Amigos

domingo, agosto 30, 2009

Cartas a Tás (41 de 60)




Ituverava, 30 de agosto de 2009


Você meu amigo Tás, é motivo de orgulho para todos nós da terrinha muito antes de saltar para as primeiras fileiras da mídia com um programa popular de grande audiência e prestígio entre os humorísticos.
Por que estou dizendo isto? Oras! Por que é natural sentir saudade de um irmão, um filho da mãe... morena de pele avermelhada, Ituverava; Ou não é natural?
Sabemos que você atualmente é palestrante pelo país inteiro, que até na FLIP houve espaço para você e suas idéias meio malucas, futurísticas, de NERD veterano.
Estamos a par de que seu blog é dos mais premiados da intenet do país inteiro e não nos foge que, não obstante, o Marcelin de Pés sujos, de manchas de encardido do pescoço (as quais dona “G” esfregava com bucha de cerdas rígidas, em vão) é até tese de mestrado e de doutorado em universidades.
Mas aqui você continua sendo assunto nas rodas da praça 10 de março, nas esquinas do Largo do Rosário, nas mesas e nos balcões dos botecos das vilas.
Ainda ontem eu conversava com o Zé Gob e tocávamos histórias sobre a sua pessoa. Eu dizia: _Lembra aquela vez? E ele emendava: _Lembra aquela outra? Por fim sempre acaba tudo virando uma disputa pela glória de ter tido mais memórias captadas deste ícone da comunicação brasileira.
Zé Gob vangloriava-se por lembrar de sua mania de destruir todas etiquetas das marcas das roupas que usava dizendo que não faria propaganda gratuita para nenhuma multinacional, Tás.
Eu, por minha vez, não querendo ficar para trás, desenterrei aquele documentário que você produziu quando ainda garoto, de forma amadora, sobre a verdadeira história do frevo.
Aquilo gerou uma polêmica danada na época; lembra?
Você iniciou o documentário que enviaria para uma grande emissora dizendo: _Preciso desfazer um grande erro histórico, uma injustiça cultural. E seguiu com autoridade: _Sim, sem querer causar escândalo, preciso dizer que é inverdade o que afirma ter o frevo surgido nas ladeiras pernambucanas.
Neste momento os professores já lhe olhavam com um misto de ódio e pavor, afinal o filho da Dona Shirley era afeito a uma polêmica, mister em desafiar o conhecimento dos mestres. Mas você estava decidido a revolucionar a história e continuou: _ O frevo, como muitas outras danças ditas regionais, surgiu na verdade em nossa querida Ituverava. Pois bem, ele teve início na subida da Cachoeira Salto Belo, ali bem ao lado do matadouro, onde as donzelas da cidade subiam a fim de ir ao centro brincar os carnavais do salão da Princesa.
E devido ao forte sol das brincadeiras matinais elas usavam sombrinhas, e ao sentir as formigas lava-pés acharem espaço por entre os vestidos rodados, as anáguas e todo pano da época, as moças saltavam freneticamente, até que numa destas ocasiões carnavalescas, o avô de Jefhcardoso, João Apolônio, que em 1889 passeava em Ituverava, viu a festa e ficou encantado com a graça das moças e transportou a novidade para as ladeiras pernambucanas, onde a partir daquela data a dança seria incorporada a cultura local e ganharia status de dança regional.
Tás, até meu avô entrou no imbróglio. Eu e Zé Gob rimos pra valer ao recordar. Mas me diga, amigo: “De onde foi que tirou isso, amigo?”

quinta-feira, agosto 27, 2009

Cartas a Tás (40 de 60)


