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quarta-feira, outubro 26, 2011

XONGAS

Sua ausência lhe causava um vazio. Esse vazio era preenchido por saudade e tédio. Muita saudade, e todo o tédio do mundo. Não havia como atravessar àquela rua sem lembrar-se das vezes em que a atravessaram juntos, sorrindo e se resvalando nas mãos, nos antebraços, braços, nos ombros, quadris, coxas, pés, nos troncos, nas faces, nas frontes, nas cabeças, nos cabelos um do outro. Praticamente se embolavam diante do trânsito nervoso, tenso, bem como dos transeuntes apressados de caras amarradas. Naquelas ocasiões, nada importava de fato, senão o amor que os envolvia e os movia na travessia daquela rua, e na travessia de todas as ruas que cruzavam juntos.

A química do amor... A química do tédio... A química da saudade... Quem é que nunca provou dessas poções mágicas e transformadoras? Quem? Quem?


Ele sentia vontade de escrever. Escrever era a única maneira barata e acessível de espiar aquele tumulto de sentimentos à deriva no marasmo dos sentidos em que vivia seus dias. Mais uma vez pensou nas palavras de João Paulo Cuenca durante um bate papo na feira literária de Paudalho, Pernambuco: “Eu precisava escrever para dar conta daquele momento, e assim eu comecei a escrever num velho computador”. O escritor disse esta frase quando se referiu a um momento muito difícil de sua vida onde morou em um minúsculo apartamento em um conjunto residencial que mais parecia uma colméia superlotada.


Pensativo, preparava-se para atravessar a rua. Tinha em sua mão um copinho plástico de água fresca que acabara de extrair do bebedouro dentro da pequena loja. Já deixava na calçada o pensamento e a química da saudade. Agora sentia seu corpo reagir ao pensamento e à química da angustiante solidão que pairava sobre sua cabeça. Sabia que, ao chegar em casa, era a casa vazia, poeirenta e mofada que lhe aguardava. De longe, avistou uma figura que se aproximava lhe dirigindo a palavra e enlanguescendo o passo, ao mesmo tempo em que aumentava a oscilação dos braços a roçar o abdome roliço e globoso. Cumprimentaram-se. Era o Xongas, João Xongas. Perguntou de como ia sua mãe. Ele, o Xongas, detalhista como poucos, decidiu explicar. Explicou. O outro ouviu. Na boca de Xongas, perdigotos eram vírgulas, pontos, e pontos e vírgulas. Sentiu medo do amigo. Como tomaria sua água depois daquela conversa? Perdeu um copo de água fresca. Despediu-se, e partiu.


Gostou desta humilde postagem? Não? Tudo bem, eu entendo. Mesmo assim, obrigado por ler! Este conto continua em AMÉLIA É QUE ERA MULHER DE VERDADE

sábado, outubro 15, 2011

A NIGHT IN TUNISIA

Na véspera do feriado da padroeira, estive em Ribeirão Preto pra realizar exames médicos. Próximo à hora do almoço, já havia feito o exame e estava na rua de um sebo sobre o qual havia visto uma matéria falando a respeito no caderno Ribeirão da Folha de São Paulo de algumas semanas passadas. Achei o sebo diferente de todos que eu já havia visitado, pois ao contrário da maioria, que são sempre escuros e com forte cheiro de poeira, ele é claro e com leve cheiro de poeira. Eu sabia o que queria, digo, sabia razoavelmente o que queria, sabia em sentido genérico. Eu queria um bom livro barato, queria apenas um livro, queria o livro do Reinaldo de Moraes, queria o livro que o tornou conhecido na década de 80; “TANTO FAZ” é o nome do livro. Não tinha. Quando isso acontece dentro de um sebo, de o livro que você procura não constar, você está livre para vagar e divagar por entre as prateleiras. O sebo é um universo paralelo, é uma máquina do tempo. Uma vida inteira não basta para explorar devidamente as miríades culturais de um bom sebo. Eu queria também um filme. Qualquer filme, contanto que fosse bem velho. Encontrei o “A PEQUENA LOJA DOS HORRORES”, versão original, em preto e branco. Fiquei apaixonado pela inocência, simplicidade e, principalmente, pela trilha sonora. Aquele Jazz, feito para ser sombrio em uma comédia de humor negro, é algo fantástico. Hipnótico e sombrio. Faz com que viajemos no tempo passando por um túnel escuro, soturno e romântico. Precisava também de música. Escolhi Miles Davis para levar. A canção “A Night In Tunisia” dá um livro. Tudo em mãos. Filme, música e, claro, alguns livros que não o que eu havia procurado em princípio. Saio do sebo mais rico e feliz. Agora estou aqui, contaminado por essas reminiscências de sebo e empolgado com o texto "A PEQUENA LOJA" que postei antes deste. Creio ter encontrado minha voz mais profunda e sutil, conforme me aconselhou o amigo de twitter, o escritor Miguel Sanches Neto. Acredito muito nos personagens da trama que criei, eles estão vivos e com vida em abundância. O texto é simples, como tudo que escrevo, mas o realismo ali contido é algo elétrico que me move. Usei também Miles Davis para compor a atmosfera que precisei para escrever. O dia chuvoso contribuiu muito. Sei que se fosse uma tarde de sol eu não teria realizado o texto conforme fiz, ou nem teria o feito. Está tudo tão latente que creio não conseguir esperar uma semana para atualizar o blog conforme costumo fazer. Woops! Não esperei mais que poucas horas para fazê-lo [sorrio].


