Amigos

quarta-feira, março 31, 2010

Ilusão, Desilusão e Sonhos


Tomei um café preto, quente e doce
Peguei uns papéis rotos, manchados e amassados
Fui pela rua larga, movimentada e famosa
Cheguei diante do prédio grande, antigo e sombrio
Senti as mãos trêmulas, inquietas e suadas
Subi pela escadaria escura, longa e demorada
Cheguei à sala do editor fumante, magro e carrancudo
Estendi os meus poemas sujos, amarrotados e úmidos
Ele leu com desdém, pressa e descaso
Olhou-me de cima abaixo, reparou nos sapatos e no penteado
Disse para que eu voltasse outra hora, noutro dia e noutra ocasião
Perguntei se ele havia lido, compreendido e apreciado
Ele não sorriu, não respondeu e não fez caso
Eu pedi para que ele não gastasse mais tempo, não iludisse e enganasse
Ele foi direto, categórico e insensível
Falou que minha poesia era comum, mais uma e nada diferenciada
Tomei meu poema mais querido, mais lido e comentado nos meios desprestigiados
Li com a voz embargada, amarrada e arrastada
Ele não aprovou, mostrou-me a porta e o corredor
Disse-me para voltar quando estivesse triste, magoado e com poemas de verdade
Fui embora perplexo, confuso e angustiado
Toda tristeza do mundo invadiu meu peito, meus olhos e meu sonho
Deitei essas linhas tortas, improvisadas e jogadas
Guardei o sonho, os planos e as letras
Agora espero em você, somente em você e em mais nada
Diga se mereço tamanho descaso, desfeita e destrato
Vamos, diga a verdade, somente a verdade e nada mais.

domingo, março 28, 2010

O Diário de Bronson (09 - Bronson Sem Fome)

Foi difícil para Bronson admitir, mas nos dias em que a fome não lhe incomodou... ele... não emagreceu nada. Pior. Houve quem levantasse suspeita de que Bronson teria até engordado.
“Devo estar me fraudando”. Pensou Bronson e anotou em seu diário.
Seria Bronson um fraudulento, ou um reeducando de araque ou um homem de conduta dubitável; um sabotador de si próprio? Seria? Seria? Ã?

quinta-feira, março 25, 2010

O Diário de Bronson (08 - 30 Dias De Propósito)

No princípio, Bronson disse “basta de engorda”. Naquele instante vivia um momento crítico; ia ao sabor da glutonaria e já pesava “98.55 kg”, com 1.80 de altura; era um recém obeso, ajustava um IMC* de 30. Bronson mudou de atitude, e viu que a reeducação alimentar era bom; e fez separação entre a disciplina e a indisciplina; Bronson almoçou sólidos num prato de sobremesa e jantou praticamente líquidos num prato de sopa. Minguou a sobremesa e fartou-se de folhas. Tomava mais água, limonada, chá, e comia umas poucas torradas nas ceias para não dormir com fome; comia mais frutas; respeitava os horários e, por conseguinte, os intervalos das refeições. Errava ocasionalmente, caia, erguia-se e seguia.
Na quarta semana da reeducação, Bronson, corria três vezes por semana cerca de trinta minutos por vez; e pedalava outras duas vezes, os mesmos trinta minutos; e fazia musculação também três vezes por semana, por trinta minutos inclusive. Bronson subiu à balança sem muita confiança e desceu com um novo fôlego de esperança. Era o primeiro mês de reeducação alimentar e de hábitos de vida mais saudáveis a que se entregava. Bronson agora pesava “95 kg”, exibia um IMC de 28.3, era novamente um feliz sobrepeso, porém não acomodado, não conformado. Queria ser magro. Queria vestir sem aperto a calça verde que não abotoava de modo algum, queria limpar o rosto da barba do início do propósito, queria ser magro para nunca mais engordar por descuido, queria poupar suas articulações judiadas pelo excesso de carga, queria nunca mais responder por sobrepeso (o indeciso entre magro e o obeso; como dizia).E vendo Bronson que havia feito boas coisas, e que havia iniciado um caminho vitorioso, foi para casa, e contou a Frida. Frida que o esperava; havia preparado tutu à mineira, torresmos, carne de porco na panela, farofa dourada na manteiga, couve fatiada bem fininha, arroz branco feito na banha, ovos caipiras fritos, e bebidas bem geladas.
Bronson apanhou seu prato de sobremesa com resignação, serviu-se com a moderação que vinha usando com freqüência quase absoluta, tomou para si uma taça pequena de bebida doce e gelada, comeu por sobremesa uma laranja fatiada e terminou sua refeição, e aguardou que Frida também terminasse; elogiou os belos e deliciosos pratos, e isso lhe pareceu ter deixado Frida um tanto constrangida, meio sem graça. Bronson estava satisfeito naquele almoço, satisfeito de verdade.
*IMC (índice de massa corpórea)