Ituverava, 27 de agosto de 2009


Sou da galhofa, do bom humor, da “brincadeira sadia” , como dizem nossos conterrâneos, sou da alegria que suplanta as tristezas sorrateiras que por ventura me assaltem no caminho. Não que eu seja um bobo alegre; do caminho conheço bem as pedras, contudo conheço também algumas vias que o tornam mais suave e apreciável.
Nestas vias é que gosto de fincar meus pés durante os dias da caminhada, porém há dias em que o trecho duro é inevitável; para estes dias trago na memória uma boa porção de momentos que remediam a alma; uma forma de autotranscendência como explica Viktor E. Frankl. Em seu livro, “sede de sentido”, ele afirma ser possível superar as dores do presente com o pensamento nas boas lembranças do passado; creio que, de certa forma, é isso que faço quando é preciso e possível; me transporto para os momentos felizes e supero com bom animo e fé em Deus as adversidades.
Tenho imenso prazer em andar nas ruas de nossa cidade cumprimentando e sendo cumprimentado até por pessoas que não conheço de fato. Gosto de ver as senhoras com suas vassouras e mangueiras a varrer e banhar as calçadas a ponto de gasta-las mais que os sapatos que as pisam. Gosto de ver os meninos em tenras idades a andar em suas bicicletas. Gosto de ver as famílias com suas cadeiras de descanso a papear na porta de suas casas nas noites quentes de verão. Meu caro amigo não tenho o objetivo de lhe deixar pesado, de lhe causar mal estar, mas desta vez não venho como das anteriores para falar-te as levezas de nossa bela morena de pele avermelhada, Ituverava.
Na verdade venho desabafar uma dor que é algo como se um espinho fosse cravado em meu músculo cardíaco e a cada pulso, a cada contração, a cada sístole e diástole, eu sentisse este espinho mover-se causando uma dor fina, pulsátil, que a cada ciclo respiratório se faz notar.
É que os últimos dias têm sido sombrios para nós, cidadãos. Houve mais de um homicídio nos últimos meses. Sei que há homicídios em toda parte; imensa covardia matar alguém por qualquer droga que seja, mas é assim desde Caim.
Li a matéria no O Progresso de Ituverava, que no cumprindo de seu dever fez noticiar muito bem. Lá traz a estatística, trás alguns detalhes cruéis dos atos de brutalidade, retrata algumas circunstancias; coisas que derrotam momentaneamente o cidadão comum, derrubando-lhe o semblante.
Não quero transcrever nenhum numero, não quero participar nenhum detalhe sórdido destes acontecimentos, apenas quero dizer que está sendo muito difícil aceitar que nossa pacata cidade é vítima, como todas em todo lugar, deste monstro assombroso que habita a escuridão do ser humano, a violência desmedida.
Não pretendo difamar nosso bom lugar, nem manchar a boa imagem, afinal, em toda parte coisas desta natureza acontecem e isso desde que o mundo é mundo, conforme citei gênesis, porém para nós que trazemos na lembrança a Ituverava do passado, mais branda, mais pacífica, com toda certeza nos sentimos vítimas da violência crescente dos tempos atuais. É uma grande pena não ser mais necessário ligar um televisor para ver que a coisa está realmente feia.Hoje estou triste demais para brincar, hoje estou pesado demais para comemorar as quase mil visualizações (870), hoje eu quero usar este bom índice de exposição para me manifestar, para dizer que nossa querida Ituverava Tás, está ferida, calada, de luto por cada vida ceifada pela barbárie.

terça-feira, agosto 25, 2009

Cartas a Tás (39 de 60); Carta Flutuante


Ituverava, 25 de agosto de 2009

Tás, old boy, veja como as coisas desta vida são engraçadas: Um dia, comovido ao vê-lo praticamente apátrida de seu terrão natal, decidi resgatar sua alma cabocla; você parecia esquecido que fora esta índia de pele vermelha quem lhe pariu na verdade; sim, Ituverava, a índia de pele vermelha que irradia calor sobre seus nativos.
Escolhi então um meio de comunicação eficiente para tal intento; a internet. Pensei em cartas, inspirei-me nas cartas que Van Gogh escreveu ao seu irmão Théo, mas pensei também, que, se Vincent tivesse internet, banda larga, em sua casa, certamente a teria usado ao invés dos serviços de correio.
Comecei como todo aquele que inicia um projeto de futuro duvidoso, com muita timidez, com muito cuidado, porém jamais descuidei do zelo e da determinação.
Propus-me a escrever 60 cartas, não mais de 600 como fez o Vincent, mas apenas 60. Afinal, após 600 cartas, o Vincent não agüentou mais aquele blá blá blá em que se tornara sua vida. E eu, na verdade, tenho mais o que fazer do que ficar escrevendo cartas ao meu conterrâneo: sem querer ser grosseiro.
Por que estou dizendo tudo isso? É simples: nestes últimos dias meu blog tem recebido um numero considerável de visualizações; sei pois instalei a ferramenta de contagem de visualizações e com memória de IP.
Amigo, mesmo sem querer, tornei-me um correspondente, digo, remetente de cartas públicas, e sinto que a nave decolou, estou no espaço internautico.
Ocorreu que desde o dia 08 de junho deste ano, como está registrado na carta de numero 9, carta do dia em que instalei o contador de visualizações, a coisa veio tomando uma dimensão que me surpreende hoje ao ver que agosto terminou e já conto 1300 visualizações neste início de setembro.

