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sábado, novembro 26, 2011

GIVANILDO CASA GRANDE

Passava a poupa digital da ponta do indicador sobre a televisão para conferir a cor e a textura da poeira quando ouviu o toque da campainha. Olhou pelo olho mágico da porta que dava para a rua. Viu que era Givanildo, o vizinho do lado direito de quem estivesse de frente para sua casa.

Aquilo era incomum, nunca se visitaram. Nunca se freqüentaram os vizinhos. Estranhou a presença de Givanildo à sua porta. Mais estranho era perceber que Givanildo era a imagem e a semelhança da finada Dona Neuza, sua mãe.

Abriu a porta. Givanildo sorriu um sorriso que abrigava alguma partícula de sarcasmo mal ocultado, talvez propositalmente. O vizinho estendeu a mão para cumprimentar Thor Nelson: “Olá, Thor! Como vai? E seu pai, tem notícia do velho?”

Givanildo era o mais velho dos três filhos da finada Dona Neuza. Formou-se em Administração de Empresas e Contabilidade. Possuía uma imobiliária: “Oi, Givanildo. Não... Não tenho notícias de meu pai...” Disse Thor Nelson.

“Sabe por que estou aqui? [...] É que vou aumentar o meu muro” Givanildo era figura cativa da coluna social do jornal local. A cada ano comprava um carro maior para sua garagem, colocava mais silicone nos peitos e nas nádegas da esposa, e também, todos os anos, aumentava um tanto a casa que herdara de sua mãe. Talvez o pai de Thor tivesse razão ao dizer que o vizinho tinha um complexo de Napoleão latente, pois era baixinho e arrogante como o imperador francês.

Thor já pressupunha a razão da visita: “Sim!?” Respondeu com ar de tédio.

“É. Vou aumentar o meu muro novamente. Sabe como é. Sua casa não tem nenhum dispositivo de segurança, os ladrões podem facilmente pular para o meu quintal passando pelo seu. E tem mais, a Elaine gosta de privacidade, gosta de ficar bem à vontade em nossa piscina”

Thor Nelson, com evidente desdém, respondeu ao que o vizinho explicava: “Tá [...]”

“E isso vai gerar alguma despesa com materiais e mão de obra. Mas é uma melhoria da qual até sua velha casa irá se beneficiar. Afinal, cada vez que invisto em minha casa as casas vizinhas acabam sendo mais valorizadas no mercado imobiliário por estar ao lado de uma construção de alto padrão, endente? Também terei que reinstalar minha cerca elétrica. E o pessoal não faz isso de graça. Já perguntei. Aliás, nada é de graça, não é mesmo?”

“Givanildo, to desempregado, meu pai tá desaparecido. Não posso nem contar com a aposentadoria dele. Até tranquei a faculdade. A coisa tá feia, amigo. Não tenho como contribuir com nada. To levando as contas com um bico que to fazendo, cuidando dum doente”

“É, mas de qualquer jeito a sua casa irá se valorizar. E outra; você tem obrigação de contribuir, o muro que cerca sua casa está dentro de meu terreno, é meu. Você o usa o tempo inteiro sem que eu te cobre nada. Já disse isso ao seu pai, o Veloso”

“Givanildo, eu não quero discutir com você o mérito dessa questão, amigo. Eu agora não posso contribuir com nada. Espere meu pai voltar, aí você conversa com ele”

“Um, sei. Vou falar com o meu advogado, aí vejo se é mesmo o caso de esperar que seu pai volte pra conversar sobre a obrigatoriedade de sua contribuição”

“Givanildo, converse com quem você quiser. E tem mais; o muro não está em seu terreno conforme você vem dizendo. É só olhar pelo padrão da energia, ele demarca em qual terreno o muro está situado de fato. Meu pai já disse isso há muito tempo pra senhora sua mãe, já disse pra você inclusive. Esse muro tá dentro do nosso terreno”

Givanildo puxou a calça para cima pegando pelas laterais do cinto, acomodou a parte inferior da barriga dentro da calça, apalpou sua bolsa escrotal, e fez uma firula como se fosse embora no decorrer da conversa; chegou a dar um passo; retornou com a mão estendida para o vizinho; disse que já não tinha tempo para continuar a conversa, e se despediu: “Depois eu falo com o seu pai, se é que ele vai voltar mesmo”


“Passe bem!”