Gostou desta humilde postagem? Não? Tudo bem, eu entendo. Mesmo assim, ajude-me votando em meu blog para o Prêmio Top Blog 2011, logo abaixo do meu perfil aqui. Obrigado!

A PEQUENA LOJA

Caminhava, quando, ao passar pela pequena Rua da Ladeira, vi o anúncio fixo ao vidro da portinhola da estreita porta de uma das muitas lojinhas espalhadas entre velhos edifícios e sobrados residenciais e comerciais do bairro que já fora centro comercial em tempos remotos. O anúncio dizia: “CONTRATAMOS!”

Em minha cabeça, o peso de três meses de aluguel vencidos, contas e dívidas, cobranças, inadimplência na faculdade, e meu pai desaparecido há quatro meses. Sem sombra de dúvida, o período mais sombrio de toda minha vida.

Fato que nunca havia notado aquele comércio. Na adolescência, passava por aquela calçada com freqüência. Mesmo não sendo um grande observador, creio que, ao menos daquela quadra, posso descrever de olhos fechados todos os edifícios ali sitos. Frequentei demais aquela calçada para não o fazer. Como teria me escapado um comércio naquele lugar tão familiar?

Por mais acanhado que fosse o negócio, estaria ali há tempos. Tinha um aspecto de velhice consolidada. A estreita parede da fachada, na cor mostarda, desbotada e descascada a margear os portais de madeira escura, imbuia; tudo parecia devastado pelo tempo. Aquela loja existiria ali certamente há muitas décadas. Até o pequeno vidro retangular da portinhola tinha o aspecto destorcido dos vidros que envelhecem e parecem escorrer para a base como que derretidos pela passagem de muitas décadas... Sim. Admito. Nunca havia notado o lugar.

Nas vezes em que ali passei, nas muitas vezes em que ali passei, devo ter andado distraído. Ou então, devo ter imaginado que fosse apenas mais uma porta residencial; assim a inclui no montante de pequenas portas residenciais ao longo da rua.

Era uma loja velha e escura onde um corredor longo e estreito, também escuro, levava a uma sala de tamanho médio que dava acesso a outros dois portais sem portas. Havia uma inscrição sobre o batente da porta de entrada. Porém, de tão velha, descascada e apagada, não era possível ler o nome da pequena loja. Lia-se apenas: “LOJ M SH K’ S T OW” e o resto era mera especulação.

Em meu favor, apenas o fato de que, quando garoto, eu tinha mania de andar olhando para o chão. Erguia a cabeça somente vez ou outra. Hábito adquirido em decorrência das incontáveis vezes que queimei a sola dos pés descalços nas bitucas de cigarro. Fazia uma espécie de varredura das calçadas com o olhar. Passei naquela rua quando adulto também. Mas apressado como todos somos, quem é que nota pequenas portas?

Não importa. O fato é que a velha loja estava ali e poderia saciar minha necessidade por emprego. Era minha chance.

