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terça-feira, abril 27, 2010

O Verbo Blogar



O Blog, á nossa maneira, á maneira do blogueiro amador, blogueiro por amor, não dá dinheiro; mas dá prazer. Isso sim. Quando bem trabalhado dá muito prazer.
Quando elaboramos uma postagem nos percorre os sentidos uma onda de alegria. Somos tomados por uma euforia pueril. Tornamo-nos escritores ou escritoras que “parem” seus filhos; tornamo-nos editores; ou produtores; ou mesmo jornalistas, ainda que não o sejamos; tornamo-nos poetas e poetisas; contistas e cronistas; romancistas; críticos até. Queremos compartilhar o quanto antes aquilo que criamos. Criar é uma parte deliciosa do “blogar”; e blogar é a expressão máxima da democratização literária – e os profissionais que não façam caretas, pois, se somarmos todos os leitores de blog que há por aí divididos fraternalmente entre os milhões de blogs espalhados pelo grande mundo virtual, teremos mais leitores que Dan Brown e muitos clássicos adormecidos sob muitos quilos de poeira.

Postar é tudo de bom! Quando recebemos comentários o prazer é dobrado. Vem gente mais letrada que a gente, vem gente simples como a gente, vem gente nova e gente experiente; vem toda a gente; ou simplesmente não vem gente. Em meu caso, especificamente, quando não veio gente eu chamei as pessoas de meu convívio; ofereci um papelzinho do tipo convite com o link e fiquei esperando, ou então enviei o link por email; os amigos não me decepcionaram. (sorrio). A eles sigo muito grato. Pois se não são os comentários... Ai de nós blogueiros quando solitários! Confortamo-nos com a possibilidade das visualizações dos leitores tímidos.

Blogar é um jeito romântico de se escrever – só não é mais romântico que cartas apaixonadas.
Blogar é como o samba descompromissado de Noel Rosa em “Conversa de Botequim”; é como o drible de Garrincha sobre o Zé, ou as peripécias de Mazzaropi; ambos em preto e branco. Blogar é como certa filosofia da Boneca Emília, “filha” do saudoso Monteiro Lobato, que certa vez disse nas ‘Memórias da Emília’: “A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso... A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.”

E blogar é uma linda maneira de se entre piscar; é “altruísmo ego centrista”: (sorrio); é divino e sagrado; é romântico e prazeroso; é sonhar e realizar; é compartilhar enfim.
Obs. A citação é um trecho do livro Memórias da Emília, de Monteiro Lobato.

domingo, abril 18, 2010

O Sr. e o Dr.


