Amigos

segunda-feira, dezembro 28, 2009

A História de Nós Dois



Final de 2008; minha irmã passava dias em Ituverava e estava em minha casa. Havia algum tempo que eu publicava textos nos jornais locais, então ela me sugeriu a criação de um blog como uma ferramenta para fazer circular meus textos. Eu disse: Mas como?

Precisei que ela me orientasse passo a passo para criar a tal pagina; ela, pacientemente, me orientou e assim, exatamente no primeiro dia de 2009, nascia o Jefhcardoso.blogspot.com.

Em principio apenas postei os textos que havia publicado nos jornais e revista de minha cidade, sem foto ilustrativa. No jornal eu passei a publicar ao rodapé dos textos o endereço do blog. Vieram os comentários dos amigos que eu convidava presencialmente para que fizessem visitas ao blog; até então o Jefhcardoso era estritamente caseiro, ou seja, frequentado apenas pelas pessoas de meu convívio pessoal.

O tempo foi passando e as idéias se proliferando feito bactérias em superficie contaminada.

Escrevi regularmente e decidi realizar um projeto que em princípio visava divulgar meus textos através do contato com um blog de grande influência na internet. O blog escolhido foi o de meu conterrâneo, mas não contemporâneo, nem tampouco conhecido pessoal, Marcelo Tas; criei a série Cartas a Tás, alusiva ao livro de Vincent Van Gogh, Cartas a Theo, no qual o pintor se corresponde com seu estimado irmão Theo. Cartas a Tás transcorreu na maior parte do tempo em tom humorístico e teve duração do período de 20 de maio até 22 de outubro de 2009; e foi durante este período que por orientação de um amigo passei a trabalhar com fotos, na maioria realizadas por minha própria câmera, e também instalei a ferramenta que permite veicular anúncios e acompanhar as visualizações do blog, o Google Adsense, à partir do dia 08 de junho.

Após este trabalhoso projeto descansei criando a série, Preto & Branco, onde digitalizei um álbum de minha mais tenra infância e usei as fotos para ilustrar minhas postagens do período de 28 de outubro a 19 de novembro.

Trabalhei também na postagem de contos que havia publicado nos jornais e com algumas crônicas inspiradas em fatos noticiados diariamente.

Atualmente estou empenhado no projeto Um Milhão de Amigos/Jefhcardoso>>de blog em blog.

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Agradeço a todas pessoas que têm prestigiado este espaço de minhas idéias com suas prestimosas visitas, comentários, incentivos e sujestões.

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Abraço, feliz 2010 e até!

Jefhcardoso.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Eu Acredito Em Papai Noel (Feliz Natal!)



Que seja feliz o Natal!

Há quem fique triste por sentir saudade de quem já não participe à mesa,

Eu sei;

Mas há quem fique feliz por estarem todos à mesma mesa;

Existem os que praguejam contra os símbolos natalinos,

Estes possuem suas próprias razões para guardar suas mágoas,

Mas a mágoa, ainda que grande, é sentimento pequeno

Alguns discursam em pró dos que têm fome,

E há muitos com fome;

Eu sei

E para solidão a oração ao Menino Jesus é sempre grande conforto;

Acredite e deixe-o nascer.

O mundo é mesmo um tumulto de estados de ser e condições de estar,

Sempre foi assim,

Sempre será.

Porém, viver e sonhar são algo muito pessoal.

Abrace o seu neste Natal,

E que este abraço seja prolongado pelo tempo necessário...

Ame este alguém que está hoje envolto em seus braços,

Diga da importância que possui em seus dias,

Isso é algo mais que símbolos e ceia,

É alimento para esta vida passageira;

É a eira e a beira deste viver;

É ser, e deixar sentirem você.

E Papai Noel existe;

Isso eu sei;

Não afirmaria com tanta certeza se não o conhecesse.

Obs. O editor deste blog encontra-se de férias desde o dia 18.12. Devido a dificuldades de acesso à internet este blog retomará suas atividades logo mais; inclusive com a postagem do próximo capitulo de O Cobrador.

Boas festas para todos e continuem comigo!

Abraço: Jefhcardoso.

domingo, dezembro 20, 2009

Jefhcardoso>>de blog em blog (20.12.2009)


Quem quiser saber no futuro de como foram estes anos que vivemos hoje, terá que ler os blogs dos anônimos (estou rindo agora). Nada contra os blogs dos famosos, porém, estes escrevem dentro dos moldes em que se espera que eles escrevam; a fama certamente lhes tolheu a liberdade na qual nós, anônimos, vivemos.

Detalhes de nossos tempos estão sendo escritos em uma escala jamais imaginada; mais que imagens fotográficas ou filmagens, textos são produzidos aos milhares.

As pessoas dizem: _Hoje estou triste... Ou: _Estou muito feliz... Ou ainda: _Acho isso daquilo, e aquilo daquele...E também: _O vestibular está me enlouquecendo...E: _Eu acredito em...Ou: _Eu não acredito...Dizem também: _Te amo mãe! E também dizem: _Te odeio, fulano, por... Há quem divulgue seus gostos culturais, suas críticas sociais, seu talento, sua arte, sua humanidade, seus medos, seus anceios...
Nunca o ser humano se expôs tanto em toda jovem história da humanidade. São milhares de pessoas pensando e registrando seus pensamentos para quem quiser ver.
Um exemplo de algo agradabilíssimo de ler foi uma carta pessoal que encontrei no (
http://diarioflutuante.blogspot.com/; postagem de 15.12.09), de autoria do jovem que se define por sonhador natural, Thiago Klein, em que escreve uma carta extremamente sensível dedicada a certa musa de sua vida. Outro exemplo de algo que vale grandemente a leitura é o texto em que a Lígia Laginha Loulé (http://trocandoalmas.blogspot.com/; postagem de 27.11.09) faz uma exposição biográfica de Bocage, com direito a poema do mesmo na introdução do texto.

O processo é o mais amplo e variado possível. Por exemplo: ocorre um fato de grande repercussão na mídia, os escritores caseiros (blogueiros) se informam, assimilam, escrevem e aguardam por comentários.
Há postagens sem qualquer comentário, às vezes são varias postagens a fio sem uma resposta sequer, como muitas das minhas, por exemplo, (sorrio); outras recebem apenas um comentário - e são tão legais os comentários - vêem cheios de zelo para mostrar que entenderam o escrito, que gostaram da escrita da pessoa, que gostam da pessoa; isso é fascinante!

É isso. Firmo ser verdadeiro o supracitado e quem visitar os links verá que vale a pena.
Abraço: Jefhcardoso>>de blog em blog.

(Foto de Bocage e fora encontrado no http://catedral.weblog.com.pt)

sábado, dezembro 19, 2009

Mas Será o Benedicto?

