Amigos

segunda-feira, março 28, 2011

A CASA DE PORTINARI

A arte que um homem faz pela vida a fora é nada mais que sua reação diante de todas as coisas que lhe chegam aos sentidos. Um dom é uma coisa maravilhosa. Uma atribuição divina. O artista é todo aquele que existe. O artista que alcança frutos e fama através de sua arte é um afortunado, um privilegiado, pois tudo neste mundo é arte e ele obteve a sorte de conquistar o mundo através da sua. Deus premia quem cria com fidelidade a Ele, com perfeição e paixão, mesmo na imperfeição. Um homem tem que saber de si, tem que admitir-se, pois se não, passa a ser uma imitação de algo, uma fraude, uma cópia. Abre mão de si próprio para agarrar-se a uma imagem que não é a dele.


Diante da casa de Portinari pude ver que a ostentação é uma ilusão barata que abriga alguma falha, é a fachada de algo inconfessável, talvez de uma falta de alegria diante da própria vida, a qual se tenta suprimir com ricos adornos, objetos caros. A casa de Portinari é simples como as casas de minha infância. As casas de aluguel nas quais vivi os meus dias de menino pobre. As casas de meus tios e tias, de meus amigos. A Casa de Portinari é casa sem luxo, sem ostentação. De luxuoso só o valor de suas pinceladas em um ou outro afresco repousado numa parede de um cômodo. De riqueza somente o valor claro que é atribuído à família. De sofisticada somente a presença dos modernistas e suas declarações fixadas nas paredes.


É bom perder-se pelos cômodos da casa de Portinari em uma tarde chuvosa de final de verão e descobrir que ele era poeta e ilustrador. Descobrir em seus versos que ele conservava sua alma de criança. Atestar que sua casa crescia e ganhava um cômodo em cada tempo, pois era um bom anfitrião. Ali podemos ficar perplexos diante da complexidade de um ateu muito religioso, um comunista muito cristão. Ou como disse Antonio Callado em Retrato de Portinari: “um ateu saudosista dos tempos de crença, um comunista incapaz de arregimentação”. Portinari foi um bom filho, um bom neto, um grande amigo, um grande irmão. Em casa de Portinari, é forte a presença de toda sua família e principalmente de Dona Dominga, sua mãe. Isso fica muito claro ao ver ascender o retrato que conta coisas sobre os Portinari imigrantes italianos. É fascinante ler o quarto onde as paredes são cobertas por poesia. Leia o quarto e depois diga que leu certa vez não uma carta, um texto, um livro, como é o costume, mas um quarto inteiro de poesias. Vá ao jardim, e veja que DIO habita ao lado de roseiras centenárias, goiabeiras ao fundo e simplicidade em toda parte. Caminhe até a capela e veja as imagens sacras, presente para avó enferma, que já não mais podia deslocar-se à igreja para professar a sua fé católica. Contudo, não se iluda. Ali é tudo muito simples e é preciso desprendimento para sentir o privilegio de estar naquele lugar. Se é luxo que procura, melhor ir à casa de gente mais sofisticada. Em casa de Portinari só há Portinari, família, simplicidade, história e arte.



Obs. No texto O Caminho Para Casa de Portinari: A primeira foto é da placa que fica à entrada da casa. Essa placa, como podem ler na foto, fora uma homenagem do Governo Abreu Sodré. A segunda foto é uma escultura realizada por seus concidadãos em homenagem ao pintor. A terceira foto é da fachada da Igreja de Santo Antônio, onde o pintor retratou Santo Antonio e sob a condição daquela imagem jamais deixar o interior da igreja. No texto A Casa de Portinari: As fotos são da fachada da casa e do exterior da mesma, incluindo o jardim e quintal. Não era permitida a realização de fotos no interior da casa. Sendo assim, resisti à tentação e não transgredi em momento algum.


No Twitter @Jefhcardoso74

segunda-feira, março 21, 2011

O CAMINHO PARA CASA DE PORTINARI

Se todo caminho leva à Roma, melhor ir perguntando para não errar o caminho da Casa de Portinari. Aos trinta e sete anos de idade, após ter morado por quatro anos a menos de dez quilômetros de distância, eu finalmente decidi ir conhecer a casa onde viveu o famoso pintor. Casa que hoje é o Museu Casa De Portinari. Durante todo o caminho, até a chegada, o tempo esteve nublado. Havia um cheiro de terra molhada. Mais que promessa, era certeza de chuva nas proximidades. Março estava sendo generoso na quantidade de águas. Passa Orlândia, passa Batatais, chega a cidade de Portinari, Brodowski. Ali o tempo parece não ter pressa. Ali vi pessoas sentadas com suas cadeiras de descanso nas portas de suas casas. Bares movimentados à espera de um clássico do futebol, atrasado devido a um temporal na longínqua capital.


