domingo, junho 03, 2012

GENÉRICO GENTIL

A mulher esganiçava sua voz tentando superar o grave timbre da voz do companheiro. Ele cobria a voz dela como um trovão que estronda no céu sobre as cabeças atordoadas dos frágeis mortais que não possuem abrigo às tempestades. Afirmava com enérgica autoridade e convicção de pedra que ela havia dormido sim, que ela havia dormido era muito, e que ele a havia visto dormir, roncar a noite inteirinha. E dizia ainda que não havia essa coisa de insônia nenhuma, que a insônia dela era falsa, uma farsa, preguiça, uma coisa do capeta. Por fim, a vizinha silenciou de vez. O homem, insatisfeito, continuou dizendo em sua fala cantada e cheia de sotaque que aquilo não tinha futuro nenhum, e que depois não adiantaria os apelos da mulher. Disse que ela iria lamentar muito, pois ele iria embora. Dizia que iria cuidar da vida dele, que aquilo não tinha futuro, que a mulher era uma dorminhoca. Nos minutos seguintes, tudo pesou em silêncio.

Genérico seguia com a sessão. Terapeuta e cliente tinham suas atenções avidamente debruçadas no muro dos supostos paranaenses. Seguindo à pausa silenciosa, veio um cheiro de café que saltou o muro escuro de grandes tijolos pó de mico cobertos por limo e invadiu o interior do quarto de Zé Ari. E a sessão de Genérico conheceu o seu final. Genérico despediu-se do cliente agitado e de olhos arregalados, e partiu sem comentar coisa ou fato. Deixou tudo no ar misturado ao cheiro de café forte. Dona Arlinda conduziu o terapeuta até o portão. Genérico se despediu e entrou no carro prometendo retornar na semana seguinte.

No entanto, antes mesmo que se afastasse muito em direção ao centro, viu uma ambulância reduzir e ir parando diante à casa de seu cliente. Genérico reduziu a velocidade do carro. Ia parar e retornar. Apenas parou. O que foi suficiente para ver, pelo retrovisor, que era na casa dos supostos paranaenses que desciam os homens de branco e, no instante seguinte, saíam com um grande homem na maca. Genérico, somente na semana posterior, soube por Dona Arlinda que o vizinho, que sabia agora ser de Angulo, havia enfartado naquela manhã do atendimento da sessão anterior, uma tragédia! A viúva, segundo Dona Arlinda, estaria desconsolada. A pobrezinha, que era de Barra do Jacaré ou Sertaneja, não se sabia ao certo, não tinha ninguém ali na cidade. Acompanhou o marido que veio por ter encontrado trabalho como serralheiro.

Seu Zé Ari aguardava com os grandes olhos giratórios a chegada de Genérico à beira de seu leito. Genérico o cumprimentou e foi cumprimentado como sempre. A sessão transcorria naturalmente. Contudo, um pouco antes do termino do trabalho, o cheiro de café fresco mais uma vez saltou o muro e invadiu o quarto do cliente. Seu Zé Ari e Genérico se entreolharam nos olhos e, em seguida, olharam para a janela de aço. Ambos pararam para ouvir a bela canção de Marisa Monte (Gentileza) na doce voz da vizinha viúva recente do finado vizinho já não mais supostamente paranaense.

31 Comentários:

Blogger Simplesmente Doroteia disse...

Gosto de ler seus post são no minimo o máximo é
muita imaginação solta . Boa noite

3 de junho de 2012 16:04  
Blogger Ritinha disse...

Meninooo!!! que delícia de texto... quero te seguir, seguir suas explanações, palavras muito bem colocadas, expressas de um jeito gostoso no entendimento... Parabens!!! Ganhou uma fã!

4 de junho de 2012 04:27  
Blogger Rosane Dias disse...

Bom dia Jefh !
Gostei...pelo jeito a vizinha se livrou de um peso KKKKK....
Valeu! Uma ótima semana, bastante produtiva espero!

4 de junho de 2012 05:34  
Blogger JAC disse...