Ao ser levado à presença daquele Sr de seus maturados 84 anos, estava na verdade indo rever um bom pedaço de minha infância. Afinal, aquele homem de baixa estatura, tórax roliço e finas pernas de passarinho era figura muito frequente nas ruas mais movimentadas de minha terra, há uns 20 anos. Vestido com um jaleco branco sentava com boa postura em sua “motoquinha”, percorria toda cidade com seu jeito lépido. Mas agora ele se encontrava muitos anos à frente daqueles dias; e já não mais conservara sua autonomia para o “ir e vir” a toda parte. Pior ainda, naquele momento sofria com a recuperação de uma fratura no fêmur, ocorrida após uma queda dentro de sua própria casa. _Quão dura é a realidade do ancião que de andar dentro do próprio lar, pode quebrar-se ao chão, isso quando não se quebra de pé, sem mais nem menos, indo apenas posteriormente ao solo, ao que chamam de fratura espontânea. Mas retornemos ao nosso “continho”. Dia após dia, sessão após sessão, meu novo amigo ancião, recuperava sua capacidade para as atividades de locomoção, até atingir o ponto de dar os novos primeiros passos. _Digo novos, pois os primeiros verdadeiros são dados na tenra infância, quando nossos corpos, constituídos daquelas carnes parecidas com borracha de apagar lápis, não sofrem com as quedas, que significam nada, senão umas desventuras mínimas, próprias daquele aprendizado. E foi justamente após os tais novos primeiros passos, que ocorreu a situação que merece agora ser narrada. _É que, quando envelhecemos e passamos para guarda dos nossos descendentes, a coisa toda toma contornos bem engraçados. Meu amigo ha muito ostentava uma fama de sujeito levado, manhoso, teimoso, e especulativo, o que eram até certo ponto verdades. No entanto, quando a recomendação fora para que o homem, munido de um andador, e com uma acompanhante ao lado, fizesse pequenas caminhadas no interior da sua casa, logo veio o mal falado e em tom confidencial: _Dr, fale com ele, pois ele está terrível, não quer andar nada, esta preguiçoso que só vendo. Com bom humor cumpri o mandado dizendo: _O senhor precisa caminhar, ainda que por cinco minutinhos a cada período, isso fortalecerá suas pernas, os músculos e os ossos. Ele me olhou atento, concordou com uma inclinação de cabeça, e um levantamento do ângulo de uma sobrancelha, de maneira que poucos sabem usar tal expressão como sinal de concordância. Na sessão seguinte nova queixa: _Dr., ele esta impossível, vai da sala ao banheiro desacompanhado, em tempo de sofrer uma queda, mas ele é mesmo rebelado, não espera por ninguém. Converse com ele Dr., ao senhor ele irá ouvir. Meu serviço dessa vez foi mais sujo, me vali do terror, mas sem perder o bom humor: _Olha, o senhor não deve andar desacompanhado; eu disse, _para evitar um acidente, um outro tombo pode deixá-lo complicado. E com ele a olhar-me conclui: _ Seja lá, qual for o caso, de incêndio a urgência de banheiro, só ande se acompanhado. Ele não sorriu como eu esperava, mas com a cabeça inclinada para o lado e o ângulo da sobrancelha levantado, pareceu-me ter concordado. Mas não vá pensando que acabou aí o caso, veio nova sessão, novo recado: _Dr, eu preciso falar novamente com o Sr, é que o seu paciente está muito acomodado, ele agora só quer ficar deitado, toma café e vai para o sofá, de onde não sai nem com reza brava. Fale com ele, Doutor. Temendo entrar numa difícil rotina de sermões ao ancião, tratei de convocar todos à sala, para por logo um fim aquela questão. Fui catedrático na exposição da sentença do réu, que naquela altura já parecia um réu pagão: _O Sr precisa andar, mas só acompanhado, e esse negócio de ficar o tempo todo deitado, pode lhe resultar em um pulmão infeccionado, portanto, tome cuidado. Com todos em redor e o pobre no centro sentado, dessa vez ele só me olhava, acho que já se sentia por demais sentenciado. Seus inquisidores, não contentes, fizeram questão de tornar o terror dobrado e disseram: _Dr, se ele fizer algo errado, nós ligaremos para o senhor. Eu já não podia mais compactuar com aquele engessamento generalizado do pobre coitado. Então, com expressão séria, voz firme, e olhar vidrado, disparei: _Isso, me liguem, me liguem que chamarei meus capangas e eles darão um jeito nesse danado. Ele novamente não riu, tampouco inclinou a cabeça para o lado, em contraposição seus inquisidores gargalhavam. Pois é, se toda brincadeira tem mesmo seu fundo de verdade, meu novo amigo ancião continuará recebendo sermão, por ficar de pé, deitado e certamente quando sentado.

Obs. Este conto é na verdade uma reedição de meu blog. Sua postagem original ocorreu em 13.02.09; sendo naquela ocasião a minha terceira postagem em ordem cronológica. Naqueles dias este texto não recebeu nenhum comentário.
Agradecerei a todos que tiverem a paciência de ler e comentar. Abraço!
Jefhcardoso

domingo, abril 11, 2010

O Diário de Bronson (10 - O Chamado)

























