Amigos

sábado, novembro 07, 2009

A Solidão Do Ancião - Parte I de II



Naquela manhã o ancião não quis buscar o pão como fazia quase todos os dias. Havia desjejuado os últimos pêssegos submersos em calda em uma grande lata, que ficara aberta sobre a mesa; comeu-os com um creme branco. Olhou pela janela da cozinha, que dava para um pequeno jardim de arbustos secos e grama rala, suspirou, com o olhar fixo no muro coberto por musgo nas extremidades, deixou a lembrança tomar conta de seu pensamento enquanto o olhar ia inerte. Suspirou novamente, e após alguns minutos, partiu com as mãos no bolso do velho e desbotado paletó cinza.
Sentou-se na sala, começou a folhear um livro antigo, poeirento e de paginas amareladas, ergueu-se, caminhou até o quarto, ali começou a revirar um baú, procurando um álbum de fotografias antigas. Entre muitos encontrou o qual procurava, retornou para a poltrona da sala, sentou-se, ajeitou-se, puxou as mangas do paletó, fechou os botões que restavam abertos, as três últimas casas, cruzou os braços sobre o tórax, numa atitude para aquecer-se, punhos serrados guardados debaixo das axilas, na mão direita o pequeno álbum de fotografias junto ao corpo, sobre os sobressalentes arcos das costelas. Cruzou as pernas na altura da tíbia, nos pés as velhas sandálias em couro e meias grossas na cor cinza, a do pé direito tinha um furo na ponta, sobre o hálux. Permaneceu nesta posição por alguns minutos. Tinha um olhar parado no nada, observava os pequenos filamentos de poeira doméstica que estavam suspensos, visíveis através do feixe de luz solar que adentrava pela janela da sala. Levantou-se novamente, caminhou até a cozinha, pegou uma chaleira em alumínio, colocou a medida de um copo de água, esperou até a ebulição e adicionou um envelope de chá de maçã. Apanhou uma xícara, colocou adoçante no fundo, serviu-se, apanhou o álbum que havia repousado sobre a mesa com a mão direita e, na esquerda vinha com a xícara, retornou para sua poltrona na sala. Tentou tomar alguns goles de seu chá, mas este estava quente demais, colocou-o sobre uma mesinha de centro, e então, começou a folhear o pequeno relicário de doces lembranças. Eram fotos de seus três filhos quando pequenos, sua esposa também estava coadjuvando a infância fresca nos retratos, ou seria as crianças a coadjuvar a bela juventude da moça? O fato é que em cada retrato daqueles pequenos cheios de encantos havia também uma adulta, não menos encantadora, de olhos meigos e doces a sorrir para câmera. Na manhã daquele dia, há exatamente um ano atrás, o ancião se viu na obrigação de dizer adeus a sua querida companheira, que expirou repentinamente naquele triste outono.
Moravam apenas os dois há muito tempo. Um de seus filhos, o caçula, havia morrido na infância, vítima de uma moléstia rara que lhe tirou a capacidade de andar de uma manhã para uma tarde e antes que completasse cinco dias de suas quedas ao solo, o menino parou de respirar. Disseram os médicos que havia sido por paralisia de um tal diafragma, um músculo que seria o de maior importância na respiração; disseram também o nome da moléstia que ocasionou este transtorno; o ancião achou o nome cruel, frio, como se com aquele nome a doença ganhasse um corpo, uma história, uma cara e uma natureza humanamente cruel. Ele dizia: “Guillain-Barre! Quem lhe conhece como eu lhe conheci, jamais lhe esquece, jamais é feliz na totalidade como fora um dia”. E com os olhos marejados completava: “Meu pequeno Maiakovski, morreu aos três anos de idade; como se isso fosse idade para alguém morrer!” Desta forma, cheia de emoção, contava o caso a alguém quando o assunto ocorria.
Nos retratos havia também os rostos travessos, sempre juntos, de Franz e Dostoievski. Estes cresceram muito bem criados, tornaram-se cidadãos do mundo, o primeiro até mora no exterior, foi bailarino de uma grande companhia Russa, hoje é coreógrafo e muito respeitado por lá. Já o segundo formou-se em sociologia, foi para a capital paulista, da aula em uma universidade muito grande, a mais conceituada do país. Ambos quiseram que o ancião fosse morar com eles em seus respectivos locais, porém o homem era cheio de personalidade, bateu o pé que sua casa não deixaria e disse na ocasião: _ Oitenta e seis anos não é idade para abandonar seu terrão natal, já é na verdade idade de urso velho procurar sua caverna para última hibernação. Os filhos o repreendiam, mas de nada adiantava, ele tinha mesmo uma personalidade forte, humor ácido, dizem que ficou pior após a morte de seu caçula. Dizem também que nunca mais fora o mesmo no que se refere à alegria.

6 comentários:

  1. Jefh HERMOSISIMO!!!!!!!!! POR FAVOR QUE HERMOSO!
    le gana al caballero de la triste figura de lejos,de lejos,muy bueno...gracias!
    lidia-la escriba

    ResponderExcluir
  2. no me anules la suscripcion es la unica forma de saber cuando publicas algo nuevo,ya que mi blog no anda muy bien,lo ultimo mio tampoco sale, no tiene compostura...
    lidia-la escriba

    ResponderExcluir
  3. Lidia, su comentario me alimento del alma. Gracias!

    ResponderExcluir
  4. na solidão vou vivendo,
    E antigas recordações morrendo,
    Pra prevalecer a felicidade!

    ResponderExcluir
  5. Lindo! Apesar de a solidão não ser bonita, apenas sentida.
    Adorei amigo...
    A solidão do Ancião

    ResponderExcluir
  6. Amei o texto poeta...sobre a fisioterapia foi uma brincadeira para falar de sua beleza atè minha filha de 11 anos sorriu. um abraço desculpa a brincadeira.

    ResponderExcluir

Comente. É isso que o autor espera de você, leitor.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails