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quarta-feira, dezembro 26, 2012

O DOUTOR DO ESPAÇO E O PEDREIRO FICCIONISTA

Ou ele cria nas próprias verdades ou o tempo o tornara um especialista na arte de imaginar convencer a quem o ouvia. Tudo era motivo para iniciar uma empolgada narrativa permeada pelo fantástico e o extraordinário. E tudo em seu universo narrativo era cheio de sólida convicção e indissolúvel ficção. Começava como quem nada queria. De repente, arrastava seu ouvinte por um universo místico de roças distantes na linha do tempo e extraordinários personagens ocultos que transitaram numa zona rural já extinta, ou, quem sabe, ainda transitem pelas cidades em seus múltiplos disfarces de pessoas comuns.

“Quando criança, eu tive garrotil..., quase morri.” Disse o ficcionista em tom testemunhal.
“Garrotil?” Perguntei eu com certa estranheza, pois nunca havia ouvido o tal termo.
“Sim. Garrotil. Doença de cavalo, uai!” Afirmou ele com impaciência na voz e firmeza no olhar. Após apurar, pressupus que certamente se referia ao garrotilho, uma doença equina.

E o pequeno homem, apoiado ao cabo da enxada, interrompeu o trabalho e seguiu com seu relato sem que eu cobrasse por maiores detalhes: “Eu e meu irmão, o que era uns dois anos mais velho do que eu, eu tinha uns seis anos na época, a gente brincava de imitar os bichos da roça. A gente queria ser igual aos bichos, principalmente os cavalos. A gente entrava no curral pra lamber sal no cocho e coicear um ao outro, igual os cavalos faziam. Já viu como eles fazem? Pois é. A gente fazia igual. Mas eu era bobo. O meu irmão só fingia que lambia o sal do cocho. Eu não. Eu lambia o sal de verdade. Tanto lambi que peguei doença de bicho, fiquei ruim. Quando foi à noite, tive febre, delirava, virava os olhos me contorcendo, babava e me debatia. Tiveram que me amarrar na cama. Eu via um demônio empoleirado na cabeceira rindo da minha desgraça. Eu gritava contra ele. Minha mãe rezava e chorava, e meu pai só balançava a cabeça desaprovando e dando o caso por praticamente perdido. Sentava na cadeira da varanda e enrolava seu cigarro de palha, soprava a fumaça no ar e ficava tentando encontrar nas formas da fumaça resposta pra tanta coisa esquisita. O irmão da minha mãe, meu tio Zé, vendo o desespero da pobre coitada, saiu pra buscar socorro na cidade mais próxima, uma que ficava a uns sete quilômetros da roça onde a gente morava, Ribeirão Corrente. Já ouviu falar? Pois é.”
“[...]”

“Ele ia andando pela rua a caminho da farmácia. Foi quando um carro preto, muito luxuoso, parou ao seu lado, desceu o vidro de trás e, lá de dentro, um homem muito escuro foi dizendo com uma voz rouca e rasgada que sabia onde o meu tio estava indo. E disse também que sabia do desespero de minha família e que sabia exatamente o que eu tinha. Disse que era médico e que possuía os recursos pra curar menino endemoninhado. Ordenou que meu tio entrasse no carro e o levasse até minha casa. Meu tio entrou. Estava desesperado. Então eles foram. Havia no caminho umas treze porteiras e sete tronqueiras. O meu tio disse que não sabe como, mas não pararam nenhuma vez pra abrir uma única porteira que fosse. Em três minutos o meu tio estava dentro do meu quarto acompanhado por aquele homem escuro como a noite. Eu pensei que fosse o meu padrinho, por que o meu padrinho também era daquela cor. Então eu o saudei como meu padrinho. Ele disse que sim, que era meu padrinho e riu com ar debochado. Ele me examinou e diagnosticou que o caso era urgente e que não havia tempo a perder. Tinha que ir à Franca buscar um remédio, mas teria que ser em três minutos e nada além, ou tudo estaria perdido. Disse para que meu tio o acompanhasse, porém ordenou que ele desta vez fosse de olhos fechados. O meu tio aceitou de pronto e eles partiram. Contou o meu tio que, em dado momento, não resistindo à curiosidade, entreabriu os olhos e viu que o carro estava diante à margem de um rio muito agitado e extremamente largo e qual o carro atravessou como se sobre ele houvesse uma sólida ponte invisível. Aquilo foi incrível! Em três minutos o Doutor e meu tio estavam dentro do meu quarto com um frasco de um remédio azul, o qual passou em minha garganta usando para isso uma pena preta de galinha. Depois o médico me aplicou uma injeção com um poderoso remédio que imediatamente interrompeu os meus tremores. Disse algumas palavras que ninguém se recorda e nem mesmo compreendeu e sorriu largamente ao ver o capeta saltar da cabeceira da minha cama e correr pela porta do quarto cuspindo fogo e com o rabo entre as pernas.”
“[...]”

“Mas o Doutor avisou à minha mãe, pois meu pai nem queria saber de nada, avisou que em três anos aquela moléstia retornaria e então deixou de próprio punho a receita do remédio e da injeção. Em três anos a coisa voltou mesmo. Mas daquela vez minha mãe já sabia o que fazer.”

Ouvi a história inteira com toda atenção e, ao final, apenas exclamei e indaguei: “Impressionante! Mas de onde afinal veio aquele médico? E qual era o nome dele?... Ele não assinou a receita?”
“O Doutor? Sei lá de onde veio. Acho que do espaço. E assinar assinou, mas quem é que entende letra de médico?”




RECESSO DE FIM DE ANO. FELIZ 2013!

sábado, dezembro 08, 2012

O GRANDE CIRCO NONSENSE - HEMATÓFAGO

‘Quem?’, perguntou prolongando ao máximo possível a extensão da pequena palavra com sua voz esganiçada a velha mulher magra, solteira e um tanto solitária imediatamente após soar o toque da campainha pelos cômodos desabitados de sua casa indo ecoar à porta da rua, possibilitando a quem acionou ouvir perfeitamente o som.
‘Sou eu, o mágico Pipo!’, respondeu o homem de cartola e capa preta plantado de pé en frente ao portão olhando um ponto fixo no muro da casa azul marinho.
‘Ah, é você, mágico Pipo?!, respondeu a mulher magra, solteira e solitária com discreta porém perceptível alegria festiva na voz e familiaridade no tom: Eu estou esperando o açougue, o verdureiro e a farmácia; achei que fosse algum deles; mas que bom que é senhor! Entre, mágico, entre! Ela tá te esperando na cama, coitada! Essa noite não dormiu nada; conversou à noite in-tei-ri-nha, coitadinha. É a crise. A crise voltou.Concluiu a mulher curvando a cabeça em uma flexão de seu pescoço delgado e enxugou com o dorso da mão a eterna lágrima que descia de seu olho direito feito um fio perene que escorre de uma fenda através de uma pedra, como uma mina.
‘Desculpe, mas a senhora viu isso aqui?’, perguntou o homem com o indicador estiado antes de atravessar o portão dando um passo atrás para indicar algo à mulher.
‘Viu o quê?’, disse ela curvando o corpo delgado em flexão para aproximar o rosto levando os olhos para bem próximo do ponto fixo do muro indicado pelo homem. 
‘Aqui no muro da senhora, vê. É um artrópode. Enorme!’ Disse o prestidigitador aproximando o indicador ao máximo possível do ponto fixo quase tocando-o.
‘Nossa!, aonde, meu filho? Eu não estou vendo nada. Estou sem óculos!’. E curvando o corpo ao máximo, ela aproximou o rosto do ponto fixo no muro quase em termo de tocá-lo com a ponta do nariz fino.
‘Aqui!’, disse o homem já com menos paciência, ‘A senhora tem alguma coisa pra matá-lo?’, perguntou olhando pela fresta do portão atrás da mulher para o interior da casa.
‘Mas o quê, meu filho? Com o quê a gente mata isso?’, redarguiu a senhora deixando pairar no ar a dúvida se teria ou não visto o bicho e apenas disfarçasse por puro embaraço e pudor de higiene.
‘Não sei. Um chinelo, algum veneno, uma pedra, uma vassoura, um lança chamas ou uma arma, talvez, um toco, sei lá. Qualquer coisa, oras!’. Agora o homem segurava a cartola na mão esquerda e, com a mão direita na cintura por debaixo da capa, movia-se impaciente do apoio de um pé a outro.

