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sexta-feira, fevereiro 27, 2009

DECRUAR UMA EXPECTATIVA (PARTE I)

DECRUAR UMA EXPECTATIVA (PARTE I)


Ao ver uma expectativa que venha acompanhada de certa dose, não homeopática, de pessimismo, é sobremodo crua, cruel e primitiva.
A ansiedade é fria, transcorre lado a lado com as horas que precedem a certo desfeche encortinado, que já mora a algum tempo por detrás das cortinas. É na verdade a ânsia da alma ansiosa, que se pudesse vomitaria toda aquele mal digerido infortúnio, que causa pequenos disparos do coração; uma leve “ardênciazinha”, fruto de uma molécula qualquer de adrenalina que me escapa às glândulas, contaminando meu sangue, cada vez que penso na causa da expectativa.
Com os olhos fixos à porta, outra hora no relógio, sem saber se ela ao entrar me diria o que queria ouvir, e ou se simplesmente me rejeitaria; eu senti naquela manhã o agigantar-se das horas, que na soma de alguns minutinhos já ia parecendo uma manhã daquelas: imensa, longa, gigantesca, cruel, fria e primitiva.

Da última vez que a vi, isso na semana passada, ainda me dói a chaga causada, que não cicatriza assim, dentro de uma semana apenas, na verdade é ferida de difícil cicatrização, que a cada vez que tentamos descobrir sua causa , ou profundidade, ela sangra outro pouquinho e dói mais um bocadinho: _Penso que hoje ela possa estar me trazendo um remédio bendito, uma fórmula revolucionária que não apenas me fará cicatrizar instantaneamente a ferida da semana passada, mas também me trará a alegria da saúde plena, da saúde que transborda ao sentirmo-nos não apenas sadios, mas vigorosos, juvenis, cheios de motivos para sorrir e orgulhosos de tanto vigor a nos correr pelas veias.

Agora deixe estar, é que estas linhas não me trouxeram grande alívio, na verdade só fiquei livre desse manto sufocante e frio da dor, pelos minutinhos em que me ocupei de construir estas frases jogadas ao papel. Continuarei aqui a esperar aquela que vem com enorme mistério e decisivos desígnios.


Mas antes faço saber, que nesta mesma manhã, onde espreito as minhas incomodas feridas, como pai zeloso se preocupa com o futuro de filhas, também consigo rir das bobagens corriqueiras, que por ventura me surjam com o dia. Falo de uma mesma manhã e não de duas, mas dentro de um mesmo período matutino podemos viver situações distintas. Isso é fato que asseguro e afirmo.
Para distrair-me das dores, fui até a padaria, e lá comprei alguns pães. Ao passar pelo caixa fui premiado, e ganhei um brinde no valor de aproximadamente duzentos pãezinhos; veja bem, o prêmio não era em pão, mas equivalente apenas; aos quais, em minha casa, consumiríamos dentro de uns cinqüenta dias. Parei por não mais que uns dois segundos e conclui: _Que graça teria, eu que compro pães todos os dias, gastar o prêmio equivalente a 200 pãezinhos em pãezinhos? Na verdade eu poderia consumir o que quisesse nos produtos dali, então conclui meu raciocínio num piscar de olhos: _Graça nenhuma teria; afinal, meu bom Deus, não nos deixa faltar o pãozinho nosso de cada dia, sendo assim, mais proveitoso será o prêmio se consumi-lo em doces, sorvetes e coxinhas. Ri, interiormente com a minha conclusão, que exibia meu espírito juvenil, mesmo diante de uma situação angustiante, que fosse na verdade o grande acontecimento daquela manhã. Guardei então o cupom do prêmio no bolso e o consumiria exatamente conforme me propus, ao cabo de 10 dias, sem pagar com o prêmio um único pãozinho que fosse, afinal, pão é coisa que compro; “sou aquele que compra pães em minha casa”.
Voltei para minha espera, voltei à expectativa, mas agora com um prêmio equivalente a 200 pãezinhos e vislumbrado com meu espírito despojado e juvenil. Voltei para espera angustiante...