Mas será o Benedicto erudito?
Burocrático como um grande formulário;
Chato como a bula do remédio;
Entediante como a fila em que se paga as contas.
Será?
Mas será o Benedicto orgulhoso?
Um tanto balzaquiano e machadiano, sim.
Apreciador de Mozart,
Saraus e piano.
Será?
Mas será o Benedicto fleumático?
Elegante como defunto no velório;
Frio como morto;
Rígido como o próprio rigor mortis.
Será?
Mas será o Benedicto sábio?
Sabedor da sabedoria do ignaro,
Ignaro do saber do tolo;
Mestre dos mestres dos sábios.
Será?
Mas será o Beneditco douto?
Conhecedor de toda língua que se fale;
Sabedor dos fusos horários;
Culto sobre países altos e baixos.
Será?
Será o Benedicto gênio?
Conhecedor da história de todos os tempos;
Palestrante sobre os homens de cerâmica,
Da olaria mesopotâmica.
Mãs... será?

sexta-feira, dezembro 18, 2009

O Cobrador - Parte VIII



Já era noite quando os religiosos foram acolhidos à porta do hospital por Dr. João Jivago e pela enfermeira, Adelaide da Piedade, mais a equipe de enfermagem.
Imediatamente a chefe de enfermagem os conduziu ao quarto da enfermaria destinado aos “contaminados” pelo forasteiro.
Gementes e delirantes, nos corredores nada que diziam fazia algum sentido, mas quem perambulava por ali e ouvia os balbucios dos moribundos religiosos jurava ter ouvido coisas horripilantes.
Foram introduzidos no quarto que já estava lotado; ali dividiram espaço com cabo Antão e sua tropa, que já se encontravam internados, e além destes contaram com a companhia do também “enfermo”, delegado aposentado, Dr. Florisvaldo Bonaparte, cujo qual, na ocasião da entrada do “mendigo” na cidade, havia travado um breve contato com o forasteiro; tendo se aproximado e dito que seu município não era um bom lugar para vadiagem, ao que o “mendigo” teria permanecido calado e indiferente.
Logo após esta passagem curiosamente o delegado começou a apresentar fortes dores abdominais, ao que, a bem da verdade, já era habituado, pois tinha constipações intestinais que duravam às vezes uma semana, mas naquela ocasião a constipação veio acompanhada por febre, náuseas e uma flatulência de odor insuportável; algo semelhante ao cheiro exalado pelo forasteiro fétido.
E fora por este motivo que o ex-delegado fora internado. Logo estava melhor. Os médicos insistiram para que Dr. Bonaparte aceitasse a alta, mas o homem se recusava, argumentava que estava mais seguro no hospital, pois temia uma recaída, ao que achava que poderia ser fatal. Assim o homem ia ficando e se irritava grandemente se os médicos insinuavam ser mais que tempo para alta; estes, cautelosos, evitavam o embate.

Cabo Antão é que não estava nada bem. Catatônico, permanecia imóvel; não falava uma palavra, não emitia qualquer som que fosse; ardia em febre, mas sequer gemia.
Dr. Ernesto Guerra e Dr. João Jivago vinham muito atenciosos, se revezavam nas visitas e cuidados com os doentes. Examinavam a todos, tomavam notas, levavam informações a quem buscasse saber, evoluíam suas condutas; mas ao chegar ao cabo Antão faziam ares de lamentação, não dispunham de muitos recursos para aquele caso, então saiam silenciosos, cabisbaixos.
Porém, mesmo nestas ocasiões após visitarem o cabo Antão, antes de deixarem o quarto, a cada visita que realizavam eram obrigados a prestar um relatório completo, minucioso ao inquiridor delegado.
O homem, a despeito de sua avançada idade, pouca estatura, físico delgado, era realmente enérgico. Mesmo durante a enfermidade interrogava a cada pessoa que ali entrasse, fosse o doente colega de quarto, médico, funcionário ou visitante; para ele, todo civil lhe era seu subordinado. Além de interrogar não se acanhava, apesar da bata cedida pelo hospital, a qual expunha as nádegas de quem a trajava, em dar ordens; dizia que fazia aquele exercício para não perder o hábito, e que era a sua maneira de contribuir para manter a ordem do local.
Logo que os religiosos chegaram ao quarto o delegado saltou do leito e indicou as camas em que os homens de Deus deveriam ser colocados. Os auxiliares de enfermagem fizeram cara de desagrado, porém acabaram acatando mais aquela ordem.
Delegado Bonaparte frustrou-se grandemente ao ver que os religiosos não apresentavam condições de atender aos “interrogatórios”. Perguntou o que pôde aos auxiliares, porém estes já haviam sido orientados pelos médicos a não dar muita trela à autoridade, pois tinham muitas tarefas de primeira ordem para lhes tomar o tempo por demais escasso e o delegado inquiria demais. Sem dúvida que o delegado ficara desgostoso, e muito, ao não obter informações sobre o caso, tratava então de ocupar-se dos outros enfermos.

Por diversas vezes naquela noite o delegado dava ordens aos soldados para que verificassem qual era o estado de consciência dos religiosos, a fim de interrogá-los a cerca dos fatos ocorridos na praça. Dava ordens também aos mesmos para que mudassem a posição de cabo Antão no leito dizendo:
_Virem este soldado para o outro lado, uma vez que se encontra imóvel é eminente o risco de desenvolver as temidas feridas por compressão, as tais escaras, estes buracos onde se escondem as vis bactérias devoradoras de carnes.
Se acaso o soldado não apresentasse condições de desempenhar a ordem proferida a autoridade se irritava, puxava a campainha de chamado para a enfermagem e repetia a ordem à enfermeira que chegasse em um tom mais elevado; ao ver sua ordem ser executada regozijava-se grandemente de satisfação.
Aquela noite transcorreu quente, sombria e mórbida. Pela manhã, a notícia do agravamento do estado de saúde de ambos os religiosos fora mais um peso para a já combalida cidade.
Lado a lado, cada qual gemendo suas lamentações, confissões e delírios, ambos os homens de fé sucumbiam àquele terrível mal, que pouco a pouco ia ceifando um grande numero de vidas preciosas, deixando no ar o terror aderido ao odor e a fumaça.

Projeto "Um Milhão de Amigos": Sigam-me os bons.



Noto que com meu trabalho de escrita e divulgação este blog tem se tornado um espaço modesto de alcance comunicativo.
Nos últimos dias tenho recebido uma média superior a 80 visualizações ao dia, o que não é muito se comparado aos blogs de outros anônimos que apresentam indicadores impressionantes; só para ilustrar contarei que encontrei um que possui 175.668 “seguidores” – isso não é incrível? (prometo falar deste blog um pouco mais adiante)

Quando decidi ir a campo, realizar visitas aos blogs e comentar, fiz com a finalidade de atrair atenção para meus textos; sai seguindo a seta que diz próximo blog>>, bem no alto da pagina do meu blogspot (as listas com os blogs mais acessados não guardam pessoas tão “acessíveis” que possam retribuir uma visita de um anônimo, por isso preferi seguir a seta ao acaso; “grata surpresa eu tive nos blogs que não constam nas listas de mais acessados [sorrio])!”

Nesta “viagem ao mundo dos blogs” um pensamento germinou em minha mente germinativa e começou a criar raízes para dentro de meu cérebro.
“O blog é uma extensão da pessoa, é o pensamento vivo e ativo”.
Ficaria dentro da cabeça (ou como disse o escritor de blog, Felipe Paiva, dentro da gaveta), se não fosse à internet a oferecer esta ferramenta de veiculação dos pensamentos. (Não tenho a menor dúvida que é este o mais legítimo movimento literário de vanguarda. O escritor de blog é o que há de mais moderno em termos de literatura, assim como o editor de blog é o que há de mais legítimo e atual em termo de comunicação)


Tudo começa pela decisão de fazer um blog; os motivos são os mais variados possíveis; há quem crie um para homenagear alguém, outro como uma forma de levar informações a um determinado grupo já existente no mundo “presencial”, um outro para desabafar, outro para ganhar dinheiro, outro para reconquistar, outro para se vingar...e por aí vai sem fim.

O próximo passo seria a escolha do nome; algo que vem logo após a decisão de criar; é algo que proporciona imenso prazer. Um exemplo: conheci uma moça, Winkle, que criou o “Farrapo de Nuvens”; indaguei de onde teria vindo nome tão poético, então ela convidou-me a visitar suas primeiras postagens; fui, e na primeira postagem descobri que o blog havia sido criado com a finalidade de manter contato com um grupo de amigos, umas seis pessoas, de uma maneira bem especial e na segunda postagem do blog descobri que a moça concebeu aquele nome quando, tensa, de sua poltrona dentro de um avião, fotografou as nuvens visíveis de sua janela na aeronave; Farrapos de Nuvens.

Depois se trabalha o modelo do blog; em alguns casos a pessoa apanha um pouco ao realizar a formatação, conforme ocorreu comigo (riso); quem já possui alguma experiência de internet obviamente leva vantagem.