‘Mas e agora hein? Como é que o senhor matará este bicho?’ Perguntou a mulher oficializando imediatamente toda responsabilidade pelo destino da criatura ao visitante.
‘Bem, eu tentarei derrubá-lo no chão e então...’ Afirmou o homem erguendo ao máximo sua perna esquerda enquanto apoiava-se com certa dificuldade sobre a direita alcançando a criatura que escalava o muro. ‘Assim. Pronto.’ Derrubou o bicho no chão que caiu sobre a terra expelida pelo formigueiro ao pé do muro como um saco repleto de liquido viscoso. As formigas não se interessaram pelo bicho. Provavelmente tratava-se de uma espécie vegetariana. E ao pisar no mesmo, não pode conter sua exclamação e face de repulsa pelo romper do animal volumoso que explodiu debaixo da sola de couro do seu sapato preto de ilusionista. ‘Eca! Pronto.’
‘Ai, deve ser do cachorro da menina. Ela veio trabalhar e ele veio atrás. Mas aí ela foi pra outro serviço, outra diária, noutra casa, coitadinha!, ela trabalha muito, o marido está desempregado, e ela me pediu pro cão ficar aqui pra não ficar andando pela rua até ela voltar para buscá-lo, no final do dia. Mas eu vou deixar o portão mais aberto, aí ele sai e, quando ela voltar, direi que foi quando você chegou que ele escapuliu.’ E foi quando surgiu o provável dono do alimento contido no parasita com seu jeito lépido e sua vasta pelagem ruiva abanando o rabo, cheirando as pernas dos interlocutores e partindo para mil aventuras urbanas.
‘Isso. Deixe-o ir. É melhor mesmo. Ele deve estar empestado desses bichos. Além do mais, ela, daquele jeito na cama, é pra lá que eles irão. E quando um é descoberto, já terá se refestelado do sangue da pobre coitada. A senhora não pode ter esses bichos aqui com uma pessoa doente assim, acamada e indefesa.’ Decretou o homem a título de dissuadir a mulher de qualquer mudança tardia de intenção por conta de algum remorso que a visitasse mais tarde nas horas de solidão.
‘Nossa!, que horror!’ Disse a mulher contendo a contínua lágrima de seu produtivo olho direito com o dorso da mão direita.
‘Sim. Concordo.’, enfatizou o ilusionista e completou, ‘Como diria Kurtz: O horror! O horror!’
‘Quem?!’ Perguntou a mulher magra com a voz esganiçada.
‘Kurtz, um conhecido.’ Respondeu o homem e adentrou a casa sentindo coceiras em lugares indescritíveis e perscrutando cada centímetro de parede e canto sombreado ou não em busca de mais algum carrapatinho desgarrado do cão fugitivo.    

domingo, dezembro 02, 2012

QUESTÃO DE PERFIL

Por um momento o silêncio opressor dominou o ambiente sombrio da sala do dono da empresa. E então o patrão, com um leve giro de sua cadeira, colocou-se em posição frontal diante à face do empregado, este já encolhido após assumir péssima postura desencostando do encosto da cadeira, curvando o tronco e deitando as mãos e parte dos antebraços no colo.

‘Pois bem, - começou por dizer o patrão - mandei chamar-lhe aqui, Igor, por um motivo que acredito seja bastante desagradável pra você. Tem corrido na empresa, e por diversas fontes, sendo essas fontes clientes, fornecedores e até mesmo os seus colegas de trabalho, que você é um sujeito estranho. Dizem que é muito individualista e que não aceita ajuda de ninguém causando assim lentidão na descarga das mercadorias, fato que eu mesmo tenho visto e estou em condições de confirmar. E dizem mais coisas graves a seu respeito, dizem que é muito calado e que não se entrosa de modo algum. Um esquisitão, com o perdão da franqueza. Mas o senhor bem sabe que sou um homem de natureza muito sincera, justo. Além do mais, o momento exige tal exatidão na descrição justificativa da medida que lhe farei saber, seu Igor. Seus colegas são homens muito simples, uns puritanos, pessoas humildes, muito dadas e ficam desconfortáveis tendo conviver com alguém assim tão estranho, hermético. Parece que o senhor não se agrada de ninguém, não participa das conversas, não ri de nada. Sim, o senhor quer dizer alguma coisa?’ Perguntou Yuriy Tsarov ao ver o empregado lentamente mover-se na cadeira mudando de posição e deslizando mais à frente no assento. Igor tirou o olhar do rosto do patrão, que não lhe olhava nos olhos de modo algum, o olhava sim no rosto, mas nos olhos apenas furtivamente, e o deitou ao chão como se pensasse em algo distante. Sabia de onde vinham tais denúncias e sabia dos motivos. Preferiu não entrar em detalhes julgando não ser ainda o momento adequado para manifestar-se. Voltou o olhar para o rosto do patrão e, com um gesto de cabeça, fez entender que não queria falar nada.

Então o patrão continuou feito um grande trator lento e resoluto. ‘Pois é, seu Igor, já faz quase um ano que está aqui e muita coisa pesa contra o senhor. Além do mais, eu preciso lhe dizer algo que talvez desagrade ainda mais do que tudo até aqui. Falo de suas mãos. Elas são pequenas demais. Um homem com as mãos tão pequenas não pode mesmo render bem num trabalho que exige muita “manualidade”, você entende? Não é nada pessoal, mas você não se enquadra no perfil. Eu sei que seu momento é difícil, sua esposa está grávida, sou um ser humano, levei tudo isso em conta ao analisar sua situação, mas, sinceramente, eu não sei o que fazer com o senhor. Minha empresa está em franca expansão, como deve saber, e eu não posso me dar ao luxo de ter aqui um funcionário problm, digo, que não se enquadre no perfil. Terei que dispensar o senhor. Com muito pesar, mas terei que dispensá-lo.’

Igor, que até então estivera pálido e inexpressivo, recobrou a cor e as compleições, pediu a palavra e firmou os olhos no rosto vermelho de Tsarov, que desta vez não conseguiu desviar o olhar. ‘Entendo perfeitamente o que o senhor diz... Entendo o momento da empresa... Mas posso afirmar que é um erro me dispensar... Tenho disposição e posso reverter essa situação. Se é preciso mudar, mudarei. Se o senhor me permite, e sem querer faltar com o respeito, não cometa tal erro. Tenho futuro aqui em sua empresa e sei que vencerei. Quero contribuir, crescer com ela.

Fez-se silêncio novamente. Tsarov pareceu surpreso e abalado com a reação e presença de espírito do modesto funcionário. Pensou um pouco. Apoiou ambas as mãos sobre a mesa e disse, ainda um tanto perplexo, que daria nova chance ao rapaz.

E este que você acaba de ler é o quarto capítulo do conto russo que estou trabalhando aqui no blog. Caso queira saber a origem dos fatos e tomar sua própria posição, leia as três postagens anteriores que esclarecem tudo, ou não. Obrigado pela leitura e um grande abraço.

terça-feira, novembro 27, 2012

CHÁ DE INVISIBILIDADE

Imediatamente, Igor Socolov depositou a caixa de bacalhau norueguês na pilha, lavou as mãos e os braços na pia do barracão e foi até a sala do patrão que o aguardava com o telefone colado junto ao ouvido, falando e gesticulando. Tsarov fez um gesto breve com a mão esquerda direcionado ao rapaz para que este entrasse e outro ainda mais breve para que fechasse a porta atrás de si. Antes de fechá-la, foi possível ver Fedosov, o gerente bedel, sobressaltado, com o pescoço esticado e os olhos arregalados, a meio caminho para sua mesa postada diante à porta da sala do patrão. Tsarov, vendo que o empregado entrou porém não se sentou, fez outro gesto curto para que ele se sentasse e continuou ao telefone.

Falava de uma carne seca. Dizia que a carne seca estava toda bichada e que não haveria como aproveitá-la de modo algum. Fazia uma pausa como que para ouvir seu interlocutor e repetia toda a história da carne seca que ficara exposta e teria contraído larvas. ‘Dimitri, a carne seca está podre. Tá que é só bicho, meu amigo. Só jogando fora mesmo. Se quiser eu deixo num canto do depósito pra que você veja na próxima semana, mas tá nojento. Podre e que é só bicho!’ Dizia e ria um riso solto de ar maléfico como se encontrasse prazer no prejuízo de seu fornecedor.

