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sábado, julho 30, 2011

O CASAMENTO DE SEU TURÍBIO

Paulo Cesar atravessou a rua e conduziu papai à praça conforme pedi. Posicionou a cadeira de rodas de modo que sentado no banco tivesse o velho de frente para si. Tirou do bolso o iPhone e digitava uma mensagem quando sentiu de súbito forte sonolência e torpor. Mais tarde nos contou que olhava para papai parado ali em sua frente, contudo não se recordava de quem era papai, tampouco de já tê-lo visto antes - soube tempos depois, pela boca de um profissional, que naquele momento Paulo Cesar fora acometido por uma sensação de “jamais vu” seguida por convulsão.

Um minuto depois, Paulo Cesar recobrava a consciência. Sujo, ralado e amarrotado, visivelmente constrangido, o rapaz apresentava pequenas escoriações na fronte e na face, no dorso da mão e no antebraço, e tudo apenas do lado direito do corpo. Disse se recordar ter visto pequenos pontos luminosos que começaram a piscar e se fundir à imagem repentinamente e estranhamente desconhecida de papai que agora ele reconhecia perfeitamente, como sempre.

Alguns garotos que estavam do lado de fora da igreja rodeavam Paulo Cesar quando cheguei a tempo para ajudá-lo a erguer-se do chão. Riam e, eufóricos, comentavam a cena que presenciaram um minuto antes:

_Meu, o cara correu muito doido pra frente, cê viu?! Ele tipo atropelou a cadeira do velho e só parou por que bateu no carro do pai do Tavinho.

_Nossa, véio! Amassou a porta do carro do Tavinho; o pai dele vai ficar muito loco.

_O cara virou tipo um zumbi, cê viu? Nossa, véio!...

_Meu, que loco! O cara tipo surtou, véio! Muito doido! Nossa!

_E a ora que ele caiu no chão e começou a estrebuchar então? Achei que ele fosse morrer, meu!

_Eu também pensei: “Já era esse cara!”

_Ficou roxo da cor da camiseta do Franco e babando, véio!

_Meu, será que não espirrou baba na gente? Eu ouvi falar que quem leva baba dum cara assim fica tipo igual ele, é tipo mordida de zumbi, tá ligado?

_Se liga, véio! Vamo lá pra dentro que o troço já começou...

Paulo Cesar sofria de múltiplos tipos de epilepsia. Naquela noite, em especial, fora acometido por um episódio de epilepsia cursiva, e por isso correu inconsciente durante a crise parecendo não se dar conta de qualquer obstáculo.

Eu queria chamar um taxi para encaminhá-lo ao hospital, porém ele se recusou dizendo que aquilo acontecia às vezes, e que havia se esquecido de tomar o remédio naquela noite, no entanto tinha uma cartela consigo e tomaria ficando bem. Peguei eu mesma a cadeira de papai para conduzir de volta à igreja, e pedi a Paulo Cesar que ficasse conosco, contudo sem qualquer incumbência para com o papai. Ele aceitou. Foi ao banheiro no interior da catedral para lavar o rosto e o braço, e quando retornou encontrou uma brecha entre os presentes para assistir à continuação da cerimônia, isso do lado oposto ao que estávamos eu e papai. Entendi perfeitamente. Papai estava mesmo exaustivo com o seu persistente Asmodeu e agora com os olhos mais arregalados que o habitual.


Este conto é a continuação de “O Casamento de Sarah”. Aceito comentários críticos, não tenha receio em dizer o que achou.

sábado, julho 16, 2011

O CASAMENTO DE HANS

Com papai gritando cada vez mais alto e a intervalos menores “Asmodeu!”, incumbi Paulo Cesar de levá-lo para tomar um ar puro no jardim de frente à igreja. Paulo Cesar descia a cadeira de papai pela rampa lateral quando cruzou em diagonal com Sarah, que acabara de descer da clássica limusine preta e se encaminhava rumo à escadaria da catedral. Ela riu do escândalo proporcionado por papai, e ergueu o riso até Paulo César, que, atônito e mais estrábico que o habitual, imediatamente estacou no meio da rampa, e por muito pouco não abandou a cadeira de papai à própria sorte para melhor absorver o impacto da imagem que lhe paralisara (Sarah).