Casa de Portinari... Mas onde fica essa casa tão ilustre? Seria deste ou daquele lado da Rodovia Candido Portinari? Deste. Vamos! Mas onde está? Não entendo estas placas... Deveria haver uma indicação agora. Elas apontam para frente, sempre. Faz algum tempo que estamos seguindo a última indicação da casa, e nada. Veja, aquele senhor deve saber onde fica, ou ao menos nos dirá se ainda estamos na cidade. _Senhor! Por favor! Onde é que fica a Casa de Portinari? Ele encosta-se ao cabo de sua enxada, recolhe o suor da testa com o dorso da mão, e diz: _Vixi! Vocês andaram foi muito longe de lá. E então começou com uma explicação pra mais de complicada. Explicou, citou trechos da cidade, apontou em algumas direções, arrastou a sola da bonita sobre o solo e tomou um graveto, e com este começou a rabiscar na terra o que seria um mapa. E de tudo que ele disse, desenhou e mostrou, ficou claro apenas que deveríamos voltar. A cidade havia ficado para trás. E voltamos. E entramos seguindo a indicação da placa, que surgiu novamente indicando para frente. De qualquer ponto que a víssemos, parecia sempre indicar para frente. Era melhor perguntar. Alguns rapazes numa esquina. Talvez saibam. Vamos perguntar! Mas dos quatro, apenas um prontifica-se a explicar: _Vixi! Fica pro outro lado da cidade. Vocês terão que atravessar o pontilhão. E explica, e explica, e explica. _Rapaz, o lugar é longe mesmo! Esse Portinari não morava, escondia-se. _Pois é, ele não ficava quase aqui. Vinha, passava alguns dias, e voltava, acho que lá pro Rio de Janeiro ou estrangeiro, não sei. A casa é longe mesmo, fica pras bandas do cemitério! _Cemitério? Dessa vez ficou fácil. Se ninguém sabe muito bem explicar onde é que fica a casa do pintor, certamente a mansão dos mortos que um dia lhe inspiraram em suas obras todo mundo saberá. E saímos na direção indicada. Paramos logo mais adiante. E, temendo sermos indelicados, perguntamos a uma senhora muito idosa, mas muito idosa mesmo, que estava sentada em sua cadeira de descanso na calçada: _Senhora! Por favor! Onde fica o cemitério? A explicação foi clara como uma tela em vivas cores. Passamos o cemitério e logo encontramos a praça, a igreja e a casa. Ah! A casa...

*No Twitter @Jefhcardoso74

quarta-feira, março 09, 2011

ÁGUA BENTA BEM GELADA

Quando o médico chegou, o enfermo já havia expelido a hóstia sagrada e recuperado as feições habituais. Padre Bento rezava fervorosamente. Cleuza abanava o enfermo e agradecia a Deus por ele não ter levado consigo o seu único cliente. Dona Elvira falava sem parar, desde à porta, quando fora recepcionar o médico.

O médico foi direto ao paciente. Examinou o aspecto do mesmo, aferiu os sinais vitais, examinou as pupilas, fez algumas considerações, contudo ninguém entendia claramente o que o médico dizia. Sua voz parecia ecoar para dentro de seu tórax. Falava aos arranques, e sempre finalizava de modo concordante e com uma risada meio estúpida. Mas estava tudo bem com o enfermo. Todos se acalmaram.

Dona Elvira pediu para que o médico lhe acompanhasse até a cozinha e lá lhe ofereceu um copo com água: _Pode beber, Doutor, é água benta, bem gelada.
O médico olhou meio surpreso, porém bebeu, aos poucos. Enquanto bebia, retirou do bolso o telefone e fez uma ligação. Cinco minutos depois, chegara uma ambulância. O condutor e um enfermeiro trouxeram a maca e um cilindro de oxigênio. Seu Honório fora acomodado sobre a maca, teve um cateter de oxigênio colocado em seu grande nariz, e dali fora removido para o hospital, onde permaneceria pelos próximos vinte e um dias.

Já no hospital, dona Elvira agradecia ao pároco, que acompanhou a tudo, e ao médico, que, após encaminhar o paciente à enfermaria e passar o caso a um colega, tentava explicar qual era o valor de sua consulta em domicílio, no entanto sem contar com a compreensão da mulher do enfermo. Ela lhe apertava a mão e agradecia repetitivamente, ele aceitava o cumprimento e repetia o valor da visita.

Cleuza decidiu por intervir e disse: _Dona Elvira, a senhora quer que eu faça o cheque do doutor para a senhora? Dona Elvira sorriu desconcertada, e consentiu que sua funcionária fizesse o cheque para que ela o assinasse. Espantou-se do valor da visita. Dr. Nakamura sorriu com sua risada característica, conferiu o preenchimento da folha do talão, dobrou-a ao meio e depositou em seu bolso, fez duas ou três reverências, e partiu com a maleta em punho em seu rápido passo de pernas curtas e arqueadas.

Obs. Este conto é parte da trilogia “Dois Copos Com Águas”, “Hóstia Sagrada e Água Benta”, “Água Benta Bem Gelada”. Espero que o leitor deixe o seu comentário.


LinkWithin

Related Posts with Thumbnails