_Bronson, o tal Dr. Mendelson ligou para você. Disse para retornar o mais depressa possível. O que esse homem teria para falar de tão urgente?
_Não sei, Frida. Na verdade nem imaginava que ele pudesse querer um dia falar comigo.
_Você vai ligar?
_Claro. Por que eu não ligaria?
_Sei lá. É que você voltou tão pra baixo após a última consulta.
_Não era uma consulta, era um aconselhamento; e isso não tem nada haver com os meus humores.
_Ta bom. Esqueça. Não disse nada.
...
_Alô! Dr. Mendelson?
...
_Sim, Doutor. Eu posso. Já estou a caminho....
_Onde vai, Bronson?
_Vou até a casa do Dr., me parece que sofreu um acidente e, fraturou a perna, precisa falar comigo.
_Você agora virou enfermeiro?
_Frida, por favor, não comece!
_Desculpe, mas... Bronson! Bronson!
Bronson havia partido ao encontro de Dr. Mendelson. Em dez minutos já estava diante da casa amarela com fachada de arquitetura mista (antiga/contemporânea). Apertou o interfone e desta vez não ouviu a fria voz de Crisostemo; ao invés desta era uma doce e meiga voz feminina que respondia.
_Quem é? Perguntou a voz.
_Sou eu, Bronson, o Dr. Mendelson foi quem me chamou.
Imediatamente ouviu o estalar do trinco do portão ser acionado. Logo veio recebê-lo uma jovem morena de olhos negros, grandes e aflitos. Os cabelos embaraçados e o rosto todo brotado de suor denunciavam algum esforço recente. _O Dr. Mendelson lhe aguarda. Entre por favor. Disse a moça entrecortando as silabas para inalar ar adicional para terminar as palavras com algum esforço em meio a uma evidente fadiga.
Bronson entrou. A moça o conduziu até uma sala com dois grandes sofás e uma televisão barulhenta ligada para não sei quem assistir. Disse para que Bronson se sentasse e aguardasse por um instante. Aproximadamente cinco minutos depois a moça retornava com uma expressão de alívio, um sorriso enigmático, tipo o de Monalisa, convidando Bronson a acompanhá-la através de outras duas salas e um longo corredor que recebia as portas fechadas de outros quatro aposentos. Ao final do corredor um quarto de porta aberta.
Bronson estacou diante dos portais e olhou para a moça com ar de evidente interrogação. A moça fez um gesto com a mão indicando para que Bronson continuasse em frente e adentrasse o quarto. Ele adentrou, e ficou surpreso ao ver que não havia ninguém ali. Foi quando de um canto do quarto, de dentro de um vestíbulo que ainda não havia sido notado, veio à voz de Dr. Mendelson em um brado:
_Maria! É o Bronson que está aí? Diga para entrar se for ele.
Maria tomou o antebraço de Bronson em sua mão e o conduziu até diante das portas falsas do guarda-roupa que abrigava o banheiro. Ali se deparou com o Dr. Mendelson impaciente sentado no vaso. Umas calças pelos tornozelos, uma camisa de botões toda aberta, e por baixo uma camiseta branca de malha.
_Veja só minha situação meu caro Bronson. Levei um tombo ao desembarcar em São Paulo, na ocasião de minha última viajem. Agora ganhei estes ferros na perna e me vejo incapaz de sair do vaso e retornar para a cama. Estou inválido, amigo.
Bronson não pode evitar e perguntou que lhe ocorreu de imediato, fez um breve comentário solidário e logo perguntou:
_Mas e Crisostemo, onde está?
_Aquele imprestável? Aquilo é um traidor. Um Judas Escariotes. Um exímio ingrato. Quando cheguei deste jeito que você vê, ele, oportunista como poucos, quis tratar de assunto de acertos atrasados. Um salafrário. Prometi que lhe acertaria tão logo pudesse ir ao banco, mas ele queria mais, queria acerto imediato e além de tudo um aumento considerável. Um velhaco, isso sim é o que é aquela infeliz raça, aquele traste.
Bronson ficou perplexo ao ver a situação tempestuosa tendo por protagonista um ancião enfermo, cego no epicentro de toda balburdia.
_Você conheceu Maria, Bronson? Disparou o ancião sem mais nem menos.
_Sim. Respondeu Bronson.
_Viu como ela é bonita?
_Simpática.
_Simpáticas são as feias que sabem sorrir, Bronson. Maria é linda. Mas isso não vem ao caso. Esta moça vive conosco desde os tempos que minha esposa me tolerava, digo, antes de ela ir embora e abandonar-me para sempre. Maria é cria da casa. Uma dedicação exemplar. Contudo ela é moça delicada, não consegue me ajudar com as tarefas mais pesadas. Veja só; ela teve medo de tirar-me do vaso. Não a culpo por isso. Foi mesmo um grande risco e um grande custo aqui chegarmos para que eu aliviasse as minhas necessidades mais primitivas. Foi por isso que lhe chamei aqui, Bronson. Ajudei-lhe muito nos últimos dias, então, imaginei que não se importaria em retribuir o que lhe dei de graça.
Bronson não entendeu muito. Bronson não entendeu nada. Mas considerou tarefa banal ajudar aquele senhor conceituado e autoritário naquele momento difícil.
_Deixe que eu lhe ajude a erguer-se, Dr.
_E a minha bunda? Não irá limpa-la? Meus braços estão moídos por conta do andador. Apanhei uma tendinite bilateral por causa deste treco. Não dou conta de alcançar a região suja; e Maria tem um estômago muito fraco, não da conta do recado.
Bronson olhou fixo nos olhos opacos do ancião, que apenas vultos enxergavam, e considerou ser humano de sua parte ajudá-lo. Pensou: “Minha boa ação do dia.”Ao terminar o serviço lavou as mãos e retornou para oferecer apoio para que o ancião se levantasse, mas este se voltando para Bronson disse em tom mais ríspido.
_Não vai lavar? Não sabe que se usamos este papel e não lavamos ficamos assados? Quer que eu fique assado, Bronson?
Bronson respirou fundo, ou melhor, quase respirou fundo.

