Amigos

sexta-feira, dezembro 31, 2010

DOIS ANOS DE BLOGAGEM

Vinícius de Moraes disse certa vez em uma crônica (O exercício da crônica): “O ideal para um cronista é ter sempre uma ou duas crônicas adiantadas... Mas se ele é um verdadeiro cronista, um cronista que se preza, ao fim de duas semanas estará gastando a metade do seu ordenado em mandar sua crônica de taxi...”
Então, finalmente decidi começar o meu último texto do ano. Uma crônica no último dia de mais um ano que termina, e, coincidentemente, o meu blog completa dois anos amanhã, dia primeiro. São mais de duzentos textos e fotos de minha autoria.Tenho imenso prazer em ver o curso deste trabalho. E quem é blogueiro sabe, dá trabalho... Mas é um trabalho muito prazeroso. É o momento em que um sujeito comum, como eu, sente-se um artista.

Durante este que foi o meu segundo ano de blogagem, procurei por todos os meios disponíveis desenvolver a minha escrita. Fiz leituras com a máxima atenção ao estilo dos autores. Li jornais, colunistas, revistas. Assisti à televisão com olhar crítico e atenção. Vi filmes também. Até sobre os textos técnicos de saúde, minha área de trabalho, li com mais atenção ao estilo, inclusive. Li blogs, muitos blogs; essa foi a leitura que mais fiz. Dediquei-me. E hoje sou muito grato a cada pessoa que aqui esteve e leu, contribuiu com um comentário... Tudo somou para o resultado. Fosse uma crítica, um incentivo, demonstração de amizade, retribuição de visita, carinho...

Devo ter trabalhado 360 dias no mínimo. Certo que muitos dias o trabalho do blog se resumiu em ler e responder a alguns comentários, sendo assim, dei as caras, não falhei. De tanto ler blogs, creio poder falar com certo conhecimento de causa sobre o que é a blogagem hoje. A blogagem nada mais é senão a precursora da mídia do futuro.
A televisão vai cada vez mais obsoleta em sua forma clássica, e caminha para a sua última fase. Tornar-se-á peça de museu de várias formas, definições, polegadas... O computador certamente assumirá em breve o posto de mídia mais popular do planeta. Seremos então divididos em pessoas que produzem conteúdos, organizam e disponibilizam os mesmos, e pessoas que consomem estes produtos. Ou seja, cada editor de blog, bem como operadores de outros dispositivos da web, terá a chance de disputar uma parcela da atenção que imigra toda para a internet, e os anunciantes enviarão cheques para a casa desses cidadãos, a fim de ter suas marcas vinculadas àqueles pequenos veículos de mídia. Mas isso é para o futuro. O futuro a Deus pertence. O que temos é o agora.
Eu escrevo. Não sei aonde vou, mas eu escrevo. Seja aonde for, irei escrevendo... E que o dom da escrita me sirva como arma contra o silêncio em vida, pois terei a morte inteira para silenciar um dia.

Não tendo mais o que dizer, encerro esta crônica da pior forma possível, dando conselhos: Cuide bem de seu blog e de sua casa. Mantenha saudáveis os seus contatos virtuais e presenciais. Aprimore todo conteúdo que ofereça próximo ou à distância. Priorize a qualidade de vida todos os dias, sua e a de quem estiver ao seu alcance. Cuide-se.
Feliz Novo Ano!

domingo, dezembro 26, 2010

CONSUMISMO

Faz tempo que a violência do consumismo chegou até mim. O meu amigo levou um tiro. Ficou paraplégico. Mas antes havia enlouquecido. Decidiu ser bandido. Invadiu casas vazias e roubou bens de consumo, porcarias. Maldito consumismo! Ele sim foi consumido por toda essa porcaria. (Enjoy The Silence – Depeche Mode)

Era filho de família humilde. Tinha tudo. Era até sócio do melhor clube da cidade... Poderia ter feito faculdade. E nunca precisou trabalhar. Seu pai lhe bancava com modéstia, mas em tudo que realmente precisava. Seu pai era operário. Sua mãe costurava para fora. Morava em casa própria. Sem luxo, tinha uma vida tranqüila.

Na adolescência ele roubava era a atenção nas festas do clube. Era ele quem lançava os passos de dança que acabavam de surgir. (Blue Monday – New Order)

No serviço militar obrigatório era um cara que agradava a todos. Presença certa nos churrascos, alegria nas guardas, um bom camarada. Dono de um sorriso largo. Sorria fácil. O cara também fazia sucesso com as gatinhas. Era um grande cara. (West End Girls – Pet Shop Boys)

Mas houve um distúrbio. Um amigo lhe convidou para algo estranho, acenou com a possibilidade de dinheiro fácil, poder, aventura... Foi aí que ele se perdeu e começou a morrer. (Running – Information Society)
Não sei como o meu amigo se deixou seduzir por tal ilusão. Mas foi por vontade própria de encontro à má fortuna.
Terminado o serviço militar, muitos foram para a faculdade. Eu fui. Retornei após algum tempo. Não tinha mais notícias do cara. Se quando sumido dos contatos drogava-se, embrigava - se, não sei. Desapareceu.

Tempos depois, soube que não freqüentava mais os lugares do pessoal tranqüilo, não aparecia mais para os amigos da adolescência. Disseram que ele agora era sujeira.
Havia deixado a prisão. Disseram que se envolveu em roubo, fora pego em flagrante, preso, sentenciado, encarcerado, e libertado. Mas não sem mácula. É realmente difícil a vida de um ex-presidiário.
Numa noite qualquer, cheguei a falar brevemente com ele. Achei-o estranho mesmo. Não me importei. Era meu amigo. Contudo havia mesmo muita sujeira nele. Era uma crosta grossa de revolta. Um olhar contaminado por malícia e raiva, culpa, ou sei lá. (A Little Respect – Erasure)

Naquela mesma noite ele não suportou ficar no lugar onde estava o pessoal conhecido de outras épocas. Foi pra uma quebrada. Envolveu-se numa briga. Comprou as dores de um cara. Levou um tiro que entrou por entre as costelas, atravessou a coluna, feriu a medula. Foi aí que o meu amigo, o dançarino maior de minha geração, agora se tornava paraplégico.

Ficou muitos dias morre e não morre em uma UTI. Teve pneumonia, feridas profundas (escaras), infecções várias. Um primo dele, gente trabalhadora como toda a família, dizia quando me via: “Dessa o Zé não escapa.”

Mas ele escapou. Ganhou rodas. Adotou uma toca na cabeça, óculos escuros, e a cara de poucos amigos que assumiu ao deixar a prisão. (Boys Don’t Cry - The Cure)

Após um longo período de recuperação com Fisioterapia, medicamentos para combater as infecções recorrentes, treinamento para o controle dos esfíncteres, começou a aparecer novamente nos lugares onde havia música alta. Dançava com a cabeça e os braços na cadeira. Tomava destilados. Sempre chegava em sua casa completamente embriagado. Sua mãe é quem dizia e lamentava. Bebia para esquecer. Não raro, esquecia até o dia e horário da Fisioterapia. (Pump Up The Jump – Techno Tronic)
Queria ser jogador de basquete adaptado para cadeirantes. Não deu certo. Uma infecção encontrou caminho aberto em seu ser para lhe ceifar a vida, a qual ele já não mais tinha apego algum. Morreu cedo. Viveu pouco. Mas foi, sem dúvida alguma, o maior dançarino de minha geração.
Sabe o que eu acho do consumismo? Eu acho que o consumismo é perverso e muitas vezes nos consome.
Vivamos a vida, e... Consumamos com moderação. (I Beg Your Pardon – Kon Kan)

Obs. Foto ilustrativa: Jardim do Auditório Cláudio Santoro, em Campos do Jordão.

@Jefhcardoso74 (Twitter) Jeferson Cardoso (Orkut e Facebook). Feliz 2011!

domingo, dezembro 19, 2010

UM CONTO NATALINO

Três palhaços cabeludos e magros saltaram do opala preto de vidros escurecidos por película, quando três crianças também magras subiam a rua íngreme da creche Lar Abílio de Souza. Os palhaços já estavam prontos para o espetáculo que abrangia números circenses, tais como malabarismos, acrobacias e palhaçadas, é claro. Pararam por um instante para terminar um cigarro que dividiam. Olharam de relance para as crianças que chegavam diante do portão da secretaria da instituição e foram ter com a diretora, que lhes fez o pagamento adiantado. Coisa pouca. Cachê minguado. Algo que certamente consumiriam em algumas cervejas na noite que sucederia à manhã do espetáculo.
O carro da empresa de bens alimentícios Flábio Brasil Ltda. estacionou logo atrás do opala dos palhaços. Trazia alguns brinquedos e alguns doces, os quais seriam entregues pelos funcionários colaboradores do projeto Natal Melhor. Algo que a empresa praticava como parte de uma política de assistência e melhoria da qualidade de vida dos indivíduos da comunidade na qual estava instalada. A diretora fora recepcionar o pessoal da empresa à porta da instituição. Os recebeu com sorrisos e afabilidade. A criança maior das três aproveitou o ensejo e se aproximou da diretora que parecia conhecê-la. Afastaram-se por dois ou três passos, conversaram, e no instante seguinte a criança maior se despedia da menor, e esta ia para dentro do estabelecimento. Era uma menininha de pele morena e longos cabelos de corte irregular e embaraçados. Deveria ter no máximo quatro anos de idade.
A criança maior tomou a do meio pela mão e ambas voltaram ladeira abaixo com a mesma resignação com que haviam subido.
No pátio da creche, os palhaços envolveram completamente a massa infantil, que de suas pequenas cadeiras parecia hipnotizada. Nessa altura dos acontecimentos seria impossível destacar a criança que fora introduzida de última hora ao grupo, por um pedido da suposta irmã mais velha à porta da instituição, se não fosse por algo muito peculiar que atraiu para ela a atenção das pessoas envolvidas na organização da ação.
Após uma hora e meia de palhaçadas as crianças receberam balas que eram atiradas aos punhados. Coloridas, macias e perfumadas, causaram alvoroço na pequena multidão. As crianças ficaram com as mãos e com a boca cheia por falta de bolsos. Em seguida, um Papai Noel bastante magro distribuiu modestos brinquedos, todos muito bem embalados. Uma boneca para cada menina e um caminhãozinho para cada menino. As crianças foram instruídas a não tirá-los da embalagem ali, a fim de evitar transtornos por uma eventual destruição precoce.
A pequenina mais uma vez fugiu à regra. Fez com o dedo indicador um pequeno furo no plástico da frente da caixa, e por esta abertura introduziu uma a uma cada bala que havia angariado na disputa. Depois dos brinquedos vieram os pirulitos. Aos quais a pequenina deu o mesmo destino das balas. E por fim, o encerramento triunfal. Picolés servidos pelas monitoras que faziam a vez de auxiliares de Papai Noel. E adivinhe o que foi que a pequenina fez do picolé que recebeu. Sim. Introduziu na caixa. Uma monitora já havia percebido que ela nada comia e a tudo armazenava. Então se aproximou e teve confirmada a suspeita. Deu ordem para a menina retirar o picolé da caixa e consumir naquela hora. Ordem cumprida...
A pequenina chorava com o picolé derretendo e pingando ao solo. O pessoal da empresa se aproximou a fim de persuadi-la e confortá-la. Contudo ela apenas razoavelmente recobrou a calma diante da promessa de que seriam entregues picolés também para os seus irmãos na hora em que chegassem para buscá-la. Fim de festa. Crianças à porta. Cumprido o trato. Uma pessoa da empresa ficou curiosa quando percebeu que ao invés de desembalar os picolés e caminharem enquanto sorviam, as crianças os levavam inviolados ladeira abaixo.
Uma das colaboradoras olhou para a diretora do estabelecimento com cara de interrogação. Então a diretora disse que não haveria picolés que bastassem. Afinal eram tantos os irmãos famintos que aguardavam em casa.

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sábado, dezembro 11, 2010

A INFELIZ PROCURA POR UMA RACHADURA

Ensimesmado, como diria Machado, ensimesmado ele ia ao encontro do nada. Era um sujeito nem gordo nem magro, nem cabeludo nem calvo, nem alto nem baixo. Era jovem, bastante jovem. Prestes a completar dezenove anos de idade.
Olhou para a pintura que há muito estava fixada na parede que recebia de frente quem subisse o primeiro lance de escadas.
Uma pintura estranha, diga-se.
Não era apenas paisagem. Não era figura nítida de um ser, nem de pessoa. Não era pintura abstrata, mas dava margem a interpretações várias. Uns diziam que era um cachorro vira latas, outros uma onça parda, havia ainda quem dissesse ser um lobo magro, ou uma raposa, um gato...
Ele olhou e pensou: “Que coisa mais estranha!”
Havia recebido a incumbência de encontrar e mostrar ao pessoal da manutenção uma rachadura que havia por de trás do quadro. Não precisou de escada para alcançá-lo. Colocou-se nas pontas dos pés e o tomou com as duas mãos trazendo-o para diante de sua face. Agora, com o quadro nas mãos, a figura disforme tomara certa forma ainda incerta.
Ele olhou e pensou: “É uma hiena esse bicho esquisito.”
Com muito cuidado, repousou a tela recostando-a na estátua do Dom Quixote de lata em tamanho natural. Aquele Quixote de lata já havia sido famoso na cidade. Ornava o Shopping. Exibia sua armadura aos que adentrassem o acesso principal do conjunto de lojas. Agora estava ali, naquele espaço morto. Tornara-se obsoleto. E era tratado como um estorvo. Estava entregue à ferrugem, à poeira, à opacidade. Mas isso nem vem ao caso. Serviu ao nosso amigo como escora para o tal quadro. Ao menos fora útil para algo.
O rapaz voltou-se de frente para a parede, agora despida do quadro. Examinou com muita atenção. Não encontrou qualquer sinal de rachadura como o diretor de recursos humanos havia lhe indicado.
Então pensou: “Mas que diabos?”
Decidiu subir ao almoxarifado e tomar uma lanterna emprestada, assim poderia examinar melhor o local onde haveria uma rachadura ocultada pelo estranho quadro. Ao subir mais um lance de escadas, desviou da placa que advertia: “Cuidado! Piso molhado”. As moças o olharam com ar de enfado, mas ele sequer notou que estava manchando o lugar onde elas já haviam limpado. Dois minutos depois, descia com a lanterna em punho, espavorido. Tentava acionar a luz do aparelho quando, acidentalmente, chutou o balde. A água estava suja. Era água de vários enxágues do pano de limpar. Por obra do destino, coisa que só o tempo poderá mostrar se fora sorte ou azar, a água fora alcançar justamente a gravura que estava ao pé do Dom Quixote de lata em tamanho natural. Sentiu o coração disparar e, imediatamente, sua face arder em chamas. Então, olhou para cima, apenas a fim de constatar o ar vitorioso e um sorriso contido nas faces das moças da limpeza. Era sua ruína vinda como um raio. Já não estava bem na empresa desde que fora flagrado em atividade virtual ilícita durante o horário de trabalho. É que uma colega, que por acaso passava próxima ao monitor onde ele navegava em uma rara oportunidade, vira que as imagens que ele apreciava não eram, como eu diria, próprias para menores de dezoito anos. Aquilo manchara a sua reputação, contudo não fora interpretado como justa causa para uma eventual rescisão de seu contrato. Mas agora, após o episódio da gravura molhada e manchada por água suja, certo era que sua vaca fora pro brejo, sua viola estava em cacos, e a coisa estava mesmo danada para o seu lado. Recobrou os sentidos. Recuperou o tônus. E saltou sobre a tela. Arrancou a própria camisa, que era branca, e começou a tentar, desesperadamente, secar o objeto. No entanto a gravura apenas deixou de estar molhada. Agora estava mais seca, porém não menos manchada. A sua camisa ficara em estado deplorável.
Abatido, sentou-se sobre a poça de água. Abraçou o tal quadro. Dizem que até verteu lágrimas. Não sei se é verdade. Fato é que as faxineiras disseram ter se comovido ao ver a situação do pobre coitado. Ficou pior quando elas lhe disseram que a rachadura não estava atrás daquele quadro, mas sim atrás de um outro que ficava no rol do segundo andar. Um que retratava a figura dum leão robusto caçando numa savana.
E foi quando ele pensou: “Maldita hiena esquálida!”
*
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domingo, dezembro 05, 2010

O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO

Um amigo leitor me perguntou por que é que eu não tratava em meu blog de assunto tão urgente em nossos dias como este que vem dominando os noticiários nas últimas semanas. Eu respondi que todos já haviam tratado o suficiente. De mais a mais, eu não queria mesmo falar do narcotráfico, da guerra do tráfico, das tropas de combate de elite ou de araque. Afinal, as ervas que servem de matéria prima para o produto final continuarão recebendo insumos agrícolas; continuarão sendo plantadas e cultivadas; colhidas e beneficiadas, processadas; transportadas e distribuídas; comercializadas no atacado e no varejo; e finalmente consumidas por consumidores ávidos, viciados ou os tais que fazem uso “recreativo”. Então, meu amigo insatisfeito questionou-me; “Mas e o Rio de Janeiro?”
Bem, eu preciso dizer que, com uma estrutura dessas que acabei de citar, ninguém precisa do Rio de Janeiro para traficar?
E já que eu toquei no assunto, disse ao meu amigo que acho a sociedade muito tendenciosa. Diante dos monstros da nossa própria criação* tendemos a ficar estarrecidos, perplexos, horrorizados. Então, perguntamos onde foi que erramos. Negamos a verdade eminente. A verdade que, por mais que tentemos omiti-la, vem à tona. Fomos nós quem criou e alimentou os monstros que agora preponderam à cena; corre-corre, tanques nas ruas, soldados. Fugas tão espetaculares quanto uma corrida maluca de personagens de chinelos, descalços, sem camisa, de metralhadora em punho, gente caindo baleada, prótese de perna sendo esquecida em meio ao tumulto dessa São Silvestre dos horrores...
E o cidadão comum se pergunta por que é que não tomaram essas medidas antes. Mas é que a sociedade convive muito bem com o que a tal opinião pública acha plausível. Aceitamos perfeitamente a ampla apologia ao consumo de álcool, uma droga lícita; louvamos ao consumo indiscriminado dos fármacos, viciantes, porém lícitos; há poucos anos, vendíamos cigarros de chocolate para o deleite das crianças futuras fumantes, até descobrirem que se gastava mais em saúde pública para tratar os males do vício do que se arrecadava em impostos. A sociedade consolida e propaga a violência através de desenhos, filmes e jogos, e depois não entende por que há tanta barbaridade acontecendo. Pedi ao meu amigo que não reparasse, mas em minhas horas vagas eu prefiro trabalhar um conto, ler um pouco de Literatura, curtir a família, ao invés de ficar ruminando as novidades desse velho circo de tragédias anunciadas. E para finalizar a conversa, eu saí com uma do Rubem Alves: “Se não queremos a violência, como conviver com a hipocrisia de gerar riqueza com instrumentos de morte?”
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Obs. O título remete à canção Aquele Abraço, de Gilberto Gil
*Frase da canção Será, da Legião Urbana
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sábado, novembro 27, 2010

A CRUEL VINGANÇA DE SEU IGNÁCIO/PARTE II

Ao termino de uma semana de tratamento domiciliar, Seu Ignácio inquiriu ao Dr. Israel sobre qual o motivo que o teria trazido à Capela do Norte, um lugarejo perdido no mundo, conforme suas palavras.
Dr. Israel sorriu, e placidamente explicou que, apesar de seus pais serem ambos da capital, bem como ele próprio, o seu bisavô teria vivido seus últimos anos em Capela do Norte. Aposentando-se como funcionário da extinta companhia férrea, onde cuidava da bilheteria. Daí viria sua simpatia e interesse pelo lugar.
_Vendia bilhetes? Perguntou Seu Ignácio ao médico, que consentiu positivamente com a cabeça, e completou dizendo que seu bisavô fora o velho Licurgo.
Os olhos de Seu Ignácio brilharam e emitiram faíscas ao ouvir o médico dizer que era bisneto do finado Licurgo Bilheteiro.
_Conheci demais o seu bisavô. Ele era freguês de cachaça no bar do meu avô. O destino foi quem nos colocou aqui, Doutor. Não tenho a menor dúvida disso, Doutor. Agora vejo que estamos em casa. Mundinho pequeno!
O médico sorriu surpreso e curioso ao mesmo tempo. Então perguntou ao Seu Ignácio sobre o que mais se lembraria de seu finado bisavô.
_Lembro-me demais! Seus parentes devem ter lhe falado, e o senhor é que não está lembrado. O seu bisavô só não morreu dentro do bar do meu avô por que o levaram às pressas para morrer no hospital.
A interrogação crescia no rosto do médico, bem como os ares de surpresa e apreensão. Afinal, eis que um estranho fora quem lhe revelara coisas íntimas de família as quais jamais havia tido acesso.
_O Seu Licurgo estava pra lá de Bagdá quando chegou o Chico Doido dizendo que a mulher dele, a senhora sua bisavó, que Deus a tenha em bom lugar, havia sido a meretriz mais competente da história de Capela do Norte.
Ao dizer a palavra meretriz, Seu Ignácio desfrutou com um malicioso sorriso o inevitável arregalar de olhos do espantado médico.
_Mas seu bisavô, mesmo quando bêbado, era um bom sujeito, e nunca foi homem de levar desaforo para casa não. Tomou Chico Doido pelo pescoço e começou apertá-lo quase o erguendo do chão. O azar de seu bisavô foi Chico Doido ter alcançado com a mão direita o gargalo da garrafa de cachaça que estava sobre o balcão. A última imagem que seu bisavô viu nessa vida foi a cara feia do Chico Doido roxo, quase enforcado em suas mãos.
O médico não dizia palavra. Ouvia a tudo hipotônico e com a palidez de um cadáver. E Seu Ignácio seguia entusiasmado narrando os fatos.
_Pobre Seu Licurgo! Ficou mais famoso postumamente do que em vida. Não havia um viajante que, vindo por essas bandas e passando pelo bar de meu avô, não perguntasse a respeito da história do tal homem que morreu duma garrafada.
Seu Ignácio dizia por entre pequenas pausas. Usava o tempo de silêncio para colher as feições do médico. E após um breve instante ele retornava.
_Sabe como é, né Doutor? Garrafada não é coisa que mata. Garrafada, aqui pra essas bandas, é coisa que cura, remédio dos antigos. Então, meu avô toda vez era obrigado a contar todo o caso. Inclusive a parte mais engraçada, que foi justamente a do velório de seu finado bisavô.
Doutor Israel, apesar de ainda não ter recobrado as feições, fora capaz de surpreender-se novamente ao ouvir a palavra velório dentro do contexto supracitado.
_Sim, um dos velórios mais engraçados da história de Capela do Norte - continuou Seu Ignácio - Aconteceu que, após o seu bisavô ser velado, indo pelas mãos do cortejo a caminho da cova para ser enterrado, o fundo do caixão, que era de madeira muito da vagabunda, começou a ceder. Foi um pandemônio. Já era possível ver parte do paletó do defunto apontando por entre as farpas. A sorte do seu bisavô foi meu avô, que era muito amigo da sua família, ter tido a idéia de arrancar uma estaca do jardim da Praça e colocá-la de atravessado no caixão, amparando o dorso do defunto. Se não fosse por isso, o seu avô teria caído na rua durante o trajeto do velório ao cemitério. Seu Ignácio concluiu a narrativa rindo muito. Como se fechasse a história com chave de ouro.
O médico ouviu a tudo com indisfarçável perplexidade. Porém, disse ao Seu Ignácio que já conhecia as tais histórias, mas nem se recordava. E disse que era bom saber por acaso de alguém tão amigo de sua família.
Despediu-se do marido da paciente dizendo para que cuidasse bem dela, fez as recomendações do costume, e partiu para retornar na semana seguinte.