Bem, mais adiante vem a postagem; isso é fantástico; é a semente depositada dentro da cova na terra.

Por último a pessoa aguarda, ou sai ávida na busca aos leitores; se terá leitores ou não, essa é outra questão; mas todo aquele que faz um blog quer...atenção.

Nesta minha viagem tenho visto coisas fantásticas. O movimento não possui limites, é incomensurável sua possibilidade criativa; há quem poste textos de autores consagrados, o que de certa forma revitaliza a literatura; há autores desconhecidos a criar obras fantásticas; há quem exponha imensa sinceridade quando se expressa e isso resulta em algo belo; tudo é valido neste movimento sem limites.
O movimento em si próprio é incomensurável. Nunca se criou tanto em termos de literatura em todo o mundo; proporcionalmente nunca um tipo de literatura ganhou tantos leitores como o blog; e não venha me dizer que o jornal é mais lido que a totalidade dos blogs, pois há uma quantidade imensa de leitores de blog para cada leitor de jornal, uma vez que cada leitor de jornal é também um leitor de blog, quando o contrário desta regra não se aplica, ou seja, o leitor de blog nem sempre se interessa pelo jornal, uma vez que pode ter outras formas de mídia pelas quais se interesse.
Impulsionados até mesmo por um único leitor que entre e comente (seja no blog, por email ou pessoalmente, como acontece várias vezes comigo, por exemplo), o escritor do blog terá um estimulo adicional que acabará potencializando a capacidade criativa deste escritor.

Quero dizer também que, comoveu-me profundamente os blogs solitários, com belíssimas ou modestas postagens, nenhum seguidor, nenhum comentário e acredite; mesmo assim, o escritor desses blogs não desiste e continua produzindo e postando com carinho e sinceridade; isso é o sonho, amigos; é o sonhar!
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quarta-feira, dezembro 16, 2009

Quem leu, recorde/Quem não leu, leia.


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O Velho Espírito Natalino


Vovô hoje vive um novo momento
Começou com um problema que trouxe uma nova vida
Mas nele, sem dúvida alguma, ainda vive um sonho antigo

Olha só quem vem vindo,
Se não é o bom e velho espírito natalino!
Ele está mesmo velhinho,cansado, mas bem vivo

Lembro-me dele chegando quando eu era menino
Eu esperava presente, mas me alegrava um presentinho
Meus olhos colavam na vitrine
Refletia aquelas maravilhas, todo aquele brilho
Juro que em sonho brinquei com cada um daqueles brinquedinhos

Cresci e me tornei rapazinho
Agora eu trabalhava, dava e recebia presentinhos
Já compreendia até a mensagem do nascimento do Deus Menino
Alegrava-me ver as ruas enfeitadas
Havia muitos eventos com o tema natalino
Canções comoventes, tudo era mágico e festivo
Havia sempre um papai Noel gordinho
Mas na falta destes eles se tornaram bem magrinhos
Mas era o Noel, disso nunca duvido

Casei-me, tive abençoados filhos
Havia festa em minha casa
Esperávamos ansiosos parentes e amigos
Um bom cheiro de comida,
coisa melhor que almoço de domingo
vinha um, vinham tantos, há quanto tempo eu não lhes via!!!
muitas vezes a casa se enchia

O tempo passou e tudo mudou
Dividi com outras famílias os meus queridos filhos
Estes me deram até netinhos
Meus passos é que foram ficando cada vez mais inseguros e lentinhos
Num belo dia, de forma repentina
Surgiu-me um descompasso, um desatino
Uma doença que me transformou novamente em menino
E
só não fui parar num berço por ser grandinho

Voltei a usar fraldas, mas se eu perdia o sono, ninguém me dava colinho
Agora eu era um bebê com mais de sessenta, setenta, enfim, com muitos quilos

Aquela comida que esperava para provar a meia-noite do dia 25,
Não era mais por boca que ela vinha e quando ainda vinha era uma papinha
Assim meu paladar tornou-se esquecido

Neste momento ninguém espere de mim gracinhas, palavras ou passinhos
Sou um bebê nas necessidades, mas na idade sou um velhinho
Não reclamo, pois sei que esta é uma face comum do destino

Mas neste natal estou feliz
Mal posso esperar pelo grande dia
Muitos virão aqui, pois se lembram deste amigo
Abraçarão a mim e aos meus queridos
Minha casa esta enfeitada, tem uma guirlanda, tem umas bolinhas...
Eu vi, eu vi, passar adultos e meninos!
Meus olhos vêem tudo, eu não digo, mas por dentro estou sorrindo

Apesar dos pesares o amor nunca me tem faltado
Não tenho posses, mas sou um homem rico
Recebo tesouros em forma de carinho
Agradeço a todos por cada sorriso
Aos que me inspiraram e aos que me retribuíram
Agradeço a Deus por estes maravilhosos cuidadores
E pelo infalível espírito natalino.

Aos enfermos que estão vivendo a luta pela vida em um leito, e aos seus cuidadores em todas instâncias dentro e fora da esfera familiar: meu feliz Natal!

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Nos últimos dias, devido à retribuição de minhas visitas, tenho recebido diversas visitas aqui em meu blog, e novos amigos têm vindo e feito contato. Convidei uma pessoa, que aprendo a respeitar e admirar mais e mais a cada dia, para que ela visse um post antigo, um dos primeiros deste blog que teve início no dia 01.01.09.
Motivado pelo comentário muito generoso desta pessoa, a Giselda Nogueira do desassossego.blogspot, eu decidi trazer este post para frente de meu blog.
Caso você decida comentá-lo queira por gentileza dirigir-se ao post original, que data de 02.01.09, bem no início deste blog.

(foto: minha linda Ana guiando o trenó)