Ao atravessar a pequena porta, era um longo, e estreito, e escuro corredor que conduzia ao interior de uma sala quadrada pouco iluminada. Dentro da sala, pude ver que o chão era de tacos em péssimo estado de conservação; foscos, riscados, com falhas. Entre dois portais, havia um pequeno balcão de madeira escura, imbuia. Atrás do balcão, um velho computador na cor bege, um dos primeiros modelos. Diante do monitor da máquina, estava sentada uma jovem de cabelos castanhos escuros com as pontas loiras, e de óculos de aros largos e lentes grossas. Ela tinha o olhar fixo na tela refletida em suas lentes. Dirigi-me a ela que parecia não ter ouvido soar a campainha musical no momento em que atravessei o portal da rua adentrando o estreito corredor. Não ouviu ou talvez tenha simplesmente ignorado minha chegada como deveria fazer toda vez que estivesse compenetrada em uma conversa no MSN.



“Oi” Disse eu.

“Oi” Respondeu ela, e sem desviar os olhos da tela.



“Vi lá fora que estão contratando...”

“Uhnrhum”



Eu não queria dizer que não sabia do que se tratava aquele comércio, isso poderia denunciar minha extrema necessidade por um emprego, fosse qual fosse. Naquela situação desesperadora, qualquer trabalho fixo aliviaria parte de minhas preocupações e dívidas, e, mais que isso, seria terapêutico por abstrair-me do emaranhado de problemas comprimidos em minha cabeça quente.

“Quem é o responsável pelas contratações?” Falei assim apenas para valorizar o evento, pois me pareceu que ao dizer ‘contratações’, e não simplesmente ‘contratação’, elevaria o status da empresa. Ela olhou-me pela primeira vez e, com ar de extremo enfado, perguntou mascando um chiclete: “É currículo?”

E vendo que eu não dizia nada, mas já transparecia em minha face uma ligeira afetação pelo descaso da recepção, completou: “Se for currículo, pode deixar aí em cima do balcão que eu entrego pro Seu João na hora em que ele voltar”

Agora eu sabia que quem detinha o poder de melhorar o meu destino se chamava Seu João e provavelmente estaria almoçando às onze horas da manhã, e com efeito retornaria ao meio dia para que a moça do MSN fosse por seu turno almoçar.

Emendei: “A que horas o Seu João volta?” Ela certamente queria me irritar. Se não queria, indubitavelmente possuía o dom. “É currículo?” Ela disse outra vez, num rápido desvio de olhar da tela para mim e, antes de esperar por qualquer resposta, voltou a teclar uma mensagem para o provável velho gordo maníaco pelado tarado escroto casado pai de família com quem ela falava a manhã toda no computador. Bastava. Aquela moça, com seus modos displicentes e mal educados, acabara de fechar uma porta que poderia ajudar a melhorar minha vida tão necessitada de melhorias. Um soco no balcão e alguns desaforos seriam a exata medida de meu desabafo e pedido de demissão prévio ao analise de currículo, entrevista e contratação.

Foi quando saiu do portal da esquerda um jovem magro, pálido, descabelado, esquálido, de óculos parecidos com os da recepcionista, visivelmente estrábico, vestindo calça jeans justa e camisa xadrez, com alguns livros velhos nas mãos e perguntando: “Ingrid, você sabe se esses aqui já foram catalogados?”

Sem desviar os olhos da tela, ela respondeu que não sabia, e que era para ele deixá-los sobre o balcão que ela veria depois. Ele não se importou com a pouca atenção; pareciam se entender. Ele disse: “Então ta” Olhou-me ali parado diante do balcão, e retornou pelo portal que havia surgido como num evento de materialização seguido por desmaterialização. Ao ver que a falta de atenção da moça do MSN, a Ingrid, não era algo pessoal, fiquei mais calmo e vi se esvair o meu ímpeto de esmurrar o balcão e desaforá-la. Como eu não trazia em mãos nenhuma cópia do meu currículo, saí para providenciar. Decidi voltar no dia seguinte, talvez.