No Twitter @Jefhcardoso74

sábado, novembro 20, 2010

A CRUEL VINGANÇA DE SEU IGNÁCIO/PARTE I

Seu Ignácio foi realmente cruel quando soube que Dr. Israel Bravo era bisneto de Seu Licurgo. Ao menos foi essa a impressão que ficou para Dr. Israel, tempos depois de ter ouvido em detalhes a história de seu antepassado contada na versão sem cortes de Seu Ignácio.
Ele não sabia das particularidades nem dos pormenores da história. A família sempre evitou o assunto, tratava por cima. Talvez por zelo. Ou então a fim de não molestá-lo com tal desagrado. Ou até mesmo, quem sabe, na intenção de poupar as novas gerações. Ou ainda evitassem tratar o assunto por simples vergonha dos fatos.
Eu diria, diante do narrado póstumo, que Seu Ignácio foi maquiavélico - caso eu achasse Nicolau Maquiavel um sujeito maquiavélico; mas longe disso; Nicolau, para mim, ao menos em seu tempo, foi muito mais um cientista político, um teórico, um estrategista, do que um sujeito astuto, velhaco, pérfido, como ficou sugerido na expressão que leva o seu nome.
Portanto, seu Ignácio foi apenas cruelmente vingativo. Fato que sua ação foi de cunho passional.
Seu Ignácio casou-se de segundas núpcias com uma bela jovem chamada Lorena. Lorena era alegre, bonita, expansiva, comunicativa, muito dada... A moça tinha vinte e seis anos quando fora acometida por uma grave pneumonia, que por pouco não lhe ceifa a vida em pleno esplendor de sua formosura.
Seu Inácio a levou do hospital sob a condição de receber e arcar com as despesas diárias das visitas de Dr. Israel.
Dr. Israel era um homem polido. Tinha um jeito nobre. Mantinha sempre uma boa postura. Era vigoroso e bem cuidado em seus quase quarenta anos de idade. Cabelos grisalhos sempre bem aparados. Roupa branca reluzente. E movimentos ágeis, fáceis. Elegante. Falava com grande desenvoltura. Sempre muito simpático e bem humorado.
Lorena não lhe poupava elogios durante suas visitas. Afirmava Seu Ignácio, após o médico partir, que a moça agradecia mais ao médico que a Deus por sua boa recuperação.
Seu Ignácio começou a implicar até com a tosse da jovem esposa. Dizia que esta cessava durante as visitas do médico, e após o mesmo partir, se intensificava como que anunciando a indispensável próxima visita.
Lorena dizia para a velha enfermeira que lhe assistia, que Dr. Israel era o arquétipo de um príncipe moderno. Dizia isso a todo instante.
Foi esse elogio, sem dúvida alguma, que fez com que Seu Ignácio tivesse sede de vingança.
O homem não suportou ter Dr. Israel frequentando o seu aposento a tirar mais do que inspirações profundas, mas também suspiros de sua jovem esposa.
Ficava ao lado do médico durante cada visita. Não arredava o pé por nada. Nem mesmo para apanhar um copo com água que o médico lhe solicitasse. Antes, ordenava secamente à velha enfermeira para que o buscasse.
Ao final de cada visita de consulta, fazia questão de perguntar diante de Lorena qual era o preço pelo trabalho. E invariavelmente sacava um bolo de notas do bolso, retirava algumas, que em nada diminuía o volume do bolo, e estendia ao médico sem dizer nada além de “toma seu dinheiro”.

Obs. Sei que não possui todo o tempo do mundo para a minha escrita. Mas este conto ficou mais longo que o costume. Portanto, o postarei em duas partes. Sendo esta a primeira, e a segunda será publicada no próximo sábado, dia 27 de novembro.
ObsII. Foto realizada por mim no interior do Theatro Pedro II em Ribeirão Preto.
ObsIII. Para quem quiser me acompanhar também no twitter @Jefhcardoso74.
Obrigado por sua atenção!

sábado, novembro 13, 2010

LOBATO E O RATO

O rato, sem mentira nenhuma, era maior que o Lobato. Lado a lado, o rato e Lobato, enquanto transitavam no quintal, posso jurar que o rato era maior que Lobato por um rabo ou algo mais.
Joaninho, o vovô Joaninho, lançou a bola para que o menino fosse apanhá-la, mas eis que, por debaixo da entulhada, surgiu um ser até então desconhecido, ignorado pelos da casa.
Vovô Joaninho, tomado por terror e espanto, não conseguiu levantar-se da cadeira de pano firmando-se na bengala. Tentou três vezes, contudo, nada de levantar-se. Foi então que empalideceu, engasgou a voz, arregalou os olhos, e já não presenciou consciente a cena do garotinho Lobato disputando a bola com o gigantesco rato. Ao menos a criança achava que era a bola que pretendia o roedor em suas investidas. O bicho vinha agressivo e mostrava os dentes sujos, grunhia, avançava diante da face do menino.
O garotinho levou a mão e alcançou a orelha do bicho, este se contorceu e desvencilhou-se do pequenino, causando-lhe um pequeno arranhão no dorso da mão, algo que a família atribuiu a algum resvalo nos objetos do quintal. Lobato, ao pressentir o perigo, abandonou a disputa com o roedor. Deixou a bola aos gritos de choro e encaminhou-se de volta para o pé da cadeira onde estava inconsciente o avô. Ergueu-se com o apoio na estrutura de madeira da cadeira de pano. O enorme roedor veio se aproximando sorrateiro e ardil. O pequeno Lobato intensificava os seus gritos, agora de terror. Os gritos alcançaram o ouvido da mãe que limpava resíduos de alimento que o bebê havia derrubado sobre o chão da cozinha. Ao chegar à porta que dava para a varanda, a mulher teve princípios de desmaio ao ver o seu pai com o corpo desfalecido na cadeira e a criança berrando ao lado. Aquilo era sinal de que algo terrível estaria acontecendo. Escureceu-lhe a visão, retrocedeu alguns passos sem controle das pernas, e, para não cair, tentou apoiar-se sobre a pia. Derrubou uma grande jarra de suco de laranja no chão. Recobrou os sentidos, e seguiu rumo à varanda. O barulho do vidro ao espatifar-se provavelmente foi o que fez com que o roedor debandasse.
O velho não estava morto, apenas desmaiado. Isso foi um alívio para a mãe de Lobato. Joaninho levou um dia e meio para dizer algo, e quando disse, só falava de um tal rato gigante que quase teria pego Lobato.
Todos ficaram com pena de Joaninho. Diziam: “Pobre vovô, está a cada dia mais esclerosado”.
Obs. Meu twitter @Jefhcardoso74

sábado, novembro 06, 2010

DENTISTA (O PRELÚDIO DO TRAUMA)

Sempre torço para que a dentista esteja de bom humor mesmo quando marco a sessão para o primeiro horário, pouco depois das sete horas da manhã. Tenho minhas razões para torcer, o que nada tem a ver com a minha dentista atual, que é, na verdade, uma fada do dente. Porém, hoje não tive sorte.
Ela nem mesmo retribuiu de forma perceptível o meu “bom dia!”. Pior, ela certamente estava no dia em que a última coisa que queria em seu primeiro horário era um cliente medroso.
Medo de cadeira odontológica também responde por pavor de cadeira odontológica. Só quem tem pavor por essa modalidade terapêutica sabe como é.
Contudo, que outro remédio, senão sentar-se, estar preso, estar tenso, e abrir a boca até sentir doer a articulação temporomandibular?
_Você tem preferência por algum dente hoje? Ela perguntou.
Eu respondi que iniciasse pelo dente que estivesse em pior estado, ou o mais visível, por favor.
_Com ou sem anestesia? Foi a segunda pergunta que me fez. Aí já me pareceu piada da parte dela, sarcasmo.
_Com anestesia, é claro. Se possível geral. Eu respondi.
Enquanto ela me picava, comentou que se informou sobre uma forma de anestesia nova, moderna, onde o paciente teria um relaxamento não somente local, mas geral, porém ela ainda não havia feito o curso para usar a tal técnica, eu lamentei.
Picadas. Sonda de sucção no canto da boca. Respiração quase suspensa. Taquicardia. Mãos à obra.
Logo no primeiro contato dou um sobressalto da cadeira - Sim, eu estava histérico. Sei que o leitor pensou isso, eu também pensaria.
_Doeu? Ela perguntou. Eu disse que sim, com um movimento enérgico de cabeça. Ela completou: _Não era para ter doido, a restauração é minúscula e super rasa. Eu pensei. “Diz isso pro meu dente, vai que ele compreende e acata.” Ela deve ter pensado: “Frouxo”.
Mais picadas... Ela mexeu a broca e eu temi a morte. Não é que eu seja exagerado. Tenho minhas razões pra tanto. É que, quando eu era criança... bem.