terça-feira, dezembro 15, 2009

O Cobrador - Parte VII


Contam os homens do pé de jaca (os jacas), e confirmam os antigos moradores do local (os antigos), que os religiosos, ao encontrar-se, se entreolharam, olharam para a praça embaçada pelo fumo, porém, agora visível, e novamente se entreolharam. O “mendigo” ocupava o centro da área, os cães haviam dispersado, e nem sinal de Edmundo Adeodato. Pobre coitado!
Em torno da cidade as chamas castigavam toda vegetação, bem como as benfeitorias das propriedades e as propriedades. As cinzas negras cobriam toda superfície. Como único alento figurava o termômetro, que naquela ocasião retrocedeu um bocadinho pela primeira vez desde que subira.
Ainda assim a canícula era insuportável, porém a cidade se sentia como diante de uma brisa fresca; e que saudade sentiam de uma brisa!
Padre Agostinho e pastor Martinho, deram as mãos em um forte aperto. Sentiram que o momento era para unir as forças, e que a missão era, sem sombra de dúvida, de longe, a mais delicada que já enfrentaram em suas profissões de fé.
O padre propôs ao pastor que tentassem uma aproximação do “mendigo”, conversando e aspergindo água benta. O pastor contrapôs, disse que seria mais eficaz uma abordagem mais vigorosa, com bíblia em punho, lendo uma passagem como a do livro de Marcos capítulo 5, e proferindo palavras de ordem de expulsão, com grande autoridade.
Foi então que ocorreu o primeiro embate entre os religiosos; discordaram, argumentaram e se exaltaram; o “mendigo” seguia em sua postura, indiferente a presença dos representantes de Deus, como se estes fossem nada; era como se eles nem estivessem ali.
Como não concordaram quanto a melhor forma de abordagem, decidiram ir cada qual a sua maneira. Padre Agostinho disse:
_Vai tu primeiro.
Pastor Martinho retrucou:
_Oras, e por que não vai tu que possui mais tempo de profissão de fé, sendo muito mais experiente em se tratando de demônios?
Dessa vez não iniciaram nova discussão, pois padre Agostinho teve uma vertigem necessitando do amparo do colega:
_Padre Agostinho, o senhor esta bem? Perguntou o pastor, ao que o padre respondeu:
_Sim, estou, é que sofro de labirintite; mas por que não vamos os dois num só tempo ter com o forasteiro?
Pela primeira vez concordaram em algo, e ao iniciar a aproximação o pastor achou que deveriam ir de antemão aos berros, proferindo palavras de ordem de expulsão. O padre discordou, disse que seria melhor uma ação quando estivessem mais próximos do forasteiro. Iniciaram nova discussão. Desta vez, mais impacientes quase chegaram a se agredir; o clima era bastante tenso. E após farpas e mais farpas, cada qual foi ocupar um banco da praça, em extremidades opostas.
Minutos depois os religiosos eram tomados de súbito por um grande torpor, uma enorme sonolência, e não resistindo entregaram-se ao sono letárgico que os tomara.
Pastor Martinho viu-se erguer do banco e levitar indo pousar diante do mendigo que o encarava. O pastor, tomado por fúria, disse com grande autoridade:
_Saia imediatamente, bata já em retirada, em nome de Jesus eu ordeno, Legião!
O forasteiro, fixando os olhos no olhar do pastor disse com voz rouca, de uma tonalidade metálica:
_O que tenho eu contigo, filho de Deus? Nessa terra já enfrentei crente e descrente, suas palavras não me causam medo, para mim, não passam de vãs palavras e você não significa nada, portanto não me amole, vá embora, tenho negócios importantes a tratar.
Pastor Martinho ao despertar da madorna viu-se novamente no banco onde sentara, sentiu um calafrio lhe percorrer todo o corpo. O calor do ambiente era intenso como na chegada, mas agora o frio que sentia lhe fazia tremer as pernas, bater o queixo e abraçar ao próprio tronco.
Na outra extremidade da praça era padre Agostinho quem despertava de uma madorna. Tremia as pernas e batia o queixo em meio a calafrios, enquanto recordava de ter sonhado que levitara. Sonhou que se aproximava do forasteiro, e lhe indagava sobre seu propósito obscuro naquele lugar.
Ainda, ao recordar-se do “sonho” lembrou ter ouvido o forasteiro responder com uma voz rouca e de tonalidade metálica:
_Que tenho eu contigo filho de Deus? _Nessa terra já enfrentei católico e ateu, suas palavras não me amedrontam, para mim, não passam de vãs palavras, e você significa nada, portanto não me amole, vá embora, tenho negócios importantes a tratar.
Os religiosos se ergueram dos bancos com grande dificuldade, completamente frustrados de seu intento de expulsar o...você sabe quem...
Um escorou o outro numa difícil caminhada até as imediações do hospital. Ali deram entrada em estado crítico; febris, respiravam com grande dificuldade; delirantes e desorientados, já não produziam um relato confiável, mas o que diziam deixava a todos ainda mais aterrorizados.

domingo, dezembro 13, 2009

Números?

Notícia nova. Fato antigo, recorrente: Todos os dias um turbilhão de acontecimentos chegam até nosso conhecimento. Muitos destes vêem, são assimilados e guardados em algum lugar de nosso encéfalo; outros vêem e causam-nos algum impacto, ecoam para dentro do que somos, e finalmente silenciam. Mas há uma categoria de assuntos que, mesmo passados alguns dias, descobrimos que ainda precisamos falar destes que já iam guardados; seria, talvez, uma maneira de enviar tais fatos para o mesmo lugar das coisas comuns rotineiras. Porém, às vezes, estes fatos são também comuns e até corriqueiros; por mais incrível que isso possa parecer! A chuva sempre é assunto; seja por chover pouco, por chover nada, ou por chover muito; chuva é assunto. Choveu muito em São Paulo desta vez. A chuva fez estragos na capital da garoa, do Tietê, do Rio Pinheiros. Ficaram interditadas as avenidas que margeiam os rios. As pessoas ficaram impossibilitadas de transitar, de chegar ao trabalho e de viver até. É que há pessoas (trabalhadores), gente que luta e sonha à beira do barranco ou ao pé do morro. À beira do barrando é difícil sonhar, pois durante o sonho você pode despencar e acabar soterrado por uma grande quantidade de duras realidades esmagadoras; e ao pé do morro também é muito difícil sonhar, pois se pode terminar debaixo de toneladas de fria realidade.
Juvêncio é servente de pedreiro, foi ele quem fez a própria moradia com paus e uma rala alvenaria, num terreno abandonado pela prefeitura. O terreno era abandonado, pois não era de terra firme, ficava ao pé do morro e parecia ser de argila de tão mole que era ao cair da chuva. Juvencina é diarista, mas não possui muitas casas para fazer faxina; este ramo é muito concorrido, e dão preferência a quem converse bem e possua bons dentes; Juvencina era extremamente tímida, e apesar de jovem, não possuía meios nem recursos para um belo sorriso. Quando Juvêncio ergueu com grande esforço as tábuas, pedras e blocos eles tinham muita urgência por um abrigo; é que o pequeno Francisco tinha dez anos e estava ficando muito doente por ficarem todas as noites sob o sereno, mal acomodados, debaixo de uma ponte no centro. Assim que o barraco ganhou a forma de um cercado mudaram-se para dentro dele. Aos olhos do casal era um mimo; chão de terra batida, mas bem varridinho, sobre o caixote que servia de mesa, Juvencina, caprichosa que só vendo, colocou um lencinho bordado: única peça de seu enxoval que trouxe quando vieram deixando o nordeste pelo sonho de melhorar de vida. Época boa aquela para prosperar. Juvêncio vinha tendo serviço todos os dias. Era possível comprar materiais com dinheiro vivo, sem endividar-se. Ao final do expediente o servente retornava para casa passando pela estreita pinguela com um saco de cimento sobre o lombo e a nota fiscal da compra no bolso; era homem simples, no entanto esperto e se precavia, caso fosse parado para averiguação da origem do material que trazia para casa. Em suas folgas ia com uma carriola até o bairro, numa loja de materiais para construção, e, após enchê-la com blocos, retornava para os seus com um largo sorriso, orgulhoso de si. A casinha da família não ficou muito tempo sem portas e janelas; e também não demorou muito para que o chão de terra recebesse uma fina cobertura de cimento. Quando Juvencina tinha faxina comiam melhor; dava até para comprar algum calçado para o Francisco que crescia e espremia os pés dentro de uns gastos sapatos dois números abaixo do adequado. Juvencina e Juvêncio falavam-se pouco; mas quem há de contestar que se amavam muito? Juvencina foi mãe aos doze, por abuso de seu padrasto e Juvencino a tirou daquela vida de sofrimento e lhe deu um sonho, lhe deu uma casa e mais três filhos; Gabriel, agora com sete anos, e os gêmeos, Ângela e Miguel, com cinco. Francisco começou a trabalhar cedo, deixou de estudar, mas apresentou grande habilidade para o ofício de servente, e o padrasto, que ele dizia ser mais que um pai, se orgulhava dizendo que o menino daria um pedreiro de primeira linha, pois era muito mais inteligente que ele e tinha futuro. Os pequenos cresciam rapidamente, houve épocas boas de serviço e outras ruins. Ao terminar os ajustes do barraco começaram a pensar em se preparar para partir para uma casa em algum conjunto, porém ali estava tudo o que construíram em anos de luta, e no mais levariam outros tantos anos para reiniciar aquela jornada de imensas dificuldades. O casal não se importava de morar em barraco ao pé do morro, nem de ficar afastado da cidade e sem nenhum recurso próximo, nem mesmo com o difícil acesso por vielas, tampouco com o córrego esgoto a céu aberto. O problema maior era quando chovia. Mas o casal tinha muita fé em Deus que nada de mal lhes oconteceria. Ocorreu que aquele dia anoiteceu com chuva. A chuva adentrou pela noite, e o casal orava se revezando em um cântico baixo e continuo elevado a Deus. Vez ou outra paravam e conversavam sobre as necessidades, sobre os meninos, mas logo um retomava a oração e comentava em sussurro: _Está chovendo muito hoje, chove mais que nos outros dias. Naquele momento o barraco havia crescido devido à onda de prosperidade que tiveram pela constância de serviços; já não se amontoavam mais todos em um cômodo, em duas camas. Os meninos agora possuíam um quarto; os garotos dormiam na velha cama de casal adquirida no brechó, e a menina ainda dormia encolhida no berço encontrado em frente duma casa bonita do bairro contiguo, numa ocasião em que Juvencina, barriguda de Gabriel, passara por ali após uma faxina:
_Para menino não há tempo ruim; dormem mesmo que um temporal ameace arrastar tudo. Dizia a mãe angustiada pela chuva que não cessava. _Descanse mulher, deixe que eu ore; amanhã você trabalha muito e eu estou sem serviço com esta chuva. _Bobagem homem, você sabe que não durmo enquanto a chuva não termina.
As horas passavam lentas. Trovões disparavam o coração de Juvencina. O barulho constante da chuva em torrente, despencando sobre o telhado de amianto, lhes fazia imaginar a cor úmida com que amanheceria o morro de “argila”. Hora a chuva diminuía. Outrora ela intensificava. Mas nunca que parava. Faltava pouco para o romper o dia. Juvencina, que não era de ferro, com o corpo castigado de tanto serviço, por um momento entregou-se a um breve cochilo; abandonou por um instante a vigília. Juvencino já roncava há tempos quando a companheira adormeceu um pouquinho. Os meninos dormiam o sono dos justos quando se ouviu um estrondo oco, meio surdo, abafando paus e telhas quebrarem-se. O barulho fez com que o casal se sentasse imediatamente na cama que estremeceu concomitantemente ao estremecer interior de seus corpos. _Senhor, meus filhos! A mulher gritou como se o estado de sono fosse imediatamente seguido pela torrente de angustia vigil. Ambos sentaram-se na cama enquanto essa ainda vibrava pelo abalo das toneladas de argila que enterraram com vida seus queridos filhos enquanto dormiam. Depois, vieram os gritos histéricos, desesperados, de quem, antes mesmo de consumada a tragédia, já sentia todo abandono da esperança de ver algum dos filhos ainda com vida. Os vizinhos, cada qual a sua maneira companheiros de vigília, chegavam correndo e com lágrimas nos olhos entendiam através dos gritos da mãe e das suplicas do pai a dimensão do terror do ocorrido.
_Senhor, Senhor, Senhor meu Deus, por que não vigiei? Senhor! Dizia a mãe, impotente, de joelhos diante o monte de terra que tomara o lugar do quarto dos quatro filhos. Juvencino cavava com as próprias mãos; ladeado pelos vizinhos, a chuva misturava-se às lagrimas de seu rosto, e os gritos de sua esposa lhe sufocavam tanto quanto a terra aos meninos. A mulher saiu do pé do morro arrastada; providenciaram para que lhe tirassem dali e lhe sedassem; enquanto a televisão vinha para acompanhar o trabalho dos bombeiros, que já haviam diagnosticado não haver qualquer esperança de encontrar alguém com vida devido às características e propriedades do ocorrido. Tudo fora incluído no pacote de fatos noticiados em poucos minutos como... Choveu muito em São Paulo, mais que todo período de... Choveu mais que...Formou-se tantos quilômetros de congestionamento...foram registradas tantas mortes...foram soterrados os quatro filhos de uma família.
Obs. Fiz questão de não utilizar nenhum dos números que nos transformam, a nós, pessoas comuns, em dados estatísticos de fácil arquivamento e difícil memorização quando amontoados com outros tantos. Dedico este pequeno conto às famílias que sofrem neste momento, com o vazio da ausência de seus tão queridos filhos e entes queridos.