terça-feira, março 23, 2010

Conjuguemos os Cônjuges


Agora mais, se eu quiser vejamos além.
E,
Eu miei
Tu miaste
Ela miou
Nós miamos
Vós miastes
Eles miaram; e por quê?

Obs. Não me perguntem nada, pois eu não saberia responder. Terei a humildade, que não me custa, de admitir que esse poema veio-me ao lembrar as conjugações verbais, as provas de gramática das professoras sem ou com paciência, e deste verbo que não me lembro de um dia ter conjugado em sala. (sorrio). Veio-me também de pensar que quando miam está tudo bem, assim como quando latem a coisa não está boa, e ainda está pior quando rosnam. Mas não me perguntem nada, e se der vontade digam o que quiserem. Estou ansioso para ler todos que se sentirem impelidos a comentar. (sorrio novamente). Há de convir que a coisa seja mesmo de rir.

sexta-feira, março 19, 2010

COLDPLAY

João Gusmão era de 27. O João era muito velho. Um livro com a idade do João teria todas as paginas amareladas, teria avarias causadas por traças e teria uma poeira insuportável. Eu que sou alérgico, teria uma crise das bravas com um livro tão velho e empoeirado; precisaria de máscara para suportá-lo.
Ainda pensando na idade do João, uma roupa com essa idade seria completamente gasta ou completamente antiquada, ultrapassada, e certamente empoeirada.
Era uma quarta-feira comum, sem nada diferente na agenda; apenas rotina. Eu havia tomado um bom banho, mas... bem, antes do banho eu havia acordado é claro. Havia acordado, feito minha higiene oral, minha higiene facial e ido comprar pães para o café matinal. Pão fresco é uma delícia.
Enquanto eu me punha a caminho da padaria, o João amanhecia acordado e respirava com alguma dificuldade.
Tomei meu café com muito gosto, muito prazer. Conversei bem humorado com os meus queridos que á mesa estavam.
João estava lá. Lá em seu lugar. Havia muito que João não saia de lá para nada. Desde o triste dia em que quebrara a perna. Alguém sempre o trocava. Alguém sempre o virava para prevenir escaras. Alguém sempre o medicava na hora certa. Alguém sempre o alimentava com uma papa horrorosa. Você gosta de papa? Eu acho papa uma coisa horrorosa.
Naquela manhã tomei um banho delicioso, com bastante água fresca; não gelada, apenas fresca – me faz bem pra a circulação; faz minha energia circular.
O João tomava um banho de leito; é banho de bacia, é banho na cama, é banho de pano, é banho de gato, de trapo.
Meu banho foi ótimo. Bastante água corrente a arrebentar sobre minha pele molhada, sobre meus cabelos encharcados. Usei um sabonete cheiroso que me prometia sentir o frescor do verão todo dia; e era outono. Era de uva verde e água de coco. Isso seria bom até para comer, mastigar. “Puro vegetal” dizia na embalagem. Usei também um shampoo sem sal, que prometia reparação insuperável.
Lavaram os cabelos do João, mas os cabelos do João precisavam ser cortados. Estavam sem corte, meio compridinhos, desorganizados. Eram fiapos de cabelos brancos amotinados. Sua barba também pedia lâmina. Era uma barba branca de uns três ou quatro dias - Quem sabe?
Em meu banho eu cantarolava uma balada do Coldplay; do jeito que me ocorria. Meu inglês é péssimo, meu inglês é uma lástima. Meu inglês? Que nada.
Já o João, em seu banho de gato, só gemia e respirava com alguma dificuldade; talvez fosse a asma de sempre.
O ensaboaram. Espalharam o sabonete no corpo, exceto no rosto. Usaram um pano bucha, ou uma bucha de pano, não sei. Ao terminar lhe passaram panos úmidos. Depois o secaram. O secaram bem seco. Passaram-lhe até talco; espalharam cuidadosamente na pele limpa e seca. Aquilo deixaria a sua pele suave, macia e perfumada, protegendo-a contra a umidade. E João Gusmão só gemia. Terminei meu banho. E como gosto de minhas toalhas! Gosto de minhas toalhas que já foram felpudas e hoje vão gastas. São macias e secam bem. Não as trocaria por outras novas e caras.
Saí do banheiro seco e bem disposto.
Deixei as crianças sorridentes na escola enquanto João não passava bem após o banho.
A caminho do hospital eu ouvia o mesmo Coldplay do banho, a canção era Trouble, que significa o mesmo que aborrecimento, transtorno, preocupação, dificuldade... e se eu soubesse que era esse o significado teria escolhido outra; teria escolhido Viva La Vida, que também é dos caras e eu gosto. A canção se misturava a sirene de ambulância.
A enfermeira acompanhante do João chamou o resgate. Achou que o João não estava legal após o banho. Nada legal.
Quando cheguei ao hospital cruzei com vários amigos com quem troquei curtos cumprimentos simpáticos. O resgate foi rápido e João já estava subindo do pronto-socorro, e quando pisei em meu setor o João já estava sendo “reanimado”. O João não estava legal. Não estava nada bem. Tentaram de tudo, porém não era a vez do João continuar. João encerrou ali a sua luta, sua caminhada, sua carreira, sua jornada. Como queira.
Eu vi o João suspirar. Era o último suspiro de João. Eu vi. Foi um suspiro de alívio. Eu vi e posso afirmar com toda convicção que o achei aliviado ao suspirar. Eu também suspirei ao ver João Gusmão suspirar. Era um suspiro aliviado com certeza. Eu que sou de 74 posso afirmar.