sexta-feira, abril 02, 2010

O Cavaleiro Da Triste Figura

Há algum tempo que conheci um descendente do Cavaleiro da Triste Figura. Certamente que era da família dos Quesada ou Quijada; sem dúvida que o era; se rijo de compleição, naquele momento, como fora seu ancestral, eu duvido; porém, certo que era seco de carnes, enxuto de rosto e triste; e como era triste a figura daquele cavaleiro que conhecí! Parecia imensamente distante dos dias de andanças, de aventuras e de bravuras; se é que algum dia honrou a tradição do legado do tio da Mancha.
Assemelhava-se a perfeita imagem que se possa configurar do fim.
O homem contava mais de 80 anos por aquela ocasião. Era um tipo longilíneo, de braços, pernas e tórax compridos, tal qual me pareceu e ficou gravada das gravuras a figura do Cavaleiro da Triste Figura.
Seu rosto longo, de tão retas e verticais as linhas, parecia ter sido esculpido em madeira, entalhado. Um nariz longo descendo do meio de uns olhos pequenos postos sob umas sobrancelhas caídas e ralas, dando aí o ar de grande tristeza que me chamou a atenção para aquele fidalgo, do qual agora falo. Seus cabelos brancos misturavam-se a outros de cor cinza, uma cabeça devastada pelo tempo e tinha também um queixo comprido a perder de vista. Não vinha montado no rocim. Não. Não vinha. Se algum dia teve um rocim deveria sentir muita saudade do animal naquele infeliz momento de sua vida. Ao invés do rocim era uma cama de ferro em que ia montado; nada garboso, nada nada.
Não trajava armadura, mas antes uma indumentária bem menos própria para uma batalha. Vi quando seus escudeiros o auxiliaram a vesti-la. Ele estava deitado: viraram-no totalmente para o lado; colocaram a pequena roupa toda aberta sob o seu corpo, de modo que umas fitas adesivas ficassem para as costas, em seguida retornaram o seu corpo para a posição inicial; ajustaram a parte central da roupa na virilha, estenderam a parte frontal sobre a barriga do homem e sobrepuseram a parte de trás sobre a parte frontal, fixando-a através das fitas adesivas que compunham o pequeno traje; começaram pelas fitas inferiores. Foi isso que o cavalheiro da triste figura vestiu no dia em que o conheci. Uma roupa de plástico com flocos de gel para maior absorção dos líquidos e redução da umidade; uma roupa com fitas adesivas, elásticos e cobertura filtrante suave, atóxica e talvez confortável.
Não tenho duvida de ser aquele senhor um raro descendente dos Quesada ou Quijada. Talvez um filho de um filho de um filho de um filho... jamais reconhecido da Senhora Aldonça Lourenço, e talvez conhecido como Dom Pañal de La Tierra Roja. Quem sabe.
Mas de uma coisa eu tenho certeza: era sim sem dúvida o Cavalheiro da Triste Figura.

PD. Dedico este relato, especialmente a mis hermanos de los países de habla española, que me recibió tan bien en sus sitios. Agradecido: Jefhcardoso.

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