sábado, dezembro 12, 2009

O Cobrador - Parte VI


O grupo de populares dividiu-se. Alguns foram ter com o pastor Martinho e os outros foram até o padre Agostinho.
Os que foram ter com o padre o encontraram dentro da igreja, ajoelhado, com um terço envolto nas mãos fazia uma oração, aparentemente, de súplica. Os homens lhe participaram de todos os fatos recentes ocorridos na praça. Ao ouvir a narração assombrada dos populares, padre Agostinho teve um princípio de desmaio; talvez ocasionado pela batina, que mesmo mediante o forte calor que vinha castigando a todos, o religioso não a abandonara.
Levou alguns minutos para que o padre recobrasse os sentidos. E após titubear por alguns instantes concordou em ir até a praça, porém impôs algumas condições. Iria, contanto que antes montassem uma procissão, quem sabe até uma grande vigília com as beatas mais experientes: _Para dar uma retaguarda, pois este “coisa ruim” parece mesmo ser dos bravos. Justificou o padre.
Os populares ressaltaram que já não havia mais tempo nem pessoas disponíveis para estas manobras religiosas, e que seria melhor irem de imediato até a praça antes que a cidade acabasse em cinzas.
O padre ponderou que não seria sensato insistir com suas petições, contudo pediu para que aguardassem por um instante, adentrou a sacristia e alguns minutos depois retornou com varias garrafas cheias d’água, pedindo para que lhe ajudassem a carregá-las. Esta atitude causou surpresa nos fiéis que o aguardavam tensos e imediatamente lhe indagaram: _Mas padre, para que esta água, o incêndio é em torno da cidade e não na praça? Na praça o que há é apenas fumaça e “o coisa ruim” a soltar fogo pela boca.
Padre Agostinho teve outro princípio de desmaio, precisou ser amparado novamente pelos fiéis, e ao recobrar os sentidos explicou que o conteúdo das garrafas tratava-se de água benta para aspergir no...você sabe quem; e que isso era totalmente indispensável; que seria eficaz tal qual flor de alho para vampiro.
Sem concordar nem discordar os homens apanharam as garrafas e seguiram a passo pesado, porém decidido. O religioso vinha logo atrás aspergindo água benta nas costas de seus servos e proferindo rezas por todo o caminho. Vez ou outra os fiéis paravam a fim de acertar a marcha com o padre que ia ficando para trás, uma vez que suas pernas senis já não lhe favoreciam mesmo em condições normais; naquelas então...
O calor era demasiado. Apesar de se aproximar o final da tarde e sol já estar se pondo o mormaço seguia intenso.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, as pessoas do grupo que foi ter com o pastor Martinho o encontraram diante da porta de sua igreja, de pé postado na calçada, e com a bíblia em punho ele apontava o indicador na direção da praça e bradava: _Saia dessa cidade que não lhe pertence, bata em retirado, eu ordeno; em nome de Jesus eu te ordeno que retorne para as profundezas de sua casa! E concluía por diversas vezes batendo com o pé direito vigorosamente contra o solo e dizendo: Está quebrado, em nome de Jesus, está quebrado!
Os homens o saudaram. O inteiraram dos últimos fatos e pediram para que pastor Martino unisse forças com o padre Agostinho, para que juntos formassem uma ampla frente religiosa e promovessem um grande exorcismo ecumênico.
O pastor ouviu a idéia com atenção, mas antes mesmo que terminassem a exposição já olhava com ar pensativo seguido pelo de reprova; porém, antes mesmo que o pastor Martinho concordasse ou discordasse da sugestão, os homens o tomaram pelos braços e, praticamente o erguendo do solo, levaram-no de arrasto até a praça.
O outro grupo já se encontrava diante do que seria o palco da “batalha santa”, conforme anunciavam os observadores de debaixo do imenso pé de jaca defronte para a praça.
Os fiéis abanavam o padre Agostinho, bebiam água benta e a despejavam nas cabeças a fim de amenizar os efeitos do calor.
Aos poucos a fumaça fora dissipando. Naquele momento fez-se possível avistar o “mendigo” no centro da praça. Este havia abandonado seu livro e prostrara-se de joelhos, exatamente como fizera ao cair da tarde na véspera.
O grupo de populares disse ás autoridades religiosas que, daquele momento em diante, seria com eles; e afastando-se deixaram o padre e o pastor entregues a sorte divina. Mas fizeram questão de firmar que estariam de longe a pedir para que Deus os protegesse e que os livrasse de uma desgraça. Os religiosos, diante da praça, puderam vê-la ser descortinada por completo ao sopro dum vento morno e nauseante que incidiu naquele exato momento.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

