Amigos

sábado, outubro 30, 2010

MILTON HATOUM

Adentrar os labirintos da memória é como entrar numa selva. Você caminha por suas brechas, abre passagem através da densa vegetação, e jamais sabe se retornará com uma flor na mão ou com um corte a sangrar por ter resvalado em uma erva espinhosa. Você pode também encontrar um fruto nativo, algo cujo sabor seja único, ou ser surpreendido pelo bote da serpente, que, até então adormecida, desperta e alveja o seu desguarnecido tornozelo. Ou quem sabe, nas piores e mais drásticas hipóteses, você pode ser devorado por uma onça, ou se perder e jamais retornar. No entanto, pode também com sorte encontrar o caminho de volta são e salvo, e em um feliz e bem sucedido regresso trazer consigo belos relatos que lhe rendam um livro espetacular.

Milton Hatoum, nascido em Manaus em 1952, adentrou e retornou de sua selva, que não era selva selvática, diga-se, mas sim uma Manaus de alma libanesa, de dentro de seu passado, do passado que ouviu de seus antepassados, e trouxe consigo o fascinante “Relato de um certo Oriente” (Prêmio Jabuti 1990 de Melhor Romance).
Naquele livro eu conheci uma Manaus que eu jamais havia imaginado. Fiquei fascinado por Emilie, a extraordinária matriarca de uma família libanesa há muito radicada ali. Apaixonei-me à primeira vista (leitura) pela pequena Soraya Ângela, que tanto me faria sofrer um pouco depois de conhecê-la (lê-la).

Este ano, estando eu na feira literária de Poços de Caldas, tive a sorte de conhecer pessoalmente o autor. Bem, conheci? Não é bem isso. Estive em um bate papo com ele. É assim que os escritores gostam que chamem suas entrevistas abertas às perguntas do público, bate papo. Ali ouvi o homem contar toda sua trajetória; sua vida em Manaus, onde deu aulas na Universidade do Amazonas, seu período na Espanha, onde lavava pratos e esteve com Roberto Bolaño, nos EUA, onde deu aulas na Universidade da Califórnia, em Berkeley, falou também sobre o longo tempo que seu romance permaneceu guardado após ter sido escrito, oito ou dez anos, não me lembro exatamente, revelou seu processo criativo, e afirmou que Literatura é trabalho, muito trabalho e nem tanto inspiração.

Amigos, o homem vem ganhando tudo que é prêmio com suas obras. É um dos maiores escritores brasileiros vivos. São três Prêmios Jabuti, um Bravo!, um APCA e Portugal Telecom... E não é que foi super receptivo à minha abordagem! Entreguei-lhe os meus humildes textos, disse-lhe que era leitura para a viagem que faria de retorno. Ele aceitou o calhamaço de folhas, sorriu, agradeceu, disse que leria, foi muito simpático.
Se realmente leu, eu não sei, mas que foi uma grande honra falar com o cara, isso foi. [sorrio].

ObsII. Estou no twitter @Jefhcardoso74.
ObsIII Essa é a foto que fiz logo após entregar-lhe os meus textos.

sábado, outubro 23, 2010

PARA O FINAL, A CONTEMPLAÇÃO

Convenhamos; ninguém durante o exercício de sua profissão dedica-se a refletir sobre como será o último dia quando ainda está distante deste destino. Porém, penso que seria bom lembrar vez ou outra que tudo termina. Essa tarefa, que mistura contemporaneidade com o advir, pode ser saudável para as relações durante o desenvolvimento destas. Quantas vezes Honorato imaginou como seria o dia posterior ao último dia de trabalho de sua carreira? O tempo passa mesmo. E quando amanhece um belo dia...
Agora ele, que sempre trabalhou arduamente, dispunha de todo o temo do mundo para a contemplação. Não há glamour no encerramento da carreira de trabalho de um homem comum. Por mais que haja sentimentos por conta das partes envolvidas, simpatia, afeição, não é próprio das pessoas simples as grandes homenagens. A coisa toda transcorre com a mesma singeleza do início, do meio, é assim o fim. As relações interpessoais são combustíveis, portanto inflamáveis, e, após os enlaces, queimam, evaporam-se, vão pelos ares...
Alguns amigos já trabalhavam na empresa bem antes de Honorato iniciar ali. Estes formavam as colunas da atmosfera do lugar, efêmeros também, passageiros, todavia, durante o tempo em que ali estavam, compunham uma espécie de identidade local.
Ele já havia visto outros passarem pela mesma situação de despedida em que se encontrava agora. Últimos dias de algo muito importante na vida de um homem comum. Prelúdio de um fim. Dias atípicos a mirar o desconhecido que se aproxima, e o conhecido que se afasta. As relações interpessoais sofrerão o inevitável resfriamento que ocorre após o desligamento, a deterioração ocasionada pela interrupção do convívio é inevitável. Certa vez, houve um fato que lhe chamou a atenção, um amigo que partia, o Osvaldo Marceneiro, que foi em seu último dia de trabalho cumprimentar os colegas um a um. O fato engraçado é que somente ele, o Osvaldo, estava emocionado de fato. Os outros não foram indiferentes ou mal educados, apenas levemente fleumáticos, naturais, tinham muitas tarefas a fazer. É normal que o despedindo seja mesmo o mais comovido, afinal são as estruturas do mundo dele que serão realinhadas. O espaço que ele deixa ao partir é rapidamente preenchido por alguém, na maioria das vezes inexperiente, contudo cheio de energia e motivação, talvez mais carismático até, quem sabe.
E agora? As portas do bar sempre estarão abertas a esperar? Copos limpos? A cachaça quente e perfumada, a cerveja gelada nas primeiras horas do dia... O dono do bar é o psicanalista da comunidade, é o pai dessa religião pagã, é o cúmplice onírico, ele espera limpando o balcão, lavando um copo, fazendo uma conta, ouvindo muito, falando pouco. Porém, nem só de bar viverá o aposentado, mas de toda pescaria que não exija grande deslocamento e ou equipamento sofisticado. Existe também aquele banco de praça onde o carteado, o dominó e a dama servem de fundo para as trocas e cuidados das informações da vida alheia. Há o parque para as caminhadas, a banda que passa, a televisão que jamais para...
Mas, se Honorato tivesse se dedicado às causas nobres do bairro, a religião, a família, a Filosofia, salvadora de toda a humanidade, talvez hoje lhe desse mais prazer o tempo livre para a contemplação.