Muito interessante, esta de parabens...

4 de junho de 2012 05:42  
Blogger Clesia Coelho disse...

Bom, final feliz/triste. Triste/feliz pra que fica e feliz/triste pra quem vai...Tudo depende do que valeu a pena ou não.Seu texto mais uma vez me prendeu, desta vez pelas brincadeiras com as palavras: uma falsa, uma farsa...Este tipo de jogo de palavras deixa o leitor satisfeito porque ele acaba se envolvendo e brincando, procurando ter mais afinidade tanto com o texto em si, quanto com o escritor... Enfim, o que me deixa tocada de fato, é que infelizmente esta é uma realidade nua e crua de que muitos casais estão vivendo todos os dias essa manhã sombria de agredir o outro com uma autoridade infeliz, exercendo sobre o outro um sentimento de posse terrível. O seu texto além da riqueza de detalhes e argumentos, proporciona uma extrapolação incrível... Sem querer, querendo, fazemos uma inferencia com os acontecimentos do mundo. Mais uma vez, parabéns. Estou muito feliz de ser sua seguidora.Já estou esperando o próximo texto. Abraços

4 de junho de 2012 06:11  
Blogger Lelia Dourado disse...

Li reli e amei. Inteligência! Competência! E muita imaginação! Fazem do autor desse blog, muito especial. Parabéns. http://www.lelia-dourado.blogspot.com

4 de junho de 2012 08:22  
Anonymous Anônimo disse...

Belo texto!

4 de junho de 2012 09:55  
Anonymous Andrea disse...

Parabéns. Adorei o texto!

4 de junho de 2012 14:39  
Blogger JAN disse...

Olá Jefh
É... o terapeuta é genérico; o paciente e sua família tem paciência; e, os vizinhos NÃO são paranaenses;-)))
E você deu uma feição mais bonita a essa realidade, como acontece em cada conto seu.
Faz-me bem te ler.

Abração
Jan

4 de junho de 2012 15:12  
Blogger Hayra Mattos disse...

Magnífico!!! Mais uma vez me encantei lendo seu texto.
Que você nunca perca esse dom, pois o dom de escrever é divino e raro. Ainda mais o jeito que você escreve, uni muito bem as palavras e cria textos sensacionais!!!
Mais uma vez, meus parabéns!

4 de junho de 2012 16:13  
Blogger Déborah-alana disse...

Oie, adorei a continuação, é uma leitura surpreendente e encantadora, ótimo texto :* beijinhos

4 de junho de 2012 16:51  
Blogger Beatriz Pereira disse...

Boa noite Jefh!!!
(risos)
Lá vem a Bia dando os palpites...
O caso não é de rir, mas que dó do suposto paranaense. kkkkkkkkk, A coitada da mulher "roncadeira" conseguiu matar o marido. :(
Poxa,..., pensa se ele tivesse procurado Genérico talvez as coisas teriam tomado outro rumo.
Tenha uma semana feliz e abençoada.
Bjokas...da Bia!!!
Obs.: Quando tiver um tempinho vem seguir meu novo blog, esquece não tá!
http://pequenosgrandespensantes.blogspot.com.br/

4 de junho de 2012 16:51  
Blogger Veronica Nascimento disse...

Surpreendente sua facilidade em detalhar uma narrativa.Parabéns e obrigada por sua visita em meu blog.

4 de junho de 2012 19:28  
Blogger Silmara Ungaro disse...

Seu blog é muito legal, obrigada por visitar o meu...rs nem imaginava q alguém lia... bjos

4 de junho de 2012 21:31  
Blogger Ivone Poemas disse...

Muito bom seu blogue!
Li os três sobre "Os fracos...", esse, gostei do seu jeito de escrever, estou seguindo e voltarei!
Obrigada pela visita e comentario em meu blog, pelo convite, enfim...!
Parabéns pelos três anos do blog!
Abraços e espero nos tornemos amigos!
Ivone

5 de junho de 2012 05:21  
Blogger ♥Ana Paula♥ disse...