Obs. Esta postagem é comemorativa do terceiro ano do blog, a completar-se no dia 01.01.12, e também comemora a adesão de mais de 3500 generosas pessoas que me apóiam. Quer saber o que aconteceu em seguida? Este conto continua em “XONGAS” [se ler, por favor, comente]

domingo, outubro 09, 2011

O NAMORO FOI UM FILME

Ela chegava sempre no horário certo ao trabalho. Não adiantava nem atrasava. Frustrada pelo casamento que resultou em filhos, conflitos, calúnias, vivia uma vida dura, dupla. Se por um lado se realizava em ver os filhos crescerem sob seus cuidados de mãe zelosa e trabalhadora, por outro ficava frustrada por ainda amar o cafajeste que tanto lhe causou danos à vida. De dia era uma trabalhadora mãe exemplar, à noite uma mulher triste e solitária.

Era apenas uma menina quando se apaixonou por aquele inútil. Ele veio cheio de mimos, zelos, obséquios, perfumes, sorrisos, camisas de corte social de cores da moda, frases de efeito, sapatos de pelica, carinhos, calças bem ajustadas, afagos, ouro no pescoço, dentes brancos reluzentes, cartola e fraque de Mandrake.

Como não se apaixonaria por aquele arsenal sedutor operado por um homem, ainda por cima, mais velho e experiente? Parecia o príncipe loiro dos contos de fadas, mas numa versão ruiva. Entretanto aquilo era apenas o namoro, e namoro é maquiagem, é cena, é artifício, é filme. Se você atualmente namora e agora se ofende com o que digo, não se ofenda. No entanto se já namorou na vida e hoje sabe que o namoro é a fase do conto de fadas do relacionamento afetivo, concordará que não exagero nem minto. ‘Vá comer um quilo de sal lado a lado para saber quem está junto de você na verdade’, assim dizia as avós dos netos mais velhos que andam por aí em nossos dias.

Ela pagou o preço caro por apaixonar-se por um canalha. Quando veio a monotonia do casamento, ele já flertava a muito com uma movimentada vida de solteiro. Queria voltar à esbórnia, farra, orgia, pândega, boemia. Queria perder-se nas madrugadas, virar os olhos diante de caras pintadas inalando os fortes perfumes que não custam caro e por isso são derramados aos litros nos pescoços suados floridos por hematomas em formato de bocas tortas alcoolizadas. Queria as mulheres que na maioria não namoram nem se casam; as que se dedicam a fins comerciais. Começou a chegar tarde o traste. Chegava com os colarinhos sujos por batons baratos com desenhos de fissuras de lábios não caros. Suas roupas cheiravam a almíscar falsificado; as íntimas cheiravam à náusea dos becos que ninguém sonda; becos insondáveis. Chegava faminto e furioso. Bastava a mínima palavra dela para que explodisse e lhe descesse o braço impiedosamente. Noite de espetáculo. Crianças assustadas chorando e pedindo a Deus para que, por misericórdia, não deixasse a mãe morrer em meio aos socos, pontapés, desaforos do pai carrasco. Aquilo durou até o traste ter a brilhante idéia de difamá-la. Disse aos quatro ventos que ‘Aquela vagabunda é uma infiel, anda com os crápulas do trabalho, eu sei; pensa que me engana; safada! cachorra! ordinária!’. As surras desta fase eram as mais violentas. Um demônio corno se apossava do traste e ele era tomado pela fúria do chifrudo maldito que encenava com maestria. Quem sabe fosse filho de corno furioso e aquilo estivesse entalhado no mais recôndito confim de sua natureza obscura. Ela não o traia, mas sua vocação para corno era notória. Tanto bateu na pobre coitada que a opinião pública começou a duvidar da boa índole da moça. ‘Se tanto apanha, certo que deve haver algum motivo’. Fato era que tinha alguns crápulas por colegas de trabalho. Ele fora ardil, maquiavélico no sentido mais próprio da palavra. Escolheu justamente o mais sem qualidades dentre os crápulas reconhecidos pela opinião pública e lhe empossou do cargo de amante de sua esposa infiel. Ela jamais o traiu, possivelmente nem em pensamento. Ela jamais traiu os filhos, os votos, os preceitos da moral, o sentimento. Quando a situação atingiu o ápice da calúnia e se tornou insustentável, ela viu-se na obrigação de expulsa-lo de casa. Ele saiu com mala em punho proferindo impropérios e bravatas. Três quarteirões adiante, ria à larga. Foi buscar no meretrício aquela que, supostamente, lhe faria o homem honrado que ele sempre fora. Ela continuou em sua rotina de trabalho. Chegava sempre no horário. Suspirava ao saber notícias do traste e ironizava as más sortes do canalha. Fingia desprezo. Sentia saudades. Contudo a saudade era apenas uma confusão de coisas; era saudade do namorado, do príncipe encantado, do personagem do conto de fadas, do filme do namoro.


