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quarta-feira, agosto 31, 2011

MACONHEIROS DESGRAÇADOS

Não imaginava que o último dia de agosto viria com notícia de morte, tempestade de poeira e chuva, história. Fazia calor logo ao iniciar o dia. Um pouco eu trabalhava. Um pouco eu tentava respirar próximo à janela do quarto abafado pela noite inteira de respirações à porta fechada.

“Ta vendo essa grade na janela? Não tinha. Colocaram depois que o ladrão entrou por ela. Ele entrou e fez a festa. A gente tinha ido almoçar fora. O ladrão trepou no muro, pulou, arrombou a janela, entrou aqui no quarto, levou um relógio de parede igual àquele da sala. Você reparou o relógio lá da sala? Pois é. Era igual àquele. O ladrão levou também cordão de ouro, anel, pulseira, brinco. Levou um montão de roupa do meu genro. E ainda deixou a camiseta velha dele. Você acha. Vestiu uma de meu genro e largou a dele aqui. Vê se pode. Aí, depois desse dia, puseram essa grade”.


O ladrão ter entrado e feito um limpa era algo de se esperar de um ladrão. Mas o ladrão entrar e trocar de roupa e ainda doar sua velha camisa ao genro da mulher foi algo, no mínimo, inusitado.


“Mas essa não foi a única vez que entrou ladrão aqui nessa casa. Outro dia, depois que entrou o ladrão aqui pela janela, entrou pela cozinha. Ele trepou no muro do fundo, subiu no telhado da varanda, foi até o telhado da cozinha, tirou algumas telhas e pulou pra dentro. Fez a festa. Levou um tanto de trem. Liquidificador, panela, o relógio da parede. Você viu o relógio de parede da sala? Pois é. Era igual também. Até trem de comer ele levou. Jogou trem pro chão. Fez uma imundície”.


Aquela casa parecia ser mesmo muito visada pelas histórias que eu acabara de ouvir. Fiquei em dúvida se seria a casa muito visada ou a rua, o bairro.


“Aqui nessa rua já roubaram uma porção de casa. Í, um monte... Aí embaixo, do lado do bar, já roubaram. Ali do outro lado. Do lado de cima. São ‘os maconheiro’. ‘Os maconheiro’ é que roubam as casas. ‘Os maconheiro’ desgraçados..."



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sexta-feira, agosto 12, 2011

O CASAMENTO DE PAULO CESAR

Depois de tantos incidentes só nos restava acompanharmos o final da cerimônia de casamento de minha irmã em relativa tranquilidade. A consumação dos votos de eterna e cada vez mais breve e fugaz dedicação, fidelidade e lealdade.

Padre Berzerk talvez não percebesse, mas transparecia sarcasmo a cada pergunta e resposta. Parecia inconscientemente disposto a preservar e fortalecer sua fama de sacerdote moderno e liberal. Fez questão de alertar aos noivos de que poderiam desistir antes de confirmar o absoluto sim: “Ainda há tempo para desistirem, depois...”. Dizia isso com certa malícia explicita no tom de sua voz e em sua expressão facial.

Hans estava visivelmente impaciente. Tinha absoluta pressa e se precipitava nas positivas. Estava muito necessitado de ir ao banheiro eliminar alguns litros do chope acumulado por uma tarde inteira de bebedeira.

Sarah estava distante e indiferente. Divertia-se focando com o olhar vagante os rostos dos convidados que estavam em seu campo de visão. Parou em Paulo Cesar. O rapaz não se conteve e rompeu em um choro dolorido, desconsolado, compulsivo. Temi o pior. E meu temor se fez justificar.

Paulo César começou a ver-se no lugar de cada mártir de gesso que habitava e ornava o interior da catedral. Viu-se ainda bebê no colo de Maria. Viu-se amarrado e flechado como São Sebastião. Viu-se crucificado e desfalecido no madeiro do calvário. Soltou um grito agudo e prolongado. Caiu resvalando nos convidados que estavam ao seu lado. Sarah recolheu o leve ar de sorriso e fez-se toda espanto. Paulo César ia ao solo pela segunda vez naquela noite. Arrependi-me e culpei-me por não o ter enviado a um hospital, teria evitado mais aquele episódio imensamente triste. Para piorar ainda mais a situação, o rapaz, ao invés de tomar seu comprimido, improvisou tomando um dos de papai. Justamente um que previa em sua extensa lista de reações adversas poder causar alucinações.

Padre Berzerk deixou os noivos e foi em socorro do pobre convulsivo. Vendo que ele tardava em sair da crise epiléptica e apresentava-se cada vez mais roxo, gritou para que chamassem o resgate. Eu mesma liguei.

As pessoas se afastavam com terror e medo estampados em suas caras assustadas. Papai gritava “Asmodeu!” como se tivesse visto sua profecia confirmada. Os garotos se aproximaram com celulares filmando e dizendo que o zumbi iria bombar no You Tube. Eu me sentia muito culpada, e era mesmo culpada.

Um senhor, médico ortopedista, após verificar que o enfermeiro roxo não mais tinha pulso, começou a massagear seu tórax e solicitou que outro homem, um fisioterapeuta, fizesse respiração boca a boca. Logo a equipe de resgate estava dentro da igreja assumindo o controle das ações e tentando reverter o quadro. E foi sob manobras de reanimação que Paulo César recuperou a respiração e a freqüência cardíaca. Posicionaram-no em uma maca. Colocaram-lhe uma máscara de oxigênio. Transportaram-no para o interior da ambulância. Paulo César só voltaria à consciência no dia seguinte. Teve ainda mais duas crises convulsivas do trajeto da igreja até o hospital onde fora admitido na UTI.

Todos convidados esqueceram o casamento. Acompanharam curiosos e excitados à ação da equipe de paramédicos. Hans foi ao banheiro e, quando retornou, não mais viu Sarah que foi embora a bordo de um Corsa prata de alguns amigos. Eu e o restante da parentela fomos para casa com papai. Não houve casamento naquela noite e em nenhuma outra até a presente data. Os noivos estão dando um tempo. Paulo César nunca mais teve crises epiléticas. Está tomando o remédio com a devida regularidade. Papai esqueceu-se por completo de Asmodeu. E eu um dia voltarei para contar sobre casamentos e ou divórcios.


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