Tsarov não evoluía no dialogo ao telefone e, ao mesmo tempo, tinha o funcionário diante de si ao seu dispor. Ora ouvia o homem do outro lado da ligação, ora repetia seu enredo pobre e previsível. Igor, em princípio, escolheu um canto da sala e fixou nele seus olhos imóveis enquanto inevitavelmente ouvia à conversa do patrão. Algum tempo seguinte, perscrutava toda a mesa do chefe com seus olhos mansos, as mãos entrelaçadas no colo, as pernas cruzadas na altura das tíbias. Os segundos de espera foram ficando longos. Transformaram-se em enormes minutos. Isso fez com que o rapaz balançasse os pés em intervalos regulares.

Não sabia o que o patrão teria a tratar com ele, mas o ar sombrio com que fora convocado por Fedosov não o deixou otimista, nem muito pessimista. Não era dotado de uma natureza pessimista. Além do quê, era costume de Fedosov agir de maneira sombria a fim de deixar a todos apreensivos por qualquer assunto relacionado ao patrão. Todos na empresa conheciam o caráter mesquinho e malicioso do bedel, que era sempre o primeiro a noticiar a má sorte alheia, e fazia com nítido gosto. Dizia que este ou aquele havia se danado e acrescentava ao final um ‘coitado!’ sarcástico acompanhado de um sorrisinho jocoso.

Num dado momento, a conversa sobre carne seca bichada destravou e enveredou por frangos de granja congelados e carne bovina embalada à cryovac. Yuriy Tsarov revelava seus planos para o futuro da empresa ao seu interlocutor e se empolgava com a conversa como se o funcionário, àquela altura, tivesse ingerido um poderoso chá de invisibilidade. ‘Dimitri, eu estou te falando, rapaz, é o futuro! Farei uma câmera fria! É o futuro, Dimitri!’

Igor já havia visto tudo que os seus olhos podiam alcançar ali dentro do recinto patronal por mais de cinco vezes. Já não tinha mais para onde olhar. Transcendeu. Foi até sua casa e encontrou as bochechas rosadas e o lindo sorriso de Ekaterína, grávida de trinta e quatro semanas. Cheirou seus perfumados cabelos longos, ondulados, dourados. Passou a mão sobre o ventre da esposa e fora puxado num repelão para de volta à sala do patrão que batia com o telefone na base e recolhia o sorriso úmido por entre os dentes amarelos.

Devo informar que as postagens anteriores são partes deste mesmo conto e que a parte final ainda está por vir. Obrigado por sua leitura! Um grande abraço!

sábado, novembro 24, 2012

TODO O PRAZER DE FEDOSOV

Nos dias que seguiram, tudo era frio, poeira, sombras e mistérios. Sergey Fedosov encontrou-se no direito e liberdade de intensificar o espetáculo de seus horrores da mesquinhez. Fofocava à porta e nos vestíbulos, olhava de soslaio, empunhava caras de deboche, deleitava-se em mofas e chacotas de toda espécie. Bastava que Igor entrasse em algum vestíbulo onde o bedel já se achasse para que o mesmo desatasse a rir com quem ali estivesse como se falasse algo de graça extrema.

Igor só via motivos para trabalhar. E teve mesmo que trabalhar dobrado após o incidente das contas erradas. Enquanto todos os carregamentos eram descarregados na empresa por duplas ou trios de chapas, fosse a carga mais pesada que fosse, ninguém lhe vinha em auxílio; certo era que aquilo fosse por uma ordem do próprio Yuriy Tsarov. E Fedosov ficava a vigiar os outros para que ninguém se compadecesse da situação do isolado Igor. Se alguém se atrevesse a oferecer-lhe ajuda, imediatamente Fedosov repreendia o sujeito e lhe descompunha à frente de qualquer um dizendo que das próprias obrigações o bom samaritano não tratava, mas das coisas dos preguiçosos tinha pressa em se ocupar e que ‘este era caso de ir ter na sala do patrão, isso sim, se era!’

Logo o companheiro desistia de ir ao socorro do outro e voltava para funções mais leves e compartilhadas por muitos braços. Igor suava ao ponto de ter suas carnes trêmulas, tamanho era o esforço que despendia. Ao final do dia, fatigado e com dores por todo o corpo, eram críticas debochadas que recebia. Suportou tudo com a resignação de dos santos ou a dos condenados. Não tinha boca para defender-se de nada. Parecia fazer apenas trabalhar por expiação de seus pecados, que não deveriam ser poucos nem banais. Aquilo deixava Fedosov e o próprio Tsarov visivelmente incomodados.

A esperança de Igor era que, com o passar dos dias, aquela nuvem escura se dissipasse e suas cargas voltassem ao normal de sua rotina na firma. O que, por alguma razão oculta e obscura, nunca foi de fato tão leve ou pesada quanto a dos outros empregados, sendo sempre algo mais dura e ingrata.

Fedosov, diante do silêncio e resignação de Igor, imaginando que seus mexericos poderiam incomodar o subalterno, fazia questão de redobrar suas maledicências em presença do mesmo. O viúvo que morava na rua em frente à firma, por exemplo, e que todos os finais de tarde levava um husky siberiano branco na coleira para passear e aliviar-se de suas necessidades fisiológicas. Seria aquele um devasso de marca maior que não teria por objetivo outra coisa senão assediar àquela vizinha que ficava ao portão de sua casa na mesma calçada do libertino, no exato horário do passeio do husky, todas as tardes.

Fedosov saia um minuto à porta da firma e já retornava com novidades dos casos e novos casos para contar. Todos riam menos Igor que ia concentrado em suas tarefas que lhe exigiam até os ossos da alma. E o bedel, interpretando aquilo como uma reprovação de seus modos, fazia o possível para provar que todos a sua volta eram podres e ridículos, exceto o patrão. Então desfiava com outras histórias fantásticas sobre os personagens que encontrava e cultivava no dia. ‘Aquela viúva do portão não presta mesmo. É uma safada. Outro dia fora pega roubando pequenas bebidas no supermercado. O repositor de mercadorias, que por sinal é meu caçula, apenas se aproximou e disse a ela para que devolvesse à prateleira o que ela havia surrupiado. A ordinária corou, devolveu a garrafinha e nunca mais botou os pés lá naquela loja achando que seu segredo também ficaria naquela prateleira de bebidas. Agora fica aí fazendo pose de enlutada e contando vantagem dos filhos que seriam jóias da coroa. Jóias furtadas, isso sim! Só se for!’

Na última sexta de novembro, com seu ar pérfido usual, Fedosov aproximou-se de Igor e lhe comunicou que Yuriy Tsarov queria vê-lo em sua sala, sorriu seu sorriso cínico costumeiro e foi tomar lugar à mesa defronte ao gabinete do idolatrado patrão.

Bem, e só agora é que lhe aviso que este conto é parte do que postei anteriormente e leva a mesma foto, e que ainda terá a terceira e última parte na próxima postagem dentro dos próximos dias. Obrigado por sua leitura! Abraços russos! 

sábado, novembro 17, 2012

TRÊS RUBLOS A MAIS TRÊS RUBLOS A MENOS

Igor tomou o envelope contendo seu salário e, mais tarde, partiu para sua casa a levar o fruto de um mês inteiro de esforços para depositar nas mãos de sua esposa gestante já em tempos de dar à luz. Confiava em Yuriy Tsarov, seu patrão, de um modo pleno, amplo e irrestrito. Imaginava que Tsarov, sendo dono de patrimônio considerável para os padrões da pequena Uglich, sendo homem de grande prestígio local, figura bem quista, bem vista e influente na sociedade, jamais seria capaz de fraudar os vencimentos de seus pobres e dedicados funcionários.

Antes de seguir com a narrativa, gostaria de aqui registra um pequeno à parte: como isento narrador que me pretendo, Deus permita-me não julgar este ou aquele personagem por suas boas ou más ações assim tomando partido na narrativa em favor de um ou de outro, pois que eu narre apenas e tão somente os fatos em essência e originalidade o quanto possível, e da história tire você mesmo, leitor, suas próprias conclusões com as ferramentas morais das quais dispõe para o momento.