O Cobrador - Parte V


Edmundo Adeodato era contido por muitos, e com o rosto colado ao solo, sob a sola do pé do capoeira Ronevaldo, disse, por entre os dentes serrados, ao Dr João Jivago: _O Dotô está mais que certo, a solução é botar fim no cabra da praça. E concluiu: _Ele é o culpado por toda essa moléstia da peste, é o filho do Cão, do Tinhoso, do Coisa Ruim.
Em princípio houve um burburinho, um ressoar de vozes, e logo muitos compuseram o coro de “morte ao mendigo fedorento”. Neste momento teve início uma intensa movimentação; decidiram libertar o vingador revoltoso sem sequer saber da opinião de Dr. João Jivago.
Edmundo Adeodato fora agora elevado aos ombros, e eleito líder do grupo. Entre cambaleantes, “vomitantes” e “obrantes”, marcharam mais de setenta pessoas rumo à praça. Os marchantes tossiam nauseabundos através da fumaça que pairava no ar; caras e bocas retorcidas, olhos lacrimejantes e corpos arqueados apoiavam uns aos outros.
Os mais vigorosos ofereciam o ombro por escora aos companheiros mais debilitados; todo o grupo seguia atrás de Adeodato; que neste momento encontrou certo conforto para sua dor pessoal nos braços irmanados do povo.
No caminho muniram-se com paus, pedras, garrafas, tudo o que encontraram. Pelas ruas marchavam e bradavam: _Morte ao...Você sabe quem.
Conforme os populares se aproximaram os policiais os avistaram e, abandonados pelos cães que desapareceram para dentro da fumaça, rapidamente desceram da viatura e puseram-se a correr; bateram em uma retirada desordenada, desesperada. Ao tropeçar uns nos outros caiam e se reerguiam num salto; correram como jamais haviam corrido para um teste de aptidão física, os tais TAFs da corporação; a energia adicional veio ao ver o grupo armado e fora de controle a se aproximar.
Os revoltosos ignoraram completamente o pavor dos policiais. Queriam mesmo era ter de uma vez por todas com o forasteiro.
Porém, lá chegando ficaram petrificados de horror: a praça simplesmente não podia ser avistada em meio ao denso nevoeiro que ali se concentrara; havia desaparecido completamente da vista de todos; conservava grosseiramente seus contornos e exibia braços de fumaça menos densa, que rapidamente se estendiam pelas ruas imediatas, mas estes não se comparavam de modo algum ao quanto era denso o bloco branco sobre a praça.

O grupo que havia partido do hospital neste momento viu-se impotente; teve seu ânimo severamente abatido. Os populares ficaram desorientados, e antes mesmo que alguém pensasse em adentrar aquela cortina de mistério, para ver se dava com o tal cabra, Edmundo Adeodato, valente como ele e só, fora visto pela última vez, e depois teria se precipitado para dentro da névoa para nunca mais...
Ainda hoje há quem jure de pés juntos, por tudo que há de mais sagrado, o ter visto sendo tragado pela súbita baforada, debater-se muito, lutar com imensa bravura, gritar corajosamente afrontas ao forasteiro, e finalmente sucumbir num silêncio precedido por choro e ranger de dentes; teria sido ele, enfim, sufocado pelas mãos sujas do mendigo misterioso, e consumido pelas labaredas que saiam feito a língua de um dragão da boca do nefasto forasteiro. _Pobre Adeodato, morrera como um bravo; cabra valente sem igual! Dizem os antigos ao lembrar os fatos.
No entanto, há outra vertente informativa. Esta afirma ter o homem, na verdade, se precipitado para dentro de um bueiro e perdendo-se nas tubulações, fora tragado pelo esgoto e arrastado pela correnteza do rio, não sendo jamais encontrado.

Após o sumiço de Edmundo Adeodato um vento soprou lento e morno a fumaça sobre as cabeças presentes, a seguir viera uma fedentina insuportável, então saíram todos em disparada, em todas as direções. As pessoas clamavam pela misericórdia divina, pediam perdão pelos seus pecados, confessavam suas transgressões a quem quisesse escutar a metros de distância, chamavam por Deus e pelos santos que lhes ocorriam naquela hora de pavor e desespero. Pouco depois não havia um único revoltoso nas imediações da praça. Todos procuraram afastar-se o quanto puderam.
Um pequeno grupo que se desgarrara da maioria parou mais adiante. Recobrou o que era possível do fôlego e convencionou buscar apoio junto às autoridades religiosas, na esperança de que estas dariam conta de expulsar o tal “mendigo nefasto”, que naquele momento já era de consenso entre todos ser ele o próprio...você sabe quem.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

O Cobrador - Parte IV



As horas passavam lentamente e a tarde findava com o triste saldo das primeiras baixas; do hospital veio à notícia do agravamento da situação geral; não demorou muito para que ocorressem as inevitáveis mortes. Quanta tristeza. Que tragédia!
O calor constante associado à densa fumaça, mais as cinzas resultantes da queimada, tudo somava para o agravo das saúdes mais frágeis, e também, abalava até os organismos mais resistentes.
Primeiro correu a notícia de um senhor. Morador do abrigo para idosos, portador de seqüelas de um antigo derrame, e que sofria também por problemas respiratórios (enfisema pulmonar e outras mazelas), que acabara sucumbindo àquela mudança súbita de ares.
Logo após soube-se de duas crianças que também não resistiram. Uma era recém nascida, prematura e com complicações cardíacas; esta fora seguida por outra criança latente, que segundo a mãe, sofria de bronquite. O clima de terror pairava no ar. As mortes deixaram a cidade em polvorosa.
No hospital superlotado chegavam pessoas a todo instante. Não havia mais soro para injetar, e ainda que houvesse as agulhas não bastariam; tampouco os equipamentos e acessórios seriam suficiente para tantos doentes. O pessoal do hospital, além de ser escasso para tamanha demanda, sofria grandemente com os efeitos do calor e da fumaça.
Naquela altura dos fatos a conduta médica se resumia em distribuir soro caseiro em copinhos descartáveis, que iam sendo reaproveitados pelos enfermos amontoados por toda parte.
Os pacientes se acomodavam por conta própria em macas, cadeiras, sentavam-se pelo chão e os mais debilitados até se deitavam; cada qual se arranjava à sua maneira.
Os médicos lutavam bravamente, contudo, de mãos atadas. Travavam uma batalha angustiante, quase infrutífera, praticamente vã.

Dr. João Jivago convocou uma reunião às pressas; vieram ter com ele o colega Dr. Ernesto Guerra, e a enfermeira chefe Adelaide da Piedade, além do pessoal que auxiliava nas técnicas de enfermagem. Reuniram-se num dos quartos, em meio aos pacientes que ali estavam.
Enquanto a enfermeira, Adelaide da Piedade, enxugava o suor da testa do Dr. João Jivago, este gravemente palestrava: _É melhor mandarmos esta gente de volta para as suas casas; ensinamos-lhes a receita do soro e lá eles se tratam; aqui, conforme está, a tendência das coisas é só complicar; fiquemos apenas com os casos mais graves. Completou o médico.
Os colegas ouviram e prontamente aprovaram a conduta. Dr. Ernesto Guerra pediu a palavra e acrescentou: _Concordo com o colega; uma vez que a higiene já está severamente comprometida, e a capacidade e recursos para lá de esgotados. O colega está coberto de razão; vamos orientá-los e encaminhá-los para as suas casas.
Logo após esta conversa, Dr. Ernesto e a chefe de enfermagem, saíram pelos corredores conclamando aos que fossem capazes, que retornassem para seus lares, e lá se hidratassem.
Porém, parte dos pacientes não aceitou a idéia. Disseram estar, na verdade, sendo enxotados; que o socorro lhes era negado; que procurariam seus direitos, a polícia, o delegado. _Isso é omissão de socorro! Gritou, em meio à baforadas e tosse, um paciente mais exaltado.