“Passe bem...”


Obs. Este humilde conto continua em O GALO ERA UM BODE. Se ler, por favor, comente. Obrigado!

sábado, novembro 19, 2011

A IMPRENSA SUPREMA

Ao chegar em casa, assim que fechou a porta atrás de si, sentiu a melancólica atmosfera opressora lhe esmagar como se um saco de sessenta quilos de tristeza lhe fosse recolocado sobre sua cabeça.

A situação não era tão difícil enquanto estava na rua. Talvez por distrair-se observando o vai e vem das pessoas. O fato é que, ao ver a casa vazia e os habituais cantos costumeiros de seu pai agora desocupados, a poeira sorrateira acumular-se sobre a poltrona verde musgo reclinável, as pilhas de jornais intactos crescerem feito planta nos cantos da sala, um arrependimento liquefeito invadia a chaga aberta na alma após a última discussão que tiveram. A discussão que antecedeu ao sumiço do velho. Parou de pé diante da cozinha, e começou a recordar aquela manhã.


Era como se pudesse ver perfeitamente toda a cena: Era hora do café, café fresco e pães à mesa. O velho enxugou as mãos no pano de pratos encardido que trazia sobre o ombro esquerdo e sentou-se e tomou o jornal nas mãos. Vestia o velho roupão vinho em tecido acetinado, o mesmo que usava todos os dias a mais de cinco anos, desde o falecimento da esposa por atropelamento. Por baixo do roupão, o que era possível notar pelas descuidadas pernas abertas, usava sempre uma das calcinhas da falecida. O rapaz fingia não saber dessa excêntrica forma de nostalgia do pai. Nunca mencionara o assunto. O velho repousou o jornal sobre a mesa, acendeu um cigarro, reabriu o jornal e comentou a queda de mais um ministro: “Em dez meses de mandato da presidenta, já são seis os ministros que entregaram o cargo. Já viu algo parecido? Vê só o nível da roubalheira que essa gente vive?”


Thor Nelson fez questão de demonstrar seu desconforto pela fumaça do cigarro do pai, mas o velho, vendo que o incomodava, fazia por onde direcionar ainda mais a fumaça ao rapaz. Ele queria saber o que o filho achava de mais um ministro cair em tão pouco tempo de mandato da presidenta, apenas dez meses de mandato. O rapaz disse que não se importava, e que aquilo era um jogo de interesses pelo qual não se interessava.


O velho deu um murro na mesa que fez com que as xícaras e a faca da manteiga tilintassem. “Aí, ta vendo como você é? Ta vendo? Você não se interessa por nada mesmo. Nunca vai ser ninguém nessa vida. Onde já se viu não querer saber da política do país? Fica aí, metido com esses romancistas idiotas, esse bando de fracassados, bêbados, doidos, drogados. É isso que você quer ser, esse é o seu ideal de vida? Ser um desajustado como são todos esses vagabundos que se dizem escritores, intelectuais?”


Thor Nelson ficou surpreso pela reação desproporcional do pai. Desde a morte de sua mãe, eram os únicos na casa, e o que restou da família.

Apanhou seu pão e sua xícara de café e caminhou até a porta da cozinha como que para tomar um pouco de ar fresco e despoluído, e evitar a discussão. Ali, decidiu expor seu ponto de vista ao iracundo pai. “Essa onda de denúncias da imprensa, em minha opinião, é algo leviano e contraproducente. O que vai mudar se tiver um escândalo a cada semana? Tirando o lucro dos jornais e o movimento da famigerada imprensa, nada muda de fato. Acho que o trabalhador não ganha nada com isso. Apenas se revolta cada vez mais e vai ficando descrente e desmotivado”.


“Ah, e você se diz um democrata... Que grande democrata você é! Quer saber? Você não existe, Thor! Você é um caso pra ser estudado, estudado por uma junta de especialistas. Seus pensamentos são absurdos. Você não existe!”