Aquele rigoroso inverno parecia que não teria mais fim. Enquanto Igor trabalhava com o máximo empenho e todas as suas forças pensando em bem servir para levar o sustento com dignidade à sua humilde casa, Tsarov andava pelo armazém com as mãos para trás a fazer incessantes cálculos dos lucros que germinavam feito sementes de sonhos dentro de sua cabeçorra descomunal. Engendrava argumentos plausíveis para poder reduzir ao mínimo possível o salário de seus funcionários e assim aumentar sua vantagem de forma justificada e incontestável. Excetuando a cabeça enorme e em forma de um ovo orizontalizado, Yuriy Tsarov era um homem miúdo, de mãos miúdas e de caráter dúbio. Certamente Gall, o pai da frenologia, em posse do avantajado crânio de Tsarov traçaria obscuras conjecturas da personalidade daquele estranho e misterioso senhoril.

Mantinha em elevada estima e especial atenção dentro do estabelecimento certo Sergey Fedosov, funcionário antigo, dono de língua felina e olhar malicioso. Este acumulava na empresa as funções de um falho subgerente e competente bedel. Tsarov se agradava de Fedosov não apenas por seus bons préstimos, mas especialmente por seu talento nato aos mexericos, fofocas e maledicências em geral.

Nas horas vagas, com grande ardor, Fedosov tratava da vida alheia dos cidadãos da pequena Uglich para deleite de Tsarov. Igor jamais participava de tais palestras que ocorriam, em verdade, à portas fechadas ou em cantos sombrios onde a luz jamais incide e cochichos nunca ecoam.

Os modos sérios e resignados de Igor perturbavam sobremodo a Fedosov. De certa forma o bedel parecia se incomodar com a conduta do colega que lhe confrontava com a baixeza de seu próprio espírito. Mas todo este incômodo evaporava-se imediatamente diante à aprovação do patrão que o buscava com gozo e incessante interesse para atualizar-se das questões da delação interna e dos noticiários populares informais da pequena comunidade de Uglich.

Todos os meses, Fedosov trazia e distribuía os envelopes com os nomes dos funcionários e seus respectivos vencimentos.  Naquele frio novembro, Igor tomou o envelope da mão de Fedosov e o meteu no bolso sem nem mesmo conferir os créditos e a soma, dado que estava extremamente ocupado empilhando caixas no depósito e sem tempo nem mesmo de parar para esticar as costas e ou aliviar-se no banheiro. E só foi tomar novamente o envelope em casa, ao tirá-lo do bolso e entregá-lo a Ekaterína, que o esperava com uma sopa de couve sem carne. 

Antes do jantar, enquanto Igor praticava sua toalete, Ekaterína orava em agradecimento e conferia os vencimentos do marido. Espantou-se e achou ter errado a conferência ao dar falta de exatos três rublos. Recontou. Obtendo o mesmo resultado, recontou novamente. Ficou quieta. Não tocou mais no assunto durante todo o jantar e só rompeu o silêncio ao perguntar das coisas do trabalho ao marido, mas este só queria falar dos planos para a chegada do pequeno Nikolay ou da pequena Evgeniya, conforme fosse a vontade do bom Deus. E quando terminaram o jantar, Ekaterína fez o marido saber da diferença no cotejo do pagamento. Aquilo lhes impediria de dar a entrada do berço do rebento. Era sexta feira, na segunda Igor falaria com o patrão e tudo estaria resolvido.

Yuriy Tsarov não demonstrou surpresa diante do fato levado por seu funcionário, mas antes tratou de tomar o envelope do vencimento e comprometer-se a conferir ele mesmo. Fez uma cara indescritível e recolheu-se no interior de sua sala. No final do dia, Fedosov devolvia o envelope a Igor sem dizer nada além do que se referia ser uma ordem do patrão. Decorrido mais um mês, eis que vieram os novos vencimentos. A exemplo do mês anterior e por um mau vício, Igor, no árduo labor da faina, meteu novamente o envelope no bolso sem prestar-se a conferir as contas de seu novo vencimento, confiou. Coube a Ekaterína mais uma vez, e com um sorriso jocoso, comunicar ao marido o novo erro de cálculo; mas agora o famélico salário do homem viera acrescido de três rublos a mais.

Ironias à parte, no dia seguinte, Yuriy Tsarov recebia com visível e patética simulação de surpresa o excedente do pagamento ao funcionário das próprias mãos de Igor, que sorria discretamente. 

sábado, novembro 10, 2012

OBSESSÃO É OBSESSÃO

“Permita que me apresente: Arkádii Ivánovitch Svidrigáilov.” E assim termina o primeiro volume da edição que estou lendo de Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, apenas Dostoiévski para os íntimos e também para os confiados. Embora sempre ouvisse sobre o gênio do autor, sou apenas um admirador tardio que o descobriu aos trinta e oito anos de idade, em uma primavera onde o calor de minha pequenina Ituverava jamais poderia eu imaginar ser atmosfera semelhante a qual se encontra na obra do autor russo ambientada na supostamente gélida São Petersburgo.

O livro entrou em minha casa por uma coleção, uma linda coleção de títulos clássicos com capa de linha, fita marcadora de página acetinada, páginas suavemente amareladas conferindo um aspecto envelhecido, páginas novas, cheirosas. E como acontece com tantos livros que possuo, um dia vou e lhes tiro do sono da estante para a baila da leitura. E que grata descoberta fiz. Como estavam certos aqueles que o mitificavam! Fiquei bestificado desde as primeiras linhas.

Tomei o livro no último final de semana e, como sou leitor lento, algo do que não me envergonho e acho até benéfico aos meus semelhantes confessá-lo, só pude terminar o primeiro volume hoje ao chegar do trabalho. Em meu favor, apenas o fato de que sou um homem muito ocupado da Fisioterapia e das coisas do lar. Mas na ânsia de avançar pelas laudas da trama, acabei por ficar obcecado. Não fui correr essa semana, não fiz meus exercícios regulares, travei longas batalhas contra o sono e adormeci somente após a página ficar pesada demais para vira-la.

E na quarta feira, quando restavam apenas setenta páginas para finalizar o primeiro volume, eis que ocorre um fato, no mínimo, curioso. Sabendo que não haveria a última sessão do horário, cancelada antecipadamente, levei Fiódor Dostoiévski para o meu trabalho. Acomodei-o no fundo de minha melhor gaveta, a mais livre, portanto a mais espaçosa, e fui com afinco às atividades do labor. Ao terminar minhas hercúleas tarefas, voltei para a sede da empresa onde Dostoiévski repousava. Preenchi o último relatório, organizei a mesa, certifiquei-me de ainda restar vinte e oito minutos até a hora reservada ao almoço, tomei o exemplar da capa vermelha e nele derramei toda minha atenção ao conturbado universo do pobre diabo Raskólnikov, o ex estudante.

Li até o último instante que me fora possível e então parti. No tumulto das crianças que busco ou não busco na escola, da pessoa que vai até minha casa para cuidar de nossas roupas e grita ao celular e canta em voz muito alta, de meus bichos de estimação barulhentos e esfomeados aguardando o alimento sagrado de minhas mãos, do almoço à hora certa fumegando na mesa, meu repasto, do olho no relógio para não perder o horário do retorno ao trabalho, do descanso após mais uma ou duas... páginas... Eis que o romance fora esquecido por um momento. Só fui me recordar de São Petersburgo ao chegar do trabalho. Mas antes tomei um bom banho para manusear relaxadamente a obra prima.

Mas cadê? Não o deixei no criado como de costume? Não deixei sobre o raque ao lado do computador? Não teria caído no chão debaixo da cama? Não. Entre os travesseiros e os lençóis, não está? Debaixo dos jornais, junto dos outros livros, ou no guarda roupas, quem sabe, não? É angústia que estou sentindo agora. Volto ao carro e lá também não está. Refaço todo o roteiro passo a passo, incluo lugares inusitados como o banheiro, onde o livro não estaria nada bem, e o quintal, onde estaria sem jamais ter sido conduzido até lá por minhas mãos, improvável. Cometo uma injustiça, suspeito das crianças. Tem sempre um distraído dono de carregar sacolas, objetos e largar em algum lugar. Teriam pegado meu livro por engano? Teriam misturado meu livro aos seus materiais de escola. Vasculho suas mochilas, seus quartos. ‘Desculpem-me, crianças!’