ObsII. Estou agora, no twitter @Jefhcardoso74.
ObsIII Este conjunto arquitetônico da foto compõe a magnífica Praça XV em Ribeirão Preto.

quinta-feira, outubro 21, 2010

O SILÊNCIO DOS INOCENTES

_Ora. Não minta, meu filho. Não sabe que a mentira é um ato vil?
...
_Então... Diga a verdade.
...
_Darei mais uma chance. Diga a verdade e tudo ficará bem. Agora, se continuar mentindo...
...
_Diga. Vamos. Já estou sem paciência, meu filho.
...
_Não vai dizer?
...

Ficaram nesse “dialogo” por muito tempo. O filho não disse nada mesmo. Sustentou até o fim suas reticências. Se confiasse no pai, se sentisse que poderia confiar, se eu tivesse criado o diálogo a partir de algo que ele tenha dito, não ficaríamos sem saber, e o quê afinal aconteceu?

ObsII. Estou agora, no twitter @Jefhcardoso74.

quinta-feira, outubro 14, 2010

PARA O ALMOÇO, FIBROMIALGIA

Ela olhou pela janela e achou horroroso aquele dia ensolarado. Ridículo. Não havia dormido nada novamente. Seu cabelo estava com as raízes brancas à mostra, cheio de pontas duplas, embaraçado, ressecado. Tirou a roupa do guarda roupa para vestir e ficar com raiva do corpo, da roupa, da balança, do mundo inteiro. Um dia lindo de primavera, um verdadeiro inferno.

Já no trabalho, a manhã passou rápido. Deu graças a Deus quando olhou para o relógio e viu que faltava apenas 5 minutos para o horário do seu almoço. “Almoço. Almoço... Almoço por quilo. Self-service/auto-serviço. Almoço com gente estranha. Almoço a R$2,90 cada cem gramas! Almoço que engorda e deprime. “Devem botar alguma droga naquela comida, sempre que como fico deprimida, não é possível.” Pensava ela toda vez enquanto aguardava o horário da sagrada refeição diária.

Faltando 4 minutos, agitava os pés enquanto observava de braços cruzados o relógio de parede. Relógio idiota. Porcaria paraguaia. Sempre dava um jeito de atrasar em um ou dois minutos. Toda sexta era batata, tinha que acertá-lo.

Descalçou um dos sapatos. Aqueles sapatos lhe apertavam demais. Ela tinha o pé do pai. Só puxou ao que não prestava do velho! Pé chato, joanete, calos, o segundo dedo maior que o dedão, chulé, pêlos no dorso, unhas encravadas, frieiras... “Isso não é pé, isso é praga de parenta invejosa.” Ela pensava enquanto movimentava os dedos fitando-os de braços cruzados.

Faltando 3 minutos, lembrou-se que, além dos pés, herdara também a corcunda do pai. “Hipercifose e escoliose.” Disse o ortopedista bonitão. Um ano e meio de RPG (Reeducação Postural Global). Perdeu tempo, perdeu dinheiro, perdeu a paciência, esticou-se, ficou nas posições ordenadas, respirou nos conformes do diafragma, continuou inelástica como madeira... Saía da clínica de Fisioterapia “esbelta”. Virando a esquina, esboroava, desabava e, em seguida, reassumia a postura de um anzol de pesca. O que ela nunca disse à fisioterapeuta é o que ela pensava no exato momento em que reatava com a bela corcova: “Pesa muito, não agüento, é o peso do mundo sobre minhas costas, estou exausta...”