Obrigado amigo, obrigado ao Jornal “O Progresso de Ituverava”, obrigado Ituverava, obrigado a cada pessoa que tem gastado seu tempo na leitura de meus textos e contemplação de minhas fotos. Acredito que, em breve, poderemos comemorar duas mil visualizações.
Obrigado meu bom Deus!

domingo, agosto 23, 2009

Cartas a Tás (38 de 60)


Ituverava, 23 de agosto de 2009.
Ainda muito menino notava-se que aquele garoto era mesmo alguém, digamos, diferente: o que veio a se confirmar anos mais tarde. O garoto que andou somente aos sete anos de idade, falou aos nove e aos doze ia para a escola trajando fraldas por debaixo da bermudinha, era na verdade um astro de rara aparição, como um Cometa Halley que surgia, ou um acontecimento incomum no dia, como um eclipse solar total.
Sua humilde família, gente trabalhadora, em sua maioria rurícola, de mãos calejadas no cabo da enxada ou do facão, logo percebeu que seria impossível comportar os arrojos criativos do menino, seus ímpetos de gênio, seus sonhos de grandeza, sua fome por mundo.
Seu avô, o quilombola Budaquidê Zumbi do Carmo, dizia as margens do rio que corta nossa bela morena jambo, Ituverava: Um quasar é este menino, um quasar! Mal sabia ele que seu netinho seria bem mais que uma quase estrela, seria sim a maior estrela multimídia deste país de proporções continentais.
Queria sempre mais que as cercanias lhe ofereciam, queria explorar seus dons extraordinários para as comunicações. Era como o fruto que oferece ao pássaro suas sementes, com a secreta ambição de alçar vôo no aparelho digestivo da ave, a fim de ser lançado, por que não dizer, defecado, em terra distante, criando raízes e dando bons frutos, que jamais deixaram de ser frutos da terra máter.
Algumas pessoas conseguem olhar para uma pedra disforme, fria e, com golpes de entalhe, libertar de sua mente as mais belas formas, conferindo àquela porção geológica o que os homens chamarão de “obra prima”, “primazia das obras”, “arte maior”.
Outros, diante duma tela vazia, dão vazão as imagens captadas em suas retinas ou criadas em suas mentes, e com tintas e pincéis imortalizam alguém ou algo.
Há aqueles que ouvem um som ecoar em suas mentes e, com seus instrumentos sonoros, talento extraordinário, transferem as mais belas melodias que possam um dia harmonizar, dando-nos prazeres indescritíveis durante uma audição.
E não posso faltar para com aquela espécie de artista, que diante palavras aparentemente frias, constroem as mais lindas poesias, dando asas a nossa imaginação, expressando de forma marcante e única, um sentimento, até então, íntimo.
Enfim; o ser humano possui, dentre os de sua espécie, alguns filhos diferenciados, que, com seus dons divinos, expressam as mais profundas emoções e comovem até os corações mais frios e impenetráveis.Assim é o nosso querido Tás; que se não fincou raízes às margens do nosso Rio do Carmo, leva em suas veias as águas escuras que ali correm; se não mais pisa nosso chão vermelho com os pés descalços, leva em sua pele o cardume que acompanha todo aquele que aqui possui sua origem; e se não presencia hoje nossas belas tempestades de poeira, nem por isso deixa de carregar os grãos deste espetáculo da natureza em sua alma repleta de saudades: Tenho certeza disso, amigo.

domingo, agosto 16, 2009

Cartas a Tás (37 de 60)



Ituverava, 16 de agosto de 2009




Caro Tás, aqui estamos, amigo, mais uma vez a nos comunicar da maneira mais nostálgica que há para se convidar alguém a prosa. Você aí na capital não faz idéia de como são carregadas de recordações as ruas nas quais corríamos descalços sob pena de queimar a sola dos pés no asfalto quente.
Ainda hoje percorri um pedaço o qual me fez lembrar-te vivamente quando garoto. Falo da rua e da casinha onde foi um infante peralta a engendrar suas diabruras espirituosas. Quão espirituoso era o pequeno Tás!
Na infância longínqua eu tinha por hábito confeccionar pipas para as competições de agosto e setembro, quando os ventos são vigorosos por estas bandas. Eu não dispensava um cerol na linha, o que sei ser errado, mas o fazia a fim de cortar a linha de algum engraçadinho que ambicionasse por fim a nossa algazarra aérea. No entanto nem sempre meu cerol era capaz de manter o objeto colorido atado à linha que vinha na latinha em minha mão. Neste momento Tás entrava em ação, era como um cão fiel a perseguir a nave de bambu e papel que ziguezagueava a deriva após ser vilmente cortada em algum ponto frágil da linhada.
Triste dia aquele em que uns garotos mais velhos, uns marmanjos, lhe cercaram e lhe surraram nas imediações do largo velho. Mais triste fora minha atitude, que por falta de espírito, por alguma razão covarde que me tomara, talvez por medo de também levar a pior contra os marmanjos, me fiz ficar calado a espreitar de longe as barbaridades que o Alemão e seu grupo cometeram contra você, meu amigo.
Vi a tudo e não fiz nada. Este peso há de me acompanhar até o centésimo aniversário de minha vida. Este é o preço que pago e pagarei por ter me omitido no momento de sua aflição. E pior foi ver-te trazer-me a pipa nas mãos, entregar-me aquela pipa estúpida, como prova de sua lealdade incondicional. Vê-lo com o nariz escorrendo, com as roupas sujas e desalinhadas, com o semblante humilhado por ter sido vítima da gangue do Alemão, foi na verdade o início de meu martírio de consciência, amigo.
E hoje ao passar diante a casa em que viveu em sua infância, mais que uma recordação das competições de pipas me veio a triste lembrança de ter faltado com um grande amigo. Mas que o seu nobre coração saiba me perdoar esta falha, pois muitas foram as enrascadas que se meteu e não lhe faltei.