Os ombros brancos à mostra, a franja vermelha guardando metade do olhar para a noite nupcial, a outra metade corria furtiva sobre as caras embasbacadas pela suavidade da flor rubra e alva que rompia pelo corredor principal do modesto templo erguido ao estilo gótico a custo de muito esforço dos fiéis. Em momento algum ela procurava por Hans, que era um mero coadjuvante naquele espetáculo todo onde ela, a flor rubra e alva era, sem a menor dúvida, a estrela solitária. No esplendor de sua adolescência agonizante, Sarah era algo como um rubi cravado no peito da perfeita fêmea de mármore.

Não se sabe quantos sorrisos ela lançou naquela noite. De uma coisa tenho certeza, pois a conheço bem, não eram sorrisos de felicidade, ela não sorri quando feliz, ela gargalha largamente na alegria. Ela sorri quando quer debochar de alguém, quando pensa em algo que coloca a todos em situação patética e ou ridícula. E naquela noite ela sorriu para todos que tiveram a sorte de alcançar a graça de seu olhar.

Sarah sorria de papai, que tanto se esforçou para que Hans, um alto executivo da multinacional onde papai fora um reles contador, notasse-a. Ela sorria por que na noite anterior ao casamento estava com os amigos comendo hambúrguer, rindo dos vídeos que cada um tirava do bolso, mandando mensagens pelo twitter, tomando refrigerante e comendo fritas enquanto gargalhava de curtas histórias jogadas ali sobre o tampo da pequena mesa da lanchonete MacChina.

De pé, de costas para o púlpito, de frente para os convidados, sobre o degrau que elevaria à altura do padre, Hans, um alemão com quase dois metros de altura, pelo menos vinte e cinco anos e dois casamentos mais velho do que Sarah, com sua barriga barrica de chope mal acomodada dentro do terno de corte fino italiano, com sua cara vermelha sanguínea, com suas sobrancelhas espessas e longas, e com o largo sorriso amarelo cigarro, aguardava por sua jovem noiva.


Obs. Este conto é a continuação de “O Casamento de Sarah”, mas pode perfeitamente ser lido e interpretado solitário, ao sabor do leitor do blog. Continuo aceitando e até pedindo por críticas impiedosas, não se acanhe.

domingo, julho 10, 2011

O CASAMENTO DE SARAH

Chegamos à igreja. E papai, sentado em sua cadeira de rodas, berrou diante dos portais para quem quisesse escutar: “Asmodeu!”. Imediatamente todos se voltaram para trás. Alguns lançaram olhares moderados, de contida curiosidade. Outros foram mais indiscretos, lançaram olhares invasivos, mal educados e depois politizaram à encarada com um sorriso que supostamente revelaria uma admiração ao ato de bravura do velho herói agora encadeirado e louco lutando para adentrar um evento social refinado. Talvez, se soubessem o significado de Asmodeu, sequer teriam permitido nossa entrada para além dos pórticos da bela catedral em estilo gótico. Antes o padre viria correndo de dentro da igreja a fim de exorcizar papai ali mesmo, fora dos umbrais.

Asmodeu era a alucinação que papai arranjou desde a antevéspera do casamento de Sarah. Seria a criatura um dos sete príncipes do inferno. Dentre outras coisas, no livro de Tobias, é citado como sendo o assassino dos noivos de Sara, e demônio da luxuria, dos prazeres impuros e outras barbaridades. Na literatura, fora tomado emprestado por Luiz Velez de Guevara para ser o personagem principal da novela “El Diablo Cojuelo”. Nesta novela o personagem Asmodeu levantava os telhados das casas de Madrid para ver o que se passava dentro delas.

Atrás de papai vinha conduzindo sua cadeira seu fiel escudeiro, Paulo César. O enfermeiro mais esquisito que um ficcionista poderia conceber em meio a um delirante surto criativo.

Paulo Cesar era magricela, depressivo, um completo baixo astral, uma nuvem sombria que pairava sobre a cabeça de papai há um ano e oito meses, desde a fatídica ocasião do acidente vascular encefálico que o deixou naquele estado.