Thor Nelson sabia que aquilo era em parte pelo Alzheimer. Seu pai ficava cada vez menos previsível e cada vez mais descompensado. Irava-se por nada. Suas reações eram desproporcionais. Não demorava cinco minutos para que se desculpasse. Mas naquele dia Thor Nelson não quis ficar para uma reconciliação. Disse que não agüentava mais o velho e que arranjaria um lugar para si. Bateu a porta e partiu. Ao retornar, só encontrou a casa vazia. Percebeu que uma mala e parte das roupas de seu pai haviam desaparecido, inclusive as calcinhas da falecida mãe, todas. E daquela triste manhã, já havia quatro meses que não via o velho. Dois dias depois, após falar com os conhecidos, que só teriam visto o velho descer a rua bem vestido pela hora do almoço, decidiu prestar queixa de desaparecimento à polícia.


Obs. Este conto conhece sua continuação em GIVANILDO CASA GRANDE. Se ler, não se acanhe, comente. Abraço!

sábado, novembro 12, 2011

UMA DO TCHAIKOVSKY

Fazia alguns dias que ajudava o casal. Sempre se despedia prometendo voltar na manhã do dia seguinte. Um dia voltou e não foi atendido. Bateu no portão. Abriu o portão, enfiou a cabeça para dentro do quintal e chamou. Não foi atendido. O cachorro latia, mas não era para ele, o cachorro latia para o lado, como se visse algo se mover em meio a fumaça tóxica de uma fogueira que, pelo cheiro, deveria estar consumindo uns plásticos ou qualquer outra coisa não orgânica. O cachorro se quer o olhava. Era um pequeno vira latas atado a um arame que poderia percorrer em toda sua extensão de três metros, aproximadamente, eu creio. O cão não tinha o menor indício de ferocidade, e mesmo assim era mantido preso, o tempo inteiro. Talvez devesse a isso o fato do cão ser um tanto esquizofrênico.


O cão latia sem olhá-lo, ele chamava pela dona da casa, a fumaça tóxica impregnava os ares, ninguém atendia. Decidiu tentar chamar Dona Amélia ao telefone, tinha o número. O telefone chamava até o fim, e nada de atender. Abriu novamente o portão e pode ver que a porta da cozinha estava aberta. Talvez Dona Amélia tivesse deixado Seu Felipe sozinho por um instante e ido até a venda, ou à casa de alguma vizinha (algo que um cuidador mais zeloso condenaria veemente). Não havia o que fazer. Não queria invadir a casa. Dona Amélia bem poderia não querer atendê-lo naquele dia, mas poderia também ter enfartado sobre o dorso do marido moribundo enquanto trocava o frasco de dieta. Poderia também, por motivo desconhecido, ter antecipado o banho do pobre homem, contando para tal com a ajuda de algum vizinho para removê-lo do leito.


Eis o mistério. Onde estaria Dona Amélia que não atendia o portão naquela manhã, justo ela que sempre abria o portão sorridente ao primeiro chamado? Os mais histéricos teriam invadido a casa sob o pretexto de prestar socorro. Os mais moderados esperariam até algo mudar a cena, fosse o que fosse. Os mais eruditos buscariam a solução em uma citação literária. Os mais religiosos na bíblia. Nosso jovem herói, ajudante desempregado, decidiu ir até o insólito bar do Farias para comer uma coxinha e tomar uma brota-atola bem gelada. Foi. No caminho, ouvia no velho MP3 Tchaikovsky, A Valsa das Flores, de “O Quebra-Nozes”, eu creio. Comeu a coxinha, que mais justo seria ser chamada de coxona, e tomou o refrigerante bem gelado. Pensou um pouco na questão dos finados. É que, a caminho da casa do casal, passou diante do portão do cemitério principal da cidade e viu um grande monte de flores empilhadas. Ponderou que até as flores mortas do dia de finados atestavam que nada que é humano é perene, mas tudo é na verdade perecível e ilusório, “vaidade de vaidades, tudo é vaidade”, como dizia o pregador.