Meu primeiro contato com o profissional dos dentes foi no mínimo vexatório.
Eu cursava o primeiro ano da escola pública, ainda nem era alfabetizado. Franzino, fracote e dominado por uma timidez abismal. Veio uma mulher de jaleco branco até nossa sala, falou com a professora, esta ordenou que nos levantássemos e seguíssemos em fila indiana para fora. Fomos. Na fila as palavras vinham de cochicho, sussurradas. Algum garoto mais esperto anunciou da frente que o nosso destino era o dentista. Eu não sabia como era um, logo os iniciados trataram de espalhar o terror aos desavisados. As exclamações mais horríveis corriam a fila em sentido proximal para distal e vice versa. Ninguém ficava muito tempo lá dentro. O tal motorzinho, que soube de sua pavorosa existência ali naquele momento, não estava “vociferando” contra os que adentravam a sala. Um saía dizendo: _Duas. Outro dizia: _Nenhuma. Outro: _Uma. Esses números corriam a fila, e isso não seria problema nenhum, se não fosse o caso de eu ter sido o recordista. O Doutor, por de trás da máscara, disse para a assistente arregalando os olhos: _Sete! Esta reagiu com a mesma cara de espanto, repetia o numero enquanto anotava a quantidade de cáries na prancheta: _Sete! O próximo da vez não teve dúvida. Eu ainda estava de boca aberta quando o ouvi virar-se para a fila e anunciar em auto e bom som que eu era o recordista da podridão oral.
Caro leitor, um garoto aos sete anos sonha em beijar a menina mais bonita da sala. Você imagina como é que ficou qualquer expectativa minimamente pretensiosa que eu nutria com um mísero grão de alpiste diário, porção permitida por minha imperiosa timidez?
Contudo, não foi essa situação que me causou o grande trauma à cadeira odontológica, mas sim outro fato ocorrido numa...

_Cospe. Ela disse. E eu, surpreendentemente, ainda tinha forças para tal ação. Cuspi. Sentia-me atordoado, e ainda teria um dia inteiro de trabalho pela frente. Eu queria, na verdade, ir para casa, enrolar-me numa coberta, passar o resto da manhã deitado, me recuperando.
_Terça feira, pode ser? Ela perguntou-me. Eu concordei automaticamente. Não tinha condições nem energia para recusar-me.

Obs. Estou agora, no twitter. Se quiser falar comigo lá é @Jefhcardoso74.

sábado, outubro 30, 2010

MILTON HATOUM

Adentrar os labirintos da memória é como entrar numa selva. Você caminha por suas brechas, abre passagem através da densa vegetação, e jamais sabe se retornará com uma flor na mão ou com um corte a sangrar por ter resvalado em uma erva espinhosa. Você pode também encontrar um fruto nativo, algo cujo sabor seja único, ou ser surpreendido pelo bote da serpente, que, até então adormecida, desperta e alveja o seu desguarnecido tornozelo. Ou quem sabe, nas piores e mais drásticas hipóteses, você pode ser devorado por uma onça, ou se perder e jamais retornar. No entanto, pode também com sorte encontrar o caminho de volta são e salvo, e em um feliz e bem sucedido regresso trazer consigo belos relatos que lhe rendam um livro espetacular.

Milton Hatoum, nascido em Manaus em 1952, adentrou e retornou de sua selva, que não era selva selvática, diga-se, mas sim uma Manaus de alma libanesa, de dentro de seu passado, do passado que ouviu de seus antepassados, e trouxe consigo o fascinante “Relato de um certo Oriente” (Prêmio Jabuti 1990 de Melhor Romance).
Naquele livro eu conheci uma Manaus que eu jamais havia imaginado. Fiquei fascinado por Emilie, a extraordinária matriarca de uma família libanesa há muito radicada ali. Apaixonei-me à primeira vista (leitura) pela pequena Soraya Ângela, que tanto me faria sofrer um pouco depois de conhecê-la (lê-la).

Este ano, estando eu na feira literária de Poços de Caldas, tive a sorte de conhecer pessoalmente o autor. Bem, conheci? Não é bem isso. Estive em um bate papo com ele. É assim que os escritores gostam que chamem suas entrevistas abertas às perguntas do público, bate papo. Ali ouvi o homem contar toda sua trajetória; sua vida em Manaus, onde deu aulas na Universidade do Amazonas, seu período na Espanha, onde lavava pratos e esteve com Roberto Bolaño, nos EUA, onde deu aulas na Universidade da Califórnia, em Berkeley, falou também sobre o longo tempo que seu romance permaneceu guardado após ter sido escrito, oito ou dez anos, não me lembro exatamente, revelou seu processo criativo, e afirmou que Literatura é trabalho, muito trabalho e nem tanto inspiração.

Amigos, o homem vem ganhando tudo que é prêmio com suas obras. É um dos maiores escritores brasileiros vivos. São três Prêmios Jabuti, um Bravo!, um APCA e Portugal Telecom... E não é que foi super receptivo à minha abordagem! Entreguei-lhe os meus humildes textos, disse-lhe que era leitura para a viagem que faria de retorno. Ele aceitou o calhamaço de folhas, sorriu, agradeceu, disse que leria, foi muito simpático.
Se realmente leu, eu não sei, mas que foi uma grande honra falar com o cara, isso foi. [sorrio].

ObsII. Estou no twitter @Jefhcardoso74.
ObsIII Essa é a foto que fiz logo após entregar-lhe os meus textos.

sábado, outubro 23, 2010

PARA O FINAL, A CONTEMPLAÇÃO

Convenhamos; ninguém durante o exercício de sua profissão dedica-se a refletir sobre como será o último dia quando ainda está distante deste destino. Porém, penso que seria bom lembrar vez ou outra que tudo termina. Essa tarefa, que mistura contemporaneidade com o advir, pode ser saudável para as relações durante o desenvolvimento destas. Quantas vezes Honorato imaginou como seria o dia posterior ao último dia de trabalho de sua carreira? O tempo passa mesmo. E quando amanhece um belo dia...
Agora ele, que sempre trabalhou arduamente, dispunha de todo o temo do mundo para a contemplação. Não há glamour no encerramento da carreira de trabalho de um homem comum. Por mais que haja sentimentos por conta das partes envolvidas, simpatia, afeição, não é próprio das pessoas simples as grandes homenagens. A coisa toda transcorre com a mesma singeleza do início, do meio, é assim o fim. As relações interpessoais são combustíveis, portanto inflamáveis, e, após os enlaces, queimam, evaporam-se, vão pelos ares...
Alguns amigos já trabalhavam na empresa bem antes de Honorato iniciar ali. Estes formavam as colunas da atmosfera do lugar, efêmeros também, passageiros, todavia, durante o tempo em que ali estavam, compunham uma espécie de identidade local.
Ele já havia visto outros passarem pela mesma situação de despedida em que se encontrava agora. Últimos dias de algo muito importante na vida de um homem comum. Prelúdio de um fim. Dias atípicos a mirar o desconhecido que se aproxima, e o conhecido que se afasta. As relações interpessoais sofrerão o inevitável resfriamento que ocorre após o desligamento, a deterioração ocasionada pela interrupção do convívio é inevitável. Certa vez, houve um fato que lhe chamou a atenção, um amigo que partia, o Osvaldo Marceneiro, que foi em seu último dia de trabalho cumprimentar os colegas um a um. O fato engraçado é que somente ele, o Osvaldo, estava emocionado de fato. Os outros não foram indiferentes ou mal educados, apenas levemente fleumáticos, naturais, tinham muitas tarefas a fazer. É normal que o despedindo seja mesmo o mais comovido, afinal são as estruturas do mundo dele que serão realinhadas. O espaço que ele deixa ao partir é rapidamente preenchido por alguém, na maioria das vezes inexperiente, contudo cheio de energia e motivação, talvez mais carismático até, quem sabe.
E agora? As portas do bar sempre estarão abertas a esperar? Copos limpos? A cachaça quente e perfumada, a cerveja gelada nas primeiras horas do dia... O dono do bar é o psicanalista da comunidade, é o pai dessa religião pagã, é o cúmplice onírico, ele espera limpando o balcão, lavando um copo, fazendo uma conta, ouvindo muito, falando pouco. Porém, nem só de bar viverá o aposentado, mas de toda pescaria que não exija grande deslocamento e ou equipamento sofisticado. Existe também aquele banco de praça onde o carteado, o dominó e a dama servem de fundo para as trocas e cuidados das informações da vida alheia. Há o parque para as caminhadas, a banda que passa, a televisão que jamais para...
Mas, se Honorato tivesse se dedicado às causas nobres do bairro, a religião, a família, a Filosofia, salvadora de toda a humanidade, talvez hoje lhe desse mais prazer o tempo livre para a contemplação.

ObsII. Estou agora, no twitter @Jefhcardoso74.
ObsIII Este conjunto arquitetônico da foto compõe a magnífica Praça XV em Ribeirão Preto.

quinta-feira, outubro 21, 2010

O SILÊNCIO DOS INOCENTES

_Ora. Não minta, meu filho. Não sabe que a mentira é um ato vil?
...
_Então... Diga a verdade.
...
_Darei mais uma chance. Diga a verdade e tudo ficará bem. Agora, se continuar mentindo...
...
_Diga. Vamos. Já estou sem paciência, meu filho.
...
_Não vai dizer?
...

Ficaram nesse “dialogo” por muito tempo. O filho não disse nada mesmo. Sustentou até o fim suas reticências. Se confiasse no pai, se sentisse que poderia confiar, se eu tivesse criado o diálogo a partir de algo que ele tenha dito, não ficaríamos sem saber, e o quê afinal aconteceu?

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quinta-feira, outubro 14, 2010

PARA O ALMOÇO, FIBROMIALGIA

Ela olhou pela janela e achou horroroso aquele dia ensolarado. Ridículo. Não havia dormido nada novamente. Seu cabelo estava com as raízes brancas à mostra, cheio de pontas duplas, embaraçado, ressecado. Tirou a roupa do guarda roupa para vestir e ficar com raiva do corpo, da roupa, da balança, do mundo inteiro. Um dia lindo de primavera, um verdadeiro inferno.

Já no trabalho, a manhã passou rápido. Deu graças a Deus quando olhou para o relógio e viu que faltava apenas 5 minutos para o horário do seu almoço. “Almoço. Almoço... Almoço por quilo. Self-service/auto-serviço. Almoço com gente estranha. Almoço a R$2,90 cada cem gramas! Almoço que engorda e deprime. “Devem botar alguma droga naquela comida, sempre que como fico deprimida, não é possível.” Pensava ela toda vez enquanto aguardava o horário da sagrada refeição diária.

Faltando 4 minutos, agitava os pés enquanto observava de braços cruzados o relógio de parede. Relógio idiota. Porcaria paraguaia. Sempre dava um jeito de atrasar em um ou dois minutos. Toda sexta era batata, tinha que acertá-lo.

Descalçou um dos sapatos. Aqueles sapatos lhe apertavam demais. Ela tinha o pé do pai. Só puxou ao que não prestava do velho! Pé chato, joanete, calos, o segundo dedo maior que o dedão, chulé, pêlos no dorso, unhas encravadas, frieiras... “Isso não é pé, isso é praga de parenta invejosa.” Ela pensava enquanto movimentava os dedos fitando-os de braços cruzados.