Paulo Cesar usava óculos de aros largos, cabelos desordenados, contudo, sempre bem aparados, era estrábico, mantinha uma rala barba por fazer, e sempre trajava uma velha camisa xadrez que deveria lavar durante o banho para vestir no dia seguinte, pois jamais o vimos com outra camisa. O enfermeiro era uma espécie de metrossexual de adolescência tardia. Com vinte e sete anos, não se tinha notícia dele já ter tido alguma namorada. Morava com a mãe que era viúva e viviam ambos da pensão deixada pelo pai que fora militar de baixa patente. Foi trabalhar apenas para poder comprar as quinquilharias tecnológicas do Paraguai nas quais era viciado.

Aquele era um momento muito especial para todos nós, mas principalmente para papai. Creio que o velho jamais imaginou que viveria para ver Sarah, sua caçula, casar-se de branco, unhas pretas, cabelos vermelhos, piercings, tatuagem no pescoço, véu e grinalda.

Papai frequentemente trocava o dia pela noite e, vez ou outra, passava até dois dias sem dormir praticamente nada. Nessas tumultuadas vigílias, ele dizia ver imagens, pessoas, seres, entidades. Noutras vezes gemia por intermináveis horas. Parecia que seus gemidos alternavam dor e prazer. Era como se nós vivêssemos no mundo real e ele entre o inferno da “Divina Comédia” de Dante Alighieri e “O Jardim das Delícias” de Hieronymus Bosch.

Na noite do casamento de Sarah, ele estava bem pior que costumeiramente. Já estava a três noites sem dormir. Creio que a agitação ocasionada pelos preparativos para o evento foi o que causou sua demasiada excitação. Enquanto todos se preparavam para ir à cerimônia, papai chorava, gritava, e seguia figuras voadoras imaginárias pelo teto da casa com seus olhos rotativos arregalados.

Paulo Cesar, sem alcançar o motivo real daquela agitação toda, ficava perguntando com sua boca murcha, seca, e com sua voz fina e nasalada: _Seu Turíbio, tudo bem? O senhor está com fome? Está com sede? Está com alguma dor? Essa era a tríade de ações que Paulo César acreditava ser o tripé da existência de papai. Para ele papai era um ser biológico movido por necessidades fisiológicas básicas e que não se importava em defecar nas fraldas, ou ficar defecado por horas, pois jamais perguntava outra coisa qualquer. Inclusive não inquiria se papai havia obrado, mesmo que papai cheirasse à obra fresca.

Se Paulo Cesar desse um jeito de perguntar a papai algo para além do fisiológico, algo como: “Seu Turíbio, o senhor está noiado? Papai, mesmo sem entender, provavelmente se sentiria algo mais que uma simples máquina processadora e excretora de dejetos das ações fisiológicas, e assim, como que por um milagre, se acalmaria. Mas isso era algo pouco provável, tanto da parte de Paulo Cesar, que jamais investigaria mais do que a tríade fisiológica, como da parte de papai, que no máximo diria com uma cara abestalhada: “Asmodeu!”.



sábado, julho 02, 2011

ESQUIZOFRENIA

Falta apenas dez minutos para o meio dia e você já está diante da empresa anotando a quilometragem e à hora para entregar o veículo. Ao olhar para o painel a fim de conferir os números, você percebe vindo em sua direção o mesmo figura da ultima postagem, o cara que pedia dinheiro para completar a soma do valor da lata de leite em pó.

Você abaixa os olhos e toma o pequeno papel onde anotará os dados com a certeza de que o camarada virá em sua direção.


Mas agora é tudo diferente. Você fez um texto que contava o ocorrido em forma de crônica, e muitas pessoas vieram comentar, cada pessoa trouxe algo, muitas compartilharam experiências parecidas com àquela que narrou. Você está mais atento ao evento que segue. Certamente observará melhor em caso de travamento de contato.


O sujeito se aproxima e sorri com a mesma cara cínica e elástica da semana da crônica, duas semanas atrás. Você está com a porta do carro aberta e organiza os objetos para descer e ir ao escritório da empresa. Ele para por trás da porta aberta e sorri dizendo:


_Hoje eu dei sorte, o senhor não deve estar tão sem tempo como da última vez.