Adorei o jeito como vc escreve... uma união entre as palavras e sentimentos, gostei muito, parabéns.
Abraços e obrigada por passar no meu cantinho.

5 de junho de 2012 06:36  
Blogger Ana Bailune disse...

Eu acho que agora ela poderá roncar à vontade, e tomar muito café! Adorei o seu texto.

6 de junho de 2012 04:34  
Blogger Denise Gonçalves disse...

Que bom te conhecer, Jef! Adorei seu texto e parabéns pelo seu blog! Escrever é um dom, e você o tem de sobra...
Vou continuar me deliciando com sua imaginação, vou sempre dar uma passadinha por aqui...
Um abraço!

6 de junho de 2012 04:59  
Blogger Rose Silva disse...

muito bom. é fascinante a forma como vc embaralha palavras e sentimentos, dando vida às suas narrativas, parabéns és talentoso!!!

6 de junho de 2012 08:50  
Blogger Vana disse...

Bom dia Jefh...lindo texto!! As palavras fazem a diferença!
Ótimo feriado...obrigada pelo carinho!!

7 de junho de 2012 06:28  
Blogger Luzia Lira Pedagoga disse...

Adorei o texto , até me inspirou a ouvir Marisa Monte.


Bjos Luzia

7 de junho de 2012 07:47  
Blogger HEBE disse...

Oi...Passando para agradecer e conhecer o seu blog...parabéns,adorei.beijossss.

7 de junho de 2012 21:03  
Anonymous Anônimo disse...

Oi Jefh
Um belíssimo texto! Você tem o dom de surpreender com as sua palavras. Muito bem articuladas. Um primor de história.
Obrigada por sua visita. Deixou-me honrada.
Tenha uma linda sexta-feira de muita paz e carinho
Um abraço fraterno
Gracita

8 de junho de 2012 06:40  
Blogger Mariana Leal disse...

bastante interessante, amei !


http://toobege.blogspot.com.br/

8 de junho de 2012 15:03  
Blogger Tallita Monteiro disse...

Amei...belo texto!!! Uma delicia a expressão de palavras envolventes!!!


Bjuss!

8 de junho de 2012 19:21  
Blogger Artes da Cris disse...

Muito legal escrever. Não tenho esse dom...Parabéns e obrigada pela visita e comentário!
Ana

9 de junho de 2012 10:27  
Blogger Aline Carla disse...

Gostaria que todos os genéricos , obtivessem a sensibilidade de ouvirem Marisa Monte e descobrissem o poder de uma letra que vai além da sonoridade e penetra em um mundo em que infelizmente genérico cria genéricos, é claro que existem exceções! Maravilhoso ter lido seu texto, vou compartilhar! Beijos.

9 de junho de 2012 18:53  
Blogger Rosângela Pontes Coelho Serafim disse...

Jefh;

a magia de bem escrever, é transportar o leitor às cenas descritas com tanta minúcia, fazendo com que cada um participe da história, através dos olhos do autor, acrescentando as cores, sensações e odores que a imaginação de cada um percebe... Por aqui, o cheiro de café está impregnado na leitura. Parabéns pelo texto! Beijos de luz em seu coração!!!

11 de junho de 2012 06:03  
Blogger Tania disse...

Oi Jeferson!
Obrigada pelo comentário. Você será sempre bem vindo ao "na ponta da língua."
Conferi o seu blog e adorei seus textos. A partir de hoje, sou uma de suas seguidoras.
Um abraço
Tânia

11 de junho de 2012 19:53  
Blogger Aprendizagem divertida disse...

Parabéns pelo blog, adorei.
Seus textos são ótimos...

19 de junho de 2012 04:29  
Blogger Edna Ribeiro disse...

Maravilhoso saber que tem pessoas dinâmicas e tocadas pelas mãos do Criador. Seu Blog é D + amigo! A partir de hoje, sou sua fã e tenha certeza, visitarei muitas e muitas vezes. Até breve!

3 de julho de 2012 02:33  

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