Quer saber como termino, eu quero dizer, mas façamos o seguinte; eu posto a próxima parte assim que contar três comentários sobre este texto. Até lá a seqüência ficara aqui, bem guardada. Apenas adianto que ela chegou. Obrigado por sua atenção e aguardo seu comentário.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

A QUARTA FEIRA DO BRASIL DE CINZAS

A QUARTA-FEIRA DO BRASIL DE CINZAS


Mais um carnaval veio, sorriu e partiu
Ardeu em chamas e expirou em cinzas.
Novamente eu fiquei aqui: _Não pulo por ti...
não sorrio contigo... não sou teu... não sou assim.
Apenas assisti um pedacinho aqui, outro ali.
Há quem lhe espere muito!
Dizem que alguns só lhe esperam.
E você veio sem falha nem atraso
As pessoas brincaram cada qual a sua maneira;
Iludidas, alegres, libertas da seriedade rotineira.
Fez tantos brasileiros mais felizes em ser!
Eu fiquei aqui, não cai nas tuas graças:
_Não me dou a ti... nem minha religião me permiti.
Mas foram muitas as coisas que vi
Vi bonecos gigantes e frevo descendo as ladeiras pernambucanas
Vi um farol da barra em Salvador estender-se por uma orla de gente
Vi São Paulo sonhar em ser Rio,
Vi um Rio ser mais Rio do que sempre.
E vi um Machado de cem anos de memórias póstumas
Ao lado de um Guimarães com cem veredas de histórias
E tudo que vi terminou em cinzas
Assim como terminou em cinzas tudo para que sorriram
Não fui menos brasileiro por não seguir teu cortejo
Ainda que combatente da folia,
Não há brasileiro que não seja, ao menos um pouquinho que seja; carnavalesco
Ah, quanto às musas...nem reparei direito,
mas acho que devem ter sambado bem,
Assim, merecem um poema.
E que mais uma quarta em cinzas amanheça.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

A NOITE


A Noite


A noite é minha amiga intima
Mora na rima dos poetas e também na minha rima
Esconde em si a claridade quando devora o dia
Dama fresca, dona do silêncio que tanto amo
Possuidora da escuridão que tanto me assusta
Generosa, mostra-me todo céu numa face oculta.
Envolve todas as casas em seu longo véu de luto;
Esta de preto todo dia,
A quem honras com teu supremo luto?
Eternamente nos abriga nessa redoma de negrura.
O perfume é sereno em tua chegada,
Mas ao partir o aroma do orvalho é quem perdura.
Geniosa, anda eternamente brigada com o dia!
Trava com firmeza a batalha do crepúsculo,
E ao alvorecer, vem a promessa de uma nova luta
As cidades apaixonadas se enfeitam somente para ver-te,
Luminares erguem em tua homenagem
Você olha tudo com naturalidade,
Acho que beira o descaso;
Letreiros, luzes, avenidas, vitrines, carros e mais carros;
Tudo, tudo busca agradar-te.
A noite é minha melhor amiga,
Nela confio o meu sono mais profundo,
Retribui-me carregando o cansaço para não sei onde neste mundo
Faz-me sonhar os sonhos que jamais ambiciono em vigília diurna.
Deus Pai Celestial de nós todos;
Vá, e enfia a mão em seu pote milagroso,
Lança sobre a tela negra as pedrarias azuis
E se a noite for de luar...
Noite, dama caprichosa,
Diversa lua apresente;
Vista hoje tua filha mais bela completamente,
Ou deixe meio busto reluzente,
Como a um ombro sobressalente,
Noite amiga, noite profunda;
Num véu escuro esconda a princesa lua,
E ainda assim reine sobre a alma do poeta,
Sobre no sonho do romântico,

E traga descanso ao trabalhador enquanto durma.