quarta-feira, março 17, 2010

O Diário de Bronson (07 - Lamentações de Bronson)

Das paginas do diário de Bronson propriamente dito. Na integra:

07 de Março - Esta semana terminou e dou graças por não ter engordado. A fome quer fazer morada em meu dia, quer habitar meu ser em definitivo. Às vezes penso se é possível viver com fome por vontade própria, então me lembro que estou alimentado, lembro-me do artista da fome de Franz Kafka, lembro-me de um texto que reli recentemente que conta do homem que viajou para cumprir uma nobre missão, e para tanto se submeteu a uma dieta baseada em mel silvestre e gafanhotos; este homem caminhou por dias e chegou ao seu nobre objetivo. Penso no exemplo dos homens que se alimentaram do maná durante quarenta anos de peregrinação pelo deserto. Penso nas crianças da Somália, da Etiópia, do Nordeste, penso, penso, penso...
Na segunda eu fraquejei pela primeira vez. Fui um patife. Por dois filés acebolados me corrompi. Naquele dia Frida havia preparado uma travessa de filés com cogumelos e cebolas fatiadas. "Oh, fria Frida! Não sou de ferro." Regou os filés ao molho madeira e serviu com arroz branco, maionese de legumes cozidos ao vapor e outras coisas mais. "Ao menos se Dr. Mendelson tivesse me dito o que fazer numa ocasião como esta, porém ele é uma figura tão ausente. Oh, meu Deus!"
Sentei-me a mesa, tomei meu delicado prato de sobremesa de louça branca com ornamentos verdes claros e amarelos, servi-me com a mesma moderação com que vinha me servindo nos últimos dias. Comi. Fiquei pensativo. Não me ergui da mesa por algum tempo, - talvez essa tenha sido a minha perdição - e ao erguer-me foi para repousar outro filé no pequeno prato. Frida fingiu não notar. Falava de trivialidades com muita naturalidade. Sou capaz de afirmar que percebi um lampejo de alegria mais exacerbada em sua face até então neutra. Ao lado do filé, que ainda estava quente, depositei uma colher ou duas de farinha de mandioca dourada em manteiga, não me lembro. Era o velho e conhecido Bronson dos maus hábitos quem estava de volta. Comi com o apetite dos carnívoros esfomeados, sorvi cada gota do suco da carne mal passada lavada em molho madeira. Comi como se fosse à última refeição carnívora de minha vida. E quando o delito me pareceu não tão grave, e o prazer da transgressão me tomou em torpor, voltei à travessa e trouxe para mim o inacreditável terceiro filé... Um almoço para um reeducando esquecer.
Na quarta feira a noite houve uma pequena reunião no trabalho. Uma comemoração rápida do aniversário de um colega de setor. Eu comi croquetes e coxinhas. Elogiei os croquetes de boca cheia. Perdi a vergonha, os brios. Repeti três, ou quatro vezes, não me lembro. Empurrei os salgados com vários copinhos de 180ml de refrigerante calórico e bem gelado. Não conseguia desviar os olhos da travessa de salgados. Foi mais forte que eu.
No sábado comi macarrão. Mas não um prato normal. Não como uma pessoa normal. Comi primeiro o macarrão branco, apenas escorrido e lavado. Coloquei uma porção no prato e deitei sobre ele umas pitadinhas maliciosas de sal que pincei com a ponta do indicador e o polegar da mão direita. Em seguida reguei com azeite, um composto na verdade. Enrolei grandes novelos no garfo e comi de pé, sozinho, ao lado da pia, a beira do fogão, na mais plena obscuridade, na marginalidade gastronômica. "Deus, o que foi que eu fiz!?"
Somente na terceira garfada senti a consciência me puxar pela barra da calça e pedir por atenção. Parei por um instante. Fiquei com o olhar no vazio. Em meu vazio interior creio. Voltei ao fogão. Reguei o macarrão com molho de lombo dianteiro em pedaços, polvilhei queijo curado ralado, adicionei uma linha de creme de leite em torno do macarrão e sentei-me para comer com mais calma.
No dia seguinte, domingo, dia da pesagem, não havia emagrecido nada. Obvio. A balança por única testemunha. Eu por juiz de mim.No final da tarde fiz uma longa caminhada, e para meu consolo não tive os problemas articulares que vinham me impedindo de ter uma atividade física regular. No final da caminhada disse para mim mesmo: “Caiu, Bronson? Levanta-te e anda; não serás obeso nunca mais”.

