quarta-feira, dezembro 26, 2012

O DOUTOR DO ESPAÇO E O PEDREIRO FICCIONISTA

Ou ele cria nas próprias verdades ou o tempo o tornara um especialista na arte de imaginar convencer a quem o ouvia. Tudo era motivo para iniciar uma empolgada narrativa permeada pelo fantástico e o extraordinário. E tudo em seu universo narrativo era cheio de sólida convicção e indissolúvel ficção. Começava como quem nada queria. De repente, arrastava seu ouvinte por um universo místico de roças distantes na linha do tempo e extraordinários personagens ocultos que transitaram numa zona rural já extinta, ou, quem sabe, ainda transitem pelas cidades em seus múltiplos disfarces de pessoas comuns.

“Quando criança, eu tive garrotil..., quase morri.” Disse o ficcionista em tom testemunhal.
“Garrotil?” Perguntei eu com certa estranheza, pois nunca havia ouvido o tal termo.
“Sim. Garrotil. Doença de cavalo, uai!” Afirmou ele com impaciência na voz e firmeza no olhar. Após apurar, pressupus que certamente se referia ao garrotilho, uma doença equina.

E o pequeno homem, apoiado ao cabo da enxada, interrompeu o trabalho e seguiu com seu relato sem que eu cobrasse por maiores detalhes: “Eu e meu irmão, o que era uns dois anos mais velho do que eu, eu tinha uns seis anos na época, a gente brincava de imitar os bichos da roça. A gente queria ser igual aos bichos, principalmente os cavalos. A gente entrava no curral pra lamber sal no cocho e coicear um ao outro, igual os cavalos faziam. Já viu como eles fazem? Pois é. A gente fazia igual. Mas eu era bobo. O meu irmão só fingia que lambia o sal do cocho. Eu não. Eu lambia o sal de verdade. Tanto lambi que peguei doença de bicho, fiquei ruim. Quando foi à noite, tive febre, delirava, virava os olhos me contorcendo, babava e me debatia. Tiveram que me amarrar na cama. Eu via um demônio empoleirado na cabeceira rindo da minha desgraça. Eu gritava contra ele. Minha mãe rezava e chorava, e meu pai só balançava a cabeça desaprovando e dando o caso por praticamente perdido. Sentava na cadeira da varanda e enrolava seu cigarro de palha, soprava a fumaça no ar e ficava tentando encontrar nas formas da fumaça resposta pra tanta coisa esquisita. O irmão da minha mãe, meu tio Zé, vendo o desespero da pobre coitada, saiu pra buscar socorro na cidade mais próxima, uma que ficava a uns sete quilômetros da roça onde a gente morava, Ribeirão Corrente. Já ouviu falar? Pois é.”
“[...]”

“Ele ia andando pela rua a caminho da farmácia. Foi quando um carro preto, muito luxuoso, parou ao seu lado, desceu o vidro de trás e, lá de dentro, um homem muito escuro foi dizendo com uma voz rouca e rasgada que sabia onde o meu tio estava indo. E disse também que sabia do desespero de minha família e que sabia exatamente o que eu tinha. Disse que era médico e que possuía os recursos pra curar menino endemoninhado. Ordenou que meu tio entrasse no carro e o levasse até minha casa. Meu tio entrou. Estava desesperado. Então eles foram. Havia no caminho umas treze porteiras e sete tronqueiras. O meu tio disse que não sabe como, mas não pararam nenhuma vez pra abrir uma única porteira que fosse. Em três minutos o meu tio estava dentro do meu quarto acompanhado por aquele homem escuro como a noite. Eu pensei que fosse o meu padrinho, por que o meu padrinho também era daquela cor. Então eu o saudei como meu padrinho. Ele disse que sim, que era meu padrinho e riu com ar debochado. Ele me examinou e diagnosticou que o caso era urgente e que não havia tempo a perder. Tinha que ir à Franca buscar um remédio, mas teria que ser em três minutos e nada além, ou tudo estaria perdido. Disse para que meu tio o acompanhasse, porém ordenou que ele desta vez fosse de olhos fechados. O meu tio aceitou de pronto e eles partiram. Contou o meu tio que, em dado momento, não resistindo à curiosidade, entreabriu os olhos e viu que o carro estava diante à margem de um rio muito agitado e extremamente largo e qual o carro atravessou como se sobre ele houvesse uma sólida ponte invisível. Aquilo foi incrível! Em três minutos o Doutor e meu tio estavam dentro do meu quarto com um frasco de um remédio azul, o qual passou em minha garganta usando para isso uma pena preta de galinha. Depois o médico me aplicou uma injeção com um poderoso remédio que imediatamente interrompeu os meus tremores. Disse algumas palavras que ninguém se recorda e nem mesmo compreendeu e sorriu largamente ao ver o capeta saltar da cabeceira da minha cama e correr pela porta do quarto cuspindo fogo e com o rabo entre as pernas.”
“[...]”