sábado, fevereiro 14, 2009

Gladiator X Besta Fera

Gladiator X Besta Fera


O lugar, um destes confins da terra dos sonhos que nem se sabe o nome ao certo; e de fato, só existe na imaginação fértil. O ano, um desses que já passaram há séculos e mais séculos, cujo registro o tornara duvidoso de veracidade, todavia, o fato não vai com o mesmo tom das circunstancias de lugar e tempo, o fato é algo interessante de se narrar, veja como o narro:
Durante muito tempo, Gladiator passou por aquele bosque sem ser de fato importunado, talvez fizesse aquele caminho há dez, onze, doze anos quem sabe. Havia sempre em seu caminho uma estranha criatura, que exibia seus dentes afiados e sujos, e rosnava quando via o guerreiro passar. Era uma tentativa de inibi-lo, de intimidá-lo, como fazia com todas criaturas que viviam ou passavam por aquele bosque fabuloso. Mas Gladiator nunca foi homem de se intimidar com grunhidos ou dentes a mostra, na verdade deixava estar. Passava, reparava no comportamento esquisito de Besta Fera, pois assim era conhecida tal criatura, Besta Fera. No entanto, não dava maior importância àquele comportamento primitivo da animalesca criatura, seguia em seu caminho, pois tinha que passar por ali, e via a criatura, pois esta estava ali em todas passagens que fizera.
Gladiator passava toda vez que era necessário atravessar o bosque, não desviava da estradinha de terra, afinal, esta era a única via para a travessia do bosque. Ia e via, mas fingia ignorar o comportamento da fera, achava que esta era a melhor maneira de não se encolher nem desrespeitá-la. Na verdade Gladiator evitava um confronto, pois a achava uma criatura, digamos, meio falta de autocontrole, e temia as conseqüências de um eventual embate; Gladiator não possuía em sua natureza propósitos de guerra, apenas fazia o que era necessário para a manutenção da paz, para com quem estivesse em seu caminho.
Entretanto, como que para tudo que há no mundo, existe um dia para o fim, a situação que perdurava por anos, encontrou numa tarde de primavera o seu protelado cabo.
Enfim, se deu o tão adiado combate.
Gladiator vinha em sua rotina diária, quando notou que besta fera se interpôs em seu costumeiro caminho, sabia que um dia isto ocorreria, não estava de todo desprevenido, exceto pela surpresa que acompanha ás vítimas do ímpeto alheio. Besta fera não permitiu a passagem do guerreiro, colocando-se no exato ponto estreito que esse teria de percorrer, para chegar à outra extremidade do bosque, a fim de buscar a água necessária a sua sobrevivência e de sua prole. Estava armado então o palco da grande contenda; contenda que se deu, somente após inúmeras passagens de relativa calma. Era realizado o convite para curvar-se ou acender ao combate. Mas não perca de vista que aquele guerreiro era na verdade um homem de paz, a guerra era apenas seu ofício, nunca criava tais situações belicosas, apenas combatia quando era convidado por circunstâncias especiais como aquela, por exemplo. Não era ele quem declarava, ou instituía uma guerra, mas era quem guerreava quando a guerra era instaurada. Diplomacia não era, nunca fora o seu dom maior, mas mesmo assim tentou dissuadir Besta Fera de tal confronto de armas dizendo:
_Besta Fera, sabe que é a criatura de maiores recursos de combate entre todas deste grande bosque, porém acho desnecessário o uso de força apenas para firmar sua soberania aqui dentro destes domínios. E continuou em tom de respeito: _Você sabe muito bem, que preciso passar por esta estrada, para defender a sobrevivência minha e de minha gente, sendo assim, aconselho-te a ponderar e tornar possível minha jornada pacifica, que de maneira alguma tira seu sossego ou diminui a tua imagem de soberana deste bosque.
A Fera agiu como se tivesse ouvido uma afronta, talvez aquilo, aquela demonstração de bom senso, alimentara ainda mais seu desejo de medir forças com o guerreiro, e ao ouvir aquelas palavras começou a afiar suas imensas e maciças garras. Era vaidosa, com esmero as afiava, gastou tempo para isso, tempo esse que serviu em favor de Gladiator, que o aproveitou para formular ali, rapidamente, valendo-se de sua experiência de combate, uma estratégia que lhe desse alguma vantagem na luta. Nosso bom soldado não era dotado de grande estatura, não possuía vantagem física sobre os de sua espécie, era um tipo bem comum, desses que passam perfeitamente desapercebidos em meio a uma pequena multidão que seja. Mas era astuto, e soube o momento exato de atacar Besta Fera; esta ainda preparava-se para investir contra o guerreiro quando em uma corrida, seguida de um grande salto, Gladiator a atingiu direto na boca com um golpe de clava, que era, junto com uma faca, suas únicas armas naquela travessia. Besta Fera arregalou os olhos, ao sentir que suas presas haviam sido abaladas, já no primeiro golpe do guerreiro. E partiu para cima do guerreiro instintivamente, numa atitude desordenada, e levou então o segundo golpe contra sua boca já avariada. Neste segundo golpear as presas que já haviam sido abaladas pelo primeiro golpe, tiveram então entre elas suas primeiras baixas, e foram ao solo, causando pavor em Besta Fera, que ainda não havia sido atingida com tamanha objetividade e segurança por um adversário. A Fera, visivelmente abalada pela desvantagem no combate, recuou para dentro de uma caverna, disse que voltaria com mais força mais tarde, e que Gladiator estaria destruído em pouco tempo. O guerreiro ficou plantado diante da caverna. Pareceu-lhe claro que não passava de mais um blefe, daquela triste criatura que vivia de aparências. O tempo transcorreu e antes de findar a tarde Besta Fera saiu da caverna desconcertada, certificou-se que nenhuma outra criatura do bosque a via naquela situação vexatória, porém eram muitas ás criaturas a saborear o tropeço da tirana, as criaturas observavam por de trás da densa folhagem, atrás das árvores, em cima da caverna, e em toda parte.
Gladiator aguardou para ter certeza de qual seria a intenção da criatura, uma vez que lhe imporá a derrota. A criatura aceitou a situação que ela mesma proporcionara, voltou para seu lugar no alto de um pequeno morro, logo acima do trecho de estrada, na qual tentara impedir a passagem do guerreiro.
Gladiator ao ver Besta Fera abatida, não disse nenhuma palavra, apenas abaixou, apanhou alguns odres que levava atados uns aos outros, e seguiu seu caminho rumo a fonte situada nas profundezas do bosque.
Daquele dia em diante, tudo continuou como estava, como sempre fora, porém, se Besta Fera via que Gladiator se aproximava, não o encarava como antes, nem rosnava, apenas espreitava a passagem do bom guerreiro da paz, e se este a olhava ela baixava seus olhos e mais nada.
Assim encerro minha narrativa do combate entre Gladiator e Besta Fera, e ao leitor deixo a liberdade das conclusões e das morais da estória.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

