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terça-feira, dezembro 01, 2009

O Cobrador - Parte II



Aquela noite entraria para os anais da cidade como uma das mais quentes de toda sua história. Certo era que, quem não dispunha de recursos de resfriamento, coisa rara no local, não pregou os olhos por um minuto confortante que fosse; na cama era um rolar sem fim, como se as pessoas se deitassem em uma frigideira quente e fritassem.
Banhos frios, toalhas nas janelas escancaradas, corpos sem se enxugar, portas abertas, alguns até colocavam suas camas nas varandas, outros se deitavam pelo chão, mas nada, absolutamente nada trazia uma brisa fresca que fosse para aliviar aquela tormenta. Tudo era uma única ardência em brasa lenta, liberando um intenso mormaço, que causava intensa transpiração.
Amanheceu, e aos primeiros raios de sol o “mendigo” era visto fora da posição de oração em que aparecera na véspera. Alguns diziam que durante toda noite o homem permaneceu de joelhos com o rosto rente ao solo. Se isso era verdade ou exagero já é outro fato.
Agora o homem retomara em suas mãos o grande livro reiniciando sua leitura com o mesmo afinco já observado antes.
O sol logo que surgira apresentou um brilho intenso, e às seis horas da manhã já era quente como normalmente seria ao meio dia. Aquilo assombrou sobremodo os moradores do local, as senhoras se benziam e diziam ser o sinal dos tempos, os senhores se benziam e concordavam, as crianças choravam e berravam sem trégua, enquanto eram bentas pelos adultos. Uma grande tristeza.
A cidade, famosa pelo quanto era quente, ostentava o título de ser uma das mais calorosas do estado, mas aquilo era algo fora do comum, um exagero.
O “mendigo” lia indiferente ao incômodo que fazia com que todos penassem. Era como se não se incomodasse nem um pouco com o calor. Defronte para seu livro, iam minutos, iam horas. Movia-se raramente para ajeitar-se ou virar uma folha; lia aparentemente muito concentrado em cada trecho, do início de uma pagina ao cabo da seguinte; parecia um ótimo leitor diante de um magnífico clássico.
Enquanto isso, a cidade se agitava, efervescia, convulsionava. As pessoas abandonavam suas tarefas em busca de sombra, ou permaneciam imóveis a fim de economizar as energias e não aquecerem-se ainda mais por movimentar-se. As ruas ficaram quase desertas, e quem se arriscava a sair logo buscava algum refúgio ao abrigo do forte sol. Naquela altura dos fatos era raro ver quem se abanasse, pois ficara claro que, até esta ação, além de infrutífera, por tratar-se de mover ar quente, só agravaria a já desconfortável sensação térmica por exigir movimentos contínuos.
Com aquela situação extrema, pouco antes do meio-dia, o acanhado hospital local via-se movimentado como em poucas ocasiões estivera durante toda sua história. Crianças, idosos, adultos de todas as idades, uma multidão de pessoas adentravam o estabelecimento com sinais claros de profunda desidratação.
Enquanto muitos eram atendidos, outros tantos aguardavam impacientes por sua vez. Um cheiro de excremento misturava-se ao que refluía dos estômagos frágeis através das bocas, impregnando as narinas; tudo ia compondo uma atmosfera mórbida e pesada, que logo tomaria cada centímetro cúbico daquele local.
As faxineiras, munidas de baldes, panos e rodos, lutavam freneticamente, num verdadeiro esforço heróico, para manter limpo o local. Esfregavam seus panos embebidos em uma solução de água e cloro, porém isto apenas somava-se aos odores dos excrementos, e a composição do todo se tornara ainda mais acre e nauseante.
As pessoas se queixavam a todo instante, e não demorou muito para alguém sugerir que o forasteiro seria quem trouxera aquela onda de calor insuportável. Logo eram muitos que diziam frases como: “Bastou o sujeito chegar para a coisa ficar feia. Este homem é um feiticeiro, e enfeitiçou a nossa cidade! Foi o coisa ruim quem enviou este...”
Mas nem todos eram supersticiosos para concordar com aquelas afirmações, porém, na falta de uma explicação plausível para aquele fenômeno, a crendice ia ganhando adeptos de última hora; como é bem o costume de todo lugar pequeno.