Teria eu o esquecido no painel do carro e um ladrão literato, um gatuno letrado o surrupiado num momento de absoluta calmaria na rua de minha casa? Abriu a porta com uma trincha, roubou o exemplar e partiu sem levar mais nada. A ousadia destes malandros não encontra limites, roubam agora Crime e Castigo para zombar da sociedade. Não foi o caso.   

Visto uma roupa mais adequada e apanho meu crachá. ‘Mas aonde você vai?’ ‘Vou até a empresa, pedirei ao guarda que me deixe entrar para ver se deixei por acaso o livro em uma de minhas gavetas.’ ‘Mas você não disse que o havia trazido na hora do almoço?’ ‘Sim, mas sei lá, é tudo tão corrido, vai que levei sem notar e acabei por largar lá.’ ‘Tem certeza que é caso de ir à empresa e criar essa situação inadequada?’ ‘Andrestchka, obsessão é obsessão!’ ‘Está bem. Boa sorte então!’

O guarda foi simpático, deu-me as chaves, permitiu minha entrada, contudo demorei um pouco mais que o esperado, penso. Vasculhei mais de uma vez todas as gavetas de minha escrivaninha, verifiquei o armário, repeti tudo. Ao sair, o guarda já estava visivelmente ansioso por minha demora. Não era pra que eu demorasse e ainda saísse do mesmo jeito que havia entrado, sem livro algum. Desolado, agradeci ao bom homem e caminhei para o carro.

Chegando em casa, sentei-me na cadeira de leituras do quarto e coloquei-me a lembrar da infância e de meus objetos mais queridos. Às vezes os perdia por horas, dias, ficava triste, desolado, perdia a vontade de brincar. Vi tudo acontecer novamente, só que agora tenho trinta e oito anos de idade. E foi pior o caso, devo confessar que tive um leve desejo de chorar. Seria em silêncio, algo íntimo e discreto, porém recobrei o juízo em tempo e percebi o quão patético eu estava sendo. ‘Perdeu o livro?, aceite o fato. Não é assim que aconselha a todos que lhe relatam casos de perda? Que adulto idiota és tu, rapaz?’ Disse-me Fiódor Dostoiévski sentado ao pé de minha cama.

Empalideci. Trêmulo, tentei justificar-me explicando da importância daquele objeto de coleção, da dificuldade de conseguir outro igual, da imensa despesa extra que aquilo poderia acarretar-me e, principalmente, da leitura interrompida por uma noite. Justamente faltando apenas setenta páginas para a conclusão do volume. Que lástima!  ‘Pois deixe de tanta tolice, rapaz. Já olhou atrás das caixas de som do subwoofer?’ Tempos modernos... Foi neste momento que fui investigar àquele local e senti o prazer de recuperar a dracma* perdida. Prazer que se incorporou à leitura e somou-se à afeição pelo objeto querido. ‘Quem ama os livros sabe que obsessão é obsessão, Andrestchka.’

*Dracma, a moeda grega de prata que tinha valor equivalente ao denário.


sábado, novembro 03, 2012

TODO DIA É DIA DE FINADOS

Há quem tema à morte e tudo faça para evitar o assunto. Há até quem se benza diante à menção da palavra como se o final fosse um castigo, uma praga dos céus ou dos infernos, de acordo com as obras e ações de cada qual. Qual quê? Qual?... Mas nem todos se encolhem diante o símbolo da derrocada final. Valentes? Não sei. Não sei não. Não mesmo.

Sei que existem os homens sentados em suas cadeiras de descanso diante às portas da última morada. Os vejo quando passo apressado entre um trabalho e outro. Penso que desafiam a morte e me parecem até zombar dos supersticiosos mais medrosos.

Donos de suas cabeças brancas, barrigas proeminentes e redondas, famílias problemáticas, netas precocemente grávidas, aposentadorias magras, netos desempregados e ociosos, casas do conjunto habitacional e assuntos corriqueiros, ali permanecem grande parte do dia perdidos entre comentários sobre a vida alheia e da passagem do tempo, do clima, da violência urbana.

Que lhes importa se quem passe fique curioso e encarando? Ali estão bem resolvidos com suas questões mais intrínsecas. E se possuem medo da indesejada de todas as gentes, disfarçam com maestria e perfeição. Talvez isso seja sensatez.

Quando o sol incide intensamente sobre suas cadeiras postadas na calçada diante de suas casas populares, as tomam nas mãos, atravessam a rua e colocam-nas diante da grande porta da cidade dos mortos, sob a laje, e dão continuidade ao monótono papo. Esparramam-se sobre as cordinhas de plástico, desdenham dos passantes curiosos com um leve ar de deboche natural e involuntário. 

Quando é noite e faz calor, sentam-se da mesma maneira por longas horas até que o sono lhes convide a entrar para dentro de suas casas. Alguns já compraram até terreno na eterna morada para não dar trabalho de última hora na última hora.


quarta-feira, outubro 24, 2012

MUY AMIGO SECRETO

Outubro. Vai começar! É tempo de brincar de amigo secreto. Começamos pelos rebentos e terminamos nos decrépitos. De mamando a caducando, os que querem e os que não querem irão participar, ‘não? Você não vai participar do amigo secreto deste ano?!’ ‘Ainda estou pensando. Até quanto será o presente?’ ‘Uma lembrancinha. Eu estou montando a lista de sugestões, quer sugerir algo?’ ‘Estou pensando.’ ‘Vai pensando, mas não demore, fecharei a lista no final da semana.’ ‘Tá.’

Há quem concorde em participar prontamente e ainda se saia com o clássico ‘Este ano já estou participando de três, será o quarto com este [sorriso].’ Na escola, no trabalho, na comunidade religiosa, no grupo de qualquer coisa e no balé das crianças de dez até doze anos. Não. No balé este ano não haverá brincadeira de amigo secreto. É que amiga secreta nem sempre guarda segredo de sua querida amiga desafeto.

Os papeizinhos. Sim, os velhos e dobradíssimos papeizinhos do segredo. O selo do enlace, a chave do mistério, o bem que alguns desdobram e vislumbram com surpresa e alegria. E..., espere um pouco, devo dizer que alguns desembrulham o papelzinho e o vislumbram com decepção e desprezo? Isso não. Não seria de bom tom. Mas a pequena bailarina o fez. Pequena em idade, porém grande em tamanho, peso e rancor.

Uma a uma as meninas foram tirando e lendo e reagindo aos nomes grafados à caneta esferográfica azul nos improvisados pedacinhos de uma folha de um caderno espiral pautado, um da secretária que é estudante e o trazia na bolsa. Havia quem pulasse de alegria e compartilhasse o segredo disfarçadamente, muito mal disfarçadamente, diga-se de passagem, com a colega supostamente mais confiável. Talvez por empolgação, mas certamente com o inconsciente desejo de ingressar no mercado negro de amigos secretos e, quem sabe, até negociar a prenda com alguém mais interessado e assim ser legal, ou até mesmo obter algum nome mais interessante.

Num canto não tão periférico da sala, a bailarina grande pesada e rancorosa olhou o papel e fez cara de poucos amigos. Disse ‘Que droga! Eu odeio essa menina! Ela me enche o saco todos os dias. Eu não gosto dela! Vou comprar um presente bem podre pra ela.’ Amassou o papel com a força do desejo de amassar a amiga secreta magra e o lançou ao cesto de lixo como se lançasse a própria menina mal querida amassada.

Se não estiver enganado, foi Lacan que certa vez disse, provavelmente quando tinha seus seis ou sete anos de idade ‘A criança é um perverso polimorfo’. Lacan deveria ter lá seus motivos pessoais naquela feita.

Como um enxame de fadinhas, nem bem a bailarina grande e pesada se afastasse do local do sorteio, correram ao cesto para apanhar, desamassar e desvendar o mistério da detestada. E a detestada não estava tão distante que as outras não a alcançassem primeiramente com os olhos e em seguida com a notícia ao pé do ouvido. Empalideceu a pobre que já não era lá das mais coradas. O sangue lhe abandonou a face e os finos lábios separaram-se e entreabertos ficaram. O pequeno papelzinho com o seu nome agora lhe pertencia e ela o segurava com as duas mãos, diante do rosto pasmo.