domingo, março 14, 2010

O Diário de Bronson (06 - Sabotagem)

Bronson ao chegar a sua casa não comentou nada sobre a conversa que teve com o Dr. Mendelson. Fato é que, não lhe agradou o teor do dialogo. Aquela conversação ao telefone havia dissipado a energia adquirida pela discreta redução do peso.
Frida notou que o marido voltara apático do encontro, um tanto abatido até.
_Foi tudo bem, Bronson? Ela quis saber.
_Sim. Respondeu Bronson e Frida satisfez-se.
Naquela semana que seguiu, principalmente no início, Bronson sentiu um pequeno abalo em sua confiança. Ele já havia mudado muitas coisas em sua rotina alimentar, contudo sempre alimentou a crença de que Dr. Mendelson lhe ofereceria uma dieta milagrosa ou coisa assim. Bronson sempre quis uma dieta milagrosa. Não queria remédios, mas uma boa dieta isso sim. Frida era uma boa esposa, porém não era pessoa com que se contasse em se tratando de ambição de emagrecimento. Ela já havia tentado por diversas ocasiões emagrecer, mas tinha sua própria maneira de pensar; era muito apegada aos hábitos de comilança que herdara de seus pais; estes possuíam origem alemã, italiana e portuguesa, e adoravam festas, mesa farta, vinho e cerveja. Além do mais, Frida, que era artesã, trabalhava em casa e adorava cozinhar para relaxar. Dizia ser sua terapia.
Bronson às vezes tentava discutir a relação, digo, a alimentação, mas Frida não tolerava este assunto. A mulher dizia que o marido estava ficando obcecado com os novos hábitos alimentares, dizia que ele estava ótimo para ela e que não via motivo para mudanças. Afirmava que a preocupação de Bronson por hábitos de alimentação mais saudável nada mais era que uma ortorexia em fase inicial. E ainda o advertia sobre o risco de tornar-se anoréxico.
_Bronson, esse seu excesso de preocupação com uma alimentação saudável é patológico. Isso já é ortorexia, Bronson, vai acabar anoréxico. Dizia Frida com certo ar de deboche.
Mesmo com Bronson afirmando com convicção seu desejo de emagrecer, Frida não mudava sua rotina na cozinha. Às vezes parecia até intensificar a produção das comidas, ampliar a variedade de pratos. Caprichava mais nos temperos e dobrava as quantidades das receitas. Noutras vezes desregulava os horários das refeições tumultuando a reeducação de Bronson, como que intencionalmente, contudo era claro que não havia um propósito consciente, declarado, porém não deixava de ser um comportamento um tanto suspeito o de Frida.
Sabotagem inconsciente? Talvez. Porém, indubitavelmente sa-bo-ta-gem.
Na segunda-feira, dia seguinte ao da conversa com o Dr. Mendelson, Bronson via a imensa semana que viria pela frente.

quarta-feira, março 10, 2010

Entre Uma Refeição e Outra.



