Transcorridos cerca de quarenta minutos, retornou à casa do casal. Bateu no portão com a chave da própria casa. Dona Amélia veio atender ao primeiro chamado, como de costume, sorridente e receptiva. Não explicou nada, sequer mencionou a alteração do horário, era uma criatura livre de formalidades. Ela estava com a casa parcialmente revirada. Era dia de faxina. Nosso herói não disse nada sobre a espera. Entrou, ajudou, como de costume, e partiu com um trocado no bolso.



Obs. Este humilde conto continua em A IMPRENSA SUPREMA. Se ler, por favor, comente. Obrigado!

sábado, novembro 05, 2011

AMÉLIA É QUE ERA MULHER DE VERDADE

Partiu. Partiu para a casa de Dona Amélia. Fazia quase um mês e meio que ia ali todos os dias pela manhã, exceto aos domingos. Bem no início da manhã. Mudava Seu Felipe de lugar e posição. Colocava-o na cadeira de banho e de volta no leito. Vez ou outra, passeava com ele pela calçada na cadeira de rodas.


Seu Felipe havia sofrido um derrame e estava acamado e, praticamente, todo paralisado. Era magro feito um fiapo. Possuía pernas, braços e pescoço longos feito gravetos. Tinha um rosto comprido e delgado, e com os traços profundos e secos como entalhes em madeira. Seus cabelos estavam constantemente oleosos e amassados. Eram lisos e de cor escura e, apesar de contar mais de sessenta anos de idade e uma vida inteira desregrada, eram poucos os fios brancos. Falava pouco. Em presença de Dona Amélia, dizia nada. Parecia mudo. Em ausência de Dona Amélia, o pouco que dizia resumia-se em coisas inconclusas, estranhas, descontextualizadas, ininteligíveis, confusas, delirantes, e, por vezes, reveladoras e engraçadas.


Cada vez que ele ia ajudar o casal ganhava um trocado. Dona Amélia era lavadeira, e também recebia gorjetas freqüentes dos filhos, ajuda da assistência social do município, ajuda de uma comunidade doutrinária, auxílio doença, por conta de uma hérnia de disco, a aposentadoria do Seu Felipe. Com o dinheirinho que recebia de Dona Amélia pagava uma média, o almoço, outra média. Era apenas um trabalho temporário. Surgiu em bom momento. Ele era vizinho de Dona Amélia e, certo dia, ao ver a dificuldade com que a pequena mulher manobrava a cadeira de rodas do marido na calçada, se ofereceu para ajudar. Mas a dificuldade maior de Dona Amélia não era manobrar a cadeira, mas sim tirar o homem da cadeira de rodas para colocá-lo na cadeira de banho, e de volta na cama, e depois mudar as posições a cada duas horas; recomendação da enfermeira do posto de saúde que a visitava uma vez por semana para ver como andavam as coisas, tomar café, falar de banalidades e partir após os últimos conselhos repetidos.


“Você é forte. Pega ele numa facilidade... Eu nunca que conseguia pegá ele assim. Meu filho, quandotáqui, pega ele assim também, igual bebê. Mas eu, com esses bracim fino e cansado de tanto esfregá a ropa, não dou conta nem de mudá ele de pusição. Mi dá uma dor nas costa quando não tem ninguém aqui e eu preciso fazê isso. A Ritinha, infermera do posto, disse que tem que mudá ele de duas em duasora, mais eu num dô conta, num dô mesmo. Com ajuda dos fí e dus vizim, eu mudo, quano muito, duas veiz por dia. Fí, cê importa de isperá só um poquim até eu dá uma lavadinha nele, e aí se põe ele de vorta im riba da cama pra mim? Hoje eu tô sozinha mais ele”


Bem, ele não se importou em esperar para ajudar (como ficou claro no início do texto). Não recusou o trocado que ela lhe ofereceu em paga do favor. Não refutou o pedido dela para que ele fosse descê-lo da cama ao iniciar o dia posterior, nem para esperar o banho e posicioná-lo novamente na cama. Foi. Chegou por volta das sete. Enquanto ela preparava o banho, levou-o na cadeira de rodas até a calçada para que recebesse a radiação do nascer do sol. Não custava nada para ele ajudar aquelas pessoas. No mais, era um trabalho temporário que lhe garantiria algumas refeições naqueles dias ingratos.



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