“Mas o Doutor avisou à minha mãe, pois meu pai nem queria saber de nada, avisou que em três anos aquela moléstia retornaria e então deixou de próprio punho a receita do remédio e da injeção. Em três anos a coisa voltou mesmo. Mas daquela vez minha mãe já sabia o que fazer.”

Ouvi a história inteira com toda atenção e, ao final, apenas exclamei e indaguei: “Impressionante! Mas de onde afinal veio aquele médico? E qual era o nome dele?... Ele não assinou a receita?”
“O Doutor? Sei lá de onde veio. Acho que do espaço. E assinar assinou, mas quem é que entende letra de médico?”




RECESSO DE FIM DE ANO. FELIZ 2013!

26 Comentários:

Blogger Português na tela disse...

Gostei do blog. Agradeço também pelo comentário em minha página (Português na Tela). Sempre que desejares visitar estaremos de janelas abertas.
Um feliz 2013 para você, seus familiares, amigos e seguidores.
Abraço,
Virgínia Rocha

26 de dezembro de 2012 12:04  
Blogger Célia Rangel disse...

Com um médico desses, problema da saúde resolvido...
Gente!
Abraço, Célia.

26 de dezembro de 2012 14:49  
Blogger Sueli Freitas disse...

Olá Jeff. Um feliz 2013 repleto de realizações pessoais e profissionais, com muita saúde e paz. Sucesso sempre

26 de dezembro de 2012 16:37  
Blogger CARMEM MAIA disse...

feliz ano novo muita paz e luz
beijosssssssss

26 de dezembro de 2012 22:51  
Blogger Ana Bailune disse...

Adorei... adoro histórias! Esta, muito bem contada.

27 de dezembro de 2012 06:00  
Blogger Vivian Serpa disse...

Olá Jeferson Cardoso! Sou Vivian Serpa do teenagedreamv.blogspot.com. Peço desculpas por não ter visitado seu blog antes. Passei algum tempo sem visualizar meus comentários e vi o seu hoje. Estou seguindo e gostei muito daqui. Suas histórias são ótimas. Parabéns!! Visitarei mais vezes :D

27 de dezembro de 2012 10:12  
Blogger .Claudia Lemos. disse...

Oi Jeferson, vim retribuir a visita e estou gostando muito dos seus contos, parabéns!

Um abraço,

Claudia Lemos

27 de dezembro de 2012 15:36  
Blogger Leka disse...

Muito maneiro! Adoro histórias que dão a entender esse contexto sobrenatural...e essa da letra de médico foi muito bem sacado!kkkkk! Ninguém entende mesmo!

Bjs e um feliz ano novo pra vc e sua família!

28 de dezembro de 2012 01:30  
Blogger Paper, Ink and Music ... disse...

Olá, retribuindo sua visita e também parabenizar pelos contos, estou adorando. Um feliz ano novo pra você e que 2013 seja um ano ótimo :) xx

28 de dezembro de 2012 11:54  
Blogger Paty disse...

pois é, quem é que entende letra de médico?

28 de dezembro de 2012 18:11  
Blogger Luma Rosa disse...

Quando era criança, ouvia muitas histórias antigas e que envolviam personagens misteriosos como esse médico. Essa história é acontecida? (rs*) Que medo!!
Jeferson, parabéns pela narrativa e pelo aniversário do blogue que completará quatro anos. O meu pesar é não tê-lo conhecido antes!
Feliz ano novo!!

29 de dezembro de 2012 07:54  
Blogger Mary disse...

Jeferson!
Vim desejar um feliz ano novo a você e família!

Voltarei aqui depois.


bjo



29 de dezembro de 2012 16:43  
Blogger Lany disse...