Eu vinha por uma imensa rua consumindo com os olhos. Consumia muitos produtos. Consumia... muitas pessoas... havia muitas pessoas.
Assustei-me quando em determinado ponto de bom caminho andado perguntei deslocado ao vento, ao alto, ao acaso, bem ao lado de um transeunte que vagueava na direção oposta a passo largo, bem de fronte ao restaurante Caribalis, qual seria afinal o prato do dia, e ele respondeu-me com a boca cheia de dentes como se a pergunta tivesse sido a ele endereçada: _Você.
Assustei-me. Aturdido não pensei direito. Minha reação foi pronta: levei a mão esquerda ao seu queixo, e com a outra o soquei violentamente na têmpora. O homem caiu. Olhei para um lado e para o outro, vi que ninguém notou o embate relâmpago. O arrastei para o interior de um beco e logo depois almocei. Após grande refeição fui tomado por um leve torpor e em um banco de praça acabei adormecendo. Foi a mais prazerosa cesta que já fiz que me lembrasse. Levantei-me surpreso, pois a luz do dia já não era tão intensa, devo ter dormido umas quatro, ou cinco horas a fio; um absurdo de cesta. Não creio que seja possível classificar isso como cesta.
Voltei para a rua e a passo apertado fui procurar o meu caminho de volta para casa, para a paz do meu lugar. Para tirar meus sapatos, tomar um banho e jantar. E, o que teria para o jantar?
*
Obs. Este texto é uma experiência. Algo nos moldes do meu primeiro microconto. Algo que da plena liberdade ao leitor para interpretar a cena da maneira que lhe convir e completá-la a cada momento.
Aguardo um comentário. Grato.

sábado, março 06, 2010

O Diário de Bronson (05 - Enquanto Dr. Mendelson Viaja)

Ao chegar à residência do Dr. Mendelson, Bronson foi recebido à porta por Crisostomo; Crisostomo era um jovem magro, alto e de fala calma e pausada. Era mais que um simples funcionário da casa. Era mordomo, secretário, chofer, procurador e também uma espécie de fiel discípulo dos ensinamentos de Dr. Mendelson. Crisostomo informou que o patrão havia partido de última hora em uma viajem à negócios, mas que havia deixado ordem para ligar em seu telefone pessoal caso Bronson o procurasse. Enfiou a mão no bolso da calça e retirou o pequeno aparelho, teclou e aguardou um instante; disse duas ou três palavras e estendeu o aparelho para Bronson, que pronunciou um decepcionado alô:
_Salve meu caro determinado Sr. Bronson! Como está?
_Bem, eu creio.Bronson conversava de modo apático diante de Crisostomo que o observava com olhar analítico.
_Sr. Bronson, vejo que conheceu o eficiente Sr. Crisostomo. Ele é como um filho para mim. Acredita que este jovem magérrimo chegou a pesar 180 kg?
_Não duvido, Dr.
_Bem, mas este é outro caso que com tempo lhe contarei em detalhes, agora eu prefiro lhe parabenizar pela continuidade em seu propósito de tornar-se mais leve. Parabéns!
_Tornar-me mais leve. Repetiu Bronson de forma visivelmente apática.
_Sim. Encare por este prisma. Pense: uma vez retirado o excesso de alimentos, cada unidade de peso que não mais levar consigo será equivalente ao quanto se tornará mais leve nesta vida.
Bronson não disse nada, então Dr. Mendelson continuou: _Imagino que deva estar sentindo fome com freqüência. E como não era seu costume chegar a sentir essa sensação, eu creio que esteja bastante incomodando por isso. Certo?Bronson não disse palavra.
_Alô! Você está aí, Sr Bronson?
_Sim. Prossiga Dr.
_Bem, foi justamente para combater estes pensamentos de repulsa para com a fome, que lhe indiquei a leitura do conto de Kafka, “Um Artista Da Fome”. Meu propósito ao lhe indicar tal leitura nada mais foi senão o de lhe oferecer algo em que meditar sobre a natureza da fome. Para ser mais preciso; a natureza do exagero da fome. Não é bom cultuar a fome. Tente não ficar pensando nela o tempo todo. Pense que sempre haverá a próxima confortante refeição; ainda que pequena. Pense na sua próxima refeição e aguarde com a calma da certeza. E não falhe.
Bronson ouvia ao telefone cabisbaixo, com o olhar morto atirado ao chão. Crisostomo lhe observava com toda calma possível de se imaginar, como se estivesse acostumado àquela situação.
Bronson indagou sobre sua dieta: _Quando o Sr. irá prescrever-me uma dieta?
_Sr. Bronson, quanto a dieta prescrita por mim esqueça. Não lhe indicarei dieta alguma. Se você é um comedor de arroz e feijão, como imagino ser, não irei lhe prescrever um utópico salmão na grelha. Coma teu arroz com feijão. Apenas não coma mais que o necessário para as atividades que desempenha em seu dia. Como saber isso? Através da experiência, meu caro amigo. Já sabe o quanto comer de arroz e feijão para engordar. Por tanto não venha fazer-se de besta e dizer que não sabe o quanto comer para “desengordar”. Quanto ao seu pão francês de todos os dias; como imagino que consuma; não irei lhe prescrever pão preto, queijo branco, torrada ou qualquer coisa. Coma o teu pão; com ou sem miolo, com ou sem manteiga, pouco me importa. Mas coma o suficiente. Se meio pão lhe basta para que comer mais? Vai dar na mesma. Você jamais se satisfará pela quantidade que lhe cabe no estômago; isso não é satisfazer-se, além do mais é um parâmetro subjetivo. É enganar-se apenas; empanturrar-se para no instante seguinte empanturrar-se novamente... É isso que tem feito; e isso é uma grande farsa.
Bronson então subiu o olhar morto do chão para firmar um olhar aterrorizado no rosto de Crisostomo, que naquele instante fez um discreto ar de riso; era como se soubesse a razão causadora da reação não contida por Bronson.
_Ah, mais uma coisa Sr Bronson; vá a um cardiologista e diga que fará exercícios e que quer saber se pode. Passará a fazer caminhada para melhorar o aproveitamento das calorias contidas em seus abundantes lipídios e fará também musculação para combater a flacidez que certamente lhe acometerá com a redução de sua massa corpórea. Faça essas atividades em dias alternados e tenha um dia da semana para descansar apenas. E agora vá embora que Crisostomo certamente tem muitas tarefas importantes que lhe atribui; não tome mais o precioso tempo dele.
Dr. Mendelson disse até logo e desligou. Bronson engoliu a seco e devolveu mecanicamente o telefone para o homem que lhe observava agora com irritante imparcialidade.