Não fez segredo de sua decepção para com a amiga secreta. Ao iniciar o choro, viu-se imediatamente interpelada pela mãe que a fora buscar por ser já hora do fim da aula. Entre suspiros, soluços e densas lágrimas, disse, aos solavancos, com o papelzinho ainda pinçado pelas pontas dos polegares e indicadores das duas mãos finas ‘Mã ãe, e eu não qué, quero ma, mais i, ir na, ca a sa, da, bai la, ri na gran de e pe sa da... Eu, eu, eu não sa bi a que, que, que ela achavaissodemiiimmm...’ 

O assunto girou a sala inteira. As mães que aguardavam na sala de espera, pacificamente tomavam o local do sorteio. A professora bailarina achou por bem encerrar o assunto, ao menos naquele momento, com a anulação da brincadeira. ‘Não haverá mais amigo secreto este ano e pronto!’ Outra bailarina se aproximou à grande e pesada e cochichou ‘Aí, tá vendo? Por sua causa. Por sua culpa.’ Ao que a outra deu de ombros como se fosse uma lacaniana precoce bem resolvida quanto aos dilemas da infância.


sexta-feira, outubro 12, 2012

GAROTA FROM IPANEMA

Na manhã da última terça, a caminho da casa onde faria minha primeira visita do dia, não me preocupava o resultado das eleições municipais realizadas no último final de semana, mesmo ocorrendo que em minha cidade tudo se resolva em um só turno. O que me preocupava, motivado pela canção que ouvia no rádio, era saber que a garota de Ipanema já ia com sessenta e sete anos pela vida a fora. Egoísmo meu andar perdido assim em pensamentos banais quando o futuro das cidades acaba de ser traçado nas urnas donas de emissões virtuais? Talvez sim. Contudo não é algo tão particular e pessoal o meu pensamento, se considerarmos o fator efemeridade do tempo do qual absolutamente ninguém está livre.

Dona Heloisa Eneida Menezes Paes Pinto, vovó Helô, na ocasião em que teria servido de musa à célebre canção hino da Bossa Nova, contava apenas verdes dezessete aninhos de idade e, segundo a própria, era ainda virgem. Uma menina, como diz a própria composição. E o tempo não perdoa mesmo nada nem ninguém. Se fosse hoje, em tempos de vigoroso politicamente correto, Vinícius de Moraes e Tom Jobim seriam considerados uma triste dupla de pedófilos digna de punição e pena.

Vinícius foi um homem do mundo, não no sentido religioso pejorativo da coisa, mas é que as coisas passavam por ele e ele as devolvia de um jeito próprio, melhorado. Dizem que ele levou três anos para revelar quem era a coisa mais linda e cheia de graça, ela, a menina que vinha e passava no doce balanço, a caminho do mar. E um dia revelou, quando ela já havia alcançado a maioridade, e isso mudou a vida de dona Heloisa para todo o sempre. Ela e a canção são o que restou do momento mágico em que pessoa e olhares se cruzaram. O poeta e o músico estão mortos e enterrados há tempos. E que falta nos fazem! Ficaram a canção, as obras, as saudades, a Bossa Nova e a musa.

A musa ainda colhe os frutos. É parceira em uma grife de moda para jovens senhoras e está lançando uma biografia “A Eterna Garota de Ipanema”. Mas quem é que garante que era mesmo dona Heloisa o objeto da canção no momento da concepção? Se o poeta revelou somente três anos após a gravação, como afirmar que não tenha mentido sobre a musa inspiradora e a atribuição tenha ocorrido somente posteriormente ao ato da criação? Vai que a verdadeira musa fosse apenas uma passante que uma única vez surgiu e desapareceu nas brumas daquele mar carioca em um dia de nevoeiro, incertezas, melancolias e ausência de sol. Sendo tudo então fruto da poderosa imaginação do poeta. Imaginação extremamente germinativa e fértil. E se olharmos as fotos de dona Heloisa em sua mocidade, se olharmos com espírito crítico e sem o carinho do costume, veremos que é uma moça bonitinha, mas bem comum, mesmo para a época. Sem medidas exuberantes, com uma vasta cabeleira castanha, um jeito tímido captado nas imagens, uma moça de fato sem nada de extraordinário.

Mas é claro que neste quarto período do texto eu só quis gerar polêmica (não sou nenhum santo, nunca fui). Não duvido que dona Heloísa seja de fato a senhora de Ipanema. Duvido completamente que os candidatos eleitos no último pleito resistam tanto tempo no imaginário popular quanto a musa resiste na canção em nossas memórias de eleitores desmemoriados. Foi em agosto de 1962 que Garota de Ipanema de Vinícius e Tom veio ao mundo para nos dar paz, inspiração, beleza e alegria. Há cinquenta anos.

E agora eu passo de malicioso e dissimulado a pretensioso e pergunto: Quem é mais sério, eu com minha canção na cabeça ou você com os resultados das últimas eleições? Perguntar não ofende, não é?

sábado, outubro 06, 2012

OS DOZE ZUMBIS & A CADELA BRAMA

A crônica vigente me permite dizer, sem revelar nomes e ou lugares, que todos os que viviam naquele apartamento conviviam mormente com as pulgas. Diziam que as pulgas eram da cadela Brama. A cadela tinha uma vasta pelagem preta e coçava-se quase que o tempo inteiro, e com o desespero dos atormentados, completamente entregue à aflição.

Na sala, quando recebiam alguém, um fato raro, a cachorra chegava malemolente com seu rabo flácido pendendo de um lado a outro como um grosso visco preto.  Olhava quem ali adentrava com seu olhar lânguido, súplice, castanho e tristonho de vira latas. Sentava-se ao pé do visitante e, no momento seguinte, começava seu espontâneo espetáculo a morder-se em desespero progressivo e fremente. Sôfrega e infausta, a cadela mordia-se, gemia, chorava e rosnava em extraordinária contorção vertebral. Propositalmente, procurava encostar-se à perna do visitante para ter um ponto de apoio e assim melhor coçar-se.

Ninguém comentava, mas era patente que a pessoa no sofá lutava para conter, a grande custo, o desejo de rebolar e o impulso de coçar evitando assim com imensa dificuldade os gritantes movimentos involuntários que pediam libertação. Cacoetes e tiques dos mais variados emergiam das profundas e remotas fases da vida da pessoa.

O visitante torcia quase que em desespero para que a anfitriã, por um único instante que fosse, desviasse o olhar a fim de cravar as unhas na própria carne para reprimir o parasita que já se refestelava à grande na novidade quente e caudalosa que ali fora ter por uma má sorte do dia.

Podia ser qualquer o motivo da visita ou a pessoa que visitava, a melancolia daquele recinto era contagiante e profunda. O assunto arrastava-se e misturava-se ás sombras das paredes. Nas frestas dos tacos do piso, aguardavam entrincheirados os insetos famintos à espera da vez de alimentar-se. A pesada atmosfera daquele apartamento de imigrantes açorianos ou trasmontanos impunha-se a todo e qualquer que ali fincasse os desafortunados pés por mais que cinco longos e angustiantes minutos.

Quanto mais informado e culto era o visitante, maior seria o terror. Perder poucas gotículas de sangue drenadas direto dos capilares não era o pior dos males, pior seria pensar que aquilo poderia ocasionar tifo ou até mesmo uma peste bubônica.

Aos íntimos, quando os moradores do local eram questionados sobre a espécie vampírica ali abundando em volume e proporção de praga egípcia, diziam que era por conta da cadela Brama, mesmo muitos anos após a morte da infeliz.

sábado, setembro 22, 2012

BRB - NECRÓTICO

O quê dizer? Como explicar o terrível fato ocorrido durante o período de não mais que quinze minutos de sua ausência? E de quem era a culpa afinal, se todos os dias Bob/Rock/Blues tomava o seu banho de sol das nove na cadeira de descanso da garagem que também é alpendre? E o fiel cão Kuduro sempre ficou ali ao pé do decrépito dono. Latia para todo e qualquer que por ventura se aproximasse do portão usando a calçada ou até mesmo a rua à frente da casa. Se o individuo parasse então, aí sim o cão desatava a ladrar numa histeria demasiada até mesmo para um bicho primitivo como aquele.