Logo, não demorou a chegar ao conhecimento das autoridades locais tal comentário primitivo. Contudo, as lideranças preocuparam-se em providenciar condições para contornar a imensa onda de calor, com o mínimo possível de danos. Entraram em contato com os municípios vizinhos, que estavam livres daquela onda incandescente, e pediram socorro. A vizinhança, por sua vez, fora solicita, e comprometeu-se em ajudar no que fosse necessário, dentro do possível, é claro. Forneceriam desde mantimentos, suprimentos hospitalares, até vagas nos seus próprios serviços de saúde.
Mas o tempo parecia correr lento, porém contrário aos mais otimistas. As imagens pareciam disformes no asfalto; o calor não diminuía, seguia forte e opressivo, progressivo e continuo.
E quando tudo parecia ter atingido o ápice da calamidade... Veio de uma só vez, num só golpe, ás piores notícias possíveis e imagináveis:
Ocorreu que as vias de acesso e saída da cidade foram completamente interditadas; a entrada principal fora bloqueada por um caminhão de combustível que ali tombara, explodindo e incendiando toda passagem e o entorno imediato. As chamas escorriam lambendo o asfalto, devorando tudo o que havia próximo; mato, instalações, etc. Tudo era rapidamente consumido pelo fogo.
As outras duas vias secundárias foram atingidas pelo fogo, que logo dominou também os canaviais que circundavam toda cidade e margeavam a principal rodovia. Ao redor da cidade formou-se um cinturão de fogo. Nas pistas de terra, era possível ver as chamas nas duas margens; como se fossem mares vermelhos a arder, estreitamente apartados pelo cajado de Moisés. As chamas arrasavam as lavouras, as reservas, as propriedades. Consumiam tudo que se via em redor; uma lástima.
Em poucas horas toda fiação elétrica fora destruída, comprometendo o abastecimento de energia. O céu fora todo tomado por uma densa massa de fumaça; ficando assim intrafegável. E para a infelicidade tornar-se completa, a companhia de telefonia, que não era das melhores, por ironia do destino, devido a uma chuvinha de nada que caíra naquela tarde sobre sua cidade sede, tivera todo seu sistema de telefonia, fosse fixo ou móvel, interrompido por prazo indeterminado.
As últimas pessoas que conseguiram um sinal nos seus telefones ouviram como últimos contatos a seguinte mensagem: “Estamos encontrando dificuldades para manter nosso sinal devido à queda de uma torre; nossos técnicos já foram enviados ao local; em breve restabeleceremos a normalidade de nossos serviços; contamos com a compreensão dos senhores clientes usuários; obrigado!” Aquela mensagem era sinal de prazo longo, indefinido.
Em poucos minutos a situação ficou ainda pior, pois já não se ouvia mais nem a mensagem da companhia.
A cidade agora ficara completamente isolada; sitiada pelas chamas, coberta pela fumaça, e incomunicável devido à impagável companhia de telefonia.

6 comentários:

  1. olá gostei do seu blog também, como amo ler
    principalmente romances, poesias, filosofia e outos, sempre posto e as vezes escrevo alguns.obrigado por sua visita. ofereçoa ti meu selo de amizade.Epodes ter a certeza de que iriei visita-lo mais vezes
    bjs Luciana saldanha
    blogdalusaldanha.blogspot.com

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  2. Obrigado por sua gentil retribuição; aguardarei em boa expectativa mais visitas de sua parte; também lhe visitarei sempre.
    E que seja selada nossa jovem amizade!
    Abraço: Jefhcardoso.

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  3. obrigada por seu comentário tão lindo! quem tem a honra de te-lo como amigo sou eu. bjs a ti

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  4. Repito o que esta acima descrito! Mesmo que a felicidade caia do céu é preciso estar na hora e no lugar certo> Mova-se!

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  5. é verdade mais obrigada pelo comentário :)
    beijos

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