A equipe de saúde tentava contornar a situação. Novamente em vão, explicava que o risco de infecção era grande, e com todos aglomerados naquelas terríveis condições, só faria aumentar o risco de contagio por diversas doenças.
Foi quando um homem, ensandecido, invadiu os corredores e quartos, começou a atirar objetos ao chão e empurrar a todo e qualquer um que encontrasse em seu caminho, estivesse em maca, sentado ou de pé. O homem era a fúria em pessoa.
Dizia que perdera a filhinha bebê, e que nada mais lhe restava neste mundo senão vingar-se dos culpados. Disse que mataria o Dr. Ernesto Guerra e a enfermeira Adelaide da Piedade, que não teriam sido capazes de curar a criança.
O homem tinha um sotaque nordestino bem arrastado, seu nome era Edmundo Adeodato; enquanto atirava os objetos berrava diante os olhares atônitos. Puxou uma grande faca da cintura, apontou para o médico e disse: _Mato vocês agora e depois o excomungado fedorento, filho duma égua dos infernos, que está plantado lá na praça!
Todos perceberam que o homem não brincava, e num momento de distração do vingador revoltoso, lhe derrubaram com uma rasteira de rara precisão, aplicada pelo capoeira Ronevaldo. Com muito custo vários braços lhe renderam e lhe desarmaram. Então começou o que seria um massacre, se não fosse a intervenção providencial de Dr. João Jivago: _Meus caros, meus caros! Gritou o médico para a multidão exaltada. E ao conseguir alguma atenção deu início ao seu discurso improvisado: _ Minha gente, minha gente, isso não faz qualquer sentido, é desperdício de energia, a qual já nos falta, e essa atitude selvagem não nos levará a nada, temos que ter muita calma nessa hora, para unidos encontrarmos uma alternativa razoável, que nos leve a solucionar todos estes problemas da melhor maneira e o mais rápido possível! Já estamos com problemas demais para nos voltarmos uns contra os outros. Concordam? Perguntou o médico, que já contava com a atenção de todos.

domingo, dezembro 06, 2009

Blog: Você à Sua Maneira de Ser


Um blog é uma planta;
Cultiva-se;
Ela cresce,
Dá frutos,
Por vez encanta.

Há quem alcance o sonho;
Trabalho prazeroso,
Reconhecimento para alguns,
Porém todos...
E todo aquele que cria, sonha.

O blog é a arte do pretensioso,
A malícia dissimulada,
O pavão branco majestoso,
Convite “despretensioso”,
Conquistador vigoroso.

O blog é o sonho;
Sonho do gigante interior,
A força da meiguice,
Exercício “altruísta”,
A arte do anônimo artista.

Egocentrismo organizado,
Bem arranjado;
Amor virtuoso virtual;
Garrafa repleta de relíquias lançada ao mar;
A arte de sonhar e compartilhar.

O blog é você.
Sou eu.
Ambos mais arrumados,
Lapidados,
Melhor apresentados.

Olhares longos,
Além da casa,
Da rotina,
Do dia,
Da perspectiva.

Um blog é você no parapeito,
Na janela virtual,
Acenando,
Convidando,
Ao seu mundo.
.
A poesia veio visitar-me; não pude recusar. O Cobrador continua, mas hoje a poesia é quem primeiro fala. E falarei de futebol no http://gazetasetetrombetas.blogspot.com/, mas ainda não sei o que direi. Abraços!

sexta-feira, dezembro 04, 2009

O Cobrador - Parte III



Os poucos populares, que ainda tinham alguma energia, a concentraram em cobrar uma atitude das autoridades; furiosos, ameaçavam ir até a praça e agarrar o forasteiro, arrastá-lo, e enfim, lançá-lo às chamas. Afinal, os populares acreditavam firmemente, que tudo o que estava ocorrendo, era senão uma obra do forasteiro, e que o estranho teria parte com o...você sabe quem.
As autoridades, mediante àquele principio de revolta popular, acharam por bem enviar o contingente da polícia local; que lá chegando, foi ter direto com o forasteiro. Este lia imóvel, completamente absorto na leitura e ignorando a todos.
Eram quatro os policiais, razoavelmente bem armados, com cartucheiras, revolveres, e cassetetes. Saltaram todos de uma vez da viatura; cabo Antão foi dizendo aos seus comandados: _Vamos chegar e colocar o malandro de uma vez na viatura. A gente o guarda lá na delegacia e pronto, estará resolvido; assim o povo se acalma, pois não dá pra dispensar o sujeito estando a cidade toda cercada pelo fogo, conforme está.
Os soldados acataram a ordem superior e seguiram a passo firme, decidido, em direção ao forasteiro. Os cães, que ladeavam o “mendigo”, se levantaram, eriçaram os pelos, rosnaram com os dentes à mostra, e latiram ensandecidos; uivavam, até. Os soldados, por um breve instante, fizeram menção de recuo, ao ver a ferocidade dos vira-latas, porém, continuaram progredindo em sua marcha, quase firme; ligeiramente mais cautelosos, é verdade. O pessoal, que observava a tudo de debaixo do pé de jaca, do terreno baldio defronte a praça, comentou que, foi até bonito ouvir os coturnos a tocar o solo em quase uníssono.
Foi quando, á meio caminho do objetivo, os cães investiram raivosos contra os guardas, que envoltos em meio à névoa de fumaça que pairava, sentiram o pavor lhes tomar de súbito.
Quanto mais os guardas esbravejavam e ameaçavam os cães, mais os bichos se enfureciam contra eles.
Os cães pareciam determinados a não permitir a aproximação dos soldados, e no momento em que os policiais desferiam cacetadas a esmo, ocorreu o terrível ataque. As feras avançaram sobre os homens, lhes atacaram mordendo as pernas, os braços, e onde conseguiam alcançar cravavam suas presas afiadas. Era soldado, cacetada, e mordida de vira lata; uma balburdia total. Em meio à confusão, cabo Antão ergueu a cartucheira, desferiu um disparo de advertência para o alto; neste momento fora traiçoeiramente mordido na nádega. Irritado, gritou para o forasteiro com a voz esganiçada, contendo as lágrimas que inundavam seus olhos sendo contidas com grande custo pelas pálpebras: _ Ou você faz com que estes animais parem, ou vamos meter bala geral!
O forasteiro não disse palavra; indiferente, permaneceu imóvel, e após mais alguns minutos de duro embate, os soldados efetuaram os anunciados disparos contra os caninos agressores. Porém, por uma grande infelicidade, nenhuma bala encontrou o alvo; a correria fora generalizada. Quem pudesse que se salvasse.
Os soldados já não ouviam a voz do comandante, que corria junto ao grupo a levar mordidas. Atiravam sem sucesso. Corriam atordoados, desesperados. Iam para qualquer rumo, trombavam uns nos outros, batiam cabeças. Este momento fora uma “pastelada”, segundo narraram, mais tarde, os homens freqüentadores da copa da jaqueira.
Ao final os soldados encontraram o caminho de volta para a viatura. Exaustos, aniquilados ficaram ali, cercados pelos cães, que, em redor do carro, ainda lhes mostravam os dentes e rosnavam.
Ao volver a chave no contado, o soldado Jarbas, deu com extremo pesar a má notícia ao seu comandante: _Cabo Antão, o rabecão está novamente sem partida, teremos que descer e o empurrar.
Ninguém acreditava no que Jarbas dizia. Era má sorte demais para tão poucos soldados. Naquela altura dos fatos, deveras amaldiçoavam o forasteiro. E agora passavam a crer na teoria da origem nefasta daquele sujeito fedorento no centro da praça. Criam até que seria ele, realmente, o causador de todo o distúrbio que assolava a pacata cidade.
Resultou que os soldados ficaram presos na viatura, onde certamente o calor era ainda maior do que fora. E o forasteiro seguia em sua leitura, indiferente a tudo o que acontecia. E o povo, revoltado, exigia providências imediatas das autoridades.