Faltando 3 minutos, lembrou-se que, além dos pés, herdara também a corcunda do pai. “Hipercifose e escoliose.” Disse o ortopedista bonitão. Um ano e meio de RPG (Reeducação Postural Global). Perdeu tempo, perdeu dinheiro, perdeu a paciência, esticou-se, ficou nas posições ordenadas, respirou nos conformes do diafragma, continuou inelástica como madeira... Saía da clínica de Fisioterapia “esbelta”. Virando a esquina, esboroava, desabava e, em seguida, reassumia a postura de um anzol de pesca. O que ela nunca disse à fisioterapeuta é o que ela pensava no exato momento em que reatava com a bela corcova: “Pesa muito, não agüento, é o peso do mundo sobre minhas costas, estou exausta...”

Era apenas o final da primeira etapa de trabalho, 2 minutos para o meio dia, e já sentia fadiga, dolorimento... Sempre dormia mal, havia dormido ainda pior aquele dia. Sentia-se cansada física e mentalmente. Não se concentrava se não fosse a muito custo. Lembrou-se da mãe, que cozinhava bem, e agora era um retrato na sala da sua casa e muitas lembranças. Lembrou-se que a avó também era um retrato na mesma parede, porém, lembrança alguma da avó lhe ocorria, senão a imagem da velha portuguesa de bigodes. Um horror. Pior, além das imperfeições paternas, o maldito gene materno lhe reservara um buço, que mais parecia um resoluto bigode adolescente. “Eita parentesinhas invejosas!” Ela pensava.

Faltando 1 minuto para o almoço, tomou uma decisão na vida. Pegou o celular, teclou um numero com grande desenvoltura, jogou a cabeleira volumosa para trás do ombro, e alisou os rebeldes com a mão, colou o aparelho junto ao ouvido, e disse alto, pois tinha certo grau de perda auditiva: _Alô! De onde fala? Sim. Vocês estão entregando marmitas hoje? Sim. Uma. Salada, sim. Não, sem cebola. Sim. Rua...

Obs. Clicando no selo do Top Blog, logo abaixo do meu perfil, e preenchendo os campos nome/email, você contribui para que este blog concorra agora no segundo turno do Prêmio Top Blog 2010. E eu lhe agradeço grandemente.ObsII. Estou agora, no twitter. Tenho tentado falar com o Marcelo Rubens Paiva. Trata-se de um projeto: Será Que O Cara Responde? Se quiser falar comigo lá é @Jefhcardoso74.

quinta-feira, outubro 07, 2010

O Meu Blog É Um Bicho (Top 100)

O meu blog é um bicho, é um animal, nasceu de mim, criatura de meu ser. O meu blog é disforme e cheio de formas ao mesmo tempo, contornos de minha alma.
Eu não tinha onde colocar os meus textos para a leitura, eu não tinha quem lesse os meus textos. Decidi criar um espaço. Foi assim que comecei. Minha irmã, que é jornalista, aconselhou-me: _Faça um blog, assim poderá publicar os seus textos, Jefh.

Logo, a blogagem tornou-se um vício, os contatos tornaram-se amizades, e meu bicho cresceu. A cada texto vieram as reações mais variadas. Pessoas de todas as partes acenderam ao meu convite e leram o que eu estava dizendo. Eu disse prosa, eu disse verso, eu disse coisas que não diria se não tivesse a certeza de ser lido. Eu mostrei um bicho para o mundo, tem minha cara, eu assumo, é filho meu, bicho de mim, meu retrato do mundo.

Ontem sairia o resultado dos Top 100 classificados Top Blog 2010 (maior concurso de blogs da internet brasileira). O meu concorre na categoria mais ampla, a de variedades. Mas por alguma razão, eu não queria vir ver a classificação. Fiquei meio quieto, introspectivo. Cheguei do trabalho querendo um banho, um pouco de solidão, um quarto, um livro. Só muito mais tarde foi que vim ao computador. Vi que o resultado havia sido adiado.


Sempre pensei que numa primeira conquista literária eu teria uma reação reflexa, um arroubo do tipo um grito gutural: RockAndHoll!, Metallica!, Hey how, let’s go!, Pavilhão Nove! Algo de liberdade, algo irreverente, mas quem é que nunca se enganou a seu próprio respeito?
Quando vi o resultado, meu blog entre os 100 mais, o que senti foi gratidão. Ergui as mãos para os céus e: _Obrigado Senhor! Olhei para a Andréia: _Obrigado, Andréia! E olhei para a tela, onde permanecia aberto o meu blog: _Obrigado, amigos!
Agradeci a Deus por tudo, pela vida, pela graça, pela beleza de cada dia, agradeci a Andréia por ser minha maior incentivadora, minha companheira de todas as horas, meu amor, e agradeci aos seguidores, incentivadores e amigos, que com seus votos tornaram esse sonho realidade, com sua atenção e carinho me transmitiram força, apoio, inspiração.
Não venci o concurso. Continuarei precisando do seu voto, e o blog também será avaliado pelo júri acadêmico. Contudo, mesmo que eu não vença na segunda fase, eu já venci. Estar entre os 100 mais votados do país é uma imensa honra. Venço todos os dias que alguém lê um texto que posto. Venço a cada comentário que atenciosamente depositam. Venço, amigos, sem demagogia nenhuma, e completamente tocado pela emoção, a cada vez que compartilho com vocês.

“Fiquei olhando para o teto. O teto do mundo. Sim. Para o céu. Com cara e peito de menino feliz” (@Jefhcardoso74)

As fotos são pura irreverência. Foram feitas durante um passeio à Poços de Caldas M.G. Quando me fora solicitada uma pose, eu pensei: “Cócoras. Porque não cócoras? Pose é pose, oras. Ficarei de cócoras”
Eu jamais postaria tais fotos, que muito me embaraçam, se não fosse por uma ocasião tão sublime de minha história de blogagem.

Obrigado, amigos! Conto com seu apoio.

quinta-feira, setembro 30, 2010

O Candidato

Num passado distante, num distante país de terceiro mundo, houve um homem a quem todos chamavam “O Candidato”; algo muito diferente de mais um candidato em meio à multidão de candidatos que existia por lá. Acertemos então que falo de O Candidato em pessoa, e não de um candidato qualquer.
Dava gosto vê-lo no exercício de seu ofício. Era um verdadeiro mestre. O império romano teria sido muito mais extenso se fosse ele um dos imperadores.
Criança suja com o nariz escorrendo de pingar, chorando, arredia, ele identificava a um quilômetro de distância. Podia estar se debatendo no colo, esperneando, nada disso o intimidava. Ia até a criatura e lhe arrancava da mãe e, na grande maioria das vezes, domava o bichinho. Para tal, trazia no bolso direito da calça um punhado de balas que era renovado pelos assessores de tempo em tempo. No bolso esquerdo, trazia apitos e línguas de sogra. Caso as balas falhassem, dificilmente os brinquedos fracassariam. Ele próprio inaugurava os brinquedos, já os oferecia lubrificados [...]
Caso falhassem os dois bolsos, entrava em cena um assessor rápido como uma bala, tomava o rebento no colo, e estrategicamente se encaminhava para o contra fluxo da aglomeração de eleitores ávidos por um contato. As velhas o amavam de paixão. Ele as abraçava, sacudia, beijava na face, não se importava em resvalar algum canto de lábio desdentado e enrugado, oferecia seu perfume aos olfatos sofridos, carentes, nada familiarizados com a fragrância de um bom perfume importado, criteriosamente reforçado a cada pausa de deslocamento para outro bairro.
Os homens também o amavam. Eles eram forte e calorosamente abraçados. O enlace durava um, dois, três segundos. Tempo o suficiente para exaltações de caráter ufanista, promessas improvisadas, calor humano [...] Como ele era bom de improviso e de promessas! Dava tapas sobre o peito dos trabalhadores, nas costas, nos ombros, arrochos nos pescoços finos e grossos, algo que em muito fazia lembrar as famosas chaves de braço, sabe? Era carisma que sufocava, acalentava, conquistava, arrebatava [...]
O Candidato era filho, neto e bisneto de candidatos renomados. Seus antepassados jamais trabalharam, veja bem, jamais [...], jamais trabalharam em outra coisa que não fosse a conquista e administração da coisa pública. Quatro gerações de um talento nato. O Candidato Patriarca, O Candidato Junior, A Candidata Filha, O Candidato Neto, O Candidato Bisneto, e até O Candidato Sobrinho, todos traziam e exibiam orgulhosos a sua grande herança, o DNA.Nenhum eleitor contestava as qualidades genéticas da família Candidato. Os genes dos eleitores também eram uma herança ancestral. Acontecia de algum eleitor vir a se tornar um O Candidato, mas isso era algo raro (uma mutação genética).

Certa vez, durante certa campanha, isso eu faço questão de narrar, tudo corria muito bem para O Candidato, quando, de repente, a necessidade lhe contorceu as vísceras e fez-lhe verter suor gelado testa abaixo. Pediu licença na primeira porta de barraco que encontrou pela frente. A dona, uma mulher larga e de braços grossos, com três meninos sujos a sua volta, e uma menininha no colo, foi quem mostrou num gesto amplo o caminho para a fossa.
Era o terceiro bairro que visitava naquela manhã. No primeiro, desjejuou pão, manteiga, café com leite e uma paçoca, cortesia do botequim, algo irrecusável. No segundo, provou com boca boa a especialidade do local. Sua boca, habituada à comida de restaurante fino, não entortava diante da rabada da comunidade. Já na terceira visita, a dobradinha da Dona Noca cheirava da entrada do bairro até o palanque improvisado de frente ao Matadouro Das Moscas. Irresistível.
Mas, por obra do destino ingrato, inventou de provar um quibe com ovo num boteco ao sair de Noca. Aquele quibe só poderia estar estragado. Bastou uma mordida para sobrevir uma cólica dos diabos. Coisa da oposição. Algo que seria perfeitamente resolvido pela vigilância sanitária como primeiro ato após a posse.
A pressa pro desafogo das obras dos intestinos irritados foi tamanha que o candidato não teve tempo sequer para arriar as benditas calças de corte italiano. As cuecas de cetim e as meias de seda contiveram parte do caldo. O que passou fora acomodado dentro do sapato alemão [...] Como diz o dito popular: “o que não tem remédio remediado está”. Aquele incidente não o impediria de atravessar o resto do trajeto nos braços fortes de seu fiel eleitorado. Seguiu firme até o fim como se nada tivesse acontecido. Era como se ele ainda cheirasse ao delicioso importado. Sorriu para todos, tomou mais uma dúzia de meninos de nariz escorrendo no colo, beijou outras tantas velhas encantadas, apertou mãos, retribuiu o calor, abraçou, travou e foi travado em gravatas de braço, discursou e, no final, partiu com a certeza de incontáveis votos. E o que importaria feder e estar sujo se obtivesse a vitória? Fora aplaudido, fora ovacionado, era “O Candidato”.

