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sábado, dezembro 12, 2009

O Cobrador - Parte VI


O grupo de populares dividiu-se. Alguns foram ter com o pastor Martinho e os outros foram até o padre Agostinho.
Os que foram ter com o padre o encontraram dentro da igreja, ajoelhado, com um terço envolto nas mãos fazia uma oração, aparentemente, de súplica. Os homens lhe participaram de todos os fatos recentes ocorridos na praça. Ao ouvir a narração assombrada dos populares, padre Agostinho teve um princípio de desmaio; talvez ocasionado pela batina, que mesmo mediante o forte calor que vinha castigando a todos, o religioso não a abandonara.
Levou alguns minutos para que o padre recobrasse os sentidos. E após titubear por alguns instantes concordou em ir até a praça, porém impôs algumas condições. Iria, contanto que antes montassem uma procissão, quem sabe até uma grande vigília com as beatas mais experientes: _Para dar uma retaguarda, pois este “coisa ruim” parece mesmo ser dos bravos. Justificou o padre.
Os populares ressaltaram que já não havia mais tempo nem pessoas disponíveis para estas manobras religiosas, e que seria melhor irem de imediato até a praça antes que a cidade acabasse em cinzas.
O padre ponderou que não seria sensato insistir com suas petições, contudo pediu para que aguardassem por um instante, adentrou a sacristia e alguns minutos depois retornou com varias garrafas cheias d’água, pedindo para que lhe ajudassem a carregá-las. Esta atitude causou surpresa nos fiéis que o aguardavam tensos e imediatamente lhe indagaram: _Mas padre, para que esta água, o incêndio é em torno da cidade e não na praça? Na praça o que há é apenas fumaça e “o coisa ruim” a soltar fogo pela boca.
Padre Agostinho teve outro princípio de desmaio, precisou ser amparado novamente pelos fiéis, e ao recobrar os sentidos explicou que o conteúdo das garrafas tratava-se de água benta para aspergir no...você sabe quem; e que isso era totalmente indispensável; que seria eficaz tal qual flor de alho para vampiro.
Sem concordar nem discordar os homens apanharam as garrafas e seguiram a passo pesado, porém decidido. O religioso vinha logo atrás aspergindo água benta nas costas de seus servos e proferindo rezas por todo o caminho. Vez ou outra os fiéis paravam a fim de acertar a marcha com o padre que ia ficando para trás, uma vez que suas pernas senis já não lhe favoreciam mesmo em condições normais; naquelas então...
O calor era demasiado. Apesar de se aproximar o final da tarde e sol já estar se pondo o mormaço seguia intenso.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, as pessoas do grupo que foi ter com o pastor Martinho o encontraram diante da porta de sua igreja, de pé postado na calçada, e com a bíblia em punho ele apontava o indicador na direção da praça e bradava: _Saia dessa cidade que não lhe pertence, bata em retirado, eu ordeno; em nome de Jesus eu te ordeno que retorne para as profundezas de sua casa! E concluía por diversas vezes batendo com o pé direito vigorosamente contra o solo e dizendo: Está quebrado, em nome de Jesus, está quebrado!
Os homens o saudaram. O inteiraram dos últimos fatos e pediram para que pastor Martino unisse forças com o padre Agostinho, para que juntos formassem uma ampla frente religiosa e promovessem um grande exorcismo ecumênico.
O pastor ouviu a idéia com atenção, mas antes mesmo que terminassem a exposição já olhava com ar pensativo seguido pelo de reprova; porém, antes mesmo que o pastor Martinho concordasse ou discordasse da sugestão, os homens o tomaram pelos braços e, praticamente o erguendo do solo, levaram-no de arrasto até a praça.
O outro grupo já se encontrava diante do que seria o palco da “batalha santa”, conforme anunciavam os observadores de debaixo do imenso pé de jaca defronte para a praça.
Os fiéis abanavam o padre Agostinho, bebiam água benta e a despejavam nas cabeças a fim de amenizar os efeitos do calor.
Aos poucos a fumaça fora dissipando. Naquele momento fez-se possível avistar o “mendigo” no centro da praça. Este havia abandonado seu livro e prostrara-se de joelhos, exatamente como fizera ao cair da tarde na véspera.
O grupo de populares disse ás autoridades religiosas que, daquele momento em diante, seria com eles; e afastando-se deixaram o padre e o pastor entregues a sorte divina. Mas fizeram questão de firmar que estariam de longe a pedir para que Deus os protegesse e que os livrasse de uma desgraça. Os religiosos, diante da praça, puderam vê-la ser descortinada por completo ao sopro dum vento morno e nauseante que incidiu naquele exato momento.

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