terça-feira, dezembro 01, 2009

O Cobrador - Parte II



Aquela noite entraria para os anais da cidade como uma das mais quentes de toda sua história. Certo era que, quem não dispunha de recursos de resfriamento, coisa rara no local, não pregou os olhos por um minuto confortante que fosse; na cama era um rolar sem fim, como se as pessoas se deitassem em uma frigideira quente e fritassem.
Banhos frios, toalhas nas janelas escancaradas, corpos sem se enxugar, portas abertas, alguns até colocavam suas camas nas varandas, outros se deitavam pelo chão, mas nada, absolutamente nada trazia uma brisa fresca que fosse para aliviar aquela tormenta. Tudo era uma única ardência em brasa lenta, liberando um intenso mormaço, que causava intensa transpiração.
Amanheceu, e aos primeiros raios de sol o “mendigo” era visto fora da posição de oração em que aparecera na véspera. Alguns diziam que durante toda noite o homem permaneceu de joelhos com o rosto rente ao solo. Se isso era verdade ou exagero já é outro fato.
Agora o homem retomara em suas mãos o grande livro reiniciando sua leitura com o mesmo afinco já observado antes.
O sol logo que surgira apresentou um brilho intenso, e às seis horas da manhã já era quente como normalmente seria ao meio dia. Aquilo assombrou sobremodo os moradores do local, as senhoras se benziam e diziam ser o sinal dos tempos, os senhores se benziam e concordavam, as crianças choravam e berravam sem trégua, enquanto eram bentas pelos adultos. Uma grande tristeza.
A cidade, famosa pelo quanto era quente, ostentava o título de ser uma das mais calorosas do estado, mas aquilo era algo fora do comum, um exagero.
O “mendigo” lia indiferente ao incômodo que fazia com que todos penassem. Era como se não se incomodasse nem um pouco com o calor. Defronte para seu livro, iam minutos, iam horas. Movia-se raramente para ajeitar-se ou virar uma folha; lia aparentemente muito concentrado em cada trecho, do início de uma pagina ao cabo da seguinte; parecia um ótimo leitor diante de um magnífico clássico.
Enquanto isso, a cidade se agitava, efervescia, convulsionava. As pessoas abandonavam suas tarefas em busca de sombra, ou permaneciam imóveis a fim de economizar as energias e não aquecerem-se ainda mais por movimentar-se. As ruas ficaram quase desertas, e quem se arriscava a sair logo buscava algum refúgio ao abrigo do forte sol. Naquela altura dos fatos era raro ver quem se abanasse, pois ficara claro que, até esta ação, além de infrutífera, por tratar-se de mover ar quente, só agravaria a já desconfortável sensação térmica por exigir movimentos contínuos.
Com aquela situação extrema, pouco antes do meio-dia, o acanhado hospital local via-se movimentado como em poucas ocasiões estivera durante toda sua história. Crianças, idosos, adultos de todas as idades, uma multidão de pessoas adentravam o estabelecimento com sinais claros de profunda desidratação.
Enquanto muitos eram atendidos, outros tantos aguardavam impacientes por sua vez. Um cheiro de excremento misturava-se ao que refluía dos estômagos frágeis através das bocas, impregnando as narinas; tudo ia compondo uma atmosfera mórbida e pesada, que logo tomaria cada centímetro cúbico daquele local.
As faxineiras, munidas de baldes, panos e rodos, lutavam freneticamente, num verdadeiro esforço heróico, para manter limpo o local. Esfregavam seus panos embebidos em uma solução de água e cloro, porém isto apenas somava-se aos odores dos excrementos, e a composição do todo se tornara ainda mais acre e nauseante.
As pessoas se queixavam a todo instante, e não demorou muito para alguém sugerir que o forasteiro seria quem trouxera aquela onda de calor insuportável. Logo eram muitos que diziam frases como: “Bastou o sujeito chegar para a coisa ficar feia. Este homem é um feiticeiro, e enfeitiçou a nossa cidade! Foi o coisa ruim quem enviou este...”
Mas nem todos eram supersticiosos para concordar com aquelas afirmações, porém, na falta de uma explicação plausível para aquele fenômeno, a crendice ia ganhando adeptos de última hora; como é bem o costume de todo lugar pequeno.
Logo, não demorou a chegar ao conhecimento das autoridades locais tal comentário primitivo. Contudo, as lideranças preocuparam-se em providenciar condições para contornar a imensa onda de calor, com o mínimo possível de danos. Entraram em contato com os municípios vizinhos, que estavam livres daquela onda incandescente, e pediram socorro. A vizinhança, por sua vez, fora solicita, e comprometeu-se em ajudar no que fosse necessário, dentro do possível, é claro. Forneceriam desde mantimentos, suprimentos hospitalares, até vagas nos seus próprios serviços de saúde.
Mas o tempo parecia correr lento, porém contrário aos mais otimistas. As imagens pareciam disformes no asfalto; o calor não diminuía, seguia forte e opressivo, progressivo e continuo.
E quando tudo parecia ter atingido o ápice da calamidade... Veio de uma só vez, num só golpe, ás piores notícias possíveis e imagináveis:
Ocorreu que as vias de acesso e saída da cidade foram completamente interditadas; a entrada principal fora bloqueada por um caminhão de combustível que ali tombara, explodindo e incendiando toda passagem e o entorno imediato. As chamas escorriam lambendo o asfalto, devorando tudo o que havia próximo; mato, instalações, etc. Tudo era rapidamente consumido pelo fogo.
As outras duas vias secundárias foram atingidas pelo fogo, que logo dominou também os canaviais que circundavam toda cidade e margeavam a principal rodovia. Ao redor da cidade formou-se um cinturão de fogo. Nas pistas de terra, era possível ver as chamas nas duas margens; como se fossem mares vermelhos a arder, estreitamente apartados pelo cajado de Moisés. As chamas arrasavam as lavouras, as reservas, as propriedades. Consumiam tudo que se via em redor; uma lástima.
Em poucas horas toda fiação elétrica fora destruída, comprometendo o abastecimento de energia. O céu fora todo tomado por uma densa massa de fumaça; ficando assim intrafegável. E para a infelicidade tornar-se completa, a companhia de telefonia, que não era das melhores, por ironia do destino, devido a uma chuvinha de nada que caíra naquela tarde sobre sua cidade sede, tivera todo seu sistema de telefonia, fosse fixo ou móvel, interrompido por prazo indeterminado.
As últimas pessoas que conseguiram um sinal nos seus telefones ouviram como últimos contatos a seguinte mensagem: “Estamos encontrando dificuldades para manter nosso sinal devido à queda de uma torre; nossos técnicos já foram enviados ao local; em breve restabeleceremos a normalidade de nossos serviços; contamos com a compreensão dos senhores clientes usuários; obrigado!” Aquela mensagem era sinal de prazo longo, indefinido.
Em poucos minutos a situação ficou ainda pior, pois já não se ouvia mais nem a mensagem da companhia.
A cidade agora ficara completamente isolada; sitiada pelas chamas, coberta pela fumaça, e incomunicável devido à impagável companhia de telefonia.

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