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quinta-feira, setembro 23, 2010

É Primavera

Era uma manhã de setembro quando o velho Alincourt chegou diante do belo lago de minha cidade, estacou sobre um terreno baldio sito à margem direita, ergueu ao alto os dois braços com ambos os punhos cerrados e vibrou de modo indescritível.
No punho esquerdo o velho trouxe uma porção de terra em pó, poeira formada por noventa dias de estiagem. Ao abrir aquela mão, os vigorosos ventos de setembro levaram consigo a terra, que se desprendia e esvaía pelos ares, formando uma fina nuvem de poeira vermelha a andar no ar. O céu tornara-se vermelho, assim como a própria terra do lugar. Da mesma mão desprenderam-se folhas secas. Incontáveis folhas em tonalidades marrons, beges, amarelas. Um enorme urubu, atraído por um odor propagado pelo vento, passou a oferecer uma sombra circular sobre a cabeça do velho. Após a primeira ave, vieram outras da mesma espécie. Em pouco tempo eram seis, vinte e duas, trinta e cinco, cinqüenta e uma, mais de cento e três. Os ventos anunciaram uma carcaça canina em estado deplorável. Podre e inchada, a carcaça serviu de alimento para as aves, que disputavam tenazmente um naco da carniça vindoura. Curvadas a devorar os restos do animal, formavam uma imensa capa preta sobre o solo. Após despejar noventa dias de poeira sobre os ventos, o velho baixou a mão esquerda junto a sua coxa. Os urubus alçaram vôo, deixando a mostra apenas o esqueleto do animal.
Agora o velho tinha somente o punho direito erguido ao céu. Sentiu grandes gotas de chuva arrebentarem em sua face. Sua mão e seu braço tornaram-se trêmulos. Uma semente esforçava-se para germinar envolta em uma pequena porção de terra dentro do punho do velho. Mais gotas. Logo a mão do velho estava encharcada. Foi possível ver um pequeno broto superar o vão dos dedos indicador e médio de sua mão ossuda. Em seguida, longas raízes surgiram e se esforçaram para alcançar o solo agora úmido pela água da chuva, enquanto folhas rompiam pelos vãos de todos os dedos. Sorrindo, baixou-se e depositou a planta no solo. Esta sorvia voluptuosamente toda água que alcançava, e fincava na terra as suas raízes cada vez mais profundas e grossas. No ar agitavam-se suas folhas numerosas e verdejantes. Cresceu, cresceu, cresceu e logo desprendeu flores e mais flores amarelas. A chuva cessou. O sol brilhou novamente em tons de dourado. E o ipê amarelo apresentou-se majestoso diante dos olhos embevecidos do velho. Um sanhaço azul veio para contrastar com as flores da bela árvore. E o velho Alincourt, no instante seguinte, deitou-se sobre o manto de terra vermelha, forrado por flores amarelas, e com ambas as mãos espalmadas sobre o peito, suspirou, secou, petrificou, esfarelou, juntou-se ao solo e sucumbiu com a chegada daquela primavera.

*A primeira referência à cidade de Ituverava S.P, minha cidade, aparecida em obra impressa, é a de Luiz D’ Alincourt (nome que dei ao personagem do conto como singela homenagem), em sua “Memória”. Disse ele: “...existe agora uma capela sita em terreno desafogado, com mais de quinze moradas de casa, o que não havia em 1818; chamam a este lugar simplesmente Capela”. Esta referência eu encontrei no livro do Professor José Geraldo Evangelista (Crônica de Ituverava, espaço e tempo 1750 – 1950). Hoje Ituverava é uma pequena cidade com cerca de 40 mil habitantes, situada ao Nordeste do Estado de São Paulo.

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quinta-feira, setembro 16, 2010

O Quinto Sinal Vital

Hey Joe, o quinto sinal vital é a dor. Sim, Joe! Após a pressão nas paredes das tuas artérias, o pulsar do teu coração, o ar tragado e expelido por teus pulmões, e o calor da tua pele e do milieu intérieur¹, é a dor que vem provar que você está vivo, Joe. Melhor que morto, não? Quando isso fora proposto por cientistas, em uma mesa redonda, em algum lugar do mundo, eles estavam muito distantes dos campos de flores. Eles não pensaram em eleger algo como a alegria ou o amor para ser o quinto sinal vital, mas sim a dor. Por que será, Joe? Quando ninguém mais estiver te vendo, entre no teu quarto, feche a porta, deite em tua cama, puxe um cobertor por sobre a tua cabeça e chore, chore Joe. Chore tudo que não chorou desde que descobriu que tua mãe não poderia te proteger do mundo, Joe. Hey Joe, hoje abrace o teu irmão enquanto os teus braços são fortes o suficiente para o enlace vigoroso. Não espere o amanhã tardio. Plante mais esperança, Joe; pois em algum lugar do mundo os agricultores estão plantando papoulas² para mais tarde alimentar sigma, mu e kappa ³. Agradeça aos campos de papoula, Joe! Eles podem lhe proporcionar um momento de paz, quando no próximo recinto aguarda-o o feroz cão Cérbero, monstruoso e trifauce, sempre a latir, a vexá-lo, a mordê-lo*, contudo, hoje, Joe, hoje ainda há tempo para sorrir. Agradeça a Deus por isso, Joe. Agradeça. O quinto sinal vital é a dor. É a dor, e não a alegria ou o amor, Joe.

¹Expressão fixada pelo notável fisiologista francês do século XIX, Claude Bernard (fonte: Guyton & Hall; Tratado de Fisiologia Médica)²A papoula é uma flor da família das papaveraceae, cultivada, entre outras coisas, para extração de ópio, sendo este utilizado, também entre outras coisas, na produção de poderosos analgésicos, soníferos e sedativos, tais como a morfina e o fentanil. ³São receptores opióides encontrados nos neurônios de algumas zonas do sistema nervoso central e periférico.*Este cão fora capturado, retirado, transportado e adaptado das paginas da Divina Comédia de Dante Alighieri especialmente para ilustrar a face da dor descomunal.

quinta-feira, setembro 09, 2010

O Rei Dos Picaretas

Eis um pobre! Um picareta e mais nada. Em meio a tantos picaretas, mais um apenas. A verdade é dolorosa, eu sei. Porém, enquanto verdade, jamais deve ser desprezada ou omitida da luz dos fatos. Sei que é difícil o teu exercício de bajular para ser bajulado. Priva-te da critica. Assim perde o impulso para melhorar. É o preço que se paga. É um preço muito alto, eu concordo. Os da platéia idolatram os do palco, os do palco se julgam acima dos da platéia, os da platéia, por sua vez, imitam os do palco, olham para o lado e dizem: “veja, também sou admirável!” Ora, cale-se! Não vê que está atrapalhando o espetáculo? Há muitos notáveis para serem admirados, não roube a atenção que não lhe cabe. Entendeu?
Vá embora. Chore as tuas mazelas de luz apagada e porta fechada. Ninguém quer saber do teu pranto, além da tua casa! Encosta à beira do caminho junto de tua pedra maior, e ali vive à sombra da pedra até o seu último dia, na esperança que aquela lhe sirva de tampa para a sua cova rasa, logo coberta por erva daninha. Cova de gente comum. Cova de esquecimento [...]
Conforme-se, jamais fez nem fará um poema que contenha uma verdade nova. Jamais contará uma história que lhe arranque da multidão e lhe lance ao topo do Olimpo, diante milhares de olhos incrédulos de sua ascensão. No Olimpo tudo é belo, tudo é aplauso, e até as críticas lhe tornam mais nítido aos olhos mortais. Não é pra você. O teu tempo é esse, cara. Chega de babar Machado. Ele está morto e enterrado faz século. Chega de olhar para o passado e dizer com autoridade que bons foram os clássicos. Cale a boca! Dane-se você e os clássicos. Eles um dia foram nada como tu. Um dia eles foram escória, párias, pobres, funcionários públicos de baixo escalão, epiléticos, tímidos e atarracados, boêmios, desajustados [...]

Mas... Ei! Nisso há uma verdade que vem bem ao caso! Pense comigo, amigo: “Nem tudo está perdido; houve rei que já foi mendigo, escravo, cativo, metalúrgico.” Sabe, entre os picaretas que tenho visto você é o mais simpático. Quem sabe com o tempo não lhe elejam para algo. Rei dos Picaretas quem sabe! Será um rei. Possuirá muitos súditos. Podem querer imitar-lhe. Já pensou nisso? Podem passar a rir de tuas piadas ainda que sem graça. Podem lhe dar dinheiro ainda que não peça. Podem lhe render muitas homenagens. Podem lhe convidar a todos os lugares, lhe entregar um molho de chaves contendo a chave de centenas de cidades. Você pode se tornar um imortal. Sabia? O Rei dos Picaretas! Um notável! Um memorável! O meu amigo um rei!
Siga em frente, amigo. Desculpe se fui indelicado com você ainda há pouco. Não quis magoá-lo. Espero que considere mais nossos momentos de amizade que este desaforo despropositado que lhe fiz sem maldade, num momento de raiva. Espero que se recorde das vezes que lhe elogiei quando você ainda era nada, apenas mais um picareta em meio à picaretada. E quando tornar-se o grande Rei dos Picaretas, não te esqueças deste pobre amigo que tanto apreciou tua obra, tanto lhe apoio, tanto lhe incentivou, tanto lhe prestigiou quando ainda eras um nada.

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quinta-feira, setembro 02, 2010

Marcelo Rubens Paiva

No dia em que conheci Marcelo Rubens Paiva, ou melhor; no dia em que ouvi pela primeira vez falar sobre o escritor Marcelo Rubens Paiva, foi na pergunta do amigo Cazú: _Você conhece Feliz Ano Velho, o livro? Eu disse que não conhecia. Então ele bateu a mão na testa e disse: _Cara, como é que você, que faz Fisioterapia, não conhece esse livro? O livro é muito bom! Conta a história de um cara que deu um mergulho e ficou tetraplégico. Virou até filme. Não é possível, Jefh?
Pensei: “Bem, depois dessa só lendo o livro mesmo”. E eu li. Peguei na biblioteca da facu, em Batatais; comecei a leitura e só parei quando terminei. Li o livro inteiro num só fôlego. Isso foi em 93. O livro foi publicado originalmente em 82. Em 83, Marcelo ganharia o prêmio Jabuti como autor revelação. No livro o autor conta como um mergulho em água rasa mudou tragicamente a sua vida, lhe tornando cadeirante. Em 2009, estava eu em Ribeirão Preto, dentro do Theatro Pedro II, aguardando o “bate papo” - modo como os escritores gostam que chamem as suas entrevistas com um mediador e abertura ao público - com Marcelo Rubens Paiva, quando, por obra do destino, fui acometido por uma súbita vontade de urinar. Fui. Surpresa! Ao pisar no corredor que dava para o banheiro lateral ao salão do teatro dou de cara com ninguém menos que o escritor Marcelo Rubens Paiva. Era a segunda vez que eu o conhecia; se considerarmos que se conhece alguém a partir da leitura de seu livro autobiográfico.
Agora imagine: Eu, que só conhecia o autor através de sua fama e livro, me deparo com o cara no corredor, e ainda com dificuldades para ter acesso ao palco do teatro, pois a porta do elevador não era larga o suficiente para a passagem de sua cadeira. Fui até o cara, havia muita gente próxima dele, pessoas da organização do evento, gatinhas assessoras, fãs, mas eu não me intimidei; fui direto: _Marcelo, eu sou Jeferson, eu quero lhe ajudar com essa cadeira. Posso? Acho que ele achou meio esquisito. Eu também acharia. Mas ele disse que sim. E aguardou até que solucionasse o caso, eu também aguardei. Encontraram outra passagem de acesso. Ele foi de forma tranqüila ao palco. Acreditem.
O bate papo transcorreu bem. Ele falou de tudo um pouco. Do livro Feliz Ano Velho, da condição de cadeirante, de outros livros, da vida, de Machado de Assis, dos escritores do leste europeu...
Quando terminou o bate papo, eu fui até ele. Fiz fotos. Falei com o cara. Disse que eu era fisioterapeuta como um dos personagens do livro Feliz Ano Velho, porém, diferente, mais tranquilo. Ganhei um autografo no livro que havia acabado de comprar (A Segunda Vez Que Te Conheci). Ele colocou na dedicatória: Ao Fisio Jeferson, grande abraço: Marcelo. Ofereci-lhe alguns textos de minha autoria, ele aceitou. Ficou de retornar, não retornou. [sorrio]