quarta-feira, março 03, 2010

A Nova Novidade

Todos gostaram da Nova Novidade. Jovens, crianças, adultos, idosos... bem, quase todos. Exceto os chatos. Deus me livre dos chatos! Ainda bem que foi só um ou outro chato que não gostou da Nova Novidade; disseram não haver nada de novo nela. Vê se pode. São mesmo uns chatos de marca maior estes que nunca gostam de Novas Novidades! Tolos, não imaginam como é bom curtir uma Nova Novidade!
Deu no rádio. Deu na TV. Às pessoas no trabalho recebiam em seus celulares mensagens anunciando a Nova Novidade, e a internet a divulgou ostensivamente em suas paginas; virou até hit. Os jornais colocaram todos os seus colunistas a papagaiar com entusiasmo e reverência a Nova Novidade. Até as críticas eram em sua maioria positivas, tirando os chatos, é claro.
Carros de som conclamavam a todos para comparecer aos grandes estádios das cidades e prestigiar a passagem do fenômeno Nova Novidade. Havia cartazes espalhados por toda parte anunciando a incrível Nova Novidade. A célebre Nova Novidade era sucesso absoluto, a sensação do momento. Recorde de venda e público. Virou filme, virou música, virou boneco, virou seriado, virou novela, virou livro, virou roupa, calçado, material escolar; virou até fezes; é isso mesmo, fezes; - afinal fizeram “fast food” com o nome, e com a carinha da Nova Novidade na embalagem; uma delícia, porém, depois que o alimento é processado você sabe o que vira. Não sabe?
Mas veja você como o tempo é injusto. A Nova Novidade nem bem surgiu e já é “passado”; e faz tão pouco que ela abalou as estruturas de todos com o estrondo de sua aparição meteórica, de seu sucesso estrondoso.
Que chato. Terminar assim... assim, sem que nem mesmo eu que curti tanto me lembre qual era a Nova Novidade.

Obs. A foto realizada de minha camerazinha é apenas ilustrativa e o Bronson volta já!

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