_Mas da última vez eu estava sem dinheiro. Você responde devolvendo um discreto e igualmente cínico sorriso.


O sujeito não vai pedindo de cara. Está com repertório para tentar criar alguma cumplicidade à sua causa. Ele veste um bermudão cumprido. Diz que levou uma mordida de um cachorro e que o local da ferida estava esquisito, parecia inchado. Você nota que realmente há uma ferida em forma de mordedura de um cão de porte médio na panturrilha do cara. Então você pergunta se ele foi ao pronto socorro. Ele diz que foi e que tomou a tal anti-rábica. Você apanha agora o seu estetoscópio que está no acento do banco do carona e se volta para o banco de trás do carro para apanhar o jaleco que ali está repousado. O sujeito continua em pé do lado de fora do carro. Você calcula rapidamente se há algum risco naquela situação. Pondera que praticamente não há, pois o sujeito aparenta ser pacífico, está razoavelmente bem vestido, de banho recém tomado a julgar pelos cabelos castanhos escuros repletos de mechas loiras por luzes ainda molhadas. Talvez o sujeito tome banho e se perfume antes de ir para frente das empresas angariar trocados.


Após exibir a mordedura do cão voltou-se pra você e, olhando em direção a outra instituição diz: _O diretor dali pensa que é o dono do mundo, pensa que é mais que os outros. Tocou-me de lá por que eu estava pedindo. Eu sei que estou errado em pedir, mas me tocar como fez, isso não se faz. Disse que chamaria a polícia se eu não saísse logo dali da porta. Policia pra quê, né? Eu não to roubando. To pedindo. Mas ele vai ver. Agora o sujeito exibe ódio misturado ao cinismo natural de sua face.


_Deixe isso pra lá, rapaz. Nem todo mundo entende às dificuldades dos outros. Você diz tentando apaziguar os ânimos do pedinte. Mas ele logo abandona a ira e vai ao ponto:


_E então, Doutor, tem um trocado hoje?


_Tenho nada. Você diz sorrindo com indisfarçada ironia.


_Tem nada... Que isso, Doutor? Você é bem de situação, é Doutor.


_Pois veja minha carteira. Então você abre a carteira e mostra que está mesmo vazia. Há tempos que você não faz questão de andar com trocados. É cartão pra tudo que há. Dinheiro virtual. Muito mais prático, limpo, seguro e, ao contrário dos trocados, não acaba tão rápido.


Ele sorri ironicamente e um tanto surpreso. Diz que não precisa mostrar nada, que apenas a palavra de que não tem trocado já basta. Aí você percebe que a cumplicidade da situação de estarem ambos na lona leva à empatia. Então você se lembra que é editor de um blog e que está diante de uma provável postagem – por mais estranho que isso possa soar a um visitante, um blogueiro sabe perfeitamente o que isso significa.


Então você começa a trabalhar em sua função não vocacional: _É amigo, você precisa conseguir um trabalho para não ficar passando por situações como essa que passou ali na porta da instituição. Ele te olha sério. Então você pergunta se ele trabalha como se não soubesse a resposta. Ele diz que trabalha. Que faz qualquer coisa que lhe mandem. Que limpa quintal, varre calçada, poda jardim...


_Mas você precisa ter uma profissão, algo fixo. Você diz. E completa com outra pergunta reveladora: _Quantos anos você tem?


_31


_Pois é, você é novo. Dá tempo de se profissionalizar em algo.


_Eu sou afastado.


E você impulsivamente e imaginando que seja por algum lumbago crônico de tão mal curado e valorizado, pergunta qual a causa do afastamento: _Afastado? Porquê?


_Esquizofrenia, doutor.


Aí você concorda que é mesmo difícil conseguir ou fixar-se em um trabalho com um diagnóstico tão grave.


Após isso ele já parece meio indignado. Talvez por ter revelado algo que não era segredo algum, contudo algo sempre desagradável.


Você deseja sorte ao pedinte. Despede-se. Vai até o escritório e entrega o mini relatório, documento e chaves do carro. É hora de almoçar.




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