Macarrão, azeitonas pretas, manjericão, tomates maduros e o iogurte natural, e mais as laranjas que haviam acabado. Quanto tempo se leva para apanhar essa meia dúzia de itens em um supermercado aonde se vai ao menos duas vezes toda semana, mês após mês, por mais de três anos? E o supermercado ficava a apenas duas quadras e meia da casa do patrão. Cinco minutinhos para ir e, à passo apertado, instintivamente preocupada com o velho que ficara sozinho, olho no relógio, duas sacolinhas leves, uma em cada mão, em menos de outros cinco minutos já estaria de volta. No estabelecimento, não teria gastado mais do que cinco minutos. Terça pela manhã então, naquele horário, um pouco antes das nove, nunca havia ninguém, além dos funcionários, no supermercado. Jogo rápido.

‘Meu Deus do Céu!, não fiquei nem cinco minutos no mercado. [...] Como é que foi acontecer uma coisa dessas? [...] Que horror! Um horror!’ [...] ‘E como é que eu vou explicar pro doutor Olavo um negócio desses? É capaz do homem enfartar. Enfarta o filho e enfarta o pai. Os dois. Um em seguida do outro.’ [...] ‘Meu Deus! Logo agora que eu fiz aquela prestação da máquina de lavar ainda devendo cinco parcelas da televisão de plasma.’ [...] ‘Eu não vou só perder o emprego não, eu vou é pra cadeia, isso sim. Meu Deus do Céu, o que foi que eu fiz pra merecer um destino desses, Senhor? Misericórdia! Misericórdia, Pai!’ Conjeturava Dorotéia com as sacolinhas das compras nas mãos arrebatada e abatida pela perplexidade diante do iracundo patrão que vociferava contra o cão Kuduro que o teria acordado fuçando no curativo do seu pé.

Kuduro, ao ver Dorotéia diante de seu dono e receber pra si em sua direção o terror nos olhos da cuidadora, catou o que roia e correu para o quintal através da porta da garagem. ‘Tanto trabalho pra curar o dedo do homem... Cachorro miserável. ’ Pensou Dorotéia ao ver o animal fugir lépido e com ares de traquinagem quintal adentro. Havia seis meses que Bob/Rock sofria com uma necrose avascular no grande artelho do pé direito, o hálux. Estava preto e com forte odor o dedão do pobre. Necrótico, diziam os médicos. Tudo começou com uma unha encravada, uma que achou jeito de complicar mesmo sem o homem botar outro calçado que não as confortáveis sandálias de tiras de couro marrom. Seis meses de tratamento, e o dedão do velho só piorava. Talvez pelo diabetes, que nunca havia meio de controlar e permanecer controlado. O fato é que o homem não tinha suprimento sanguíneo para o dedo e nem sensibilidade no mesmo. Um caso bastante complicado.

Dorotéia conteve o choro. Ainda segurava as sacolinhas com a garganta nodosa, com os olhos marejados, peito sufocado, coração comprimido e angustiado. E disse com voz terna ao patrão: ‘Mas o senhor não viu quando o cachorro começou a fuçar o seu pé, seu Bob/Rock?’ ‘Eu já não disse, criatura, que o bicho me acordou? Quando vi, ele já tinha bagunçado tudo a faixa e arrancado o chumaço de gaze que você botou no meu pé. Você não deve ter colocado isso direito. Vai ter que fazer outro curativo. Não consigo ver daqui se ele desfez tudo, mas o que ficou ele babou. Vai ter que fazer outro sim. E vê se não fica aí parada feito besta, sua múmia. Ande logo com essas sacolas e curativo que eu quero tomar meu sol lá na calçada. E vai ver o cachorro que ele tá com um troço esquisito na boca. Deve tá aprontando alguma.’

sexta-feira, setembro 14, 2012

O BURACO DO COLCHÃO

Felício, sem um motivo para ti ela partiu, é verdade, é fato, porém, sem um motivo para ela, não partiria... E se não fosse o motivo, Felício, ah! como ela lhe fazia bem nesta vida, amigo. E você agora nem alcança o motivo dela ter ido, não é mesmo? Triste isso. Infeliz. Paga o preço do omisso aquele que é apenas distraído. Nada é justo, em se tratando disso. Talvez ela tenha acumulado motivos como quem guarda o dinheiro para a passagem de ida de moeda em moeda com o troco do primeiro pão do dia, de troco em troco de pão. Se fosse o trigo do pão, diria ter sido de grão em grão, sem gastar vintém, sem despender tostão.

A alegria dos últimos dias, Felício, o que lhe fez pensar ser um gozo de felicidade plena essa sua vidinha, era o que você via enquanto Helena estrangulava um a um os bichos que lhe devoravam o riso para cumprir o papel de feliz ao seu honroso lado, meu caro.

Felício, você foi lento no ponderar. O que foi isso? Não se deixa dormir tanto a quem se quer acordada. E se Helena gosta da palavra gerânio, não seria o caso de, ao invés de decorar a sala com as flores que levam por nome o verbete, decorar sim o quarto todo e as orelhas da bela com a palavra em natura, sussurrada? Plantando flor por flor ali nos ouvidos e regando com saliva na concha auricular da moça, antes mesmo que o último murchasse. Gerânios por todos os lugares. Gerânios em paz.

E foi Berenice, a diarista, quem primeiro viu o imenso abismo que havia ao centro da cama do casal. Uma imagem surreal, aterradora. A patroa fugitiva cavou um buraco que teve início na superfície do colchão, sob os lençóis, e varou a cama, alcançou o chão, adentrou pelo solo e foi dar em um túnel que se comunicava com outro buraco do outro lado do logradouro, distante da casa do casal. Por ali, ela ganhou a liberdade numa fuga silenciosa e, paradoxalmente, espetacular.

Felício, melhor continuar encenando mesmo o teatro do feliz. Ficará bem quando inventar outro ato. Dê folga à Berenice por dois ou três dias, ou uma semana, ou um mês. Helena desistiu definitivamente do seu espetáculo e está bem mesmo estando mal em outro trabalho onde ela terá maior destaque, visibilidade e identificação, entende?

quinta-feira, setembro 06, 2012

AO CARPINEJAR PELA ESTRADA

Penso que não há certeza no desamor por unanimidade, mas há sim uma grande dúvida... A certeza seria libertadora, uma dádiva, uma benção. A dúvida é o que nos ata... E atados vamos. Pior seria não irmos. Ficarmos.

Ficaríamos logo no início da infância, antes mesmo do terreno das memórias, ou nos primórdios da memória, memórias de fraldas. Ou na lembrança de Fanta Uva de algum colégio primário, quem sabe, como ocorreu ao poeta Carpinejar. Na memória furtiva do escritor, encontrei um paralelo a mais. Também, assim como o escritor, sou adepto à regressão por Fanta Uva. Contudo é sempre ao mesmo ponto que retorno, à minha São Caetano do Sul natal...

A gente finge que cresceu, que aquela criança morreu, que somos irremediavelmente adultos... Um dia, quando velhos e faltos de auto controle, a criança salta e nos tomam por loucos... Loucura sim é passar pela vida fingindo e mentindo que não somos mais meninas e meninos, como se a vida fosse um passeio por fases...
 
“Criança diz tudo o que pensa e por isso é divertida, adulto pensa tudo o que diz e por isso é chato.”


Obs. Este texto eu escrevi em comentário à crônica “Meu Pior Vício” do escritor Fabrício Carpinejar e tive vontade de compartilhar com os amigos de meu blog. O blog do Fabrício é o http://carpinejar.blogspot.com.br/

domingo, setembro 02, 2012

O TREINAMENTO [O AR CONDICIONADO]

A sala era grande e o ar condicionado extremamente potente. Enorme daquele jeito, uma verdadeira aberração do antônimo de natureza. Talvez, todos nós que estávamos nas primeiras seis cadeiras do lado de frente para o ar condicionado, talvez todos nós saíssemos daquele encontro resfriados. E alguns poderiam até mesmo evoluir com pneumonia comunitária grave e, quem sabe, alguém poderia até morrer por conta desta pneumonia infeliz adquirida em um treinamento da empresa, indo a óbito, conforme gostam de dizer os profissionais do ramo que, apesar de usar o termo, não se atrevem a criar o verbo obituar, o que seria muito prático e adequado. Haja visto: ‘Seu Fulano de Tal da Silva, do leito 8, e oito é símbolo do infinito, obituou’.