Hola querido,

¡Feliz año 2013!

Besos,
Lany

30 de dezembro de 2012 17:51  
Blogger Jessica Mendes disse...

Olá Jeferson, fiquei muito encantada com a sua visita ao meu blog, você escreve muito bem. Já publicou algum livro? Se não, deveria. Feliz 2013 pra você e pra sua família, certamente será um ótimo ano, que as bençãos de Deus ilumine sua vida e da sua família. Beijos =*
http://valeu-a-pena-esperar.blogspot.com.br/

1 de janeiro de 2013 07:45  
Blogger CrisCa disse...

Olá!
São mu::::ito bons seus escritos!
Parabéns!
E parabéns também ao seu blog que hoje faz aniversário e, como vocÊ mesmo falou, "deu mais qualidade aos Seus dias". :)
Vida longa!

1 de janeiro de 2013 16:33  
Blogger Thayná Leoni disse...

Ola, então, sinto ter demorado de retornar o comentário em seu blog, ainda estava aprendendo a manuseá-lo e pude ver o que me escreveu só hoje. Obrigada por acompanhar meus textos e gostei muito dos seus, muito sucesso e um bom 2013 a todos nós, estou seguindo seu blog rs

3 de janeiro de 2013 09:26  
Blogger Panelinha da Fafah disse...


Olá Jefh!

Parabéns! Primeiro pelo aniversário do blog e segundo
pelo texto tão bem escrito. Muitas ideias boas pra vc nesse ano viu!

bjs e abs

3 de janeiro de 2013 10:31  
Blogger мє™ disse...

Assim como prometido, vim cá ver o teu cantinho.
Parabéns!

5 de janeiro de 2013 04:40  
Blogger Tainã Katrine disse...

Olá, estou retribuindo sua visita ao meu blog...
Realmente estou sem tempo pra escrever, a medicina me consome muito. Gostei do seu blog e quando tiver mais tempo voltarei..
Um forte abraço,
Paz e bem na sua vida querido.

5 de janeiro de 2013 07:32  
Blogger Bel Rech disse...

Que 2013 seja iluminado e maravilhoso e que seus sonhos, desejos, projetos sejam a continuação em que fizeste em 2012 para se tornarem realidade em 2013.
Paz e bem

5 de janeiro de 2013 15:03  
Blogger Maria Bonfá disse...

oi Jefh como é bom te ler..fico presa em suas palavras esperando o final..e sempre vem uma coisa surpreendente.a minha mãe e meu pai viveram na roça e sempre tinham uma história para contar que ouviram de outros..e qual era a verdade? com o tempo ninguém mais sabia.. vc é fantástico. um feliz ano novo..feliz 2013..que seja para vc um ano pleno de realizaçõs

6 de janeiro de 2013 05:20  
Blogger Nyce Pinto. disse...

Amigo Jefh, não consegui vir aqui no dia 4, aniversário do Blog, mas venho hoje desejar toda felicidade sempre e que estejas por aqui por mais uns 100 anos (sorrioooo)...Parabéns! Parabéns! Um abraço...

6 de janeiro de 2013 16:21  
Blogger Lilly DiCine disse...

Oi, Jefh!
Retribuindo a visita e dizendo que gostei muito da sua escrita. Seu blog é bem legal de visitar, tem texto para todos os gostos, né? Muito bom. Voltarei mais vezes. Obrigada pela visita.
Bjo

7 de janeiro de 2013 04:00  
Blogger Bel Carvalho disse...

adorei seu blog e o texto tb!
Obrigada pela visita no meu blog!
Bjs e volte sempre :)
Bel Carvalho
http://bybelcarvalho.blogspot.com.br/

7 de janeiro de 2013 11:34  
Blogger Lílian Almeida disse...

retribuindo a doce visita,amei o conto,espetacular !
Tem brincadeira premiada lá no blog, participa!
Tenha uma linda semana !
Beijocas.
Lilian – Blog:♥Duas Moças Prendadas!
casascoisaseoutros.blogspot.com.br/

7 de janeiro de 2013 18:18  
Blogger clotilde v. guimarães disse...

Olá! Jefh Cardoso gostei dos seus escritos, volto outras vezes abraços.

9 de fevereiro de 2013 19:35  

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