Obs. Clicando no selo do Top Blog, logo abaixo do meu perfil, e preenchendo os campos nome/email, você contribui para que este blog concorra ao Prêmio Top Blog 2010. E eu lhe agradeço grandemente.ObsII. Estou agora, no twitter. Tenho tentado falar com o Marcelo Rubens Paiva. Trata-se do projeto "Será Que O Cara Responde?" Se quiser falar comigo lá é @Jefhcardoso74.

quinta-feira, agosto 26, 2010

A Dominação

Certa vez um homem pequeno recebeu em seu lar um homem de grande porte que teria ido ali para realizar alguns reparos urgentes e inadiáveis na rede elétrica. Recebeu-o pessoalmente à porta de sua residência. Era próxima a hora do almoço. O homem de pouca estatura ali estava excepcionalmente naquele horário e exclusivamente para receber o técnico eletricista.O técnico era um sujeito robusto, muito alto, falante aos brados, possuía um modo expansivo de comunicar-se, ao passo que o dono da casa era um sujeito franzino, baixo, acanhado, muito miúdo, que possuía uma fala discreta, econômica em palavras e expressões, e de volume baixo. Imediatamente ocorreu o inevitável choque de estilos. O homem grande ficou muito à vontade diante o homem pequeno, que, sendo muito retraído, não poderia variar de forma perceptível o seu grau de inibição. Era muito tímido e pronto. O pequeno homem, possivelmente contra gosto, conduziu o grande homem para dentro de seu lar. Passaram por uma passarela ornada de cada lado por longas fileiras de bonsais. O grande homem atravessou o alpendre ouvindo o ladrar de um cão oculto, deixou para trás um receoso olhar de canto de olho na direção do latido. O problema da instalação elétrica apresentou-se justamente dentro das câmaras mais restritas do lar. O chuveiro a ser reparado era o da suíte do casal, e o bocal de luz a ser trocado era justamente o da luz que pendia sobre a cama dos cônjuges. Ao adentrar a sala de visitas era possível avistar os adolescentes filhos do casal, que timidamente retribuíram o sonoro bom dia do grande homem.Mais adiante, ao atravessar outra ante-sala, era possível avistar a pequena mulher que corria com os últimos preparativos para o almoço. Aquela era a esposa do pequeno homem. Ela também fora cumprimentada sonoramente pelo grande homem e respondera de modo tão tímido como permitia o padrão de comunicação vigente na casa. Porém, antes de dirigir a palavra ao “intruso”, ela furtivamente conferiu o olhar inspetor do marido, e somente depois desta ação foi que retribuiu ao cumprimento.O grande homem, ao adentrar o quarto, ia observando tudo com olhos grandes e indiscretos, cheios de deliberada curiosidade. Foi possível ao grande homem perceber que eram dois os Kinguios no aquário sobre a cômoda e ainda avistar uma ponta do espelho que teimava em aparecer por de trás das inúmeras almofadas, propositalmente depositadas para ocultá-lo na cabeceira da cama do casal. Os acessórios do banheiro igualmente atraíram o olhar curioso do grande homem. Realizados os reparos, o pequeno homem, que não se afastara por minuto algum do técnico eletricista, o conduziu pelo caminho de retorno até o alpendre. Imediatamente ao pisar no alpendre eis que surge o emissor dos latidos ocultos. Rapidamente o cão partiu para cima do intruso e neste momento o pequeno homem sorriu, riu e gargalhou enquanto dizia para o interior da casa: _Ele está assustado! Ele está com medo, né! O cão não era pequeno. Não estava enquadrado dentro dos padrões de porte da casa. “Bom cachorrinho!” Deve ter pensado o pequeno homem ao ver seu Akita com ares de fera investir intimidando o “intruso”. Descobriu o ponto fraco do grande homem, que teve por reação apenas encolher-se covardemente diante da ameaçadora criatura peluda. Era como se o cão tivesse farejado a fraqueza daquele Golias. O pequeno homem ria e não bronqueava com os filhos, que pareciam ser propositalmente incompetentes na tarefa de conter o animal. Os filhos participavam do regozijo do pai, e riam tanto quanto ou mais. A mulher, recostada na porta que dava para o alpendre, também ria de modo mais discreto da situação. Aquele parecia um espetáculo ao qual a família já estivesse acostumada. Os meninos contiveram o animal. Contudo não o recolheram. Apenas o seguravam por sobre as escápulas enquanto o afagavam no pescoço e palpavam afetuosamente as suas orelhas. Ali mesmo o pequeno homem pediu a conta pelo serviço e, sobre o olhar ameaçador do cão o grande homem tomou e colocou seu pagamento no bolso. Ainda houve duas ocasiões para que os meninos deixassem “acidentalmente” o cão escapar e ir para cima do grande homem. Foi rindo muito que o pequeno homem fechou o portão e despediu-se do técnico eletricista enquanto repetia para o interior da casa: _Ele tem medo, né. Ele tem medo de cachorro, né.
*
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quinta-feira, agosto 19, 2010

Aldruvandus Tem Um Blog & Um Fuscão

Aldruvandus fez um ótimo passeio com sua família em Franca, naquele domingo Dia dos Pais. Voltando para sua cidade, Guará, lamentava apenas o fato de não ter feito fotos para o blog – para quem não sabe: blogs causam dependência - no entanto, histórias e impressões certamente haveria para compor uma agradável postagem sobre aquela data feliz. O por do sol era mesmo digno de registro. A paisagem ressecada contribuía com as cores e tonalidades do inverno rigorosamente seco daquele ano, algo muito diferente do verdejar ao qual estavam tão acostumadas durante o resto do ano as pessoas que viviam ali, na região Nordeste do Estado de São Paulo. Ele havia percorrido alguns quilômetros do caminho de volta para casa, admirando a paisagem ressequida, quando avistou alguns pequenos focos de incêndio. Pediu imediatamente a câmera para sua esposa. Reduziu a velocidade do veículo e estacionou no acostamento. Era aquela a oportunidade ideal para captar algumas imagens para certo conto que aguardava em um fundo de gaveta por sua conclusão.
Ao todo somavam três os focos de incêndio. O homem desceu do carro sob o olhar conformado e sem espanto da família – as famílias aprendem que estas coisas não têm mesmo jeito – atravessou a pista, certificou-se que a distância seria segura, enquadrou, clicou e conferiu o resultado. Não se agradou. Da estrada a visão era mais grandiosa, chamativa. Ali, junto à beira do barranco, o incêndio fora reduzido a três fogueirazinhas de nada. Aldruvandus deu mais alguns passos em direção as chamas. Tinha esperança de conseguir melhor imagem. Clicou novamente, porém o resultado não foi melhor que o anterior. Desistiu. Aceitou que ali não haveria como produzir uma foto com as dimensões catastróficas que desejava conferir ao seu conto inacabado “O Cobrador”. Até aí tudo bem. Quase nada demais. Contudo, se o caso fosse roteiro de filme americano, esse seria o exato momento para começar aquela trilha sonora tensa, nervosa, agitada conforme aquela indústria cinematográfica tanto gosta, produz e jamais enjoa.
O elemento surpresa nada mais foi senão um sujeito, saído por de trás da tímida nuvem de fumaça, a gritar na direção de Aldruvandus, que, caminhando lentamente de volta para o carro, examinava decepcionado as duas imagens captadas por sua câmera digital amadora. O homem acenava agitado e gritava histericamente: _Ehii! Ehii! Ehii! Onde é que você vai com essa câmera? Pode parar aí! Não vai levar fotos da minha propriedade não ô! E apressado o sujeito transpassou a cerca que separava a propriedade do acostamento para a pista em um só movimento. O blogueiro continuou andando à passo lento, como se não fossem endereçados à ele os gritos. Pensou rápido: “Problema. Esse cara não vai acreditar que são apenas inocentes fotos para um conto em um blog amador. Corro para o carro e saio em disparada, ou fico e espero para ver o que acontece?” Era possível que houvesse tempo para uma fuga de Aldruvandus e sua família. Teriam que partir em disparada, mas o sujeito poderia estar armado e alvejar o carro, e a família do blogueiro estaria sob risco - meu Deus! Quão calmo é esse blogueiro! Chega a ser irritante sua calma.Aldruvandus ponderou que o objeto captado não merecia tamanha cena e risco. Afinal eram fotos bem fracas, portanto indignas do trabalho da construção de seu conto. Quanto ao proprietário suposto incendiário, este exibia a energia e o desespero propício para as batalhas mais irracionais. O blogueiro já havia presenciado pessoas lutando pela própria vida e, poderia afirmar, não era diferente o desespero daquele sujeito. Para ele uma eventual multa seria algo assombroso - multas podem mesmo causar reações exacerbadas em qualquer pessoa. O suposto incendiário aproximou-se. Era visível o seu descontrole. Tinha o olhar vidrado, a boca salivante, as mãos agitadas. Imperativo determinou à Aldruvandus: _Você vai deletar essas fotos agora! Ao ouvir a palavra deletar Aldruvandus sentiu percorrer-lhe o corpo uma sensação de grande alívio. Intuiu imediatamente que seria possível estabelecer um dialogou cordial, uma vez que o sujeito apresentara o mínimo traço de civilidade. Então o blogueiro disse calmamente: _Acalme-se, acalme-se, amigo. Não farei nada com essas fotos. São apenas para o meu blog, escrevo contos, histórias, nada jornalístico, fique calmo, amigo. Mas o homem não queria conversa, não queria ouvir explicação alguma, insistiu tenazmente em seu propósito de ver deletadas as tais fotos. O blogueiro de modo algum se opôs. Disse que o faria sem problemas. Naquele momento temia que o sujeito descontrolado tentasse apanhar a câmera, nela estavam fotos lindas de outros passeios, além de se tratar de um objeto de alta estima familiar - Aldruvandus era da geração analógica. Imaginem o que significava a sua primeira câmera digital. Bem, o proprietário supostamente incendiário era mesmo civilizado, só estava em um momento atribulado de grande turvação mental. Acompanhou atento toda a operação de eliminação das fotos. Pediu para ver as outras imagens imediatas anteriores e posteriores. Tudo conforme, ficou um pouco mais calmo. O sujeito entendia de câmeras digitais domésticas. Era o proprietário do local. Fazendeiro, certamente dispunha de uma câmera mais sofisticada que o modesto modelo de Aldruvandus. Ainda nervoso, porém mais contido, o fazendeiro deu sinais de constrangimento mediante a calma do blogueiro, que engatou uma explicação do uso que faria daquelas fotos, caso as tivesse levado. O fazendeiro por sua vez começou a explicar das razões do incêndio fotografado pelo blogueiro. Parecia ainda temer ser incriminado de algum modo. Então, Aldruvandus fez o que achou ser o mais correto. Perguntou se o homem tinha uma caneta. O fazendeiro ficou um tanto perplexo com a pergunta que lhe pareceu despropositada. Disse que não tinha uma caneta. Aldruvandus caminhou até o carro, abriu a porta e pediu caneta e papel a sua esposa, que o olhava levemente apreensiva. Em posse dos objetos, Aldruvandus caminhou até a traseira do carro e, apoiado sobre a tampa do porta malas, fez uma anotação no papel, em seguida estendeu ao fazendeiro que o observava com curiosidade: _Tome. Quando tiver um tempo vá e dê uma olhada. Aí está o endereço do meu blog. Verá que não há motivo para que fique preocupado. O sujeito apanhou o papel, guardou-o no bolso, explicou mais um pouco. Ainda não estava totalmente calmo, mas agora era visível que estava desconcertado. Não pediu desculpas – e analisando o relato supracitado é possível notar que não havia mesmo clima para tal. Por fim, o fazendeiro defendeu uma imagem de sua propriedade - Eu pergunto: defendeu o direito de imagem?
Aldruvandus não se sentiu lesado em absolutamente nada. Criou uma situação delicada, desvencilhou-se da mesma sem maiores danos ou traumas. Em seu íntimo, sabia que melhor que aquelas fotos fracas seria o texto da postagem ocasionada - Quem tem blog sabe, o blog muda as coisas, cria situações inusitadas.