Era apenas o final da primeira etapa de trabalho, 2 minutos para o meio dia, e já sentia fadiga, dolorimento... Sempre dormia mal, havia dormido ainda pior aquele dia. Sentia-se cansada física e mentalmente. Não se concentrava se não fosse a muito custo. Lembrou-se da mãe, que cozinhava bem, e agora era um retrato na sala da sua casa e muitas lembranças. Lembrou-se que a avó também era um retrato na mesma parede, porém, lembrança alguma da avó lhe ocorria, senão a imagem da velha portuguesa de bigodes. Um horror. Pior, além das imperfeições paternas, o maldito gene materno lhe reservara um buço, que mais parecia um resoluto bigode adolescente. “Eita parentesinhas invejosas!” Ela pensava.

Faltando 1 minuto para o almoço, tomou uma decisão na vida. Pegou o celular, teclou um numero com grande desenvoltura, jogou a cabeleira volumosa para trás do ombro, e alisou os rebeldes com a mão, colou o aparelho junto ao ouvido, e disse alto, pois tinha certo grau de perda auditiva: _Alô! De onde fala? Sim. Vocês estão entregando marmitas hoje? Sim. Uma. Salada, sim. Não, sem cebola. Sim. Rua...

Obs. Clicando no selo do Top Blog, logo abaixo do meu perfil, e preenchendo os campos nome/email, você contribui para que este blog concorra agora no segundo turno do Prêmio Top Blog 2010. E eu lhe agradeço grandemente.ObsII. Estou agora, no twitter. Tenho tentado falar com o Marcelo Rubens Paiva. Trata-se de um projeto: Será Que O Cara Responde? Se quiser falar comigo lá é @Jefhcardoso74.

quinta-feira, outubro 07, 2010

O Meu Blog É Um Bicho (Top 100)

O meu blog é um bicho, é um animal, nasceu de mim, criatura de meu ser. O meu blog é disforme e cheio de formas ao mesmo tempo, contornos de minha alma.
Eu não tinha onde colocar os meus textos para a leitura, eu não tinha quem lesse os meus textos. Decidi criar um espaço. Foi assim que comecei. Minha irmã, que é jornalista, aconselhou-me: _Faça um blog, assim poderá publicar os seus textos, Jefh.

Logo, a blogagem tornou-se um vício, os contatos tornaram-se amizades, e meu bicho cresceu. A cada texto vieram as reações mais variadas. Pessoas de todas as partes acenderam ao meu convite e leram o que eu estava dizendo. Eu disse prosa, eu disse verso, eu disse coisas que não diria se não tivesse a certeza de ser lido. Eu mostrei um bicho para o mundo, tem minha cara, eu assumo, é filho meu, bicho de mim, meu retrato do mundo.

Ontem sairia o resultado dos Top 100 classificados Top Blog 2010 (maior concurso de blogs da internet brasileira). O meu concorre na categoria mais ampla, a de variedades. Mas por alguma razão, eu não queria vir ver a classificação. Fiquei meio quieto, introspectivo. Cheguei do trabalho querendo um banho, um pouco de solidão, um quarto, um livro. Só muito mais tarde foi que vim ao computador. Vi que o resultado havia sido adiado.


Sempre pensei que numa primeira conquista literária eu teria uma reação reflexa, um arroubo do tipo um grito gutural: RockAndHoll!, Metallica!, Hey how, let’s go!, Pavilhão Nove! Algo de liberdade, algo irreverente, mas quem é que nunca se enganou a seu próprio respeito?
Quando vi o resultado, meu blog entre os 100 mais, o que senti foi gratidão. Ergui as mãos para os céus e: _Obrigado Senhor! Olhei para a Andréia: _Obrigado, Andréia! E olhei para a tela, onde permanecia aberto o meu blog: _Obrigado, amigos!
Agradeci a Deus por tudo, pela vida, pela graça, pela beleza de cada dia, agradeci a Andréia por ser minha maior incentivadora, minha companheira de todas as horas, meu amor, e agradeci aos seguidores, incentivadores e amigos, que com seus votos tornaram esse sonho realidade, com sua atenção e carinho me transmitiram força, apoio, inspiração.
Não venci o concurso. Continuarei precisando do seu voto, e o blog também será avaliado pelo júri acadêmico. Contudo, mesmo que eu não vença na segunda fase, eu já venci. Estar entre os 100 mais votados do país é uma imensa honra. Venço todos os dias que alguém lê um texto que posto. Venço a cada comentário que atenciosamente depositam. Venço, amigos, sem demagogia nenhuma, e completamente tocado pela emoção, a cada vez que compartilho com vocês.

“Fiquei olhando para o teto. O teto do mundo. Sim. Para o céu. Com cara e peito de menino feliz” (@Jefhcardoso74)

As fotos são pura irreverência. Foram feitas durante um passeio à Poços de Caldas M.G. Quando me fora solicitada uma pose, eu pensei: “Cócoras. Porque não cócoras? Pose é pose, oras. Ficarei de cócoras”
Eu jamais postaria tais fotos, que muito me embaraçam, se não fosse por uma ocasião tão sublime de minha história de blogagem.

Obrigado, amigos! Conto com seu apoio.

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