O Sr. e o Dr.

Ao ser levado a presença daquele Sr de seus maturados 84 anos, estava na verdade indo rever um bom pedaço de minha infância. Afinal aquele homem de baixa estatura, tórax roliço e finas pernas de passarinho era figura muito frequente nas ruas mais movimentadas de minha terra ha uns 20 anos.
Vestido com um jaleco branco sentava com boa postura em sua “motoquinha”, percorria toda cidade com seu jeito lépido.
Mas agora ele se encontrava muitos anos à frente daqueles dias; e já não mais conservara sua autonomia para o ir e vir a toda parte. Pior ainda, naquele momento sofria com a recuperação de uma fratura no fêmur, ocorrida após uma queda dentro de sua própria casa. _Quão dura é a realidade do ancião que de andar dentro do próprio lar, pode quebrar-se ao chão, isso quando não se quebra de pé, sem mais nem menos, indo apenas posteriormente ao solo, ao que chamam de fratura espontânea. Mas retornemos ao nosso “continho”.
Dia após dia, sessão após sessão, meu novo amigo ancião, recuperava sua capacidade para as atividades de locomoção, até atingir o ponto de dar os novos primeiros passos. _Digo novos, pois os primeiros verdadeiros são dados na tenra infância, quando nossos corpos, constituídos daquelas carnes parecidas com borracha de apagar lápis, não sofrem com as quedas, que significam nada, senão umas desventuras mínimas, próprias daquele aprendizado.
E foi justamente após os tais novos primeiros passos, que ocorreu a situação que merece agora ser narrada. _É que, quando envelhecemos e passamos para guarda dos nossos descendentes, a coisa toda toma contornos bem engraçados.
Meu amigo ha muito ostentava uma fama de sujeito levado, manhoso, teimoso, e especulativo, o que eram até certo ponto verdades. No entanto, quando a recomendação fora para que o homem, munido de um andador, e com uma acompanhante ao lado, fizesse pequenas caminhadas no interior da sua casa, logo veio o mal falado e em tom confidencial: _Dr, fale com ele, pois ele está terrível, não quer andar nada, esta preguiçoso que só vendo.
Com bom humor cumpri o mandado dizendo: _O senhor precisa caminhar, ainda que por cinco minutinhos a cada período, isso fortalecerá suas pernas, os músculos e os ossos.
Ele me olhou atento, concordou com uma inclinação de cabeça, e um levantamento do ângulo de uma sobrancelha, de maneira que poucos sabem usar tal expressão como sinal de concordância.
Na sessão seguinte nova queixa: _Dr, ele esta impossível, vai da sala ao banheiro desacompanhado, em tempo de sofrer uma queda, mas ele é mesmo rebelado, não espera por ninguém. Converse com ele Dr, ao senhor ele irá ouvir.
Meu serviço dessa vez foi mais sujo, me vali do terror, mas sem perder o bom humor: _Olha, o senhor não deve andar desacompanhado; eu disse, _para evitar um acidente, um outro tombo pode deixá-lo complicado. E com ele a olhar-me conclui: _ Seja lá, qual for o caso, de incêndio a urgência de banheiro, só ande se acompanhado.
Ele não sorriu como eu esperava, mas com a cabeça inclinada para o lado e o ângulo da sobrancelha levantado, pareceu-me ter concordado.
Mas não vá pensando que acabou aí o caso, veio nova sessão, novo recado: _Dr, eu preciso falar novamente com o Sr, é que o seu paciente está muito acomodado, ele agora só quer ficar deitado, toma café e vai para o sofá, de onde não sai nem com reza brava. Fale com ele, Doutor.
Temendo entrar numa difícil rotina de sermões ao ancião, tratei de convocar todos à sala, para por logo um fim aquela questão. Fui catedrático na exposição da sentença do réu, que naquela altura já parecia um réu pagão: _O Sr precisa andar, mas só acompanhado, e esse negócio de ficar o tempo todo deitado, pode lhe resultar em um pulmão infeccionado, portanto, tome cuidado.
Com todos em redor e o pobre no centro sentado, dessa vez ele só me olhava, acho que já se sentia por demais sentenciado. Seus inquisidores, não contentes, fizeram questão de tornar o terror dobrado e disseram: _Dr, se ele fizer algo errado, nós ligaremos para o senhor.
Eu já não podia mais compactuar com aquele engessamento generalizado do pobre coitado. Então, com expressão séria, voz firme e olhar vidrado, disparei: _Isso, me liguem, me liguem que chamarei meus capangas e eles darão um jeito nesse danado.
Ele novamente não riu, tampouco inclinou a cabeça para o lado, em contraposição seus inquisidores gargalhavam.
Pois é, se toda brincadeira tem mesmo seu fundo de verdade, meu novo amigo ancião continuará recebendo sermão, por ficar de pé, deitado e certamente quando sentado.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Às Três Senhoras