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ObsIII. Mudei o título da postagem no segundo dia. Eu estava indeciso entre este de agora e o original. A postagem é longa, o nome não convidava e o fuscão foi só uma jogada de marketing [sorrio].

quinta-feira, agosto 12, 2010

O Amor É O Dom Supremo

Sobre o amor, de tudo que se diga, ainda resta tudo a aprender. Muitas pessoas compartilharam suas experiências, expuseram seu ponto de vista, falaram livremente e com “paixão” sobre o tema. (sorrio). Foi lindo! Sinto-me como se “Monte Castelo” da Legião Urbana estivesse dentro de mim agora. Tirei algumas conclusões até, mas a que mais me impele a falar é a que distingue amor e paixão. Estar apaixonado definitivamente não significa estar amando. São coisas que podem caminhar juntas sim, contudo são entidades distintas. Estar apaixonado não é bom, é ótimo, maravilhoso. Mas o amor é o dom supremo. E agora eu deixo de falar do amor entre casais, do qual tanto falei, e *passo a mostrar-vos um caminho sobremodo excelente. Misturo gotas de minhas palavras ao rio que transbordou de Paulo: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o metal que bate e retine. E nada que eu faça se aproveitará de fato. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência do mundo; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso terá valor verdadeiro. O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não é orgulhoso e não humilha ninguém, não se conduz inconvenientemente, não é egoísta, não se revolta, não deseja mal. Não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos, mas quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte... ah! será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino. Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor. E tudo que eu possa dizer sobre o amor, nada é comparável a este texto que Paulo escreveu à igreja de Corinto. Usei esta carta, pois não houve uma única vez que eu a lesse e não me sentisse tocado. I Coríntios 13 é isso, meus amigos; é o amor supremo. A partir do asterisco começo a expor o texto do apóstolo Paulo, permeado por pequenas adaptações que tomei a liberdade de fazer como modo de tecer a minha composição do texto. Espero que não se desagrade o leitor.

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quinta-feira, agosto 05, 2010

Os Namorados

Direi sobre o que vi e não inventarei nada. São quatorze anos dessa minha jornada como fisioterapeuta. Aprendo muito com todos. A minha profissão oferece isso. Você entra nas casas das pessoas, toma café em suas xícaras, água em seus copos, aplica as técnicas físicas, e ouve os seus desabafos.
A doença do homem era grave, muito grave. Era um casal tão bonito aquele! Ele um jovem senhor, ela uma jovem senhora. Filhos em idade pré-universitária, fortes, belos e saudáveis. Ele sempre trabalhou com afinco para oferecer os tais confortos de classe média à sua família. Ela sempre o apoiou e deu suporte para que ele pudesse trabalhar sem preocupar-se com as coisas dos meninos, da casa... Um dia uma dor. Outro dia a mesma dor. Um dia uma consulta, uma batelada de exames, um suspense mórbido que pairava no ar. Dias seguintes, um encaminhamento para um centro especializado em oncologia. Oh, que palavra triste essa! Nada mais seria como fora até então.
Vejamos agora o amor de verdade dar mais um passo para além das delícias da alcova, onde este já habitava, porém sem ser provado, testado. O jovem casal cultuava o vigor de outros dias e orgulhavam-se da beleza física que resistia ao tempo, nas coxas rijas, por academia, da jovem senhora, no manequim esbelto do jovem senhor, que vivia às voltas com os cuidados da alimentação, longas caminhadas e alongamentos. Tinham ciúmes um do outro. Ainda brigavam por questões do namoro que haviam iniciado vinte anos atrás, e até por questiúnculas que surgissem naqueles dias atuais, mesmo quando dentro do hospital. A coisa foi mudando de tanto em tanto; -e quando as coisas tomam este rumo inesperado aí é que vem a tal hora de provar se se ama de verdade ou apenas de aparência. Não que estas coisas não possam coexistir, reafirmo e deixo claro que sei que elas muitas vezes coexistem harmoniosamente, mas é que nem sempre elas estão presentes na proporção do amor de verdade, e é aí que mora a confusão do desejo físico para com o amor da alma. Coisas distintas. Verdade irrefutável.
O homem gritava de dor. O tumor era inoperável. De dia e de noite um monstruoso sofrimento intermitente arrastava aqueles dois a beira do precipício da insanidade. Ninguém dormia, a esperança murchava, o estresse se agigantava, e não havia como fazer o tal amor penetrante. Mas era justamente aí que eles praticavam o verdadeiro amor penetrante perfuro cortante do espírito, da alma. Na cama estreita de hospital, por mais de uma vez, eu os surpreendi com a bela senhora empoleirada ao lado de seu guerreiro gravemente ferido. Ela chorava quando não estavam próximos. Jamais chorava diante dele. Ele falava dela quando ela não estava presente. O nome dela era o que mais se ouvia na boca dele, tudo era motivo para pronunciá-lo, parecia trecho de uma das mais belas canções já cantadas. Um dia presenciei uma briga inusitada. O homem estava confinado ao leito por sua moléstia grave, mas estava, mesmo assim, furioso. Teve um desentendimento o casal. Ele a fez chorar. Era coisa de ciúmes, de vontade frustrada de serem novamente namorados amantes. Foi o que deu para captar no ar. Mas para o homem a coisa era seriíssima, mais séria que a própria doença; podem acreditar. Ele disse: _Chame Fulano, chame Cicrano, eu e ela vamos nos se-pa-rar. O homem falou tão serio que os anciãos da família, aflitos, já imaginavam o juiz de paz entrando ali no quarto do hospital para tentar conciliar o casal, e imaginavam também os advogados das partes em longas reuniões na sala de espera do hospital. Ficaram uns dois ou três dias naquela guerra encarniçada. Mas fizeram as pazes; sem namoro, sem umidade ou ereções fizeram as pazes. Foram felizes na alegria, e infelizes na dor, unidos na saúde e na doença, e relativamente separados pela "senhora" quando chegou o momento. Amor de verdade é mais que um culto às carnes, aos fluidos, a libido, aos desejos. Os românticos que me perdoem se fui ácido. Eu avisei na postagem anterior que poderia acontecer de eu ser. Mas só posso falar do que vejo. E é nessas horas de ferro e fogo que se prova se se possui um amor de verdade pelo outro. Paixão é muito bom, mas não é amor.

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ObsIII.Amigos, a Dóris nos enviou nos comentários um relato muito lindo que muito me emocionou. Indico que leiam todos os comentários, mas em especial este que a Dóris muito atenciosamente postou aqui. Abraço! Obrigado Dóris!

quinta-feira, julho 29, 2010

O Amor Eterno Dos Namorados

Cara leitora (o), não quero ser ácido, corrosivo, para com esse amor que os apaixonados o cantam associado a tudo que há de colorido, alegre, belo e feliz. Porém, advirto: Posso o ser.
Não é que eu pretenda falar de um amor infeliz, frustrado. Não, não, não. Nada disso. Muito pelo contrário. Tampouco venho falar do amor retratado em Coríntios 13, o amor universal, o amor da caridade, o dom supremo. Quero falar é do amor dos namorados mesmo. Contudo, pretendo falar de um amor cheio de verdade, mas de verdade mesmo, e não apenas um culto à libido, às ambições do corpo, aos sonhos de eterna e continua “fornicação”(sorrio), pois é tão comum confundirmos os termos e as coisas relacionadas ao amor.
Quando vejo pessoas de mil a milhões falando de amor é quase sempre de modo fantasioso que se manifestam. Falam da figura que imaginam que o outro seja (pobre do outro!); e haja sacrifício para enquadrar-se na demanda de atributos que fantasiam os tais “românticos” da vez!
Como bem lembrou Rubem Alves em sua crônica Paixão e literatura: “A doce condição de apaixonado tende a lambuzar as palavras com o seu melado...”
Amor de verdade, amor que se consolida, que se eterniza, se faz conhecer quando as delícias do sexo são inviáveis, quando a beleza está ausente em sua forma plástica, quando os corpos já não se apresentam atraentes e apetitosos como em outras épocas. Amor de verdade mesmo não é à primeira vista que acontece, pois à primeira vista, no máximo, o que ocorre, é o desejo instantâneo e desenfreado, é a abertura da porta por onde “pode” acontecer de adentrar o amor imperecível, mas até que se prove à ferro e fogo, é paixão, e isso não é pouco.
Ao que chamam de amor à torto e à direito vejo os desejos das fantasias; dos quais não estou livre, e nenhum amante está. Mas o amor de verdade se conhece é na podridão da ferida, no odor fétido que sobe da boca amargurada, no cérebro atrofiado que já não mais produz jóias da inteligência e do humor, mas sim delírios da morfina, vácuos da demência senil, ausências do Alzheimer...
Amor de verdade, amor que não se mede, não está presente no simples ato de ir buscar prazer com quem se possa tê-lo em abundância, mas sim no ato de ir dar apoio a quem sofre uma dor profunda e inevitável, quando o seu próprio peito esta doendo por esta pessoa; e note, e não perca de vista: refiro-me ao amor de namorados, de pessoa para pessoa, é deste que falo.
Quereria contar uma história rápida. É sobre um casal. A história é real. Mas sei que ninguém tem tempo para longas postagens. Sendo assim me limitarei a dizer o que já disse até aqui, mas retornarei em breve com a história que dará continuidade a esta postagem. Trata-se de uma linda história de amor, da natureza do amor do qual falo hoje. Até a próxima postagem!

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