourões de cerca em um terreno baldio bem na entrada da cidade. Acho esses bichos fantásticos! Peço desculpas, mas estaciono o carro e tiro as primeiras fotos da viagem. Estrano, eu sei. Os urubus posam para mim.

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