Três idades, três vidas, três histórias...
Uma casou-se, teve filhos e netos, bisnetos virão logo.
A outra adoeceu, não se casou e nem teve filhos; não terá rebentos de si à sua volta.
A terceira, por amor, por caridade, deu sua vida pela segunda; tornou-se fiel cuidadora; um anjo que zela!

Três momentos, três vidas, três sonhos...
E quem é que não sonha?
A que se casou conheceu o lado bom e o outro do matrimônio;
A do meio, ao adoecer, amargurou o esfacelar de tal sonho;
E a caçula viu passar pretendente, suspirou até, porém fechou as cortinas e entregou-se à caridade completamente.

Tuas belezas, minhas senhoras, não acabam;
Carnes sim mudam o tempo inteiro; peles ficam flácidas, abrigam rugas;
Sei que agora em absoluto não agrado;
Porém não venho para tornar a realidade menos severa;
E quem pode me censurar por lapidar vaidade em pedra bruta?

Agora falo como se encontrasse as três na alma de apenas uma:
Teus cabelos já foram fartos e hoje são escassos;
Se foram louros como ouro ou negros como a noite sem lua, em prata se tornaram;
Prata purificada na fornalha do tempo;
Branquejaram dum branco puro, assim como é tua alma, repleta de saudades;
Do presente sente o gosto, mas no passado é que ficaram as delícias da tenra idade.

Pois, na aurora, o que era gozo e regozijo,
Ao entardecer, revelou-se fugaz e perecível;
No teu rosto entalhes e vincos, marcas e traços profundos, íntimos;
No olhar, bem no entorno, figura triste expressão, mesmo num sorriso bondoso;

Sei que por conta das diferenças já brigou com o tempo;
E chorou quando o viu roubar-lhe a pele lisa;
Lutou quando ele lhe trocou as formas leves e sutis por outras menos esguias;
Desesperou-se quando não se reconheceu numa manhã primaveril diante o espelho:
"Impiedoso tempo, mestre de frio ofício, maldito, maldito!", disse num desatino.

Mas não chore; a beleza não se fora, apenas mudara;
Acredite, tu és bela mesmo sendo dona de teus oitenta!
É musa aos noventa!, e nem um século de vida lhe tornaria menos fêmea;

Que importa se já tiveste anos muitos menos?
Teve e já não os tem, não é segredo que nada de fato nos pertence;
Mas saiba que és bela!
Não das paixões juvenis despertas,
Mas da vida humana;
Trás em si a beleza da experiência.

Aceite o novo que vem com a velha aparência;
Beleza tua nunca acaba;
Muda...
Cada tempo possui sua formosura;
E cada senhora sua beleza única.

Por Jeferson Cardoso de Matos, fisioterapeuta.

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