Obs. Esta postagem é comemorativa do terceiro ano deste blog, a completar-se no dia 01.01.12, e também a adesão de mais de 3500 generosas pessoas que me apóiam. Será uma série de singelas postagens onde pretendo revelar peculiaridades dos dias comuns de um homem comum vivendo uma vida comum. Peço o seu voto para este blog no Top Blog 2011. Caso queira, clique no selo logo abaixo do meu perfil e vote. A arte gráfica ilustrativa é de Ana Santarosa, minha filha de nove anos.

domingo, outubro 02, 2011

UM DIA COMUM

Tudo pronto. Você pisa na rua e seu papel está sendo desempenhado publicamente. Talvez você não pense assim e ache-se o mesmo dentro ou fora de seu ambiente mais restrito, sua casa, mas é hipocrisia do pensamento afirmar isso, tampouco você é obrigado a refletir sobre essa questão. Pessoas do ramo já refletiram e refletem de mais sobre todas as questões questionáveis. Cidadãos comuns não precisam ser filósofos para conquistar o sustento. Sócrates pensava muito. Dizem que, certa ocasião, em Potidéia, ele teria permanecido imóvel, absorto em seus pensamentos, durante vinte e quatro horas, tudo diante da estupefação dos colegas soldados numa campanha militar. Mas Sócrates, além de soldado dos bons, foi um filosofo dos melhores. Você não é um Sócrates, pode levar sua vida sem se ocupar tanto em pensar, pensar, pensar.


Voltando ao assunto, convenhamos: ninguém é o mesmo dentro e fora de seu ambiente doméstico, seu lar. Assumimos um personagem assim que colocamos os pés para fora de casa, e abandonamos o outro personagem, e claro que, um leva em si partes e influencias do outro. Esse que “vai” é o ser social, e não o ser íntimo que “ficou”. Se fosse o contrário, apenas um exemplo básico: banheiros e quartos seriam comunitários, um para cada quarteirão. Imagine você dormindo com o quarteirão inteiro em um tatame, e na hora de defecar trocando informações sobre a vida alheia com o vizinho de vaso. Imaginou? Eu nem quis imaginar uma coisa tão bizarra, desculpe, não sou muito imaginativo.


Trabalhadores partem para desempenhar as mais variadas funções, nos mais variados locais, em suas mais variadas condições e pensamentos. Você viu um pouco de cidade e adentrou à empresa em que trabalha. A empresa, antes de existir, foi o sonho de alguém. Dom Quixote imaginou e empreendeu uma grande empresa. Queria ser o último dos cavaleiros andantes, queria salvar princesas, enfrentar dragões, promover a justiça. Para tanto, recrutou Sancho Pança. Eram nobres os ideais daquele velho lunático. A empresa na qual você atua, e não por acaso é usado o termo ‘atuar’ para designar o exercício de função, também começou do sonho de algum sonhador. Alguém que não apenas sonhou, mas empreendeu em uma direção, por um objetivo. Cada um cumpre seu papel. Não é Dom Quixote quem atua como Sancho Pança, nem o contrário.


Farei uma afirmação, de certa forma, irresponsável. Você pode até discordar e rebater no espaço aqui destinado aos comentários, não me ofenderei de modo algum. O texto não é pessoal. Mas quero me atrever a dizer que acredito que, você é o seu sonho. Ou seja, seu papel, o qual você desempenha, é seu personagem no palco da vida, e a maneira como você o faz é sua marca pessoal. Observe o dia comum. Faça um blog. Diga ‘bom dia!’. Sorria. Seja. Pense. O dia comum foi feito para atuarmos. René Descartes já dizia a frase que se tornou um hit através de tempos e gerações: “Eu penso, logo existo”.


Obs. Esta postagem inaugura a sessão de postagens comemorativas do terceiro ano deste blog, a completar-se no dia 01.01.12, e também a adesão de mais de 3500 generosas pessoas que me apóiam nesta empresa [sorrio]. Será uma série de singelas postagens onde pretendo revelar peculiaridades dos dias comuns de um homem comum vivendo uma vida comum.


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