Mas eu precisava fazer algo. Não havia como sair do círculo formado pelas cadeiras ocupadas, sem atravessar à frente da palestrante, o que seria uma imensa falta de educação, e assim interromper a palestra. E, ao menos que me tirem do sério, sou sempre educado, e a palestra já ia num ritmo constante como marcha de velhos ponteiros analógicos. Não seria correto.

A detentora do controle do ar condicionado estava na outra extremidade da sala, absorta na palestra. Não percebeu que eu a buscava diligentemente com os olhos giratórios quase extrapolando os limites das órbitas. Não havia como sinalizar. Os colegas que estavam à sua frente (pois, por azar, ela estava recuada com relação ao grupo que participava da atividade) até perceberam minha atitude, aparentemente, indiscreta. Mas que fazer se um colega está sendo indiscreto durante uma palestra? Ignorar? Sim. Ignora-se o sujeito como se ele tivesse se tornado, por mal das inconveniências, tal qual um Ahasverus, o judeu que, segundo informações colhidas, foi o herói, o mito romântico errante, um homem sem morada fixa e estranho em toda parte, rejeitado por todos. Parece até uma norma este comportamento de grupo, um padrão protocolar.

Contudo, por exemplo, se o sujeito estiver tentando ser discreto ao máximo possível pedindo socorro através do olhar inquieto enquanto o assento de sua cadeira arde em chamas, certamente ele terá o traseiro completamente carbonizado sem que ninguém faça sequer um gesto de indagação com as sobrancelhas sinalizando “Que pasa, hombre?”.

Porém nem tudo neste mundo conspira para que a tragédia seja o único final possível e certo em uma história. Eu trazia em meu bolso o meu bloquinho de notas que por diversas vezes salvou minha vida ou substituiu minha não prodigiosa memória. Tive a idéia do bom e velho bilhetinho que tanto se assemelha a uma prática de um estudante tímido, como o qual fui durante meus longos anos de empastelamento escolar. Aquela velha forma de comunicação provou mais uma vez sua eficácia. Escrevi o pedido de socorro à colega que detinha o poder de controlar o ar condicionado da imensa sala inteirinha. Tive o cuidado de comunicar o nome da destinatária somente à colega que se sentava ao meu lado, a que fora homenageada muitos anos antes de seu nascimento pela canção da banda americana Boston – Amanda. Ela passou o bilhete a diante e a coisa fez o arco todo das cadeiras em uma viajem mística de quase 260º, porém não sem que curiosos (e estas coisas revelam de um modo peculiar os que não se contém), mesmo o bilhete sendo nominal por fora, lessem o conteúdo.

O bilhete chegou até as delicadas mãos da colega que, imediatamente, levantou-se e salvou diversas vidas ao desligar o ar para depois regulá-lo de modo a não congelar-me a orelha direita e nem promover a pneumonia comunitária do grupo que estava ladeado comigo.

sexta-feira, agosto 31, 2012

O TREINAMENTO [O AR QUE RESPIRO É O AR QUE ME RESPIRA]

Não basta ter uma narrativa agradável, é preciso teor cultural para a crônica valer a pena de verdade. Não sei como é para os outros escritores amadores como eu, mas acho complicado depurar uma prosa boa, que valha a pena, a partir de fatos corriqueiros do cotidiano, sem nada mais literário. Sempre acho que o motivo para um texto razoavelmente interessante seria um fato de proporções extraordinárias, ao menos no imaginário de quem cria o texto. O comum é comum e me parece estar destinado ao lugar comum, à caixa de papéis velhos, ao quarto de despejo, ao velho baú de enxoval, ao esquecimento. E tudo vai sendo esquecido, e tudo vai sendo puído, e tudo é corroído pelo ar que ali também ficou aprisionado e não se renova. É o ar o provável responsável pela deterioração de tudo que está contido dentro desta bolha atmosférica. É tudo culpa do ar. E até chegar a esta conclusão, eu nunca havia entendido o verdadeiro motivo pelo qual pessoas de idade avançada possuem verdadeiro pavor por portas e janelas abertas. Por ventos e brisas. Por ar. E, principalmente, por ar condicionado, é claro. Até bactérias precisam de ar para nos destruir. E as que não precisam diretamente do ar, precisam de substâncias e seres que precisam de ar para a própria constituição dos tecidos e destruição vindoura.

sábado, agosto 25, 2012

INFAUSTA CORRIDA, O CHOQUE

Naquele dia, quase conheci o meu fim grudado à campainha de minha própria casa. Tudo começou quando dobrei à esquina, correndo, sob forte vento e violenta chuva em diagonal, sob clarões titânicos tétricos que acendiam a rua, que já tinha metade de sua claridade por conta da iluminação pública. Um céu sarcástico bradava tempestuoso contra qualquer ser insolente que teimasse em não esconder-se. No caso, o transeunte teimoso era este cronista que vos fala. Mas antes de chegar à esquina, eu corria para sair da avenida onde corro todos os dias. Por grande coincidência, meu pai, que passava de carro pelo local, me viu e ofereceu carona, ao que recusei com um vigoroso gesto ‘Siga em frente, que estou bem!’ que não deixou dúvida de que eu estava resoluto em seguir enfrentando a fúria da natureza por mais duas quadras e meia até chegar em casa por meus próprios passos encharcados. Ele sabe que sou mesmo assim, decidido. Deve me achar meio falto de um parafuso, mas isso não importa. Este parafuso nem faz lá muita falta. Se é que realmente falta. E voltando à avenida, eu subia os primeiros canteiros das quadras sendo castigado pelos densos pingos que me faziam procurar por pedriscos que justificassem a dor das picadas em minha pele. Tudo debaixo de espetaculares clarões dos raios que me intimidavam testando minha valentia. E não vá dizer que não tem medo de raios estando molhado e a céu aberto que eu lhe desminto de pronto. E antes de ganhar os canteiros da avenida, passei grande apuro ao cruzar a rua que fica ao fundo da represa. Nada impedia a saraivada de densas gotas que açoitava a metade esquerda de meu corpo impiedosamente. ‘Pobre de meu rosto! Ai de minha orelha! Coitado de meu ouvido! Certamente inflamará, a não ser que eu pratique alguma profilaxia’ eu pensava. ‘Não! Isso não! Auto medicar-se é um crime. Um crime de ignorância e desinformação. Sou um profissional da área da saúde, oras. Como diria o apóstolo Paulo, “Nem tudo que posso me é lícito”. No mais, na verdade na verdade, nem posso. Não sou médico. Não farei isso. Acho que não. Não sei. Mas deixe estar o meu ouvido. Que o tempo se encarregue de nossos destinos, meu e de meu pobre ouvido. Voltemos ao fundo da represa. Ou melhor, antes do fundo da represa: ’ Quando eu fazia a curva ao pé da enorme, gigantesca árvore que ali habita, creio seja uma farinha seca, o céu estava mesmo carregado por nuvens densas e com uma cor cinza escura muito funesta. Mas quem é que sabe o exato momento em que cairá uma tempestade? Eu bem que desconfiei. Antes de estar ali, sob aquele céu fero, eu descia velozmente a avenida que leva à represa. Seria perfeito, caso a chuva retardasse em, aproximadamente, quarenta minutos sua queda. Ao colocar os pés na rua, intuí que teria que ser rápido como um Pégasus. E até antes mesmo de colocar os pés na rua, ainda dentro de casa, eu já me vestia apressado. Tinha pressa assim que cheguei do trabalho. O céu estava muito rente ao solo. Temi. O céu assim tão perto do chão pode não ser um bom sinal. Alguém pode acabar subindo, sei lá. Há sempre o risco quando o céu está tão baixo. Era a agonia de um arrebol do pós dezoito horas em início de outono. Cheguei a comentar que iria dar uma corrida rápida, e com sorte voltaria antes da chuva. Minha irmã estava aqui em casa, fez cara de dúvida, fez cara de incerteza, fez cara de incerteza misturada com dúvida. Eu já estava decidido. Não haveria cara que me dissuadiria de meu propósito. E meu propósito era o de correr. Corri quase nada. Dos quarenta minutos planejados, corri menos de quinze. Correria mais, mesmo sob vento e forte chuva, caso não houvesse relâmpagos. O problema é que tenho medo de relâmpagos. Tenho medo de tudo que é modalidade de choque. Estava encharcado ao chegar diante do portão de casa. Quase fiquei grudado na campainha. Como disse no início deste, tomei um baita choque.

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