domingo, agosto 09, 2009

Cartas a Tás (36 de 60); Thunderstruk

















Ituverava, 09 de agosto de 2009, dia dos pais.


Devo interromper a seqüência do conto “O Contador” para recordar a memorável noite do dia dos pais na Praça 10 de Março, em agosto de 1980.
A praça 10 estava repleta de famílias que perambulavam em seus melhores trajes. Naquele domingo a prefeitura havia montado uma estrutura para apresentações musicais no coreto da praça.
Duplas sertanejas aqueciam suas cordas vocais com notas agudas e graves. Os violeiros dedilhavam seus instrumentos e afinavam caprichosamente as cordas. Corais de vozes também se preparavam para a cantoria.
Meninos de cabelos lavados, úmidos e bem penteados para o lado, lambiam seus sorvetes, abocanhavam seus chumaços de algodão doce. As meninas, com fitas nos cabelos, exibiam seus belos vestidos rodados. Senhores e senhoras, apesar de toda simplicidade, vestiam-se da melhor maneira que lhes era possível. Todos trajavam as suas “roupas de ver Deus” como diziam; o que nunca discerni se era uma referência ao traje com que se iam as igrejas aos domingo, o que me parece mais provável, ou se era a roupa com que se vestiria um individuo defunto em sua última aparição pública, o velório.
O mendigo trovador, Tonzinho Capeta, destoava de todo aquele capricho e espírito festivo. Empunhando uma garrafa de cachaça, quase vazia, gritava seu pseudo-sermão aos quatro ventos, a todo pulmão, anunciando o que seria o fim do mundo, à volta do Divino, bem ali, na Praça 10 de Março em Ituverava; justamente naquele domingo em que se celebrava o dia dos pais.








Todos ignoravam a mensagem apocalíptica do mendigo, até que o jovem Tás, vestido todo de preto, com sua imensa boina na cabeça, tomando o plug de um cabo entre os dedos o conectou ao amplificador principal e começou a dedilhar o instrumento “satânico”, que havia comprado com o dinheiro supostamente surrupiado da cesta de oferendas da igreja.
Todos se afastaram assustados, os adultos tampavam os ouvidos das crianças e protegiam a face dos pequenos contra seus corpos. Era o som de Thunderstruck a causar terror a todos; anos depois AC/DC a gravaria. O som ecoava aos quatro ventos com grande estrondo em meio aos trovões que seguiram aos primeiros acordes.
Apenas Toizim Capeta teve coragem para postar-se diante do coreto-palco; mais que isso, Toinzim dançava freneticamente, entornava a garrafa em grandes goles, murmurava na introdução juntamente com a voz estridente do interprete ituveravense, ria a gargalhar, olhava para a população perplexa e indagava: “Não falei que era hoje que o mundo acabava?” E ao dizer estas palavras rindo e rebolando, a cachaça escorria pelo peito. O mendigo imundo dançava quando sacou um cigarro e, aparando o forte vento com a mão esquerda, aproximou-se de um pequeno fogareiro de uma lixeira a fim de acender seu cigarro. Foi então que as chamas lhe abraçaram. Mesmo ardendo em chamas o homem não parava de dançar. Crianças choravam, adultos se benziam e Tás, arrebentava Thunderstruck. Era como ver a fusão de Brian Jonhson e Angus Young numa mesma pessoa.Fora aquela uma noite terrivelmente memorável! A melhor apresentação solo de Thunderstruck que alguém pode um dia conceber. E o único fato positivo em toda aquela tragédia, foi que, Toinzim jamais tornou a fumar ou beber.


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